fCopyright (c) 2001 by Kathryn A. Seidick Originalmente publicado em 2001 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO com KENSINGTON PUBLISHING CORP.
NY, NY - USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Love to Love Vou Baby
Traduo: Juliana Tejo e Geve
Editora e Publisher: Janice Florido
Editora: Fernanda Cardoso
Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobn e Mnica Maldonado
Paginao: Dany Editora Ltda.
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 2004 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Impresso e acabamento: RR DONNELLEY AMRICA LATINA
Tel.: (55 11) 4166-3500

Kasey Michaels

PERFEITA PARA AMAR

TRADUO Juliana Tejo e Geve
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Captulo I

H uma expresso na Amrica que resume tudo. Essa expresso . "nunca se sabe".
Joaquim Andujar, lanador
Tying, ring!
 - Oh, no...
Ring, ring!
Jack Trehan praguejou novamente e estendeu a mo no escuro, encontrando o telefone na segunda tentativa. Da primeira vez, quase havia derrubado a luminria, j torta,
que sua tia Sadie lhe dera por pura bondade. E tia Sadie no era "nada" boa... e era campe do mau gosto.
com os olhos semicerrados, Jack segurou o aparelho e resmungou:
- No h ningum em casa. Quando ouvir o sinal, pegue um avio e...
- Jack? Jack, querido,  voc?
Jack abriu os olhos de uma vez, como se algum tivesse entrado em seu quarto e jogado gua gelada em sua cabea.
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Ento, mudou o fone de ouvido, ajeitou os travesseiros atrs de si e puxou a corda da luminria de danarina de hula-hula com copa de saia franjada rosa-choque,
inundando o quarto de luz.
- Cecily?
- Ah, voc se lembrou de minha voz, Jack! Isso  to sensvel de sua parte. Mas at a, eu sempre o vi como uma reencarnao de Wyatt Earp; forte, honesto, excessivamente
seguro de si... convencido, at. Por falar em Wyatt Earp, eu adorei aquele filme com Kevin Costner, e...
- Cecily? - Jack falou, quase em tom de prece, tentando interromper a voz estridente da prima. Acabara de ver que horas eram. Fazia mais de um ano que no via e
nem sabia de Cecily, mas certas pessoas... Bem, certas pessoas deixam uma impresso permanente. - Ser que podemos ir direto ao assunto? So duas da manh.
- Mas por que voc est preocupado com a hora, Jack? A hora no importa e voc sabe disso.  s um conceito artificial criado por algum para controlar todas as
outras pessoas... E so duas e quinze aqui em Bayonne. Seu relgio deve estar errado, Jack. Por qu? Voc sempre foi to preciso e...
- Pelo amor de Deus, Cecily, voc est me matando - interrompeu Jack, massageando as tmporas doloridas. - Voc est de volta a Bayonne, certo? O mesmo fuso horrio
artificial que eu. Ento, por que no podemos esperar at de manh? Eu ligo para voc.
- Ah, desculpe, Jack. Eu sei que me empolgo. Eu sou "muito" intensa. Blue Rainbow me diz isso o tempo todo.
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Ele diz que vou to fundo em tudo, que s vezes me perco.  um grande desafio para mim, mas Blue Rainbow jurou me ensinar a canalizar meu fluxo de energia, a encontrar
meu centro crmico. Ele no  um amor?
- . Uma graa.
Jack havia se levantado da cama e estava andando descalo pelo piso de madeira. Blue Rainbow era um homem. com Cecily, sempre havia um homem, mas ele no seria louco
de perguntar quem era, porque com certeza Cecily lhe contaria tudo, nos mnimos detalhes e no pararia de falar pelas duas horas seguintes.
- Cecily... - disse ele, quando ela fez uma pausa para respirar. - H algum motivo para voc ter me ligado no meio da noite, ou est s querendo conversar?
O silncio repentino do outro lado da linha indicou a Jack que havia ofendido a prima. E, quando se ofendia, Cecily sempre chorava. Ele odiava quando isso acontecia
porque Cecily falava, fungava e soluava ao mesmo tempo e ficava praticamente impossvel entend-la.
- Cecily? Eu sinto muito, querida - E sentia mesmo. Da ltima vez que Cecily tivera um ataque de choro, Jack acabara comprando um love de quinhentas aes da Creative
Pyrotechnics, empresa do namorado dela. A empresa terminara, ou explodira, menos de seis meses depois, junto com o namorado, em uma pequena comemorao de Quatro
de Julho, em uma cidade do interior. Jack soubera depois que Cecily enterrara o namorado em uma urna. Uma urna pequena.
- Voc sente muito? Isso  fcil de dizer, Jack - Cecily
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reclamou, num tom choroso. - Voc sabe ser horrvel, quando quer. E... e eu sempre achei que voc go... gostasse de mim, que fosse uma p... uma pessoa legal. Foi
por isso que eu liguei. Porque voc sempre compreende e sempre ajuda. Exatamente como... como o Wyatt Earp.
Jack sentou-se na beirada da cama king-size, respirou fundo e tentou controlar-se.
- Est bem, Cecily, est bem. Agora, acalme-se e me diga o que aconteceu. Eu s quero ajudar, querida, juro.
"Porque da voc vai desligar o telefone e eu poderei voltar a dormir." Mas ele no chegou a dizer isso.
Esperou Cecily se recompor. Ela soluou mais umas duas vezes, assoou o nariz perto do telefone e respirou fundo. Jack podia imaginar exatamente a aparncia dela
quando fazia isso. Parecia bonita. Sempre parecera. Grandes olhos azuis, cabelos loiros e sedosos, um corpo pequeno e cheio de curvas. Tanto por fora e to pouco
por dentro. Ainda assim, ele a amava. Era quase impossvel no gostar de algum como Cecily Morretti.
- Est bem - disse ela finalmente. - Isso  "to" constrangedor. Voc se lembra de que no ano passado eu vivi um tempo naquela comunidade no Oregon? Lendo todos
aqueles livros de auto-ajuda? Tentando me educar? Tentando meditar sob as pirmides de cristal... Alis, aquelas pirmides eram...
- Cecily, concentre-se querida. Voc sabe como.
- Bem, no, Jack - respondeu ela, recomeando a chorar. - Foi exatamente isso. Eu no consegui. De repente, me dei conta de que estava tudo errado. Os livros mandavam
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entrar em contato com nossa criana interior. Mas eu pensei que fosse com a criana que houvesse dentro de ns. Eu estava completamente errada e isso me brecou,
sabe? Quero dizer, o que fazer com a criana interior, quando ela resolve sair?  uma coisa muito difcil, Jack. Muito mesmo.
- Certamente - concordou ele, depressa. Concordaria com qualquer coisa que ela dissesse, desde que ela parasse de soluar. - Criana interior, criana que vive dentro
da gente, que vive fora... Eu entendo que haja uma diferena, mas como posso ajud-la, Cecily? Eu farei o que for possvel para ajudar, juro.
Ela estava chorando de novo. Provavelmente, lgrimas de alegria. Mas mesmo as lgrimas de alegria vinham com soluos.
- Ah, obrigada, Jack. Eu sabia que voc entenderia e que me ajudaria. Voc sempre foi muito gentil. Blue Rainbow insiste em que eu parta com ele amanh e Joey no
me ajudou em nada. Nem sei por que vim a Bayonne em busca da ajuda dele, Jack. Meu irmo no vale nada!
- Ele continua tentando entrar para a Mfia local? - perguntou Jack. Mas Cecily estava quase em transe e no respondeu. Ela simplesmente continuou falando, as palavras
se enrolando umas nas outras,  medida que sua mente parecia funcionar a todo vapor, e isso sempre significava perigo.
- E como algum pode encontrar seu centro crmico em Bayonne? Francamente, Jack... New Jersey? Eu estava desesperada, mas se voc vai me ajudar... Ainda h tempo,
desde que Blue Rainbow encontre as chaves de nosso carro alugado.
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Ela fez uma pequena pausa, para continuar no mesmo ritmo:
- Ah, espere... Aqui esto elas, em meu bolso. No  o "ltimo" lugar em que algum olharia?! Mas  maravilhoso. Conseguiremos chegar l, voltaremos a New Jersey
a tempo e estaremos em nosso vo matinal para Newark... Voc ainda se levanta muito cedo, no ? Provavelmente sim. Ah, eu nem sei como agradecer-lhe, Jack. Nem
sei.
- Ento, nem tente - Jack aparteou, convencido.
No sabia o que havia dito, mas obviamente dera as respostas certas. No que fosse abusar da sorte e fazer alguma coisa tola como perguntar para onde diabos ela
e Blue Rainbow iam. Aquela mulher no fazia o menor sentido. Ainda assim, se Jack perguntasse, ela provavelmente diria que estava prestes a pegar um balo para Jpiter
e ele realmente no estava interessado.
- Por que voc no me telefona quando voltar?
- Pode levar meses. Anos... - Cecily explicou, mas sua voz estava novamente animada, o que significava que estava falando novamente como Betty Boop depois de inalar
gs hlio. - Mas est tudo bem para voc? Voc tem "certeza" de que quer fazer isso?
Fazer o qu? com o que ele acabara de concordar? Ser que efetivamente concordara em fazer "alguma coisa"? No fazia a menor idia do que ela estava falando. Ainda
assim, a ignorncia era uma bno, e com Cecily, muitas vezes a ignorncia era necessria para preservar a sanidade.
- Querida, se isso a faz feliz, eu concordo com... o que for - disse Jack, desabando nos travesseiros, mais que disposto a voltar a dormir.
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Sonolento, mirou o telefone sobre o caixote que vinha usando como mesa-de-cabeceira e disse, num bocejo:
 - Fico feliz em ter podido ajudar.
Keely McBride rolou na cama, socou o travesseiro e gemeu mais uma vez, numa mistura de agonia mental e frustrao. No conseguia dormir. Talvez nunca mais dormisse
novamente.
Como as pessoas com insnia conseguiam viver? Por que simplesmente no se matavam e acabavam com tudo de uma vez? O que as pessoas faziam a noite "inteira" quando
no conseguiam dormir? Contavam carneirinhos? Ridculo. At porque, no funcionava. Keely sabia muito bem, porque j havia tentado.
A televiso porttil no quarto tambm no ajudara, apesar de Keely ter ficado assistindo  programao at as duas da manh, sem encontrar nada interessante. Ainda
assim, nem um pingo de sono.
Alis, se ficasse mais acordada que aquilo, poderia parar de perder tempo e limpar os vidros, descongelar a geladeira ou fazer algo til.
Estava nervosa e assustada demais para dormir. Dera um nico tiro, apenas um, que chegaria com uma tal de Sadie Trehan ao nascer do prximo dia. Como poderia dormir?
Finalmente, Keely desistiu de fazer o que tentara h cerca de seis horas atrs, quando se deitara. Atirou as cobertas para o lado e foi tomar um banho.
E no havia risco de o barulho do chuveiro acordar mais algum na casa, porque no havia ningum. Estava sozinha.
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Totalmente. A tia Mary no tinha ningum em casa, alm de um gato rajado e um cachorro de estimao, nervoso, para fazer companhia  sobrinha enquanto a tia passava
a lua-de-mel na Grcia. Como no havia muito o que Keely pudesse fazer com um cachorro sonolento e um gato preguioso, comprara um hamster. Ele adorava brincar naquela
rodinha que havia na gaiola, e ela rangia quando girava... Qualquer coisa para quebrar o silncio, qualquer coisa com a qual pudesse falar, reclamar, xingar.
Para quem no sabe, Keely estava em Allentown, de volta a Allentown, porque seu querido escritrio de design de interiores em Manhattan havia naufragado apenas quinze
meses depois de ter aberto as portas.
Keely detestava fracassar, especialmente depois de ouvir seu adorado e nico amor declarar, cheio de si, que "ela nunca conseguiria sem ele". Keely abandonara sua
cama, seu emprego e decidira enfrentar as estatsticas que proclamavam que setenta por cento dos negcios faliam nos primeiros dois anos.
O fato de ela prpria ser uma estatstica fazia com que odiasse estatsticas. Quase tanto quanto detestava Gregory Fontaine... O que no era bem verdade, porque
para detestar uma pessoa era preciso ter gostado dela em algum momento. E ela sabia que no havia "nada" para se gostar em Gregory Fontaine.
Ele era bonito, claro. E bem-sucedido. E a contratara recm-sada da faculdade, com a tinta do diploma ainda fresca e tendo tia Mary como nica referncia profissional.
Qualquer pessoa, com um mnimo de inteligncia, saberia que
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uma tia daria sempre uma excelente recomendao, mesmo que Keely fosse a pior designer de interiores.
Ah, sim, Gregory Fontaine. Ele era suave, corts, freqentava os restaurantes certos, conhecia as pessoas certas e era capaz de citar trechos inteiros de todas as
peas de Neil Simon. Ele tambm roa as unhas dos ps. Ela gostava de se lembrar desse detalhe. Sentia-se envolver por uma agradvel sensao de vingana.
Keely ergueu a cabea sob o jato do chuveiro at seus cabelos escuros ficarem praticamente negros. Ento, aplicou uma generosa camada de xampu e fez muita espuma,
tentando livrar-se dos maus pensamentos.
No funcionou. Nunca funcionava. Nunca se sentia mais acordada, mais viva ou mais disposta s porque lavava os cabelos. E certamente nunca atingira o orgasmo por
usar uma nova marca de xampu natural.
Havia muitas coisas na vida nas quais no acreditava. Usar desodorizadores de ambiente nunca transformara sua sala em um jardim. O creme dental nunca a deixara com
um sorriso ofuscante, como se seus dentes fossem diamantes. Nunca um gnio sara do frasco de limpador multiuso e limpara sua cozinha num passe de mgica. E quanto
a sua vida sexual? Bem, nunca mais havia tido ningum, desde que Gregory Fontaine sara de sua vida cerca de um ano e meio atrs.
Sua vida estava em uma longa fase de espiral descendente. Negcios, falidos. Apartamento em Manhattan, perdido. Futuro, nulo. Vida amorosa, bem, nunca havia sido
uma maravilha, mas tambm estava acabada. Bem acabada.
E ali estava ela de volta a Allentown, de volta a suas razes, de volta ao mesmo quarto na casa da tia Mary, onde
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dormira na adolescncia, sonhando em conquistar o mundo. Se no fosse pela tia Mary, provavelmente estaria nas ruas, ou vendendo mveis em alguma loja de departamento
de shopping center, ganhando nove dlares por hora e uma folga aos sbados, de trs em trs semanas.
- Ento, tudo bem - disse Keely a si mesma. - Talvez eu tenha um pouco de sorte. Tia Mary est na Grcia, gastando e namorando at o final de agosto, e eu estou
administrando a loja. vou ficar com cinqenta por cento de todas as comisses. Isso no  to mau. Certamente que no  o paraso, mas nem tudo est perdido. Portanto,
nimo, McBride. Escove os dentes de diamante, decida o que vai vestir e esteja pronta para encantar seu novo cliente em... - Ela voltou para o quarto, enrolada em
uma toalha. - ...precisamente sete horas. Oh, Deus, o que vou fazer pelas prximas sete horas?
s seis e meia, Jack j estava em p, de banho tomado, barbeado, vestido e a caminho da cozinha para sua primeira xcara de caf. Era junho, o sol estava brilhando,
o dia j estava quente e devia estar ainda mais quente na Califrnia, onde ele se prepararia para o jogo daquela noite entre os Athletics e os Yankees.
Em vez disso, estava ali, em Whitehall, um lugarzinho nas vizinhanas de Allentown, sem nada para fazer e sem nenhum lugar para ir... e com muito poucas opes para
se sentar, considerando que sua moblia se resumia a um colcho, um par de luminrias, um televisor de tela plana e uma cadeira encaroada.
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Ele havia aprendido a usar a cafeteira que sua tia Sadie lhe emprestara. Afinal, Jack Trehan era capaz de fazer qualquer coisa que Joe DiMaggio fizesse, e seu caf
da manh estava quente e a sua espera. Ele se encostou no balco da cozinha e olhou em volta do lugar. Grande. Moderno. Vazio.
A casa inteira estava vazia e cheirava a nova, o que, de certa forma, era. Havia eco por causa do piso de madeira e do p-direito altssimo. O sol banhava tudo,
atravs das janelas imensas que iam do cho ao teto.
No havia nenhuma privacidade, muito pouco conforto e Jack ainda estava arrependido de ter permitido que seu agente, Mortimer "Mais e Mais" Moore, o tivesse convencido
a comprar aquela manso ridcula. Na ocasio, Mortimer dissera que seria um excelente negcio para reduzir os impostos.
Bem, talvez...
Na verdade, a casa j tinha um ano, apesar de continuar vazia. Jack imaginara que o lugar ficaria vazio at que ele se aposentasse do beisebol. Ironicamente, depois
de apenas um ano, ele fora obrigado a abandonar o esporte.
Fora uma mudana drstica, e agora Jack era obrigado a olhar para a casa como uma espcie de castigo que tinha que agentar. Estava de volta ao lar,  Pensilvnia,
a Lehigh Valley, que decadncia!
Devia ter ficado em Manhattan, onde era dono de seu prprio apartamento, no quadragsimo stimo andar do endereo mais elegante da cidade. Poderia ter ficado, a
no ser pelo fato de que sua permanncia em Manhattan o lembraria de que queria estar no Bronx, em campo, treinando seu lanamento de bola curva.
Assim, ele fechara o apartamento e voltara para casa, para
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a casa que Mort o convencera a comprar, voltara at mesmo para sua tia Sadie, que vivia logo acima da garagem para quatro carros... cinco cmodos aconchegantes que
ela chamava, brincando, de "a parte da viva".
Tia Sadie tinha mveis. Tinha vasilhas e panelas e tinha mais de duas toalhas.
Ela tambm tinha um quarto de hspedes, mas Jack preferiria dormir num banco de praa do que no quarto de hspedes de Sadie Trehan, mobiliado num estilo brega e
antiquado. A luminria havaiana de danarina de hula-hula, com copa de saia franjada era uma das coisas mais "normais" do ambiente.
- Est bem, est bem - disse Jack, afastando-se do balco. - Hoje, meu velho,  o primeiro dia do resto de sua vida, seja l o que isso signifique... De forma que
 melhor voc comear a agir.
Agir significava encontrar o decorador que Sadie contratara e torcer para que ele no fosse um seguidor do estilo de Sadie. Agir significava pensar no que faria
para ocupar seus dias, suas noites, semanas e anos, agora que perdera o beisebol, seu primeiro e nico amor.
Agir, j que estava se sentindo to mal e que s seria capaz de dar pequenos passos de cada vez, significava ir at a porta da frente e torcer para que Sadie tivesse
mantido sua palavra e encomendado a entrega do jornal para ele.
Os Yankees estavam excursionando pela Costa Oeste e Jack sabia que as estatsticas do jogo da noite anterior provavelmente ainda no haviam sado no jornal. Assim,
pegou o controle remoto e, do balco que separava a cozinha da sala de estar, mirou a televiso. Nada como as notcias matinais
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do canal de esportes para faz-lo perceber o que havia perdido e ter vontade de gritar de desespero.
Uma corrida de carros. Nada de resultados, nem de estatsticas. Jack desligou a televiso, desapontado.
- As coisas esto ficando cada vez melhores - grunhiu ele, caminhando mais uma vez para a porta da frente.
O telefone tocou no bar, detendo-o, lembrando-o do telefonema de Cecily no meio da noite. Daquela vez, seria mais esperto. Daquela vez, consultaria o identificador
de chamadas antes de atender.
- Mort. - Jack ergueu os olhos para o teto, tentando resolver se deveria ou no atender. Da ltima vez que Mort ligara tentou convenc-lo a fazer um comercial de
anti-sptico bucal para um canal de tev japonesa. Segundo Mort, Jack tinha que agir logo, enquanto ainda estava na mdia, antes que se tornasse "notcia do passado".
Mort era um amigo. Algum que estava sempre a seu lado.
Certo. Ele merecia ser atendido.
- bom dia, Mort - disse Jack, atendendo o telefone e caminhando novamente para a porta. - O que vai ser hoje? Pomada para hemorridas para a Holanda? Algum remdio
para disfuno ertil... Ah, eu no faria um desses para ningum!
A voz trovejante de Mort obrigou Jack a afastar o fone do ouvido.
- Boa, Jack! Muito boa! Voc sabe que pode ganhar muito dinheiro com quase qualquer coisa, se fizer a coisa certa. De qualquer modo, fico feliz em perceber que voc
recuperou um pouco de seu velho nimo.
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- Isso  um elogio, Mort? - perguntou Jack, preocupado. Afinal, Mort Moore tinha a sensibilidade de um tubaro.
- O que voc quer?
-Eu? Querendo alguma coisa? Ora, ora, Jack. Voc sabe que eu s quero o melhor para voc. S queria que soubesse que eu recusei aquele comercial de anti-sptico
bucal. Voc tinha razo. No era mesmo seu estilo.
- Sei - disse Jack, com a mo na maaneta da porta.
- E "qual"  meu estilo?
- Corvettes - disse Mort, e Jack quase visualizou o sorriso maldoso no rosto do agente. - Dois dias de filmagem no Arizona... ao ar livre. Voc, o carro, uma bela
garota no assento ao lado. Algo sobre o melhor do beisebol no melhor carro.  fraco, eu sei, mas eles esto trabalhando no texto. E voc pode ficar com o carro,
Jack. E ento? O que acha?
Jack tirou a mo da maaneta e coou o queixo.
- Um Corvette?  infinitamente melhor que um antissptico bucal, Mort. Est bem, mas deixe-me pensar sobre isso. Ainda no sei se  certo entrar direto na publicidade.
Tudo bem em colocar meu nome em uma luva, mas no sei se  honesto comear a usar meu nome e meu rosto fora do mundo dos esportes.
- Malhe enquanto o ferro est quente, Jack - lembrou Mort. - Nem todo ex-Yankee tem um Mr. Coffee em seu futuro. Agora, escute: eu irei para o sul pela manh. Preciso
dar uma olhada nesse rapaz da Flrida, que est pensando em entrar mais cedo na Liga Nacional de Futebol.  um grande garoto. Acerta a linha como uma tonelada de
tijolos,
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acaba com a defesa, mas no d nenhum passo sem que a me esteja junto. Por isso, vou at l bajular a me e analisar o garoto. Afinal, eu no gostaria que ningum
tirasse vantagem dele, entende?
- Voc  mesmo um prncipe, Mort - Jack ironizou, meneando a cabea. - Sua porcentagem do contrato do garoto no significa nada, certo?!
- E no se esquea do bnus sobre a assinatura do contrato - lembrou o agente, rindo. - Por enquanto  isso, Jack. Entrarei em contato com voc em alguns dias, ou
antes se souber alguma coisa da agncia de publicidade. No se meta em encrencas enquanto eu estiver fora, hein?
- Encrencas? Quando eu me meti em... Ah, esquea - murmurou Jack, desligando o telefone. - Encrencas... - repetiu, avanando mais uma vez para a maaneta. - Mort
est pensando no Trehan errado. Eu no sou Tim. Sou Jack, o gmeo bonzinho. - Ele girou a maaneta, abriu a porta da frente e se inclinou para pegar o jornal. -
Eu nunca me meto em encrencas. S me machuquei e tive que me aposentar aos vinte e oito anos, com uma casa vazia e um agente que insiste em dizer que em pouco tempo
eu serei passado... Mas, o que  isso?!
Jack baixou os olhos para a grande cesta de vime, colocada no primeiro dos trs degraus que levavam  porta da frente. Ento, olhou para os brinquedos e as roupas
que ali estavam e para o assento de plstico ou o que quer que fosse que havia sido colocado no meio da cesta. Finalmente, olhou para a "coisa" dentro do assento
de plstico.
No. No podia ser. Estava tendo alucinaes.
Jack fechou os olhos e abriu-os novamente. Olhou mais uma
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vez. A coisa no assento olhou-o, sorriu, expondo gengivas rosadas e um dentinho minsculo, e jogou a manta a seus ps.
Oh, Deus!
Seu primeiro instinto foi de voltar correndo para a casa e bater a porta. Mas no adiantaria.
Jack pensou por um momento nos vizinhos, mas a casa fora construda em um terreno de trs acres, e o vizinho mais prximo estava a, pelo menos, duas quadras de distncia,
de forma que havia pouca chance de algum v-lo ali, do lado de fora, olhando para um beb em uma cesta.
Um beb em uma cesta?!
Beb de quem?
Dele?
Jack bateu repetidamente nos prprios braos e olhou para os lados, tentando parecer impassvel.
"Seu" beb? Aquilo era possvel? Ele nunca havia sido um playboy, nunca dormira com as legies de mulheres que praticamente se atiravam nos braos de todos os jogadores
das ligas principais.
Mas tambm nunca fora um celibatrio.
"Seu" beb?
Era possvel. Tudo era possvel, certo? Oh, Deus!
Ele jogou o jornal atrs de si, na varanda, engoliu em seco e bateu os ps algumas vezes no degrau de cima.
OhDeus!
- Relaxe, relaxe - disse a si mesmo. - Fique calmo, Trehan. Esse beb pode ser de qualquer pessoa. No precisa ser "seu" beb. Mas, s por garantia, desa os degraus,
pegue a criana e entre antes que algum o veja.
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Parecia uma boa idia. O problema era que os ps de Jack no estavam obedecendo, de forma que ele continuava no degrau de cima e o beb continuava ali, ao relento,
"sorrindo" para ele.
- Sadie. - Jack decidiu. Era isso. Ligaria para Sadie. Sua tia saberia o que fazer. - No, no. Sadie, no - corrigiu, rapidamente, imaginando a tia e o que ela
diria. - No at eu saber o que diabos est havendo.
com isso em mente, Jack desceu os degraus e pegou a cesta. O beb estendeu os dois bracinhos e tentou segur-lo pelo nariz, quando Jack ergueu a pesada cesta e levou-a
para dentro da casa.
Depois de fechar a porta com o p, ele parou no meio do imponente hall, olhando para a sala de visitas vazia. Onde colocaria a cesta? Como se aquilo importasse.
O problema era o que havia "dentro" da cesta.
Jack caminhou com a cesta pela casa, passou pela cozinha e finalmente colocou-a no cho de ladrilhos, inclinando-se junto porque o beb, com as mozinhas rosadas,
conseguira segur-lo pela bochecha. Foi um trabalho e tanto tir-las dali, uma a uma. com uma pegada daquelas, era provvel que o beb conseguisse vergar at ferro.
Aturdido, Jack avistou um envelope branco, colocado estrategicamente na lateral da cesta.
Ah, o inevitvel bilhete deixado junto com o beb, na cesta. O bilhete explicaria tudo, exatamente como nos filmes.
- Eu detesto quando isso acontece - resmungou ele, ligeiramente histrico, enquanto abria o envelope.
As primeiras palavras no envelope foram os trs primeiros golpes mortais: "Ao querido Jack". Ele reconheceu a
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letra na mesma hora. S a prima Cecily fazia coraezinhos nos pingos dos "is" e cortava os "ts" com pequenas flechas. O bilhete era curto e pouco esclarecedor,
j que Cecily escrevia exatamente como falava, dando voltas e ao sabor do vento.
Querido Jack,
Muito obrigada, mesmo, por ter concordado em ficar com a pequena Magenta Moon para mim. Voc sempre foi to querido, ao contrrio de Joey, que  um idiota. Ela tem
cerca de seis meses, eu acho, mas ainda no tomou as vacinas porque eu no consegui lev-la... Blue Rainbow disse que voc provavelmente sabe disso. Ele tambm disse
que esta carta precisa dizer que eu lhe dou todos os direitos para cuidar dela. Assim, voc tem todos os direitos, est bem? Tambm h uns papis com cara de oficiais
dentro da sacola de fraldas, para o caso de voc precisar. Certa vez, Blue Rainbow pensou em ser advogado, mas no deu certo. Foi alguma coisa com os antecedentes
dele, ou algo parecido. Ah, ela provavelmente vai ter fome logo. H algumas mamadeiras para ela em uma das sacolas. Bem, agora eu preciso correr. Imagine s, Jack?!
Katmandu!
Beijos,
Cecily (Moon Flower) Morretti
- No pode ser... - Jack sentou-se no cho, ainda com a carta na mo e baixou os olhos para Magenta Moon. " A
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criana interior, a criana que h por dentro." Agora, tudo fazia sentido. Tarde demais, mas fazia sentido, considerando-se que se tratava de Cecily.
- Voc nunca consegue fazer nada direito, no , Cecily? - perguntou ele, ao mesmo tempo que Magenta Moon comeava a chorar. Desesperado, Jack cobriu o rosto com
as mos.
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Captulo II

Quando voc chegara uma bifurcao na estrada, pegue-a.
Yogi Berra
No so nem oito e meia. Droga. Keely tentou matar o tempo, enquanto dirigia pela estrada estreita que levava para o alto, em uma rea de Whitehall antes conhecida
como Egito. Na verdade, ainda era conhecida como Egito pelos nativos, da mesma forma que outras partes da cidade eram conhecidas como Stiles, Cementon, West Catasauqua,
Mickleys e Fullerton.
Eram nomes demais para uma nica cidade e as mudanas, feitas principalmente por solicitao do correio, haviam sido concludas com seis "avenidas Principais", todas
em reas diferentes de Whitehall.
Keely estava dirigindo pelo trecho Egito da avenida Principal, ou pelo menos achava que estava, at que as placas de sinalizao mudaram misteriosamente para avenida
Principal, depois para Velha Avenida Principal e depois as placas
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simplesmente sumiram. Era fcil uma pessoa se perder tentando encontrar a quase-manso de Sadie Trehan.
Fora por esse motivo que Keely acabara se atrasando no dia anterior e era pelo mesmo motivo que estava adiantada naquele dia: havia se lembrado do caminho. Estava
em parte orgulhosa de si e em parte imaginando se era melhor estar meia hora atrasada ou meia hora adiantada.
Tinha duas opes: parar na loja de rosquinhas na esquina seguinte e aparecer para a reunio com acar e gelia de morango na blusa ou virar  direita na mesma
esquina e subir a colina para a casa de Sadie Trehan. Nesse caso, chegaria l antes do horrio combinado, para as nove da manh.
As rosquinhas perderam, e Keely virou  direita, guiando com cuidado o Mercedes preto clssico da tia Mary. Como tudo o que Keely j guiara havia sido seu antigo
Mustang e, mais recentemente, os metrs de Nova York, passava o tempo todo lutando com a sensao de estar pilotando um imenso barco.
- Mas um barco que causa uma impresso e tanto nos clientes - lembrou Keely em voz alta, ao mesmo tempo que virava  esquerda e pegava uma estrada ngreme, ladeada
de rvores, que terminava na frente da casa de Sadie Trehan. - Claro que nem tanto quanto um decorador de interiores que fala sozinho em voz alta. Assim, cale a
boca, Keely, e preste ateno na estrada.
Animada, Keely estacionou o belo carro na frente de uma imensa casa de tijolos aparentes, tirou a chave do contato e saiu para examin-la, tentando descobrir se
o objetivo da construo fora aparentar modernidade por meio de um estilo
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antigo, ou parecer antiga, lanando mo da esttica moderna.
As janelas eram imensas, incluindo uma gigantesca janela oval que deixava transparecer um saguo de dois pavimentos, com um lustre de cristal quase do tamanho do
Mercedes, visvel atravs do vidro. Havia pelo menos cinco telhados separados, unindo-se aqui e acol, lembrando o teto das catedrais, provavelmente com diversas
clarabias. A porta da frente era marrom, e as ferragens eram de cobre.
Segundo Sadie Trehan, a casa tinha mais de mil metros quadrados de rea construda, divididos em dois pisos e quinze cmodos, todos completamente vazios, prontos
para serem decorados.
Tinha muito dinheiro ali. Muito dinheiro. E cinqenta por cento de dez por centro de muito dinheiro era... muito dinheiro.
No que Keely no se sentisse atrada pela casa. No que no estivesse louca para entrar, falar com Sadie Trehan e descobrir o que a proprietria tinha em mente
com relao a cores, mveis, tapetes e cortinas. O decorador que vivia dentro de Keely estava animado com a perspectiva de ter sua criatividade desafiada.
Muito, muito, muito dinheiro. Adeus conta dos cartes de crdito, adeus impostos atrasados, adeus contas a pagar... Dinheiro, dinheiro, dinheiro.
- Pare com isso - ralhou Keely, enquanto subia os trs degraus baixos diante da agradvel entrada da frente. - Concentre-se no trabalho. Vasos com topirias ficariam
timos dos dois lados da porta. E talvez uns gernios para dar
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cor. E um capacho. Por Deus, aquela mulher no tinha nem um "capacho"? Quanto ser que valia cinqenta por cento de dez por cento de um capacho nos dias de hoje?
Keely tocou a campainha, recuou um passo, empertigou os ombros e passou as mos pelo elegante terninho azul-marinho. A roupa tinha trs anos, mas ela ficava bem
nele. Parecia profissional, e se tivesse que concordar em pendurar estrelinhas fosforescentes no lustre para alegrar Sadie Trehan, era o que faria, porque no havia
a menor possibilidade de abrir mo daquele trabalho.
Naquele momento, a porta da frente se abriu e uma cabea masculina apareceu. Era um homem de cabelos escuros, com uma mecha um pouco mais clara acima da tmpora
esquerda. Os cabelos eram espessos e ligeiramente cacheados. Os olhos eram de um belo tom de azul-cobalto. O nariz era reto e as faces, bronzeadas. E ele estava
de boca aberta.
- O que voc quer?
Era mais que uma pergunta. Parecia uma acusao, e o homem, apesar de belssimo, no parecia muito equilibrado.
Incapaz de se conter, Keely recuou mais um passo, com as mos no peito.
- Eu? O que eu quero? Bem... acho que nada. Eu pensei que Sadie Trehan morasse aqui. Devo ter me enganado. - Ela gesticulou para ele. - Por favor, volte a fazer
o que estava fazendo. Eu vou indo. Desculpe.
Keely se virou em direo do Mercedes, imaginando se acabara de escapar de um assassino serial ou apenas de um homem que, definitivamente, no gostava de manhs.
- Espere!
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Keely parou. Sempre havia sido obediente. Provavelmente um efeito colateral dos trs anos passados nos Escoteiros. A tia Mary sempre havia dito que aquilo fora um
erro e que perdera uma pequena fortuna comprando os biscoitos que Keely vendia.
Ela se virou lentamente e viu que o homem havia avanado para a varanda. No era mais apenas uma cabea com expresso irritada. Era uma cabea irritada com um corpo
alto e esguio preso a ela. E ele estava molhado, ou pelo menos seu ombro esquerdo e a frente da camisa estavam. E ele cheirava mal. Cheirava muito mal.
- Eu... eu realmente preciso ir - disse Keely, recuando para o carro. - Tenho uma reunio e vou me atrasar.
Agora, o homem estava na base dos degraus, caminhando para ela, com um dedo apontado para o rosto de Keely.
- Eu sei quem voc . Voc  a decoradora, certo? Sadie contratou-a.
- Voc... - Keely pigarreou. Torcera tanto para ter anotado o endereo errado. - Voc conhece a sra. Trehan?
O homem assentiu e disse:
- Ela  minha tia e contratou voc para me arrumar uns mveis. Mas eu pensei que voc fosse homem.
-  mesmo? - comentou Keely, lembrando a si mesma que era uma mulher de fibra, que no se assustava facilmente. Se aquele homem queria conversar, ela conversaria.
- Por que um homem? Voc acha que s um homem  capaz de decorar a casa de outro? Voc sempre tira concluses apressadas?
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O rosto harmnico e bronzeado do homem curvou-se num sorriso que fez surgirem covinhas em suas faces.
Eu? Tirar concluses? Um minuto atrs, moa, eu
aposto que voc estava achando que eu ia arrast-la l para dentro e praticar meu curso intensivo de anatomia em voc.
Aquela conversa, se  que aquilo podia ser definido assim, estava ficando mais esquisita a cada minuto.
-- Voc  mdico?
- Ah, outra concluso. No, no sou. E por mais que goste de adivinhaes, no tenho tempo para ficar aqui enquanto voc tenta descobrir de onde me conhece. Meu
ego j est bastante abalado.
Keely suspirou, tentando digerir o que ele havia dito.
- Seu ego? Por qu? Eu deveria reconhec-lo ou algo assim?
- Ou algo assim - ele passou a mo pelos cabelos e fez uma careta para uma coisa branca e pegajosa que tirou deles. - Deixe para l. Para seu governo, Sadie Trehan
 minha tia e mora em cima das garagens, l no fundo. Eu sou Jack Trehan, o dono da casa. Esse nome ainda no lhe lembra nada? Mort tem razo, as pessoas esquecem
rpido. Que manh eu estou tendo! Que tal fazermos isso outra hora? Eu... eu estou meio ocupado neste momento.
- Pintando o teto? - perguntou Keely. - O que  esse p todo em voc?
Jack Trehan esfregou a mo na cala caqui.
- Acredite: voc no ia querer saber. Mas, como eu disse, faamos isso outra hora. Talvez daqui a um ms ou dois. Que tal?
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- Um ms ou... no! - Keely respirou fundo, tentando acalmar-se. Se aquele homem era o dono da casa, ento "ele" era o cliente. Seu nico cliente. Mobiliar um lugar
como aquele daria a ela dinheiro suficiente para sair de Dodge e estava mais do que determinada a sair de Dodge e voltar para Manhattan. - Certamente o senhor no
quer viver mais um ms aqui sem mveis, no , sr. Trehan? Sua tia me disse que a casa est vazia. Quero dizer, o senhor est "mesmo" vivendo em uma casa vazia?
Jack Trehan fez uma careta.
- No est to vazia quanto estava h cerca de uma hora. - disse ele, meneando a cabea. Ento, olhou-a fixamente e perguntou: - Voc quer mesmo este trabalho?
Keely ergueu os olhos para o alto por um momento e ento engoliu em seco.
- Sim, sr. Trehan. Eu quero "mesmo" este trabalho. Jack olhou-a por longos momentos.
- O que voc sabe sobre bebs?
Bebs? Keely quase engoliu a lngua. Seus clientes j haviam lhe feito muitas perguntas. Sua experincia profissional, onde se formara, nomes de outros clientes
como referncias... at se ela se oporia a incluir pequenas cmaras ocultas no quarto de um corretor da bolsa. Keely recusara este ltimo trabalho e depois se recriminara
por seu excesso de tica, considerando que, na ocasio, estava com o aluguel atrasado havia dois meses.
Mas nunca, nunca, haviam lhe perguntado o que ela sabia sobre bebs.
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. Bebs? - repetiu ela depois de um momento. -
Como assim?
Sim, srta. McBride - disse Jack, olhando por sobre o ombro para a porta aberta. - Bebs. O que sabe sobre eles?
Keely umedeceu os lbios.
- Bem, eles vem em dois sexos, azul e rosa...
- Est bem, esquea. - Jack fez um gesto impaciente. Volte em um ms ou dois, srta. McBride, ou nunca mais.
- Espere!
Era evidente que Jack Trehan no tivera a noo de obedincia incutida pelos escoteiros ou por qualquer outra autoridade, porque ele no esperou. Simplesmente continuou
andando em direo  casa.
Keely pegou a maaneta segundos antes de a porta se fechar e entrou com ele.
- Por que voc quer saber o que eu sei sobre bebs? Se eu dissesse que sabia, faria alguma diferena?
Ela parou de falar quando Jack girou nos calcanhares e segurou-a pelos braos, imobilizando-a no lugar. Keely queria olhar em volta para ter uma idia da vasta amplido,
mas tinha a sensao de que no era uma boa hora para pensar em sedas e veludos.
- Voc est me machucando - ela avisou. Jack soltou-a.
- Desculpe.  que eu no queria que voc... bem, no importa. Podemos conversar aqui.
- Aqui  o hall de entrada - disse Keely, erguendo os olhos para o lustre. - Belo lustre.  uma pena que no d Para sentar nele. Onde costuma sentar-se, sr. Trehan?
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- A resposta a isso parece bvia, srta. McBride - disse Jack, com um sorriso que subitamente o fez parecer mais com um menino e menos assustador. - Agora, responda
 pergunta, por favor. O que voc sabe sobre bebs?
Keely ficou com a sbita impresso de que sua resposta determinaria se faria aquele trabalho e ganharia o dinheiro, ou se teria que ficar em seu trabalho medocre,
estalando os dedos e esperando que alguma madame, com mais dinheiro que bom gosto, aparecesse, pedindo a ela para arrumar um pufe de cetim cor de pssego para seu
cachorrinho de estimao.
- Sei o suficiente - respondeu ela, finalmente. - Ganhei uma medalha dos Escoteiros por Cuidados Infantis - Na verdade, havia ganhado apenas duas medalhas, uma por
natao e outra por ter feito uma cesta idiota com palitos de sorvete. Mas Jack Trehan no precisava saber disso. - Por qu?
Antes que ele pudesse responder, os dois se viraram ao ouvirem um gemido alto vindo de algum ponto no interior da casa.
- Droga! - explodiu Jack, correndo em direo ao som. Keely o seguiu, com os olhos brilhando  medida que olhava para os cmodos imensos e vazios de um lado e de
outro. Chegou at mesmo a parar quando viu a rea oficialmente destinada  sala de jantar, maravilhando-se com os pilares brancos, o p-direito altssimo e a parede
inteira de janelas pelas quais se avistavam os jardins da propriedade. As perspectivas para um espao como aquele eram infinitas! Outro gemido devolveu-a  realidade
e ela seguiu, entrando
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na imensa cozinha em tempo de ver Jack Trehan ajoelhado, diante de uma grande cesta de vime, dizendo:
- Ora, vamos l. No chore, MM, por favor, no chore. Em silncio, Keely aproximou-se e espiou por sobre o ombro de Jack para ver a criana corada e profundamente
infeliz, enfiada em um assento dentro da cesta. Agora ela sabia por que a camisa dele estava mida e ele cheirava to mal. O beb estava igualmente molhado e cheirava
duas vezes pior.
- Quando a gente acha que j viu tudo... - disse ela, meneando a cabea. -  sua?
Jack virou-se e ergueu os olhos azuis para ela, em uma atitude ameaadora.
- No. No  minha. E pare de rir porque no tem a menor graa.
- Tem, sim - contradisse Keely. - Quero dizer,  engraado, acredite. Ela tem uns pulmes fortes, no ? Estou imaginando que seja uma menina por causa do cobertor
corde-rosa. Onde est a me dela?
- Infelizmente, fora de alcance - resmungou Jack, tentando enfiar uma chupeta na boquinha rosada e escancarada. - Droga! Eu j a peguei no colo, j a alimentei.
Qual  o problema?
Keely no tinha uma grande experincia com crianas. Era filha nica, ficara rf cedo e fora criada por sua tia Mary, que s se casara duas semanas atrs, aos cinqenta
e sete anos. Keely havia feito bicos como baby-sitter, uma ou duas vezes, h alguns anos, mas nunca para um beb.
- Talvez ela esteja molhada. - disse, num esforo.
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- ... Bem, eu procurei um babador ou algo assim, mas no achei, e ela fica tentando comer as toalhas de papel.
- No esse tipo de "molhada". Estou vendo que o vestidinho dela est mido... - Perguntou-se: por que algum vestiria um beb de roxo-escuro? - Eu quis dizer, a
"outra" ponta.
- A outra... ah! - Sem soltar a chupeta, Jack sentou-se nos calcanhares, pronto para fazer uma pausa ou para bater em retirada. - Ah, isso no  timo? - ele ergueu
os olhos para Keely. - O quanto voc quer esse trabalho, srta. McBride?
Keely j estava com a impresso de que aquela pergunta viria e j sabia exatamente o que responder.
- Deixe-me ver se eu entendi: o senhor est dizendo que vai me julgar por minhas capacidades de bab e no por meu currculo?
A expresso divertida dele tornava uma resposta desnecessria, mas, mesmo assim, Jack disse:
- Precisamente. - com isso, ele se levantou e se afastou da cesta. - Esta  minha priminha, Magenta Moon... Eu a chamo de MM, o que  bem estranho, mas nada  to
estranho quanto Magenta Moon. Ela chegou h cerca de uma hora. Eu... eu vou ficar tomando conta dela por um tempo.
MM recomeou a chorar e Keely estremeceu.
- Voc vai tomar conta dela? At parece.
O rosto bronzeado de Jack ficou vermelho de raiva, como se estivesse prestes a se unir ao beb no escndalo.
- Quer saber de uma coisa, srta. McBride? Voc  uma espertinha, e eu acho que no gosto de voc. Portanto, esquea.
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Eu retiro a oferta. vou simplesmente chamar algum... algum servio ou coisa que o valha.
- No faa isso! - disse Keely, inclinando-se depressa para tirar MM do assento e peg-la no colo, enquanto tentava recuperar a sanidade, antes que conseguisse se
lembrar de que morria de medo de bebs. - Veja... Eu estou tomando conta dela - falou, sacudindo a menina para cima e para baixo, a uma distncia segura. - No estou,
pequena? - perguntou ela.
Um segundo depois, MM sorriu, arrotou e golfou o leite que havia tomado no terninho e nas pernas de Keely. S os sapatos escaparam.
Keely arregalou os olhos para Jack Trehan, horrorizada.
- Veja o que ela fez!
- Sim, estou vendo. Bela pontaria, hein? - ele sorriu. - E imagine que algum no mundo gosta dela. Bem-vinda a meu mundo, srta. McBride. Limpe-a, e a si, e estar
contratada.
Keely colocou MM de volta no assento e comeou a procurar em volta por toalhas de papel, at encontrar um rolo perto da pia.
- Ah, que sorte a minha - murmurou Keely por entre os dentes, limpando o blazer com as toalhas midas - Oh, no... Tem sujeira embaixo de minhas unhas. Oh, no!
Oh, no!
- Divirta-se srta. McBride. Eu vou tomar um banho. Acho que voc tambm deve estar querendo tomar um, mas eu moro aqui, de forma que tomarei primeiro. A vida  mesmo
injusta, no ? - Jack ironizou, girando nos calcanhares e deixando a cozinha.
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- Jack Trehan? Um idiota, isso sim - Keely desabafou, baixinho, ao v-lo se afastar, sabendo que a presena dele ali de nada adiantaria. Ento, baixou os olhos para
MM, que voltara a chorar. - Se voc acha que eu vou ficar comovida, desista, menina - alertou ela, abrindo os braos ao se aproximar da cesta. - Esta ... era minha
melhor roupa.
MM parou de chorar. Ergueu os olhinhos para Keely e sorriu.
- E no adianta ser simptica - alertou Keely, apontando um dedo para o beb. - com esse seu cheiro, sua simpatia no vai ajudar em nada, mocinha.
MM pegou um pezinho com as mos gordinhas e colocou-o na boca, encarando Keely com seus grandes olhos azuis.
- Est bem, eu admito. Voc "" bonitinha. Mas isso no  nada demais, portanto, no fique convencida, est bem? Porque voc tem um longo caminho a percorrer antes
de eu me esquecer do que houve com a roupa. Isso  apenas um trabalho e, para mim, voc no passa de um meio para atingir meu objetivo.
Keely, suspirando, ajoelhou-se no cho. Ento, olhou resignada para MM, tentando decidir qual extremidade limpar primeiro.
Jack ficou algum tempo sob o jato do chuveiro. Na verdade, dos seis jatos, espalhados em trs paredes anguladas, e praguejou at esgotar todos os palavres que conhecia.
Levou uns trs minutos. Afinal, um jogador de beisebol tinha um amplo vocabulrio. Jack era capaz de xingar em ingls,
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espanhol e, graas ao massagista do time, Samo Akita, tambm em japons.
Infelizmente, no foi o bastante.
Como Cecily pde fazer aquilo com ele?
Fcil. Tratava-se de Cecily. Da criana que nunca crescia. A verso feminina de Peter Pan, mas com uma herana infinita deixada pelo pai, o falecido rei de uma imensa
cadeia de lavanderias a seco.
Ela havia se casado aos dezessete anos, com um jogador de plo brasileiro. Divorciara-se aos dezoito, entrara numa clnica de desintoxicao aos dezenove e num promissor
noviciado em uma ordem carmelita aos vinte. Aos vinte e dois, financiara a empresa de Internet do amante, de venda de tomates de Jersey pelo correio, um plano que
nunca tivera a menor chance de dar certo. A ltima vez que Jack soubera dela, depois do fiasco da Creative Pyrotechnics, Cecily parecia ter "se encontrado" na tal
comunidade.
Agora, ela era Moon Flower a caminho do Tibete com Blue Rainbow, deixando a pequena Magenta Moon para trs, a criana interior que se tornara a criana exterior,
sendo que a filha era apenas mais uma experincia em sua vida que no sara exatamente conforme planejado. E, provavelmente, tudo isso fazia sentido para ela.
Jack pensou seriamente na possibilidade de tomar veneno ou de saltar do telhado.
Irritado, abriu o controle automtico da porta do chuveiro e estendeu a mo para o toalheiro com suas duas toalhas. Ambas ainda estavam midas.
- Droga! A primeira coisa na lista daquela moa: toalhas.
Falando "naquela moa", Jack comeou a pensar no que
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acabara de fazer. Havia contratado uma decoradora de interiores, interiorana e espertinha, para bancar a bab para a filha de Cecily. Provavelmente, no havia sido
uma atitude inteligente, mas estava desesperado, mais que desesperado.
Bem, seria apenas por um ou dois dias. Ele pensaria em outra coisa. Algum outro lugar para colocar a criana. Sadie no ajudaria. Ela nunca tivera filhos, dormia
todos os dias quase at o meio-dia e provavelmente s gostaria de MM se ela tivesse uma chavinha nas costas que pudesse ser acionada para tocar Edelweiss. Caso contrrio,
Sadie esperaria que a menina ficasse sentada em um canto, calada at ser hora de brincar novamente.
Cecily havia mencionado seu irmo, Joey. Mesmo que no soubesse nada sobre Cecily, s o fato de ela t-lo procurado j significaria que no tinha crebro para andar
e mascar chicletes ao mesmo tempo.
Porque Joey era um idiota. Joey achava que devia estar na Mfia, apesar de efetivamente "estar" na Mfia, ou pelo menos agir como se estivesse. Ele queria at que
todos o chamassem de Joey "Dois Olhos" Morretti. Provavelmente, para lembrar ao imbecil quantos olhos ele tinha.
Est vendo o que acontece quando voc morre e deixa uma herana de cinco milhes de dlares para os filhos? Era melhor que seus tios tivessem gasto cada centavo
em aulas de tango ou em placas de platina com seus nomes no salo monumental de alguma universidade.
Jack riu em silncio com a idia, lembrando-se do quanto a tia Fl e o tio Guido haviam sido incapazes de controlar seus filhos. Se o destino de ambos tivesse sido
o inferno em
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vez do cu, seu castigo devia ser ter de assistir, diariamente, a vdeos de Cecily e Joey arruinando a fortuna que to duramente haviam ganhado.
Ento, Joey estava fora. Jack no poderia mandar MM para o tio Dois Olhos e ainda ser capaz de olhar-se no espelho depois.
Sadie estava fora. Definitivamente fora. Alis, ela costumava ficar flutuando uns dez quilmetros acima da camada de oznio.
Tim? Jack hesitou enquanto se vestia. E quanto a Tim?
- Isso, e quanto a Tim? - Jack perguntou-se, caminhando para o espelho para examinar seu peito nu e as cicatrizes ao longo do cotovelo esquerdo, se estendendo at
o ombro. - Tim ainda est "no baile", Jack - lembrou a si mesmo, amargamente, odiando-se por sentir pena de si mesmo, quase como se se odiasse por sentir cime do
irmo gmeo.
Beisebol. Aquilo fora a vida de ambos por tanto tempo quanto Jack conseguia se lembrar. Haviam jogado futebol e basquete no colegial, mas fora o beisebol que os
cativara. Desde os cinco ou seis anos, havia sido Jack atirando a bola e Tim pegando; Jack atirando a bola e Tim rebatendo. Hora aps hora, dia aps dia, ano aps
ano. Haviam construdo uma base de beisebol no quintal dos fundos e improvisado um campo.
Beisebol, beisebol, beisebol.
Havia sido a vida deles.
Ainda era a vida de Tim, seu irmo, agora em sua oitava temporada como apanhador dos Phillies, liderando o time Para as semifinais e finais e provavelmente caminhando
para um prmio Golden Glove.
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Mas no era a vida de Jack. No mais. No desde a ltima cirurgia no ombro no inverno passado e de uma pssima temporada de treinos, que culminou em sua aposentadoria
antes que os Yankees o demitissem. Ele havia chorado durante a coletiva de imprensa no canal ESPN, depois fora para seu condomnio e se escondera. Agora, estava
escondido em Whitehall, ainda lambendo as feridas, enquanto seu irmo era o segundo colocado na votao geral para o jogo AllStar.
Dizer a Tim que ele acabara de herdar a filha de Cecily sabe-se Deus por quanto tempo? Essa no. Era muito pouco provvel.
- O que me deixa com a espertinha do andar de baixo - disse Jack ao seu reflexo, antes de virar-se para o closet para pegar uma camiseta limpa. - Como era mesmo
o nome dela? Kathy? Karen? No... Keely. Era isso. Que tipo de nome era Keely?
Enquanto vestia a camiseta, Jack deu-se conta de que no sabia absolutamente nada sobre aquela mulher. Havia deixado MM com uma estranha escolhida pela tia Sadie,
rainha das malucas.
E ele havia dito que Cecily era doida? E ele? Era o qu?
Desesperado. Definitivamente.
Jack olhou para o relgio sobre o caixote ao lado da cama. Nove e meia. No devia ser, pelo menos, meio-dia? Ou talvez setembro? Porque aquelas haviam sido as duas
horas mais longas de sua vida.
Mas eram apenas nove e meia, e ele no podia passar o resto do dia escondido ali. Tinha que descer, ver a mulher, o beb e resolver o que fazer com ambas.
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Preferiria estar enfrentando Mark McGwire em um jogo entre as Ligas, no final do nono tempo, com o placar empatado e as bases ocupadas.
Resignado, ele desceu as escadas para a cozinha, parando, petrificado, ao ver o beb na pia, com a mulher segurando a torneira sobre a cabecinha rosada.
- O que diabos voc est fazendo? Tentando afogar a criana?
Assustada com o grito de Jack, Keely virou-se abruptamente, soltando sem querer a criana, que escorregou mais para dentro da pia.
- Oh, Deus! Olhe o que voc me fez fazer! - gritou ela, agarrando MM com as duas mos e puxando-a novamente para cima. - Ela est to escorregadia!
MM recomeara a chorar, com os cabelinhos claros grudados na cabea e os olhinhos cheios de gua, por causa da gua que escorria pelo rosto.
- Ela est bem? - perguntou Jack, aproximando-se da pia com relutncia.
- Acho que sim. Ela est gritando, no est? - respondeu Keely, segurando o brao da criana com uma mo e usando a outra para enxugar o rostinho com toalhas de
papel.
- Mas estava gostando, at voc aparecer. - Keely jogou as toalhas midas no balco e tirou MM da pia, segurando-a com as duas mos. As perninhas e os bracinhos
da menina se agitaram, realando ainda mais o corpinho rosado e rolio. - Aqui - disse Keely, estendendo a menina para Jack.
- Segure-a enquanto eu pego mais toalhas.
- Segur-la? - Ele recuou rapidamente. - Voc ficou maluca? Acabou de dizer que ela est escorregadia!
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Keely ficou segurando enquanto MM ria e se agitava, tentando agarrar tudo.
- Bem, ento, se voc no vai segur-la, pelo menos v pegar as toalhas de papel. Alis, que tipo de cozinha  essa que no tem panos de prato, nem copos, loua,
uma caneca...? Que coisa lamentvel!
Jack ignorou as reclamaes, concentrando-se em sua nova tarefa: conseguir mais toalhas de papel. Era capaz de fazer aquilo. Afinal, havia ganhado dois prmios Cy
Young. Determinado, ele passou por Keely e pegou o rolo que estava em cima do balco.
- O que mais?
- Seque-a - disse Keely, revirando os olhos. - E apresse-se, pois ela deve estar com fome.
Sec-la? Jack hesitou, segurando vrias folhas de toalhas de papel. Como faria aquilo? Aproximou-se lentamente e comeou a enrolar o papel no corpinho nu de MM.
Uma volta, duas, trs, at MM virar quase uma mmia envolta em papel, e Keely dizer:
- Isso deve bastar. Obrigada. Agora, pode segur-la que ela no vai mais escorregar.
- Ela ainda est molhada - comentou Jack, arrancando mais umas folhas de toalha para enxugar a cabecinha da criana. MM se sacudiu, meneou a cabea e a toalha caiu
no cho. - Droga! Ela no est cooperando.
- No pragueje na frente dela - censurou Keely, sacudindo MM para ele, para obrig-lo a segur-la. Ento, respirou fundo, empertigou-se e alisou a frente da blusa
que j fora branca. - Tenho que arrumar alguma coisa para ela vestir. Deve haver alguma coisa dentro da cesta.
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- Qual  o problema com a roupa que ela estava antes? - perguntou Jack, sentando-se com cuidado no cho, porque assim MM teria menos chance de se machucar se escorregasse
de suas mos e casse.
- Voc est brincando? Aquela roupa est toda molhada... e fedida. O que no saiu pela boquinha dela naquela hora saiu logo em seguida por baixo. Minha nica sada
foi coloc-la sob o jato da torneira da pia.
Jack ergueu os olhos e deu-se conta de que o mau cheiro que sentira quando entrara na cozinha vinha de uma pilha de roupas no cho e do que parecia ser uma fralda
descartvel cheia.
- Deixe-me entender direito -- disse ele, um momento depois. - MM fez... fez alguma coisa na fralda e por isso, voc resolveu limp-la na pia da cozinha? Justo da
cozinha?! E se eu quiser colocar loua a?
Keely havia tirado duas grandes sacolas cor-de-rosa da cesta e as examinava, em busca de peas de roupa.
- Ora, fique quieto! - repreendeu-o, enquanto pegava uma fralda descartvel da sacola, arrumando-a junto com uma camiseta, um vestidinho e um par de meias minsculas.
Isso deve bastar. Nossa! Que peas pequenas! Parecem de boneca! Que bonitinho!
- Est se divertindo, srta. McBride? - perguntou Jack, tentando segurar MM enquanto as toalhas de papel comeavam a se desfazer e a criana tentava agarr-lo novamente
pela bochecha. - timo. Porque eu no estou. No estou mesmo. Eu no gosto de bebs. Nem dos bonitinhos!
- Ela  bonitinha, no ? - inquiriu Keely, estendendo
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o cobertor cor-de-rosa no cho, tirando-a dos braos de Jack e estendendo-a na superfcie macia. - Parece muito com as bonecas que eu costumava brincar, exceto que
ela se mexe muito mais. Acho que consigo vesti-la. Eu me lembro de como fazia... - Ento, pegou a fralda descartvel, virou-a de um lado e do outro e franziu o cenho.
- Est bem. Talvez no de uma vez. Mas eu darei um jeito.
- timo. Faa isso - Jack levantou-se. - vou ver os resultados dos jogos de ontem  noite na ESPN.
- Faz sentido - Keely sussurrou. Mas estava falando com MM e no com Jack. - Faz o filho, veste a cala e vai ver a ESPN. Lembre-se disso, querida: os homens so
todos iguais.
- Ela... no ... minha filha - disse Jack, pronunciando lentamente cada palavra. -  filha de minha prima. O que diabos "eu" poderia fazer?
Keely prendeu novamente as fitas adesivas da fralda e sentou-se, admirando seu trabalho.
- Pronto. Isso deve segurar. - Ela tirou um cacho dos cabelos escuros do rosto e ergueu os olhos para Jack. - O que "voc" poderia fazer? Bem, se aceita uma sugesto,
sr. Trehan, eu diria que deve descobrir como prender o assento dela no banco de trs de seu carro, para podermos ir s compras.
Ele olhou-a, preocupado.
- Comprar o qu? Keely revirou os olhos.
- As coisas de MM,  claro. Quero dizer, voc pode esperar pelos seus mveis, mas ela no. Ou voc est pensando em coloc-la para dormir no assento? Alis, j resolveu
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qual vai ser o quarto dela? Eu preciso saber para poder tirar as medidas e ento sairmos. Passaremos na loja de minha tia, eu aproveitarei para trocar de roupa porque
moro em cima da loja. A, pegaremos a caminhonete e traremos tudo conosco. Eu j decorei um quarto de beb antes, sabe? Estava pensando em cerejeira clara e num
bercinho de dossel, com tecido branco, e num trocador combinando, numa cadeira de balano,  claro e...
Jack inclinou-se, pegou a cadeirinha e foi para o carro, praguejando em japons.
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Captulo III

Eu no vou comprar uma enciclopdia para meus filhos. Deixe-os ir para a escola como eu fui.
Yogi Berra
No fim, como o carro esporte de Jack s tinha duas portas, eles pegaram o Mercedes da tia Mary porque, se ele continuasse batendo com a cabea no capo toda vez que
tirasse a menina do assento, MM acabaria aprendendo termos que criana nenhuma devia aprender.
- Belo carro - Jack elogiou, enquanto rodavam pela avenida Principal, se dirigindo  rua MacArthur, a principal artria da cidade e, dela, para a via que conduzia
direto a Allentown. - Decorao de interiores deve ser um timo negcio. O que me lembra... qual  seu preo, srta. McBride?
- Nem perto do que voc imagina - disse Keely, apertando no colo a sacola branca com seu blazer arruinado dentro. Ento, endireitou-se no banco e olhou para MM.
- Olhe s para isso. Ela est dormindo! - Virou-se novamente para
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a frente sentindo-se, se no competente, pelo menos com sorte. - Ela  um beb muito bonito.
- E todos os bebs no so? - perguntou Jack, espiando pelo retrovisor.
- Acho que para os pais so - Keely falou, pensativa. - Mas minha amiga Sheila... Quando nasceu o beb dela, ele parecia o Woody Allen, juro. Se bem que, felizmente,
ele j superou essa fase. Sheila mora em Wisconsin e me mandou um vdeo do pequeno Justin logo que ele nasceu. Um horror. Mas MM  uma belezinha. Esses cabelinhos
loiros... Voc sabia que ficou cacheado quando eu molhei? Aposto que em pouco tempo ela ter belos cachos e mais tarde vai detest-los como eu detestava os meus.
E aqueles olhos azuis "imensos" com clios longos... Quando ela crescer, voc vai ter que afastar os rapazes com uma espingarda.
- Eu no vou estar por perto quando ela crescer - lembrou Jack, mudando para a faixa da direita para pegar o acesso a Allentown.
- Ah, sim.  mesmo. Ela no  sua. Eu me esqueo disso o tempo todo. Deve ser por causa dos olhos azuis que vocs dois tm.
- E no pode haver duas pessoas no mundo com os olhos azuis, srta. McBride? - questionou Jack. - Eu j lhe disse que MM  filha de uma prima. Ela... ah, quem vai
acreditar em mim? Digamos apenas que Cecily est fora da cidade por algum tempo, e que eu estou cuidando da menina. Correo: "voc" est.
Keely ficou em silncio por alguns minutos e finalmente assentiu.
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- Est bem, e me desculpe por provoc-lo. Eu sei que ela no  sua. Encontrei a carta de sua prima quando estava limpando a cozinha. Voc no acha que deveria avisar
 polcia? Quero dizer, parece que ela est "abandonando" MM e no apenas deixando-a aqui por uns dias, a menos que Katmandu seja na Pensilvnia, e ns dois sabemos
que no . E quem  Joey? O pai?
Keely percebeu a contrao muscular perto dos lbios de Jack.
- Vocs no se do muito bem, no ? Ah, vire ali  direita, na Tilghman. A loja fica entre a dcima primeira e a dcima segunda, do lado esquerdo. H um estacionamento
atrs. Ei, pegue logo a pista da direita, no espere o ltimo minuto.
Jack pisou no acelerador, ultrapassou quatro carros e entrou rapidamente na pista da direita para fazer a converso.
- Isso foi divertido - disse Keely, voltando a abrir os olhos. - Acho que devia ter ficado de boca fechada. Mas pelo menos agora eu sei que, quando quiser alguma
coisa,  s pedir para voc no fazer.
Ele deu um sorriso que fez surgir duas covinhas muito sensuais no rosto.
- At que enfim, uma mulher que me entende. Porque eu realmente adoro mulheres que ficam de boca fechada.
- Sim. E, de preferncia, com o crebro paralisado, no? - murmurou ela. - Eu conheo o tipo. E, ento, voc vai me contar sobre esse tal de Joey, ou eu devo esperar
at que voc esteja disposto a me informar?
Nos trs quarteires seguintes, o interior do carro ficou
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gelado, no apenas por causa do ar-condicionado. Finalmente, Jack disse:
- Joey  o irmo de Cecily, como eu j lhe disse. Joey e Cecily so de Bayonne, New Jersey.
- Eu sei onde fica Bayonne - interrompeu Keely. - S que nunca conheci ningum que morasse l. Ai, me desculpe. Eu no pretendia interromper o fluxo de seu discurso.
Jack suspirou e parou o carro em um farol vermelho na dcima nona.
- Joey acha que devia pertencer  Mfia.
-  Mfia? - Keely estava de queixo cado. -  "Mfia" mesmo? E Cecily queria deixar MM com ele?
- Relaxe, srta. McBride. Joey no  da Mfia. Ele viu todos os filmes do Poderoso Chefo, mas isso foi o mximo que fez. Eu no gosto dele porque  um idiota e no
porque tenho medo que me mate com um picador de gelo.
- Ah... - disse Keely, relaxando um pouco enquanto viravam  esquerda e depois  direita, at a entrada da loja da tia, que funcionava em uma casa de tijolos aparentes.
- Nesse caso, fico feliz por Cecily ter deixado MM com voc.
- Ela abriu a porta do carro e voltou os olhos para o beb.
- Continua dormindo. Por que voc no espera aqui? Eu no vou demorar, s preciso trocar de roupa e pegar as chaves da caminhonete.
- E fazer a mala - acrescentou Jack. Ao ouvi-lo, Keely parou antes de fechar a porta.
- O qu? - perguntou, enfiando a cabea novamente no carro. - O que voc quer dizer com isso?
- E se voc tiver um saco de dormir, talvez queira traz-lo
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tambm, pelo menos, at comprarmos mais camas. Ou voc pensou que eu fosse ficar sozinho com a menina na casa, enquanto voc trabalhava das nove s cinco?
- Eu... eu... - Keely olhou para o assento no banco traseiro, para o beb adormecido e finalmente para Jack. - Eu...
- Certo.  exatamente como eu me sinto, srta. McBride. Agora, mexa-se, est bem? Quem sabe por quanto tempo ela vai dormir?
- Eu odeio voc - disse Keely finalmente. Por sorte, s quando j estava subindo a escada que levava ao quarto que dividia com a tia. - Odeio, odeio, "odeio" voc,
Jack Trehan - repetiu, enquanto vestia rapidamente uma saia de brim e uma camiseta fina de malha. Ento, foi at o closet, pegou uma grande mala, atirou-a na cama
e abriu o zper.
- Odeio, desprezo, no suporto voc, Jack Trehan! - continuou, enquanto abria as gavetas, atirando as roupas mais ou menos na direo da mala. Depois, colocou alguns
itens de toalete em outra bolsa com zper e completou com desodorante, pasta de dentes, o secador de cabelos e a pequena bolsa de maquiagem.
- As coisas que no fazemos por dinheiro - disse Keely, dirigindo-se ao prprio reflexo, sobre a pia. - Que vergonha!
Ela jogou tudo dentro da mesma mala, fechou o zper, tirou o travesseiro e o cobertor da cama e desceu as escadas mais uma vez, com o cobertor arrastando no cho.
S parou ao ver a luz da secretria eletrnica da tia piscando.
Talvez houvesse mensagens l embaixo, na secretria eletrnica da loja, mas Keely sabia que no tinha tempo para verificar. Tia Mary havia concludo a maior parte
de seus
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projetos antes de se casar, de forma que no havia muitos negcios inacabados com os quais Keely precisasse lidar, o que a fez dar piruetas de alegria quando recebera
o telefonema de Sadie Trehan. Se houvesse mensagens no andar de baixo, elas poderiam esperar. Mas ela no se apressaria, deixaria Jack Trehan esperando-a um pouco
mais e verificaria se a tia Mary havia ligado.
Determinada, Keely largou o cobertor e o travesseiro e apertou o boto das mensagens, sorrindo ao antecipar que ouviria a voz da tia Mary. Ela telefonava quase todos
os dias para contar sobre as maravilhas da Grcia e dos sagrados laos do matrimnio.
- Ol, Keely, que pena que voc no est. Escute, eu sei que faz muito tempo, querida, mas eu...
Keely apertou o boto de "parar", desesperada para interromper a voz de Gregory Fontaine. O que ele queria? No que se importasse. Certamente, nem ligava. Irritada,
mordeu o lbio e tamborilou os dedos em cima da mesa, enquanto imaginava as possibilidades. Ele a queria de volta; a amava. No podia viver sem ela. Ainda no encontrara
a elegante trena que ela surrupiara a ttulo de ltimo pagamento e queria saber se Keely sabia onde estava.
- Vamos l! - exclamou, apertando o boto "ligar" novamente. -  melhor acabar logo com isso.
- ...achei que era melhor voc ouvir isso de minha boca. Acabei de alugar seu espao. Voc sabe que eu vinha pensando em ampliar os negcios e tem de admitir que
foi uma sorte para voc conseguir aquele lugar na Sessenta e Sete por aquele preo. E sei que Leibowitz disse que o seguraria para voc por mais seis meses, desde
que continuasse pgando
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o aluguel, coisa que voc no fez. pois j est trs semanas em atraso. Assim... Bem, eu assumi o aluguel. Agora, o escritrio Fontaine est nos lados leste e oeste
de Manhattan... e voc  bem-vinda para voltar. Quando quiser. Voc poderia cuidar da filial para mim, exatamente onde era sua antiga loja, ou melhor, minha nova
loja. Acho que a gente pode resolver as coisas, Keely, de verdade. Ei, eu preciso desligar. Shavonna quer me mostrar os esboos de um projeto que estamos fazendo
l na ilha. Bem, cuide-se, seja boazinha, e no me odeie, Keely. Eu a amo, queridinha, mas negcios so negcios, certo?
Keely ficou ali, olhando para a secretria eletrnica e ouvindo a voz gravada que dizia "fim das mensagens". Foi preciso certo esforo para lutar contra o impulso
de arrancar a mquina da tomada e jog-la na parede.
- Seu desgraado! trs semanas? Gregory Fontaine, voc  um infeliz desprezvel. Trs malditas semanas!
- Algum problema... queridinha?
Keely girou rapidamente sobre os calcanhares. com o movimento, enganchou os ps no cobertor cado e desabou, sobre quatro apoios.
- Voc! - acusou, olhando para Jack Trehan. - O que faz... como ousa... onde est MM?
- Continua dormindo profundamente na cadeirinha. No se preocupe. Eu tranquei o carro, mas deixei o motor ligado, para manter o ar-condicionado funcionando.
- Ah... est bem - disse Keely, levantando-se. - Acho que... espere a: voc trancou o carro? Onde esto as chaves?
- Ora, vamos l. Voc no acha realmente que eu...
- Mostre-me... as... chaves.
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Jack enfiou a mo no bolso da cala. Em seguida, enfiou a outra mo no outro bolso. Por fim, franziu o cenho com um olhar inocente.
- Bem... - Ele tirou as mos vazias dos bolsos e estendeu-as. - A culpa  sua, sabe? Se voc se mexesse em vez de ficar ouvindo seus recados e fazendo sabe-Deus-mais-oqu,
eu no teria precisado...
- Seu imbecil! - Keely quase tropeou novamente no cobertor, enquanto avanava para a escrivaninha da tia e abria a gaveta do meio. Ali estavam as chaves da caminhonete
e o segundo jogo de chaves do Mercedes. Irritada, ela pegou as duas e foi para a escada.
- Pegue essas coisas, seu gnio, e siga-me.
Como era possvel que a prima tivesse confiado seu beb a ele? No se podia confiar nem um urso de pelcia quele homem, quanto mais uma criana pequena e indefesa.
No que ela fosse muito melhor, certamente, mas no era preciso muito para ser melhor que Jack Trehan.
Keely desceu os degraus depressa, com Jack seguindo-a de perto.
- Eu estava brincando, droga! - gritou ele. - Olhe, aqui esto as chaves. Eu no trancaria as chaves dentro do carro. Voc acha que eu sou burro?
Keely parou na base da escada e ergueu os olhos para ele.
- Nunca pergunte o bvio - grunhiu ela, disparando para fora da casa e deixando Jack sozinho para sair com a mala, o cobertor e o travesseiro.
Aflita, Keely correu at o carro e olhou pela janela de trs,
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s para ver que MM continuava profundamente adormecida, com a chupeta na boca.
- Ela est bem - disse Keely, desabando, aliviada, na lateral do carro. Naquele momento, Jack apertou o boto da chave para destravar o porta-malas.
-  claro que ela est bem - ele retrucou, meneando a cabea. - O que voc pensou que ela faria? Sairia do carro e iria at o bar, tomar uma cerveja?
Keely nem se incomodou em responder, limitou-se a olh-lo friamente e a se dirigir para a caminhonete. Gregory Fontaine, Jack Trehan, todos os homens! Eram todos
pssimos, sem exceo.
- Siga-me, est bem? - ela falou. - Voltaremos  Tilghman. De l, pegaremos a Oitava, viraremos  esquerda,  direita na Washington e depois  esquerda na Stima,
que nos colocar novamente na rua MacArthur. na direo da loja que eu tenho em mente. Entendeu?
- Srta. McBride, eu cresci aqui - disse Jack, abrindo a porta do Mercedes. - Conheo perfeitamente bem todos os caminhos e agradeceria se voc parasse de me tratar
como se eu fosse estpido.
- E eu agradeceria se voc parasse de "agir" como um - disparou ela, quebrando uma unha ao tentar abrir a porta da caminhonete. - Droga! Veja o que voc me fez fazer!
- Daqui, de onde estou? Algum j lhe disse, srta. McBride, que voc no  muito boa da cabea?
- Eu sei disso. Devo ser louca! - gritou ela, com raiva.
- Afinal, estou trabalhando para voc, lembra? - S ento se deu conta de que a resposta mais provvel que ele daria
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seria "sim, mas no por muito tempo". Assim, Keely entrou depressa na caminhonete, engatou a marcha r e preparou-se para a primeira investida na conta bancria
de Jack Trehan, e para o comeo da recuperao de sua conta.
Jack preferiria estar preso dentro de um nibus velho, numa estrada vicinal dos Estados Unidos, enquanto o motorista trocava o pneu do nibus para que pudessem continuar
a viagem de cinco horas para mais um jogo diante de um bando de espectadores que estava l mais por causa das corridas de cachorro que aconteceriam depois do quinto
tempo. Preferiria estar em qualquer lugar que no fosse ali, enfiado no meio de uma loja infantil.
- Aonde voc vai? - perguntou, ao v-la caminhar em direo aos carrinhos.
- vou pegar um carrinho de supermercado. O que lhe parece que estou fazendo?
- Para o bero? E voc acha que vai caber? - disparou ele, observando-a ajeitar MM ainda adormecida, em uma espcie de assento acoplado ao carrinho. Aproveitou o
momento para admirar as longas pernas de Keely que se estendiam alm da barra da saia de brim para, em seguida, menear a cabea. Ser que estava maluco? Aquela mulher
era venenosa!
Keely manobrou o carrinho e entrou na loja pelas portas automticas. O lugar tinha aproximadamente o dobro do tamanho de um campo de futebol.
- Essa loja  s de coisas de beb? - perguntou Jack, olhando em volta, impressionado. - Essa criana no deve
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ter mais de sete quilos, no sabe andar, nem falar, tem s um um dente... de quanta coisa ela pode precisar?
Ficou evidente que Keely no estava escutando.
- Eu acredito firmemente em ter um plano para lugares assim - disse ela, voltando o carrinho para a direita. -] Comeamos pelo comeo e vamos avanando, corredor
por; corredor. Aqui... o que  isso?
Jack viu um dos vendedores sorrindo para ele, como se dissesse: "ora, um bom papai indo s compras com seu beb" e tratou de virar-se depressa para pegar a caixa
que Keely apontava.
- Eu no sei. Aqui diz alguma coisa sobre... no! Eles s podem estar brincando. Quem faria uma coisa dessas?
Keely pegou a caixa e virou-a, olhando para os desenhos na parte de trs.
- Ah, no  bonitinho? D para fazer moldes de gesso dos pezinhos e mozinhas de MM. Olhe, eles incluem at uma moldura para pendurar o resultado na parede. Vamos
comprar.
- No vamos, no - disse Jack, tirando a caixa das mos de Keely e recolocando-a na prateleira. - Eu prefiro mandar dar um banho de bronze nela.  mais fcil.
Keely revirou os olhos e pegou a caixa novamente, colocando-a no carrinho.
- Voc no vai mesmo se permitir desfrutar isso, no ?
- O que voc acha? - respondeu Jack, tenso, olhando-a pegar mais uma caixa. - Voc vai querer olhar tudo? Desse jeito, vamos passar horas e horas aqui.
- Provavelmente, dias - concordou Keely, colocando
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no carrinho um lbum chamado de Lembranas da Primeira Infncia, uma Cpsula no Tempo. - Certo. Vamos para o prximo corredor.
- Prximo corredor, prximo corredor - resmungou Jack, mas como o atendente voltara a olh-lo, preferiu seguir Keely. - Segurana infantil? - perguntou, olhando
a placa sobre o corredor. - O que  isso?
Keely entregou a ele um saquinho com protetores de tomada.
- H muito mais - disse ela, com um brilho perigoso nos olhos, enquanto examinava as prateleiras. - Trancas para armrios, protetores de porta para ela no prender
os dedinhos. Ah, veja s isso, eu adoro quinquilharias! Uma caixinha para guardar as chupetas de MM e d at para prend-la no carrinho ou na sacola de fraldas.
Ah, veja! E tambm vamos precisar de um deste - apontou ela, colocando a caixinha no carrinho e pegando outro volume.
Jack viu um pedao de tecido atoalhado dentro de um pacote de plstico e leu a descrio por sobre o ombro de Keely.
- Joelheiras? Para qu? Por acaso, MM vai patinar amanh e esqueceram de me avisar?
- Essas so para quando ela comear a engatinhar, para proteger aqueles joelhinhos to macios.
- Engatinhar? - repetiu ele, confuso. - Ela vai comear a engatinhar? Quando?
- No fao a menor idia. Sou uma decoradora de interiores, no o sr. Spock.
- Hum... Eu no tenho bem certeza, mas no seria "doutor
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" Spock? Sr. Spock era aquele personagem do Jornada nas Estrelas. Aquele com as orelhas pontudas.
- Que seja - disse Keely, desinteressada, colocando uma imensa sucesso de pacotes dentro da cesta, para os quais Jack nem ousava pedir explicao. Depois do segundo
corredor, o carrinho j estava quase cheio. - Mas temos que estar preparados, no ? Katmandu  muito longe e quem sabe quando sua prima voltar?
- Eu estou tentando no pensar nisso, srta. McBride - Jack respondeu com honestidade. Keely no conhecia Cecily como ele, mas provavelmente a carta lhe dera uma
boa idia do esprito avoado da prima. Naquele momento, Jack lembrou-se de uma ocasio em sua infncia em que Cecily pedira a todos que se escondessem para, em seguida,
perder o interesse na brincadeira e ir para a cama, sem procurar ningum. Determinado, Jack ficara escondido at as luzes da rua se acenderem e ento voltara para
casa soluando.
Entraram em outro corredor, e Jack parou e pegou uma caixa na prateleira, simplesmente tentando fazer sua parte.!
- Voc precisa de um desses? - perguntou, solcito, olhando para algo que parecia uma garrafa com um funil preso em cima.
Keely pegou a caixa dele e recolocou-a na prateleira.
- No vamos precisar disso. Prximo corredor.
- Mas voc no comprou nada neste. Depois que passarmos, eu no vou mais voltar, hein? - Jack pegou novamente a caixa e leu o rtulo: "Bomba para extrair leite".
Havia uma variedade de modelos nas prateleiras, todos diferentes,
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mas concebidos para o mesmo propsito. Aturdido, Jack fechou os olhos, tentando imaginar o propsito de uma coisa daquelas.
O carrinho estava definitivamente se enchendo. Pontos de luz noturna. Protetores para os vidros do carro. Um pequeno espelho retrovisor para prender abaixo do espelho
do carro, para ver melhor o beb no banco de trs. Fitas de videocassete sobre segurana e primeiros socorros. Um termmetro de orelha. Outro para... Jack recolocou
este ltimo no carrinho, tentando bloquear mentalmente a realidade. Uma mquina para quartos de beb que reproduzia sons de batidas de corao, balbucios, pios de
passarinhos e chuva caindo. Um protetor plstico para ser colocado em cima dos controles da televiso. Certo, ele bem que gostara daquele ltimo.
Keely chamou-o de um display com pelo menos quinze tipos diferentes de chupetas, para mostrar seu ltimo tesouro.
- Olhe, um monitor de tev para o quarto de MM. Poderemos v-la, ouvi-la e depois se tornaria um pequeno aparelho de tev, s para ela. No  incrvel?
Jack espiou a etiqueta de preo.
- Incrvel - concordou, estremecendo.
A caixa foi para o carrinho e l se foram eles novamente, parando em um corredor repleto de mamadeiras.
-- Essas so da mesma marca que MM j tem - disse Keely, colocando meia dzia dentro do carrinho, junto com uma caixa de "enxertos" de plstico, sem saber o que
isso significava. Ento, ela escolheu alguns acessrios, mostrando a ele um pacote de bicos de seios realmente repulsivos, de uma cor alaranjada, explicando:
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- Aqui diz que  a coisa mais parecida com uma me. O que voc acha?
- Voc est fazendo isso de propsito, no ? Est se vingando por alguma coisa que acha que eu tenha feito - acusou Jack, sentindo o rosto aquecer-se e as mos
esfriarem. - Compre logo esta porcaria e vamos embora daqui.
Ela comprou. Escovas para lavar mamadeiras, escovas para bicos de mamadeira, mais chupetas, creme dental e uma escova de dentes... para um nico dente. Uma borrachinha
para massagear as gengivas. Xampu, pomada, loo, um kit de primeiros socorros. Duas caixas da mesma marca de leite que Keely encontrara na cesta de MM.
Babadores. Jack escolhera os babadores. Uma dzia deles.
O prximo item foi um pequeno microondas para o quarto do beb, para aquecer as mamadeiras no meio da noite sem ter de ir ao andar de baixo. O que mais poderia haver?
Um momento depois, Jack descobriu. O que compraram em seguida foi uma cesta de lixo mgica, para fechar e descartar fraldas sujas, mantendo-as fora da vista. A ilustrao
representando o interior da cesta mostrava uma quantidade de fraldas, todas enroladas individualmente em casulos plsticos, em uma espcie de saco perolado que mais
parecia uma jibia gigante que acabara de engolir diversos animais de pequeno porte. Jack quis comprar dois, s para poder brincar com um deles, mas Keely revirou
os olhos e ele desistiu da idia e foi para a frente da loja para buscar outro carrinho.
O primeiro item a entrar no novo carrinho foi um umidificador em forma de patinho. Ele nem questionou. Depois,
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uma banheira. Um assento para ser colocado dentro da banheira. Brinquedos para o banho, uma sacola de tela para guardar os brinquedos de banho. Um estranho assento
para Um adulto ajoelhar-se confortavelmente enquanto banhava a criana. Toalhas, lenos umedecidos... Ele insistiu em que comprassem muitas toalhas.
- Interessante - disse Keely, depois de percorrer dois corredores inteiros sem pegar absolutamente nada. - Diz aqui para apertar o boto para testar o produto.
Jack ficou observando enquanto Keely estendia um ursinho de pelcia e mostrava o boto nas costas do bichinho. Ele esperava ouvir uma cantiga de ninar, mas quando
Keely apertou o boto, ele ouviu algo parecido com as batidas de um corao, vindas de dentro do bichinho.
- Sons do tero - disse Keely. - Imagino se h um com rudos de digesto. Certo, bem... o urso  bonitinho - ela admitiu, colocando a caixa no carrinho. - Eu poderia
decorar o quarto inteiro com motivo de ursinhos. Acho que fica mais bonitinho do que com flores. Flores so delicadas, mas... Bem, acho que prefiro os ursinhos.
- Faa isso. - Jack gostou da idia.. - Eu sempre apreciei animais de grande porte.
- Engraadinho - disse Keely, guiando o carrinho para o corredor seguinte.
Ela jogou vrias embalagens de lenos umedecidos e um aquecedor de lenos umedecidos no carrinho, mas aquilo era apenas parte do aquecimento porque, naquele momento,
haviam chegado ao "principal".
- Ela tem um desses - apontou Jack quando Keely passou por um grande corredor abarrotado de modelos de assentos
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para carro. Impressionado, Jack reparou em um assento que certamente seria capaz de suportar um lanamento em uma nave espacial. - Isso  brincadeira, no ? Assentos
de carro "com grife"?
Keely recuou um pouco e olhou para o assento que Jack apontava.
- Pegue um desses panfletos - disse ela. - Basta apresent-lo no caixa e eles nos entregaro um assento igual. Afinal, precisamos ter dois, certo? Um para seu carro,
e um para o meu.
- Ela no precisa de dois assentos, droga! - disse Jack, cruzando os braos sobre o peito, preparando-se para lutar at a morte contra aquilo. Ele no era um homem
pobre, mas Keely McBride estava se tornando uma rival da dvida pblica nacional.
Irritada, Keely bateu com o punho cerrado no quadril.
- Est bem. Imagine s: eu tenho que ir a algum lugar enquanto MM est dormindo e, de repente, voc precisa sair com ela por algum motivo: ou ela se engasgou, ou
acabaram as fraldas, ou voc sentiu um impulso irresistvel de comprar  Chicken McNuggets. Imagine que "eu" estou com o assento, com o "nico" assento. O que voc
faz, gnio?
Furioso, Jack pegou o panfleto.
Depois disso, tudo se tornou uma espcie de transe.
Dois suportes para beb: um que, de certa forma, manteria MM presa ao peito de Keely e outra para Jack usar nas costas, provavelmente quando resolvesse escalar o
Everest.
Bero, protetores para bero, cmoda, trocador, lenis, fronhas, cobertores, protetores de parede, mobiles, luminria
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combinando, faixa para a parede, cortinas e travesseiros. Um carrinho com uma roda imensa na frente e duas atrs, para que MM pudesse acompanh-lo na corrida matinal,
como se aquilo fosse acontecer. Lenol protetor para o carrinho, suporte de copos para a manopla do carrinho, capa protetora de chuva para o carrinho, rede antiinsetos
tambm para o carrinho...
Cadeiro, cadeirinha, cadeira de balano, andador, cadeirinha suspensa para pendurar na porta, balano, cercadinho, bero porttil. Tudo com as cores combinando.
E com os devidos acessrios para acompanhar.
Novas bolsas para fraldas para combinar com o motivo de ursinhos de todo o resto. Enfeites de parede fofinhos, incluindo um de um ursinho vestido com uniforme de
beisebol que Jack insistiu em comprar.
- Voc  sexista ou  puro preconceito? MM no pode gostar de beisebol? - perguntara ele quando Keely protestara. O ursinho com roupa de beisebol ficou, assim como
uma bola macia que Jack encontrou, rosa, com espao para anotar o "peso inicial", "estdio de origem" e "primeira temporada" de MM. Keely achou a pea adorvel e
Jack sentiu vontade de beij-la.
MM, que havia dormido durante toda a orgia de compras, comeou a se mexer quando eles empurraram os dois carrinhos lotados para o caixa. A pequena abriu os imensos
olhos azuis, olhou em volta e seu lbio inferior comeou a tremer. Um momento depois, estava berrando, a plenos pulmes.
- Qual  o problema com ela? - perguntou Jack, um POUCO confuso.
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Keely deu de ombros.
- Ser que ela est com fome de novo?
- Como  que "eu" vou saber? - disparou ele. - Voc   a encarregada, lembra? Eu pensei que tivesse dito que conhecia bebs.
- ? Pois adivinhe s: eu menti! - gritou Keely, para fazer-se ouvir acima dos gritos de MM. - Voc trouxe alguma mamadeira?
Jack bateu com a mo na cabea.
- No, no trouxe. Este  "seu" trabalho, moa!
- Ah...  mesmo. - Keely enfiou a mo na bolsa imensa e pegou uma embalagem de preparo de leite instantneo. - Eu me esqueci. Isso estava com as coisas dela - Ela
abriu a embalagem e preparou o leite ali mesmo. - Aqui, pequena - disse, colocando o bico na boca de MM.
- Primeiro, voc precisa sacudir a mamadeira para misturar bem o leite - disse algum atrs deles, e tanto Jack quanto Keely baixaram os olhos e viram uma menina
que no devia ter mais de sete anos. timo. Sete anos de idade e sabia mais que ambos. Fazia sentido. Jack imaginou se a menina aceitaria ser contratada por hora.
- Aqui. Deixem que eu mostro. - A menina pegou a mamadeira da mo de Keely, sacudiu e recolocou o bico na boquinha de MM. - No ms passado, minha me teve gmeos
e ela me deixa ajudar - explicou a criana. - Pronto. Ser que agora vocs conseguem se virar?
- Menina esperta - murmurou Keely depois de agradecer e de v-la se afastar para unir-se  me. - Hoje em dia, todo mundo  especialista.
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Menos voc - comentou Jack, cido. - Ser que agora podemos ir embora daqui? MM no  a nica que est com fome.
- E o que tenho a ver com isso? Eu no vou cozinhar para voc.
- Eu no estou pedindo.
- E  melhor no pedir porque...
- Jack Trehan! Oh, meu Deus, Sally, olhe!  Jack Trehan!
Keely franziu o cenho sem terminar a frase que provavelmente causaria sua demisso e virou-se para olhar para o homem que se aproximava deles, com a mo estendida.
- Eu estou certo, no estou? Voc  Jack Trehan? Lanador dos Yankees? Dois prmios Cy Young? Rapaz, que dureza isso que aconteceu com seu brao! Bem, azar dos Yankees,
sorte nossa. Eu sou Bill Hunsberger e tambm joguei beisebol, mas nada que se comparasse a voc. Seja bem-vindo ao lar, Jack, e obrigado por todos os jogos maravilhosos.
- De nada - disse Jack, apertando a mo do homem. -  bom estar de volta. - Ele estava morto de vontade de olhar para Keely, de v-la ali, espantada, com a boca
aberta e os olhos arregalados. Talvez ela no o conhecesse, mas o resto do mundo conhecia, droga!
- Sally? - O homem chamou algum por cima do ombro, sem soltar a mo de Jack. - Sally, voc  sempre to lenta. Venha c, pelo amor de Deus. Eu tinha razo.  "mesmo"
Jack Trehan. D-me logo essa lista de compras e pare de fazer essa cara, como se eu estivesse fazendo algo errado. "- Ele virou-se novamente para Jack. - Voc se
incomodaria de autografar a lista de Sally?  para meu filho, Sean.
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Ele s tem dois meses, mas um dia vai valorizar muito este autgrafo.
Sally aproximou-se, com uma criana e vrios pacotes de fraldas nos braos, mais uma grande bolsa infantil pendurada no ombro. Keely j vira burros de carga menos
carregados, mas Bill, que estava de mos vazias, continuava acenando impaciente para a mulher.
- Voc no quer ajud-la?-perguntou Keely, enquanto Sally tentava equilibrar os pacotes de fraldas entre os joelhos e vasculhava a bolsa em busca de papel e caneta.
- No. Ela se vira - disse Bill, sem tirar os olhos de Jack.
- Homens! - exclamou Keely, fazendo um sinal par que Jack segurasse a mamadeira enquanto ela ia ajudar Sally. - Vocs so todos uns idiotas.
- Qual  o problema com sua esposa, Jack?-perguntou Bill Hunsberger, apontando para Keely. - A minha  igualzinha. O mdico disse que  depresso ps-parto, mas
eu acho que  frescura. Afinal, as mulheres tm filhos desde o incio dos tempos.
-  verdade - concordou Jack, baixinho. Tinha a sensao de que, se Keely o ouvisse, ele pagaria pelo comentrio. - E ela no  minha esposa. E a criana no  nem
minha filha.
Ele no sabia ao certo porque se sentia inclinado a dividir aquele tipo de informao com um estranho, mas por algum motivo achava importante. Bill, por outro lado,
parecia nem ligar.
- Como vai seu irmo, Jack? O brao de Tim, o Tigre,
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est bem, no? Quero dizer, este problema com o brao no  coisa de gmeo, certo? Ele continua bem? Quero dizer, ele continua jogando maravilhosamente at agora,
no ?
- Sim. Maravilhosamente. - Jack cerrou os dentes enquanto autografava o pedao de papel que Sally lhe dera. - Bem, Bill, foi um prazer conhec-lo, mas ns temos
que ir, levar a mocinha para casa e tudo o mais. Keely? Est pronta para passar pelo caixa?
- Talvez seja melhor coloc-la para arrotar - Sally disse, apontando para MM.
-  sua vez, "heri", sr. Egocntrico, sr. Orgulho, sr. Eu-No-Acredito-Que-Voc-No-Me-Conhea... como se eu estivesse "interessada" - Keely continuou, pegando
um dos carrinhos e rumando direto para o caixa. - Ah, e se lhe interessa saber, eu sou f dos Mets e "odeio" os Yankees.
- Ah,  mesmo, queridinha, ento, adivinha s: voc est despedida!
Ela girou sobre os calcanhares para encar-lo.
- Ah, timo. Agora, eu vou para casa e voc vai poder ficar com MM s para voc. Divirta-se. Parece que ela enche as fraldas assim que mama.
Jack abriu a boca para mand-la para o inferno, mas reconsiderou seu sentimento quando as palavras "enche as fraldas" penetraram em seu crebro.
- No me provoque, moa - alertou ele.
- E no me chame de "queridinha" - respondeu Keely, igualmente furiosa.
- Feito! - grunhiu Jack, odiando a si mesmo.
- Feito! - repetiu Keely. - Mas ainda assim,  sua vez de faz-la arrotar. Eu vou passar as compras pelo caixa.
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Jack olhou para Keely e baixou os olhos para MM q continuava sugando o bico anatmico e descartvel de ltex atxico.
- Meu Deus - gemeu, baixinho, pensando na conversa que acabara de ter com Cecily. - Eu devia ter dito apenas que no.
- Eu conheo a sensao - disse Sally Hunsberger, passando por ele. - Ah, e como conheo!
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Captulo IV

Eu vi o futuro e vi que se parece muito com o presente, s que mais longo.
Dan Quisenbeny, lanador
Keely sentou-se no meio do espao vazio, escolhido para ser o quarto de MM e tentou imaginar por onde comear. Quem disse que dinheiro no comprava mais coisas?
Parece que uma compra de mais de trs mil dlares, trs mil, setecentos e oitenta e dois dlares e cinqenta e sete centavos, para ser exata, ainda dava direito
a entrega no mesmo dia, sem custo adicional. E, depois, havia dez por cento de quase quatro mil dlares e a metade desses dez por cento era dela!
Nada mal para meio dia de trabalho. No havia sido fcil, mas tambm no fora terrvel.
Na verdade, as coisas estavam indo bastante bem. Relativamente bem. Razoavelmente bem. O que j era um bom comeo.
MM era um beb adorvel, perfeito para "principiantes".
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Mamava quando recebia a mamadeira, arrotava quando lhe batiam nas costas, enchia a fralda e voltava a dormir. Isso era um alvio, especialmente porque Keely ainda
nem abrira os livros sobre como cuidar de um beb e tinha certeza de que havia muito mais coisa envolvida do que havia descoberto at ali.
MM estava cochilando de novo, no andar de baixo, no assento firmemente preso  cesta. Afinal, Keely precisava abrir dzias das imensas sacolas plsticas que a rodeavam
no cho do quarto, para tentar por alguma ordem naquele caos.
Ela abriu a primeira sacola, pensando no melhor local para colocar o bercinho, a cmoda e o trocador coordenados. A arrumao teria que facilitar o trnsito dentro
do quarto, bem como o acesso para o banheiro contguo. O local era bem iluminado, considerando que ficava no lado leste da casa, para pegar o sol da manh e as cores
escolhidas ficariam boas: um xadrez discreto e clarinho de bege e verde, com ursinhos estampados aqui e acol.
As paredes precisariam de mais cor que o branco imaculado que as cobria, mas isso teria que esperar. A faixa de parede e os enfeitinhos em forma de urso tambm.
O mais importante naquele momento era dar algum tipo de ordem, planejar algum tipo de estratgia e de rotina para ela e para MM.
Keely olhou para o contedo que tirara da primeira sacola.
Ento, finalmente comeou a trabalhar, colocando o suporte para fraldas perto do trocador, arrumando gavetas com toalhas e lenis que lavaria assim que arrumasse
tempo, carregando todos os acessrios de banho para o banheiro e colocando tudo em lugares racionais.
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era uma pessoa organizada. No uma fantica por organizao, mas algum que acreditava em colocar tudo em seu lugar e mant-lo ali. Gostava de seu trabalho e da
harmonia que resultava dele. E tinha uma paixo quase obsessiva por closets. Era capaz de babar em cima de prateleiras e gavetas feitas sob medida e de sapateiras
projetadas de maneira personalizada.
Por tudo isso, depois de cerca de uma hora, Keely estava se sentindo muito frustrada. J havia projetado quartos de bebs antes, mas apenas os mveis e as cortinas,
no as coisas do dia-a-dia, que realmente envolviam viver com um beb.
No havia como organizar um beb. Simplesmente no havia. O talco e os frascos de loes, o tubo de pomada, os lenos umedecidos, estava tudo ali, exposto, sem acrescentar
nenhuma esttica ao ambiente. O imenso pacote de fraldas descartveis certamente poderia ser guardado no closet, mas ela sempre teria que se lembrar de reabastecer
a gaveta sob o trocador, sob o risco de ficar com MM nua sobre a superfcie, com a fralda mais prxima a sete metros de distncia.
- Bebs so "bagunados". Eles "espalham" coisas como um gorila de duas toneladas, ocupando todos os espaos - concluiu Keely com as mos nos quadris, observando
o quarto.
No havia mais sacolas plsticas e a maioria das coisas havia sido guardada. O bero havia sido montado com a roupa de cama combinando, mas o quarto continuava parecendo
mais entulhado do que arrumado.
- E eu desisto - concluiu ela, passando as mos pelos
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cabelos e colocando um cacho atrs da orelha. -  hora de fazer uma pausa, de tomar alguma coisa gelada e de descansar em uma boa poltrona macia.
Foi quando Keely deu-se conta de que uma manh, quase quatro mil dlares e mais duas horas de trabalho haviam arrumado moderadamente a vida de MM, mas no tinham
feito nada para mobiliar o resto da casa.
com exceo do quarto de MM, os outros cmodos do andar de cima estavam todos vazios, menos a sute principal, que era... bem, era lamentvel, para dizer o mnimo.
Aquele homem bem que podia estar morando embaixo de uma ponte.
No andar de baixo, havia apenas uma cadeira velha num canto. Uma cadeira que podia ter sido aposentada h muito tempo, uma luminria de p estilo anos 60 e uma televiso
gigantesca que exigiria toda a sua habilidade de decoradora para que o espao no parecesse um cinema ao ar livre.
Keely atravessou a sala de jantar vazia e cruzou a cozinha quase deserta, certificando-se de que MM continuava dormindo. J que no havia nenhum mvel, devia haver
pelo menos alguma comida naquela casa.
Desanimada, ela enfiou a cabea na geladeira, tentando imaginar o que poderia improvisar com catchup, mostarda, as trs ltimas mamadeiras deixadas por Cecily e
algo que ela esperava que no fosse um ovo muito velho.
Naquele exato momento, Jack surgiu do nada e falou, a poucos centmetros dela:
- Mos ao alto - disse, baixinho. - Sadie est vindo para c para nos visitar.
Keely no pretendia lev-lo a srio, mas tomara um susto to grande, que batera a cabea com toda fora na geladeira.
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- Maldio, Trehan! - explodiu ela, esfregando a cabea.
No mesmo instante, MM acordou e comeou a chorar.
- Agora, veja o que voc fez! - disse Keely, apontando para MM, cujo rosto ficava cada vez mais vermelho. - Voc acordou o beb!
- "Eu" acordei o beb?! - Jack exclamou, erguendo as sobrancelhas de um jeito que fez Keely ter vontade de esmagar o ovo na cabea dele. - Como? Eu bati a porta
quando entrei? No? Bati os ps? No. Gritei? No. No fui eu, certo? Eu estava bancando a bab, muito a contragosto, enquanto voc brincava de casinha l em cima
pelas ltimas duas horas. A, eu resolvi fazer uma pequena pausa, para ver minha tia e contar a ela o que est acontecendo, entrei na ponta dos ps pela casa, vim
sussurrando at aqui e voc d um escndalo!?
Deus, ele era convencido! Aquele homem era simplesmente... convencidssimo. Keely concluiu que detestava profundamente homens convencidos, mesmo que seus olhos fossem
do mais puro azul-cobalto. E duplamente porque, naquele caso, infelizmente, ele estava com a razo.
Assim, ela se refugiou em sua indignao e, com ou sem razo, permaneceu no ataque.
- Voc deixou o beb sozinho de novo? - perguntou ela, soltando o assento e pegando MM no colo. - Que tipo de "bab" deixaria uma criana sozinha? Primeiro, no carro...
e agora, aqui. Se voc no quer responsabilidade, Trehan, chame seu primo Joey. Eu duvido que ele seja pior do que voc.
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Jack ergueu as mos num gesto de impacincia.
- Cinco minutos! Eu s estive fora por cinco minutos! Dez, no mximo! E ela estava dormindo, droga! Estava at roncando!
Keely olhou-o com desprezo e abriu novamente a geladeira, em busca de uma mamadeira.
- Aqui - disse, entregando-a a Jack. - Misture e agite bem como a menina ensinou. Eu trocarei a fralda dela aqui mesmo, no cho. Depois, ligarei para a loja e pedirei
a eles que entreguem outro trocador e outro porta-fraldas para colocarmos em algum lugar, aqui embaixo. No sei por que no pensei nisso antes.
- Se voc pensar bem, vai se lembrar de que eu disse que precisaramos de dois porta-fraldas. Apesar disso, eu tenho uma pergunta para voc. - Jack segurou a mamadeira
na frente do corpo. - Refresque minha memria, srta. McBride. Onde, no seu contrato, est escrito que eu aceito ordens suas?
MM havia se acomodado no colo de Keely e agora estava puxando os cabelos escuros e tentando enfi-los na boca.
- Desculpe-me, sr. Grande-Astro-do-Beisebol, habituado a ter todos se curvando a sua frente - disparou Keely, encarando-o. - "Por favor", misture e agite como a
menina falou. Pronto, assim est melhor?
- Eu no gosto de voc, srta. McBride - disse Jack, ressentido. - No gosto "mesmo".
- Ah, voc o ouviu, minha querida?! - perguntou Keely, tentando tirar os dedos gordinhos de MM de seus
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cabelos. Havia sido um longo dia com aquele emprego novo e inesperado, as novidades sobre Gregory Fontaine e tudo o mais. De repente, o temperamento de Keely superou
seu bom senso e a lembrana de seu extrato bancrio. - Papai no ama mais a mame. Mas ele ainda "precisa" dela e isso o est deixando louco. No  interessante?
- Basta! Quero dizer... basta! Voc est despedida, srta. McBride. E desta vez  para valer. Eu mandarei um cheque pelos servios prestados pelo correio, mas saia
daqui agora mesmo! Contarei at trs e quero v-la fora daqui! Minha tia Sadie poder tomar conta de MM at eu pensar no que fazer, mas eu no suportaria t-la nesta
casa por nem mais um minuto. Entendeu?
- Ol! Aqui estou eu! Onde est o beb aliengena? Keely, que acabara de se dar conta de que no comera o dia inteiro e que a privao de acar a deixara com impulsos
suicidas, pois, por que outro motivo jogaria pelos ares sua nica chance de se reequilibrar financeiramente?, virou-se para a mulher que acabara de entrar na cozinha
pela porta dos fundos.
Jack virou-se tambm e naquele momento se dirigiu  tia:
- No  um beb aliengena, Sadie.  o beb de Cecily.
-  a mesma coisa-Sadie Trehan afirmou, com leveza, balanando os ombros enquanto caminhava pelo cmodo, aproximando-se de Keely e de MM. - Ah, olhe para isso! Ela
no  uma gracinha? Parece uma bonequinha. No lembra em nada meu finado e nada saudoso cunhado, graas a Deus, que continue queimando no inferno. Tambm no se
parece com Florence, o que tambm  uma bno, considerando
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que Fl e eu ramos gmeas idnticas. Eu ainda acho que Florence o traa e que seus dois filhos so do leiteiro. Quem  voc? - perguntou ela a Keely. Boa pergunta.
Keely no tinha mais certeza. Alis, no tinha certeza desde que vira Jack pela primeira vez, saindo pela porta, mais cedo, naquela manh. Tudo depois daquilo havia
sido uma experincia bastante surreal: sujeira, toalhas de papel, beb escorregadio, Gregory Fontaine mais escorregadio ainda e o fato de o empregador ser um jogador
famoso de beisebol.
Mas Sadie Trehan coroava a coisa toda. Baixinha e gordinha, de uma forma que lhe favorecia, Sadie era uma daquelas mulheres de rosto redondo que podia ter quarenta
ou oitenta anos, porque nunca envelheciam. Os cabelos eram grisalhos e cacheados; os olhos, imensos e azuis; e os dentes, perfeitos e brancos demais para serem de
verdade.
At a, tudo bem. timo. Mas quando se acrescentava  figura de Sadie Trehan uma camiseta azul-marinho do Mickey Mouse, bermuda xadrez de verde e amarelo que expunha
os joelhos rolios e um par de pantufas peludas e rosadas de gatinho? Bem, a as coisas comeavam a ficar meio esquisitas na casa dos Trehan.
- Eu... eu sou Keely McBride, sra. Trehan. Falamos por telefone na semana passada, quando a senhora me contratou - disse Keely finalmente, colocando MM nos braos
pouco dispostos de Jack. - E seu sobrinho acabou de me demitir, de forma que eu vou indo. com sorte, de volta  sanidade. Foi um prazer conhec-la.
- John James Trehan, o que voc fez? - perguntou Sdie,
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segurando Keely pelo brao no momento em que ela tentava escapar pela sada mais prxima. - Eu pensei que voc tivesse dito que ela fez um excelente trabalho esta
manh, cuidando do beb e mobiliando o quarto. Tambm pensei que voc estivesse finalmente amadurecendo e superando esse seu gnio terrvel e constante mau humor.
Ento, voc no pode mais jogar beisebol? E da? Isso no significa que voc possa sair por a, como um urso selvagem, arrancando a cabea de todo mundo. H uma
criana aqui que precisa de sua ajuda. H uma casa to vazia, que eu consigo ouvir o eco de minha prpria voz, o que no  nada agradvel. Voc no consegue ver
que h coisas mais importantes do que um jogo?
Keely ficou observando, impressionada, enquanto Sadie Trehan transformava o grande Jack Trehan em um menininho mimado e malcriado, que continuava querendo bater
em alguma coisa, mas que sabia que seria castigado se o fizesse.
- Eu sinto muito, tia Sadie - disse ele, caminhando para Keely e entregando-lhe MM novamente. - Acho que lhe devo desculpas. Eu realmente preciso de voc por aqui.
Para ajudar com MM, sabe? Pelo menos por alguns dias, at eu descobrir alguma outra coisa para fazer - admitiu ele. - No  sua culpa ter a lngua solta e uma atitude
to desagradvel.
- Ora, obrigada-Keely fez uma careta bem-humorada. - Lembre-me de pedir-lhe para fazer uma carta de recomendao para meus futuros clientes, depois que acabarmos
aqui. Agora, se me der licena, acho que vou levar MM para cima para troc-la. Depois disso, precisamos providenciar
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algum tipo de comida ou acabaremos, literalmente, arrancando a cabea um do outro.
Ela foi at o limiar da porta quando parou, suspirou e deu de ombros. Puxa! Como era bom ter sido criada com educao, em um lar equilibrado e ser dotada de conscincia.
- Est bem - disse, voltando para a sala. - Aqui vai: voc pediu desculpas e eu tambm preciso me desculpar. Sei que no tenho sido uma pessoa fcil, mas eu preciso
deste trabalho, Trehan. Pior: preciso tanto, que seria capaz de vencer qualquer obstculo que surgisse para mant-lo, o que , realmente, difcil para mim, entende?
Eu no me formei para ser bab. J tive minha prpria loja em Manhattan, mas no deu certo. O homem que voc ouviu em minha secretria eletrnica  meu antigo chefe
e ex-namorado, o que foi um tremendo erro, me dizendo que assumiu o controle de minha loja e me oferecendo a chance de trabalhar para ele novamente, o desgraado.
Assim, no foi um de meus melhores dias, sabe?
- No, eu no sabia. No deve ter sido fcil - interrompeu Jack. - Eu lamento t-la provocado chamando-a de "queridinha". De verdade.
- Est bem. Eu lamento muito no ter dado um soco em Gregory Fontaine antes de sair de Manhattan, mas as coisas so mesmo assim e essa parte de minha vida  passado
e logo ser esquecida. Agora, o que est acontecendo  o seguinte: eu voltei para Allentown para ajudar minha tia na loja dela enquanto ela faz um cruzeiro nas Ilhas
Gregas ou onde quer que seja, em lua-de-mel. Estou afundada em dvidas at as orelhas. Sei que tenho sorte de ter um telhado
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sobre minha cabea, mas enquanto ela estiver fora, eu ficarei com cinqenta por cento das comisses de todos os trabalhos. Para manter esse trabalho, eu farei o
que voc pedir: cuidarei de MM, passearei com o cachorro, limparei a piscina, o que for. Eu me odiarei e a voc tambm, mas juro que o farei. S estou tentando lhe
dizer que no fui talhada para ser uma Fadinha do Lar e que nunca fiz, nem tenho a menor idia de como fazer biscoitos... nem hoje, nem quando as coisas melhorarem,
est bem?
- Rabo, orelhas, cachorro, piscina, nada de biscoitos. Entendi. Mas cinqenta por cento do qu? Eu sei que j deveria ter perguntado porque j vi o estrago que voc
 capaz de fazer em uma manh. At terminarmos de mobiliar esta casa, eu provavelmente estarei vivendo do auxlio-desemprego do governo para pag-la.
- Duvido. Cy Young? Aposto que seu contrato tinha mais zeros do que eu seria capaz de contar. E eu estou contando que pelo menos um desses zeros seja meu. Agora,
onde estvamos? Ah, sim... Voc parecia um presente dos cus, Trehan, minha salvao. E a, me entregou esta criana como condio para me empregar. Eu no sei nada
sobre bebs, alm do que aprendi no cinema, na televiso e nos comerciais. Nada! Mas isso no significa que eu no precise de seu dinheiro ou que voc no precise
de minha ajuda. Voc no gosta de mim? timo. Eu tambm no sou louca por voc. Pelo que vejo, voc est acostumado a fazer tudo de seu jeito e a ser tratado como
uma pessoa importante, um heri dos esportes. Bem, parabns para voc. Estou impressionada. Mas "tudo" o que eu quero  meu trabalho, todo
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ele. Quero tirar o mximo de dinheiro de voc que conseguir, para poder ir "embora" de Allentown e voltar para meu lugar. Voc  capaz de entender isso, no? Quero
dizer, voc no foi a nica pessoa afastada da Liga Principal, entende? E no  o nico com problemas. Ah, e se no parar de chamar esta pobre criana abandonada
de MM, vou acabar dando um soco em voc. Est claro?
- Perfeitamente. E no pragueje na frente do beb.
- Ah, Jack, Jack, Jack... - disse Sadie, com um sorriso to largo quanto o do Mickey Mouse em sua camiseta. - Fique com ela, rapaz. Voc nunca mais vai encontrar
algum to honesto.
- Pare com isso, Sadie - Jack lanou para a tia um olhar que s a fez sorrir mais. Ento, pegou as chaves do carro, foi para a porta e, com a mo na maaneta, voltou
os olhos para Keely.
- Cuide de M... da criana, est bem? Eu no vou demorar.
- Ora, isso no foi desagradvel? - perguntou Sadie, quando ele bateu a porta. - Eu me ofereceria para ajud-la, querida, mas no sei absolutamente nada sobre crianas
e venho me recusando a aprender nos ltimos sessenta anos.  um recorde, e eu no quero perd-lo. Alm disso, minha aula de cermica comea em vinte minutos e eu
ainda tenho que pegar Mitzi. Se no sair imediatamente, vou me atrasar. Ns vamos comear a decorao de Dia das Bruxas hoje e vamos aprender tcnicas com abboras.
As minhas vo ser cor-de-rosa. Quero dizer, para que fazer apenas o bvio, no ? Seria chatssimo. E eu "adoro" rosa!
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- Abboras cor-de-rosa? - perguntou Keely quando Sadie fez uma pausa para respirar. - Bem, no sei... eu acho...
- Deixe para l. Eu farei uma para voc.  o mnimo que posso fazer. No me lembro da ltima vez em que vi Jack to completamente envolvido com alguma coisa. Ele
vivia no fundo do poo desde que se aposentou, e  bom ver um pouco de fogo nos olhos dele de novo. Nem Timothy conseguiu convenc-lo a fazer nada alm de ficar
sentado, resmungando, lamentando a prpria falta de sorte e fazendo comentrios desagradveis. Foi uma surpresa que ele e Timothy no tenham acabado brigando. Agora,
d para ver que ele est "vivo" novamente. Mas se voc aceita o conselho de uma velha senhora, talvez seja melhor voc suavizar um pouco a mo, agora que j demonstrou
seu ponto de vista, s para garantir que ele no a demita de novo. Sei que voc vai fazer muito bem a ele. Voc e esta coisinha aqui. Ah, e por falar nela, ser
que voc no deveria "aquecer" o leitinho dela? Bem, deixe para l. Eu no quero nem saber. Agora, tenho que ir!
Keely abriu a boca, estendeu a mo com um dedo em riste, prestes a chamar Sadie Trehan de volta, mas logo mudou de idia. Algumas coisas ficavam melhores se fossem
deixadas em paz.
- Aquecer o leite? Isto parece fazer sentido, mas como  que eu ia saber? Espere um minuto... ns compramos um microondas. Como eu poderia ter esquecido disso? Puxa,
estou ficando louca. Venha c, querida - disse ela, caminhando para as escadas que levavam da cozinha para a parte de trs do salo superior.
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Parou no topo da escada e olhou pela janela a tempo de ver um pequeno conversvel vermelho literalmente voando pela estrada, com Sadie ao volante.
- Ainda bem que eu no tentei det-la, hein?! Que mulher estranha... Alis, minha querida, voc tem uns parentes bem estranhos, hein? Bem, agora, vamos trocar sua
roupa e passar um pouquinho de talco em seu bumbum. Depois, vamos ler as instrues das mamadeiras que acabamos de comprar e descobriremos o que o dr. Spock recomenda
depois disso. Afinal de contas, eu tenho nvel universitrio. Sou perfeitamente capaz de ler instrues. O que voc acha de meu plano?
No ltimo momento, Jack afastara-se da garagem, concluindo que precisava de uma boa caminhada. Se entrasse no carro, corria o risco de cometer uma loucura, de to
irritado que estava.
Deus, que manh! Beb na porta, espertinha na cozinha, Sadie  solta... No conseguira nem mesmo ver os resultados dos jogos na ESPN.
No que o mundo fosse acabar se no conseguisse saber o resultado do jogo dos Yankees na noite anterior. Afinal, ningum dos Yankees telefonara para saber como "ele"
estava passando, certo?!
Ningum escrevera, nem ligara, nem dera a mnima bola.
Ele era notcia antiga. Um lanador que poderia ter ido para o Hall da Fama, um "ex" que agora s servia para fazer discursos em jantares comemorativos para jovens
esportistas
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e para aparecer em jogos de veteranos, com a barriga transbordando para fora da cala.
Enquanto isso, Tim ia de vento em popa como apanhador. Jogando. Encantando. Galgando postos para participar do time de Ali Stars no ms seguinte. Havia dezenas de
mulheres orbitando em volta dele e a ESPN no parava de ligar pedindo entrevistas. Tudo isso, alm de conseguir as melhores mesas em restaurantes, ser reconhecido
nas ruas, sair com os rapazes, contar histrias e piadas sobre os lanadores dos outros times.
E no ser obrigado a amadurecer, droga!
Este pensamento o deteve no momento em que Jack estava prestes a chutar uma pedra que, de alguma forma, surgira em seu gramado bem cuidado. Amadurecer? Ele no era
maduro? "No queria" ser maduro!
Um jogo. Sadie dizia que a profisso dele era um jogo. Para os fs, de fato era. Para aqueles que trabalhavam dentro das linhas brancas, era muito, muito mais que
apenas um jogo.
Domin era um jogo. Damas era um jogo.
Beisebol? Ora, beisebol era um meio de vida!
Jack arrancou um tufo de grama com o p e se sentou, recostando-se no tronco de uma rvore.
O beisebol nunca havia sido um jogo para ele; porque, mesmo que o esporte fosse considerado um jogo, o que acontecia dentro do campo era uma "disputa". Ele fechou
os olhos, lembrando-se de uma citao de Pete Rose: "Eu andaria at o inferno com uma roupa encharcada de gasolina para jogar beisebol".
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Jack podia imaginar muito bem o que Pete estava sentindo quando fizera aquele comentrio: era como um grito, vindo diretamente do corao.
Sabia que para ele no havia mais nada. Nunca quisera aprender nenhuma outra coisa. Vivera para as imagens, os sons, os cheiros do beisebol.
A expresso no rosto do batedor quando girava nos calcanhares e s conseguia acertar o ar, no momento em que a bola curva de Jack passava zunindo pelo basto e o
rudo surdo da bolinha aterrissando na luva do apanhador. As trs bolas fora, o jogo absolutamente perfeito. Suas meias da sorte.
A longa caminhada at a base, a caminhada, geralmente ainda mais longa para o banco. Os colegas. Os fs. A ateno. Tudo, tudo. Mas era do jogo que sentia mais falta.
Da cincia, da fsica, das estratgias, da sensao da bola em sua mo, da exploso de fora quando a lanava. Os amigos, os treinos, as piadas que faziam quando
no havia mais nada a fazer no banco porque o placar j estava dezesseis a zero. O som das travas do tnis quando caminhava para o vestirio. Droga! Ele amava aquilo.
Amava aquilo tudo. E sentia tanta falta de tudo.
- Deus... - murmurou Jack, esfregando o rosto, tentando afastar as lembranas da memria. - Eu perdi o jogo, tenho uma casa vazia, a filha de Cecily, uma chata metida
a espirituosa disposta a zerar minha conta bancria e a me enlouquecer e um monte de "nada" em que me concentrar.
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Bastava uma reunio com os advogados e meu dia estaria completo.
Desanimado, ele se levantou, pegou as chaves do carro no bolso e foi para a garagem.
Tenho que pr um fim nisso. Odeio que tenham pena de mim, mas Sadie tem razo. Estou pssimo, pattico at. Preciso fazer alguma coisa. E logo.
No fim do corredor, Keely virou o carrinho de compras para a direita e dirigiu-se para o corredor seguinte. Estava com saudade de fazer compras em um mercado imenso,
onde era possvel encontrar tudo, de toalhas de papel a fil mignon, de uma nica vez. Manhattan era cheia de delicatessens e lojas pequenas, superespecializadas.
Para fazer uma nica refeio, podia ser necessrio parar em quatro lojinhas diferentes, com preos de arrebentar qualquer oramento.
Ela virou no corredor dos vegetais enlatados, molhos e dez mil variedades de massas e teve que afastar MM rapidamente, antes que sua mozinha gil agarrasse uma
lata de milho.
- Voc tem mais tentculos que um polvo, menininha
ela murmurou, tentando empurrar o carrinho com uma s Mo... at o momento em que o carrinho bateu em outro, que vinha na direo oposta.
-- Ah, eu sinto muito - desculpou-se ela, verificando, instintivamente, se o beb estava bem, apesar de saber que a prendera com segurana no assento. - Eu no estava
olhando para onde ia.
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- No me diga, Sherlock.
Keely ergueu os olhos diretamente para os olhos belssimos, perturbadores, sensuais e ao mesmo tempo cheios de reprovao de Jack Trehan.
- Voc! O que est fazendo aqui?
- Lembrando de piadas sobre mulheres ao volante? - sugeriu ele e ento acrescentou: - Eu estou faminto,  por isso que estou aqui. Um homem no pode viver s de
quarteires com queijo do McDonald's. Eu sei disso porque tentei. E voc? Por que est aqui? E quem est pagando a conta? - perguntou ele, gesticulando para o carrinho
abarrotado.
Keely olhou para o contedo do carrinho.
- O Midol e o xampu so para mim. A nota com o resto das compras ser entregue a voc. Voc gosta de frango? Eu pensei em comprar frango para o jantar. Ou voc ainda
no havia pensado que, morando naquela casa, eu vou ter que comer? Acho at que, num ato de extrema boa vontade, eu cozinharei para voc enquanto estiver l.
Ela apontou para um saco branco dentro do carrinho.
- Voc quer uma rosquinha? Eu j comi trs, mas ainda sobraram duas. Ou voc almoou em outro lugar?
Jack olhou para ela pelo canto dos olhos.
- Voc sabe cozinhar? - disse ele, no mesmo tom que usaria para perguntar se Keely fazia bombas domsticas em seus horrios livres. -
- Sei, sim - ela afirmou com um sorriso. - Ah... e eu comprei umas panelas descartveis para fazer o frango e umas batatas para assar, mas depois vou ter de fazer
muito mais compras para abastecer a casa de loua, assadeiras e utenslios de cozinha. No gosto nem um pouco de pratos
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de papel e, desculpe perguntar, mas h quanto tempo voc mora naquela casa? Vivendo como... como... bem, no  possvel que tenha sido por muito tempo.
- Menos de uma semana - Jack explicou enquanto manobrava o carrinho para que pudessem andar pelo corredor, lado a lado. - A casa foi construda no ano passado e
Sadie se mudou para a casa em cima das garagens, mas eu nunca pensei em realmente "morar" l. Pelo menos, no pelos prximos dez anos. Eu tenho um apartamento em
Manhattan.
Keely pegou dois pacotes de espaguete nmero onze.
- Ah, o apartamento obrigatrio em Manhattan. com vista para o parque, certamente. Muito bem,  bom ser um homem de sucesso. Eu morava no terceiro andar de um prdio
sem elevador no Brooklyn, sem ar-condicionado no vero e com muito pouco aquecimento no inverno. E sinto uma falta terrvel de l.
- Como eu viajava muito com o time, fazia todo sentido ter uma base em Nova York - disse Jack, colocando cinco latas de chili no carrinho, ao lado de dois grandes
potes de molho de tomate e de duas embalagens econmicas de tortilhas de milho. Obviamente, o homem era um grande conhecedor de porcarias e tinha um estmago de
ao. Os nicos outros itens em seu carrinho eram um guia da tev, um pacote de carne-seca e uma embalagem de salsichas apimentadas.
- Vejo que voc consome todos os grupos bsicos de Pimentos: temperos, gordura e conservantes. Talvez seja uma boa idia pegar tambm algumas balas de hortel e
um anticido. Ento, voc no voltava para c nem para visitar fora da temporada?
Tim, o meu irmo, tem uma casa aqui e eu costumava
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ficar com ele quando estava na cidade. A casa foi apenas uma forma de reduzir os impostos e de dar a Sadie um lugar para morar, nada mais. Ou, pelo menos, era.
- Eu gosto de sua tia Sadie. Ela vai fazer uma abbora cor-de-rosa para mim na aula de cermica. - Os dois se dirigiram ao corredor seguinte, enquanto o beb se
encantava com as luzes do teto. - Sabe - disse Keely, depois de alguns segundos -, acho que estamos conversando. Nossa primeira conversa de verdade desde que nos
conhecemos, esta manh.  bastante bom no ficarmos jogando pedra um no outro o tempo todo, especialmente porque agora estamos morando juntos. Voc est to surpreso
quanto eu?
Jack parou o carrinho e ela teve que virar-se para olh-lo.
 - O que foi que eu disse para deixar voc mal-humorado? - perguntou ela, igualmente disposta a conversar ou a brigar. Aquele homem definitivamente despertava o
pior dela. Rico. Desocupado. Vadiando, assistindo a seus investimentos se multiplicarem e jogando o trabalho de verdade nas costas dos outros. Apesar de tudo isso,
sentindo muita pena de si mesmo, como se sua vida tivesse terminado. Keely gostaria que ele tivesse a chance de experimentar a sensao de ficar desempregado "e"
falido para ver se gostava!
 - O que foi?
- Nada - disse ele, um momento depois. - Eu s...  que... ns vamos viver juntos por um tempo, como voc disse, mas isso  s por causa de MM e por nenhum outro
motivo. No quero que voc ponha idias na cabea.
- Ponha... o qu? Ah, pelo amor de Deus! - disparou Keely, meneando a cabea. - V embora, Jack Trehan. Saia
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daqui agora, enquanto sua cabea ainda passa pela porta e voc consegue chegar ao estacionamento. Pr idias na cabea? Certo. Como se isso pudesse acontecer. Venha,
minha querida, acho que me deu vontade de comprar uns doces bem caros e um monte de sorvete.
- Ei, espere... no v comprar tudo e... ah, deixe para l - resmungou Jack,  medida que Keely se afastava com o outro carrinho.
Ela nem se virou para olhar.
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Captulo V

..mas as palavras mais tristes que um lanador pode ouvir, so: "Tirem-no daqui".
Christy Matthewson, lanador
Os cartes de dbito e a linha de crdito da tia Mary no sofreriam um grande abalo por algum tempo, pelo menos no at Jack Trehan fazer um belo e polpudo cheque,
mas Keely havia feito compras muito satisfatrias nos ltimos dois dias.
com MM no colo, ela a chamava apenas de "beb", porque no conseguia sequer pensar em cham-la de MM, como Jack o fazia to naturalmente, Keely partira em uma misso
de "busca e apreenso" em lojas de departamento como a Macy's, a Strawbridges, a Sears e at o Wal-Mart, em uma sanha de compras que provavelmente no era vista
nem na i Casa Branca j havia muito tempo.
Agora, tinham vasilhas e panelas, dzias delas. Tinham at mesmo uma panela para cozinhar no vapor, que Keely sempre desejara secretamente, mas nunca comprara para
si
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mesma. Ela escolhera lindos pratos no Per One e usara as cores da loua decorada com frutas, azuis, verdes, vermelhos envelhecidos e amarelos-mostarda, para compor
os acessrios para o resto da cozinha.
Agora, havia um suporte de madeira com excelentes facas profissionais no balco, perto de uma torradeira branca, um liqidificador, um multiprocessador que deveria
ser banhado em ouro, de to caro, e um mixer com motor suficiente para misturar concreto.
No centro da cozinha, acima da ilha central, havia um imenso suporte de ferro rstico que sustentava o novo conjunto de panelas com base de cobre. Um pouco adiante,
uma mesa com tampo de vidro, ps de ferro e quatro cadeiras combinando, jazia abaixo de uma luminria estilo Tiffany, que reproduzia as uvas e o motivo de frutas
da loua. O mesmo motivo, alis, tambm estava presente em uma elegante e leve tigela para frutas, estrategicamente colocada sobre a mesa.
Ainda faltavam alguns detalhes, como as plantas em vasos que Keely pretendia colocar em um canto, perto das portas francesas que conduziam ao ptio, mas aquilo podia
esperar. Era hora dos essenciais. E, sim, Keely havia concludo que uma elegante tigela para frutas sobre a mesa da cozinha "era" essencial.
Havia comeado pela cozinha, evoluindo rapidamente para os banheiros, onde os azulejos em bege facilitavam a escolha de qualquer combinao de cores que a agradasse.
Cores que seriam repetidas das cortinas s toalhas, passando pelos acessrios de toucador e os felpudos e elegantes tapetes.
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Havia decorado o banheiro feminino com tons de azul e lils, o segundo banheiro em tons de verde-folha e amarelo brilhante e o banheiro principal em branco e preto.
O banheiro de hspedes, que ela prpria ocuparia, teria como cores dominantes pssego e verde e os demais ficariam para outro dia.
A incapacidade de completar o trabalho a incomodava quase tanto quanto ter de parar a cada poucos minutos para ver como o beb estava, para ver se o jantar j estava
pronto, para colocar as toalhas na mquina de lavar e para tentar imaginar onde estaria Jack Trehan, porque o danado quase nunca estava em casa.
No que aquilo a incomodasse. No, desde que ele aparecesse na hora das refeies.
Mas, ser que ele no podia demonstrar nem um pouco de interesse por tudo aquilo? Provavelmente, no. Desde que conseguisse estender a mo para fora do chuveiro
e pegar uma toalha seca, Jack no fazia a menor questo de saber se ela havia vasculhado o shopping inteiro atrs da textura certa, ou do tamanho certo. Se pudesse
simplesmente se sentar e comer frango assado com batatas recheadas, ele no se interessava em saber que Keely havia lavado as batatas enquanto segurava um beb manhoso,
que s parava de chorar quando estava no colo.
Aquilo era outra histria: Keely estava sendo submetida a um curso intensivo sobre como cuidar e alimentar bebs, e descobrira que no era nada fcil. Havia assistido
aos vdeos, lido os livros e MM era um bom beb. Mas aquilo no significava que no continuasse nervosa, ou que quisesse
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passar o dia inteiro falando com um beb que no conseguia fazer nada alm de sorrir para ela. Sentia-se como uma esposa abandonada, estressada e uma me sobrecarregada.
O pior de tudo: no era nem ao menos casada.
Aquele homem no tinha a menor considerao. Essa era a verdade. Ele andava pela casa numa espcie de transe, passava horas e horas em frente  televiso para ento
desaparecer sem deixar rastros, indo sabe-se l para onde e aparecendo apenas para comer, tomar banho ou assistir a mais um jogo pela televiso. Para ele, nem Keely,
nem MM existiam.
E havia mais uma coisa: o telefone nunca tocava. Ser que no devia tocar pelo menos de vez em quando? Ser que ele no tinha amigos? Mas, por que deveria ter? Afinal,
Jack no era exatamente um tipo amistoso, certo?
Ainda assim, Keely no podia dizer que no estivesse tendo os melhores dias de sua vida. Jack estabelecera poucas regras: cuidar da criana e mobiliar a casa. Sem
oramento, sem limites, sem "ser que d para pintar um quarto para combinar com a cor dos meus olhos"? Ele era o empregador mais desligado com o qual uma decoradora
podia sonhar e todas as noites Keely somava o que havia gasto, calculava os dez por cento e dividia o resultado por dois. Ainda no estava rica, mais ia chegar l...
e mal havia comeado. Ainda havia eco na casa.
Mas naquele momento ela precisava da ajuda dele. No seria capaz de mobiliar quinze cmodos "sem" algum tipo de informao do cliente e no era fcil tentar entender
o gosto dele baseada em uma cadeira velha, uma televiso e um abajur com uma danarina de hula-hula.
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Assim, Jack teria que acompanh-la em sua prxima sada s compras, mesmo que no quisesse. O difcil seria faz-lo entender isso.
- Voc precisa de um sof - Keely comentou na quartafeira  noite, durante o jantar, enquanto colocava uma tigela com pur de batata com alho sobre a mesa e se sentava
diante dele. Se houvesse algum espiando pelas janelas, veria uma cena muito domstica. ... As aparncias enganavam.
- Eu preciso de muitas coisas - respondeu ele, pegando a tigela. - Compre-as.
- Sim, eu concordo em compr-las. Mas comprar "o qu"? O estilo provinciano francs no parece ser uma boa idia, mas eu tambm no o vejo como algum que deseje
muito ao escovado e coisas extremamente modernas. Alm disso, h o problema da entrega. Eu no posso encomendar tecidos especiais ou comprar em lojas onde no haja
mveis para pronta entrega, o que limita demais minhas opes. Eu detesto isso.
Jack estendeu as duas mos, num gesto que mostrava cinceramente que queria silncio.
- Eu s no estou entendendo por que tudo isso  problema "meu"?
Por um momento, Keely imaginou a possibilidade de encher sua colher com pur de batata e lan-la por sobre a mesa, direto na cara dele.
- Ah, eu no sei... - falou, cerrando os dentes. - Talvez seja um problema seu porque  voc quem vai ter que "viver" com minhas escolhas. Por exemplo, voc gostou
do tema em preto e branco de seu banheiro?
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- H um tema? - perguntou Jack, erguendo as sobrancelhas. - Ora, est bem. Ento, eu tenho um tema. Quem diria? Pensei que tivesse toalhas.
- E tapetes, acessrios e... ah, esquea. Sim, voc tem toalhas. Graas a mim, voc as tem. Agora, precisa de um sof. Cadeiras, luminrias, tapetes, cortinas. Quadros
para as paredes e peas de decorao. Voc est dizendo que quer que eu escolha tudo? Quer deixar as escolhas "inteiramente" por minha conta? Eu poderia achar que
pele falsa de leopardo ficaria perfeita nas paredes da sala de jantar, sabe?
Jack suspirou.
- Olhe, Keely, eu sei que isso no faz muito sentido para voc, mas eu no ligo, est bem?
- Pois ligaria se eu comprasse o modismo mais desconfortvel que pudesse encontrar - interrompeu ela.
- Ser? Eu tenho vivido com uma cadeira e estou me virando bem. MM tem muito mais mveis que eu. Quem se importa?
- Quem se importa? Eu tenho dormido no cho nas ltimas duas noites e voc diz "quem se importa"?
- Ento, compre uma cama. Compre seis camas. H seis quartos, certo? Simplesmente faa, est bem?
Keely recostou-se, meneando a cabea.
- Eu no entendo. Voc est deprimido? Est to arrasado assim por no poder mais jogar beisebol? Ser que no seria bom procurar ajuda profissional?
- Ah, timo, timo... - disse Jack, batendo com o garfo no tampo da mesa. - O que vem agora? Voc vai tentar meanalisar", Keely? E eu no estou deprimido, droga!
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- At parece... - Keely murmurou por entre os dentes, recebendo em troca um olhar irado que era um alerta para manter a boca fechada. O problema era que Keely no
dava importncia a alertas.
- Eu estou pensando em alugar a casa,  isso. - Jack pegou novamente o garfo e enfiou-o num pedao de costeleta de porco. - S preciso dos mveis at resolver o
que fazer com MM e onde deix-la enquanto Cecily no volta. Depois, provavelmente vou alugar este lugar, mobiliado, se voc fizer seu trabalho, e sem mveis, se
no fizer. Meu lugar no  aqui.
Keely parar de ouvir no momento em que ele mencionara MM.
- Onde deix-la? O que voc quer dizer com "onde deix-la"? Ela vai ficar aqui, com voc.
- Isso  impossvel - disse Jack, seco. - Talvez... Bem, talvez eu v para o Japo.
- Japo? - Keely cerrou os olhos, sabendo que estava repetindo o que ele dizia, demonstrando um interesse que no devia demonstrar e que acabaria se metendo em alguma
encrenca. - O que h no Japo?
- Beisebol - disse Jack, cuspindo a palavra como se ela ardesse em sua lngua. Eu s poderia lanar a cada quatro ou cinco dias e s como reserva, mas ainda sobrou
brao para umas duas ou trs temporadas. No nos nossos times, mas por l, eu vou ficar bem. Talvez at consiga me recuperar. As vezes, isso acontece.
Keely recostou-se na cadeira e o encarou.
- Voc  louco - disparou com franqueza. -  mesmo,
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 Jack Trehan. Est se arriscando a estragar seu brao de vez, talvez at a ficar aleijado por causa de uma ou duas temporadas de beisebol a mais... no Japo? E quanto
ao beb? Voc simplesmente partiria, deixando-a aqui? Como poderia fazer uma coisa dessas?
Jack empurrou a cadeira para trs e se levantou.
- No acredito que estejamos tendo essa conversa! - exclamou jogando o guardanapo na mesa. - com isso, ele saiu andando e bateu a porta da cozinha como um marido
furioso... enquanto Keely ficava ali, como uma esposa frustrada e ofendida.
E eles nem ao menos eram casados.
Jack sabia o que havia de errado com aquela casa. No havia portas o bastante. Os cmodos do piso principal meio que se mesclavam uns aos outros at a sala de visitas
principal, com algumas paredes de diviso, feitas apenas para encostar mveis. Ele no queria sofs, queria portas! Portas que se fechassem deixando tias, bebs
e uma mulher que sempre parecia estar onde ele no queria, com a trena em mos, disposta a aniquilar sua conta bancria a qualquer custo.
Jack pegou o telefone no escritrio, foi at o banheiro feminino e trancou a porta atrs de si. Sentia-se um idiota. O grande astro do beisebol, ex-grande astro,
escondido no banheiro.
Bem, azar. Furioso, ele discou os nmeros do celular do irmo.
- Paradise Hotel.
- Ah, por favor, reserve-me dois quartos com vista para o  parque, est bem? - pediu Jack, meneando a cabea.
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- Ol, Jack - disse Tim Trehan. - Me desculpe, pensei que fosse outra pessoa.
- Aposto que sim. E voc sabe qual  o nome dela, ou se esqueceu de novo de perguntar?
- Eu me lembro, eu me lembro. S um momento. Trixie? No, essa foi em Cincinatti. Est bem, agora eu lembro, Se aqui  Chicago, s pode ser Suzanne. Est vendo?
E voc pensou que eu fosse do tipo que seduzia e abandonava.
- E  - devolveu Jack, apoiando-se na pia, imaginando se Tim estava ouvindo o eco do outro lado da linha. - Foi um belo jogo, ontem. Eu vi pela tev a cabo. Voc
ainda est bem a frente do segundo colocado, seu danado. Mas um dia desses, algum vai pegar voc de jeito e nada fica pior em uma manchete de jornal do que um apanhador
cheio de si, que acaba caindo para o segundo lugar.
- Bem, voc nunca ficou alm do segundo lugar, irmozinho - disparou Tim, rindo. - Ainda bem que seu negcio era lanar a bola, porque voc certamente seria um fiasco
rebatendo. E a?
- Nada. Estou vendo o capim crescer. Voc devia experimentar,  muito relaxante.
- Eu passo, obrigado. Eu quis dizer... como vo as coisas? Voc parece meio... oco?
Certo. Ento, Tim estava ouvindo o eco.
- Est bem. Eu quero lhe pedir um favor.
- Ah, um favor... Se tem alguma coisa a ver com eu precisar fazer xixi em um frasquinho e me fazer passar por voc em uma audincia de paternidade, esquea. At
porque, eu acho que temos o mesmo DNA.
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Era uma velha piada entre eles, mas mesmo assim, Jack sorriu. Como eram gmeos idnticos, eles haviam trocado de lugar para fazer provas de escola, consultas ao
dentista e at para encontrar uma namorada ou duas.
- No. Juro que no  nada nesse sentido. Mas eu preciso de sua ajuda.
- Diga -- pediu Tim, e Jack ouviu-o se movimentando pelo quarto do hotel, provavelmente se aprontando para ir para Wrigley Field, para o jogo das quatro horas.
- Mort vai mandar um olheiro aqui na sexta-feira de manh - disse Jack, e ficou esperando a resposta do irmo.
- Olheiro? Que tipo de olheiro? Um caa-talentos? Mort arranjou para voc participar de um filme? Voc esteve timo naquele comercial de televiso, mas eu acho que
voc ainda no est pronto para o cinema de verdade, meu irmo. Mas essa  minha opinio. Eu no sei das coisas, certo? V em frente!
- Um olheiro de beisebol - disse Jack. Ento, comeou rapidamente a explicar-se, a tentar vender sua idia. - Eu sei que estou aposentado, mas os Yankees iam mesmo
me dispensar porque meu contrato acaba no ms que vem e eles no ligam se eu voltar a jogar, desde que no seja aqui. Assim, Mort arrumou um olheiro para vir me
ver. Um olheiro de um time de beisebol japons. Eu no quero fazer propaganda de desinfetantes bucais. Quero lanar bolas. E eu ainda sou capaz disso, Tim. No durante
o jogo todo, nem nas principais ligas, aqui nos Estados Unidos, mas meu nome seria o bastante para encher uns estdios japoneses por alguns anos.
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Houve um silncio completo e profundo do outro lado do telefone.
- Tim? Voc ainda est a? Ei, eu no quero ouvir sua opinio, est bem? Apenas me ajude. Eu no posso abandonar o jogo ainda, Tim. No estou pronto. O teste tem
que ser secreto porque eu no quero que a imprensa sequer sonhe com isso. Voc volta de seu jogo hoje  noite e pode vir para a Filadlfia amanh de manh, me encontrar
no campo do colegial e fazer uns lanamentos por mim. Como nos velhos tempos, Tim. Eu lano, voc apanha. Vai ser como se estivssemos brincando. Ningum vai perceber
a diferena. Tim? Tim, diga alguma coisa.
 - Voc est maluco - respondeu Tim finalmente. Jack estava comeando a sentir certa tendncia... Primeiro Keely e agora, Tim. Os dois achando que ele era louco.
Mort no achava que ele era louco, mas Mort faturava dez por cento de cada centavo que Jack ganhava, o que talvez no o tornasse uma opinio isenta.
- Est bem, Tim. Eu sou louco. Agora, feche os olhos um momento e pense nisso: algum bate em sua porta nos prximos cinco minutos e o tcnico entra dizendo que
voc ser incondicionalmente liberado, se no se aposentar espontaneamente. Voc est acabado e, na opinio dele, nenhum outro time do pas vai querer fazer contrato
com voc. E o pior  que ele tem razo: ningum quer mesmo. O que voc faria, Tim? Aceitaria tudo, seria homem, iria para casa e arrumaria um hobby pelos prximos
cinqenta anos? Talvez jardinagem. Voc gostaria de se dedicar  jardinagem, Tim?
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- Jack, as coisas no so assim - contestou. E Jack visualizou o irmo, andando pelo quarto e meneando a cabea. - Voc no quer sair assim. Uma sombra pattica
e triste, digna de pena, do que era antes...
- Passado? Era s o que eu fazia, Tim, e voc sabe disso. Se no fosse pelo meu ombro, eu ainda estaria l, lanando minhas...
- Jack - Tim interrompeu-o com firmeza. - Voc provavelmente vai para o Hall da Fama. Claro. Voc foi lanador dos principais times nos ltimos sete anos. Sandy
Koufax no fez tanto e foi para o Hall. Talvez voc no entre nas primeiras eleies, mas certamente acabar l. Voc tem dois Cy Young, trs prmios da Srie Mundial.
Vai arriscar tudo isso para jogar uma bola medocre com um brao medocre? As pessoas se lembram do que vem por ltimo. Quer que se lembrem de voc com o uniforme
listrado dos Yankees, ou fazendo lanamentos sem efeito em um joguinho idiota?
Jack se sentou no nico assento disponvel.
-- Eu no agento, Tim. Juro que estou tentando, mas no agento. Tenho que tentar mais uma vez, tenho que pelo menos "tentar" voltar para o jogo.
Houve mais um pequeno silncio e Tim acrescentou:
- Est bem, Jack. Voc est falando do campo do Whitehall High? Eu consigo estar l s nove. Sexta-feira de manh, est bem?
Jack sentiu o corpo todo relaxando de alvio.
- Obrigado, Tim. Eu sabia que podia contar com voc.
- Ah, ? Bem, voc pode. Porque sou eu que vou estar
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pegando a bola que voc lanar, lembre-se disso. E se eu disser que voc no tem mais jeito,  porque no tem e pronto. Ser que voc est pronto para ouvir isso
de mim, seu irmo?
- No. No estou pronto para ouvir isso - disse Jack, com honestidade. - Mas eu acreditarei em voc. At amanh. E obrigado.
Jack desligou o telefone e saiu do banheiro, imaginando onde Keely, a Mulher Maravilha da Decorao, estaria. Provavelmente, pronta para saltar de onde menos se
esperava, perguntando a ele se preferia cedro ou mogno.
Nada. Ela no estava na sala de estar, medindo o espao para as cortinas. Nem estava no escritrio, olhando com dio para o perfeito aparelho de televiso. No estava
na cozinha, apesar de haver algo l que cheirava muito bem, Jack tinha quase certeza de que era algo dentro de uma panela no balco. Cozido? Ele foi at l e levantou
a tampa, para deixar o vapor escapar. Sim, cozido. Ele gostava de cozido. Mas no diria isso a ela.
Jack ergueu os olhos para o relgio que Keely havia pendurado em cima da pia, tentando calcular quanto tempo ainda faltava para o jantar e decidindo ir at a garagem
para espairecer um pouco. Uma vez l, pegou uma roda, um pedao de corda e uma rede forte e prendeu-os na porta, improvisando um alvo para trabalhar o brao. O interior
da roda era a rea restrita para os arremessos. Era assim que havia aprendido, tantos anos antes e era assim que ia trabalhar agora.
Determinado, Jack estendeu o ombro direito e massageou-o. Certo. Estava ligeiramente dolorido. Um pouco mais
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que ligeiramente. Como poderia no estar? Ele no lanava havia dois meses! E talvez estivesse forando um pouco as coisas com trs treinos por dia. Mas o fato era
que, se aquilo no funcionasse, teria o resto da vida para descansar.
Estava a caminho da porta dos fundos quando ouviu o rudo e parou. Era MM. Chorando. O som chegou at ele vindo da escada dos fundos. Jack esperou um momento e depois
caminhou novamente para a porta, hesitando com a mo na maaneta. A criana ainda estava chorando, e cada vez mais alto.
Os gritos foram ficando cada vez mais agudos e enfurecidos.
- Ah, droga! - reclamou Jack, girando a maaneta e se dirigindo para as escadas.
Aquilo no fazia parte de seus planos. Precisava de MM tanto quanto de uma cirurgia do ombro. Maldita Cecily. Maldita Keely por no cumprir sua parte do acordo.
Maldito fosse ele por ter se metido naquela encrenca, em primeiro lugar. Devia ter chamado Joey ou, melhor ainda, o Juizado de Menores no momento em que encontrara
MM em sua porta. Seria o que qualquer homem so teria feito.
Jack atravessou o corredor, olhando para todos os cmodos pelos quais passava, procurando Keely. Era como se ela tivesse desaparecido no ar.
A porta do quarto de MM estava aberta e seus gritos enchiam o corredor do primeiro andar. Suspirando, Jack endireitou os ombros e entrou para avistar MM sentada
no colcho do bero, com um macacozinho delicadamente florido e os cabelinhos loiros grudados na cabecinha numa combinao
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de suor, lgrimas e provavelmente saliva. As faces estavam coradas e os imensos olhos azuis se sobressaam, como duas violetas. Duas violetas? De onde ele havia
tirado aquela comparao?
Jack meneou a cabea e aproximou-se do bero.
- Ei, mocinha, qual  o problema? - perguntou. MM parou de chorar e olhou para ele com o lbio inferior trmulo. Ento, o corpinho todo estremeceu. Finalmente, ela
ergueu os bracinhos para ele, enquanto uma ltima lgrima descia pelo rosto gordinho.
- Ah, no! - disse Jack, recuando um passo. - No nesta encarnao. No outro dia, eu fiquei algumas horas com voc e elas j valeram por um ano inteiro. Chega, est
bem?
MM estremeceu de novo e fungou. Ento, respirou fundo e emitiu algo entre um soluo e um suspiro ressentido.
- No est funcionando, mocinha. No estou me sentindo nem um pouco culpado. Eu a recolhi e arrumei este bero maravilhoso para voc. Mas ningum disse que eu ia
ter que bancar o pai, entendeu? Nada de pai. Nada, nada.
- P - balbuciou MM, agitando os bracinhos. - Pp-p!
Jack arregalou os olhos.
- Quem lhe ensinou isso?
- P-p-p-p-p!
- Eu no sou seu... - Jack olhou em volta e viu que continuava sozinho com MM no quarto. - Ora, ora... - disse, rendendo-se. E por acaso tinha alguma opo? Se se
afastasse, ela recomearia a chorar de novo, de forma que era melhor peg-la.
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Jack olhou para o colcho do bero, imaginando se havia alguma forma de baix-lo. Provavelmente havia... desde que o candidato fosse formado em engenharia mecnica,
coisa que ele no era.
Determinado, ele se debruou no bero e suspendeu MM. No mesmo instante, a menina colocou as duas mozinhas ensopadas e grudentas no rosto dele. Uma na orelha e
outra no lbio inferior de Jack.
- P-p-p-p-p!
Em um movimento de pura autodefesa, p-p, ou melhor, Jack, levou MM para o trocador, baixou-a e soltou os dedinhos que o agarravam. Ento, pegou o paninho atoalhado
que ficava na prateleira sob o trocador e comeou a enxugla enquanto a menina olhava para ele, com os longos clios escuros ainda midos de lgrimas, repetindo,
sem parar, a ladainha do p-p.
- Pronto? Est melhor agora? - perguntou ele, sem perceber que sua voz adquirira um tom bem mais suave e gentil.
- Agora, que tal voc me dizer qual  o problema? Hein? - disse, segurando com cuidado os pequenos punhos. - Vamos l, diga ao Jack qual  o problema. Aquela bruxa
da Keely deixou voc sozinha aqui? Foi isso? Keely  m. Muito, muito m.
O lbio inferior de MM estremeceu novamente, e Jack sorriu, de orelha a orelha, sem nem mesmo saber por que estava fazendo aquilo.
- Keely  m. Muito, muito m.
MM fez um barulhinho e uma caretinha que mais pareciam uma risada. No sabia o que era, mas era muito bonitinho.
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- Sim,  isso mesmo - ele continuou, sentindo-se encorajado. Mantendo o tom leve e um sorriso, inclinou-se mais para a menina e prosseguiu: - Keely  m. Jack 
bom, mas Keely  m. No que ela seja feia, isso no... mas tem uma lngua afiada... e um "jeito"...
MM riu.
- Ah, voc sabe disso, no ? Bem, pois eu acho que deve saber porque voc passa o tempo todo com ela. Pobre criana. Ela  mesmo uma chata, no? E agora deve estar
em algum lugar por aqui, pronta para aparecer a qualquer momento. Fazer compras, cozinhar, decorar, cuidar de voc e fazer tudo parecer to... ora, to fcil! Ela
fica insinuando que est se esforando ao mximo, enquanto eu no fao nada! Nada! Essa  boa! Mas isso  a opinio dela. Em minha opinio, s o que ela faz  encher
minha pacincia.
MM franziu o rostinho e piscou.
- O qu? Voc acha que eu estou exagerando? - perguntou Jack. - Pois no estou. Ela deixou muito claro desde o primeiro dia. Diz que  cheia de qualidades e que
eu sou um completo idiota. Bem, desde que ela a trate bem, no , minha querida? E voc  mesmo um amor, no? Quando est seca e no est cheirando mal. E voc tem
uma barriga gordinha...
Jack abriu a parte de cima do macacozinho para expor a barriga firme e gordinha e ento cedeu a um impulso que no entendeu. Inclinou-se, tocou a barriguinha de
MM com os lbios e soprou. Soprou contra aquela pele macia.
E MM riu. Alis, gargalhou.
Jack ergueu a cabea e sorriu para ela.
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- Voc gostou? - perguntou, orgulhoso. Cinco minutos atrs, a menina estava berrando e agora estava rindo. Quem disse que era difcil cuidar de um beb? Ele era
capaz de fazer melhor qualquer coisa que Keely McBride fizesse ou, no mnimo, to bem quanto.
Jack inclinou-se de novo e soprou um pouco mais aquela barriguinha... e MM riu de novo.
Jack soltou as mozinhas dela, e ela comeou a sacudir os pezinhos, de forma que logo o acertou nas orelhas, enfiando as minsculas e afiadas unhas em Jack, enquanto
ele continuava soprando.
MM riu. Jack tambm.
E Keely, em p no limiar da porta, ficou observando-os por alguns minutos, piscando rapidamente, para afastar a emoo que a invadira. Finalmente, aconchegou o robe
de toalha ao corpo e saiu para se vestir, depois do banho.
Dez minutos depois, Keely voltou ao corredor, assobiando uma melodia bem alto para que Jack percebesse que ela estava se aproximando. Ela entrou no quarto do beb
a tempo de ver Jack debruado sobre o trocador, com os cabelos escuros desarrumados, uma mo na barriguinha desnuda de MM e um olhar de onde-voc-esteve no rosto.
Ele chegou at a dizer:
- Onde voc esteve? J faz uma hora que eu estou com essa criana. Ela estava berrando.
- Uma hora? - repetiu Keely, erguendo a sobrancelha. - Ah, eu duvido, porque entrei no chuveiro no mximo meia hora atrs, e Mary Margaret estava dormindo profundamente
quando isso aconteceu. Eu sei porque vim v-la.
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- Certo. Bem, talvez "parea" uma hora. Voc sabe que eu tenho muito o que fazer e no tenho tempo para ficar bancando a bab de M... "Do qu" voc acabou de cham-la?
- Mary Margaret - disse Keely, sentindo-se um pouquinho tola. - Ou Margaret Mary, que tambm d certo. S no posso mais continuar chamando essa criana adorvel
de MM. Eu j lhe disse isso.
- Mary Margaret Morretti. Parece o nome da aluna favorita da professora da escola dominical.
- Voc prefere Magenta Moon Morretti? Jack baixou os olhos para o beb.
- Eu no poria um nome desses nem em um cachorro - disse ele, pegando Mary Margaret e caminhando para Keely. - Aqui,  sua vez. Eu estou saindo.
Keely seguiu-o sem perder tempo.
- Voc tem lugares para ir, pessoas para visitar, hein? Ocupado, ocupado, ocupado. Fazendo o qu? Tendo aulas de japons? Fazendo uma carta para Cecily para dizer
a ela que voc deixou esta menininha adorvel em algum lar temporrio porque est com essa necessidade insuportvel de cruzar oceanos para bancar o idiota? Como
pode ser to... egosta?
Jack caminhou at o alto das escadas do fundo antes de parar, erguer a mo na altura do ombro e se virar, com os olhos em chamas.
- Cale a boca.
Keely recuou um passo e, com estardalhao, puxou Mary Margaret para mais perto de si.
- Ah, agora, ns ficamos com medo - disse, usando o
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sarcasmo que a tia Mary costumava dizer que ainda lhe renderia um maxilar fraturado qualquer dia. Mas ela nem se importava. Algum tinha que cuidar dos interesses
de Mary Margaret e parecia que ela havia sido a escolhida.
Jack ergueu ainda mais as mos e bateu-as nos dois lados da cabea.
- E eu estou "pagando" a voc? Devo estar louco!
- Sim. Na verdade, voc est mesmo louco, Trehan - prosseguiu Keely, apertando tanto Mary Margaret, que a menina comeou a se debater em seus braos. - Voc sabe
que eu tambm no desejei esta criana, mas agora ela est comigo e est com voc, e eu no vou deix-lo fugir dela! Ela no  apenas uma responsabilidade ou um
inconveniente. Ela  um beb. Ela precisa de uma famlia.
-- Ns no somos a famlia dela. A famlia dela  um horror, mas isso no muda nossa categoria, nem que eu estivesse pensando em me comprometer porque voc est
me deixando louco! M... Mary Margaret no  problema meu. Eu nem mesmo gosto de crianas.
Keely ficou de boca fechada por cerca de dez segundos, enquanto Jack permanecia ali, olhando-a fixamente.
- Eu vi voc - disse ela, erguendo o queixo.
- Voc me viu? Me viu o qu? O que quer dizer com isso?
- Quero dizer, sr. Jack Trehan, que o vi com Mary Margaret. Soprando a barriga dela - Keely fez uma careta, tentando imitar o gesto de Jack. -  isso mesmo. Eu vi.
Ela ficou observando, sorrindo, enquanto Jack girava nos calcanhares, com a face corada de raiva e vergonha, e disparava escada abaixo.
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Ento, Keely voltou-se novamente para o corredor, para trocar a fralda de Mary Margaret e vesti-la.
- Ele no vai para o Japo, coisa nenhuma, minha querida. Vai ficar bem aqui, com voc. E voc vai ficar bem aqui, com ele. Porque  assim que tem que ser, desde
que ele pare de sentir pena de si mesmo e perceba que uma porta no se fecha, a menos que uma janela se abra, como costumava dizer minha tia Mary. Voc vai ficar
com ele, querida, eu prometo - disse ela ao beb, beijando-a na cabecinha. com cuidado, Keely colocou o beb em cima do trocador e comeou a tirar o macacozinho.
- Vamos vesti-la, depois voc vai mamar e a ns vamos comprar um belo sof, para comear. Voc gosta de passear de carro, no , querida? Mas, primeiro, vamos treinar
mais um pouquinho: p-p-p.
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Captulo VI

Muitas coisas passam pela sua cabea, quando voc est numa situao difcil. Uma delas : no ser melhor eu sumir?
Lefty Gomez, lanador
Mary Margaret, sempre elegante, deu um sonoro arroto e depois sorriu para Keely.
- Sim, foi adorvel - elogiou Keely, com um olho no relgio da cozinha. - Estamos prontas? timo. Porque agora vamos procurar p-p, est bem? Ele vai fazer compras
conosco esta tarde, quer queira, quer no.
Keely se levantou, levou o prato com o que restara de seu sanduche de atum com salada para a pia e olhou pela janela, esperando ver o carro de Jack estacionado
no final do caminho que levava s garagens, um pouco mais abaixo, num declive do terreno. No entendia por que ele no estacionava "dentro" da garagem, mas talvez
ele tivesse um motivo, um motivo idiota, de homem, mas ainda assim, um motivo.
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- timo. Ele continua por aqui, bancando o coitadinho. J estamos com o assento dentro do carro, o carrinho est no porta-malas e h uma lista de compras to grande
quanto o brao de um orangotango. Eu vou no carro, ele vai na caminhonete e no voltaremos para casa sem um colcho para a tia Keely. Que tal, hein? Agora, s falta
pegarmos seu chapeuzinho e estaremos prontas... Oh, no!
Keely afastou-se da janela, desejando no ter visto Sadie Trehan acenando para ela, enquanto subia as escadas para seu distante apartamento, em cima das garagens.
- Ok, querida, faa cara de ocupada - disse Keely, pegando o chapeuzinho estampado de florzinhas e apanhando as chaves do carro. - Ocupadssima, pronta para sair
pela porta, certo? Lugares para ir, pessoas para ver, sem tempo para conversar, infelizmente.
- Ol, Keely! - ouviu Keely atravs da porta aberta da cozinha. Ento se virou, com um sorriso no rosto, pronta para se livrar da tia de Jack o mais rpido que pudesse.
No que no gostasse da mulher. Ela mal a conhecia. Mas tinha outros planos.
Naquele momento, a porta dos fundos se abriu e Sadie Trehan entrou.
- Ah, a est voc. E com o beb! Que maravilha! Fiquem a, eu volto j.
Keely chegou a abrir a boca para dizer que estava prestes a sair para cuidar de assuntos extremamente importantes, mas preferiu fechar a boca em vez de falar para
uma porta vazia.
Ento, passou os olhos pela cozinha, avistou a mamadeira
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vazia de Mary Margaret sobre a mesa e pegou-a, levando-a para a pia. Tudo isso levou cerca de dez segundos. Ainda com o beb no colo, Keely foi at a geladeira e
abriu a porta do congelador, imaginando se seria uma boa idia tirar vitela para o jantar ou se ela e Jack conseguiriam no se matar em tempo de Keely convenc-lo
a comprar alguma coisa numa loja de fast-food prxima. Essa histria de que "o trabalho de uma mulher nunca termina" estava comeando a dar-lhe nos nervos.
com a mo livre, Keely tentou alcanar o pacote de vitela. Em vez disso, alcanou um saco plstico cheio de gelo. Um saco, dois, trs... Aquele refrigerador era
do tipo que vinha com uma mquina de fazer gelo na porta, do tipo que servia gua gelada e gelo, modo ou em cubos, com apenas um toque. No havia motivo, nem necessidade,
de estocar sacos com gelo.
- Ora, mas por que ser que isso...
- Est bem. Estou de volta. E temos companhia - Sadie entrou depressa e Keely colocou o saco de gelo que parecia j ter degelado e congelado vrias vezes, de volta
no lugar.
- Ol - disse ela, piscando, tentando no encarar. - Quem  esse, Sadie?
O que  isso?, teria sido uma pergunta mais apropriada.
A pessoa, ou coisa, era uma fmea, aquilo era evidente. Mas de qu planeta? A menina, apesar de minscula, com pouco mais de um metro e meio e provavelmente pesando
menos de cinqenta quilos, Keely j a odiava, parecia encher a cozinha. De cor. Ela vestia cala comprida verde-limo estilo anos 70, com a cintura baixa o suficiente
para expor
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o piercing no umbigo. As cores da blusa curta e justa em tons de verde-limo, rosa-choque e roxo estavam reproduzidas em algumas mechas dos cabelos longos e lisos.
Os clios eram lilases; a face, rosa-choque e os lbios, por Deus, os lbios eram verdes.
Ela tinha mais um piercing na sobrancelha esquerda e pelo menos seis brincos na orelha esquerda e quase a mesma quantidade na direita. E quando Keely finalmente
encontrou a prpria voz para cumpriment-la, a criatura multicolorida abriu bem os braos e disse:
- Ol, Keel - com isso, ela estendeu a lngua, revelando um piercing, uma bola prateada redonda que se mexia quando ela falava.
- Esta  Petra, Keely - disse Sadie, orgulhosa, passando um brao pelos ombros da menina. - A enteada de Mitzi, que veio passar o vero aqui. Ela est estudando
arte na Filadlfia. No  o mximo?
Petra j estava se aproximando de Keely que, instintivamente, havia passado os braos com firmeza em torno de Mary Margaret, caso o que quer que Petra tivesse fosse
contagioso.
- Ento, esta  a pestinha? Ela  uma coisa! Esses olhos imensos, esses cachos! Como  que voc agenta? Eu mal posso agentar!
- Agentar "o qu"? - perguntou Keely, recuando um passo.
- Tanta beleza. Ela  uma graa! - Petra estendeu os braos e sacudiu os dedos cheios de anis. - Eu posso segur-la?
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Keely sentiu a mente ficar em branco, como se fosse um pequeno animal, sendo hipnotizado por uma cobra extica.
- No. Eu creio que no... - Comeou ela, ao mesmo tempo que Mary Margaret sorria e estendia os bracinhos para a adolescente em technicolor.
- Ah, vejam s isso! - exclamou Sadie Trehan. -  exatamente como Mitzi disse. Petra, voc tem mesmo jeito com crianas.  uma empatia instantnea, no , Keely?
Vamos l, Petra, pegue-a.
com Mary Margaret se debatendo em seus braos, Keely no teve muita opo. Apreensiva, estendeu o beb para Petra. Afinal, era impossvel que ela se afastasse o
suficiente a ponto de Keely no poder det-la.
Keely ento olhou para Sadie, que, apesar da bermuda estampada com motivos havaianos e da camiseta onde se lia "morda-me", estava discretssima, considerando-se
a presena de Petra no ambiente.
- Bem, isso  realmente... timo, mas infelizmente vocs chegaram no momento em que amos sair.
- Sair para onde, querida? - perguntou Sadie, erguendo a tampa do pote vazio de biscoitos que Keely havia comprado. Ela no resistira ao design, ao mesmo tempo limpo
e elegante da pea. - Ah, voc vai ao supermercado? - perguntou ela, tampando novamente o pote vazio. - Jack disse que voc cozinha muito bem e por isso eu me enchi
de esperanas. Voc sabe fazer biscoitos, querida?
Keely observou Petra esticar a lngua, expondo a bola prateada e Mary Margaret estendeu a mo para ela, rindo. Que danos poderia haver em expor uma criana daquela
idade a uma figura to impressionante como aquela?
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- Como? - perguntou, aturdida, percebendo que a tia de Jack estava falando com ela.
- Biscoitos - repetiu Sadie. - Voc sabe assar doces? Biscoitos, bolos, tortas?
- Biscoitos - respondeu Keely, distrada, andando para recuperar Mary Margaret, antes que ela se contaminasse seriamente com alguma coisa. O beb virou a cabea
para o outro lado, ignorando Keely e comeou a brincar com os cabelos de arco-ris de Petra. Abandonada. Keely acabara de ser abandonada por uma minscula vira-casaca
de chapeuzinho florido. Ela baixou os braos, fingindo que a reao de Mary Margaret no a magoara e virou-se novamente para Sadie. - Mas eu no tenho tempo e...
- Ah, mas agora voc ter, querida - disse Sadie, alegremente. - Keely McGuire, eu lhe apresento a nova bab, Petra Polinski! Est tudo acertado. Voc precisa de
mais tempo para tirar o eco deste lugar e Petra est precisando ganhar algum dinheiro agora que George, o marido de Mitzi, cortou a mesada dela por causa de uma
besteira com uns cartes de estacionamento que ela arrumou quando estava na escola.  a soluo ideal para todos. Eu j falei com Jack e ele concordou. E ento?
Eu no sou um gnio?
Keely apoiou o quadril no balco. Como aquilo havia acontecido? Rejeitada por Mary Margaret, substituda por uma adolescente de cabea oca, com um furo no umbigo
e vrios na cabea, a maioria deles nas orelhas. Tudo, sem o menor aviso.
Era duro. Muito duro e sofrido.
- Oh, Deus... - murmurou ela, baixinho. E, ento, ficou
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furiosa. com um ltimo olhar para Petra Polinski, que estava sentada em uma cadeira, balanando uma Mary Margaret em xtase no colo, Keely foi para a porta, firmemente
decidida a matar Jack Trehan, certa de que nenhum tribunal do mundo a condenaria.
No era do rudo da torcida que Jack sentia falta. Sentia falta da coisa toda, do campo, do circo. Ora, mas tinha sorte por ter batido na rede.
Massageando o ombro, ele se inclinou para pegar outra bola. Ento empertigou-se e, quando sentiu a borracha com os dedos, mirou na roda. Ele levou a mo direita
s costas, girou a bola entre os dedos, decidindo sobre o lanamento.
Ento, ergueu o bon dos Yankees com um toque de luva, enxugou a testa com o brao, removendo o suor que escorria, em parte pelo esgotamento fsico, em parte pela
ansiedade que parecia incapaz de vencer. Jack sentiu o tecido da camisa grudado nas costas e pensou seriamente em interromper o treino para poder cortar a grama
do jardim.
Mas, no. Tim e o olheiro chegariam na manh seguinte. Tinha que continuar treinando.
O que tentaria? Definitivamente, no um direto. No tinha mais fora suficiente no brao direito para isso. No treino da manh, trabalhara sua bola curva e no queria
correr o risco de agravar a velha leso no cotovelo com mais bolas curvas.
Mas eram seus dois melhores arremessos. A bola rpida e a curva descendente. Eram os lanamentos que o haviam levado s ligas principais e que o haviam mantido l.
Assim, o que restava? Se no lhe era mais possvel derrotar
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o rebatedor com fora, teria que aprender a engan-lo. Mesmo sem velocidade, ainda havia afinesse, a variedade e a sorte. E no fora o lanador Lefty Gomez, membro
do Hall da Fama, quem dissera que preferia ter sorte a ser bom? Na mesma ocasio, Jack lembrava-se de que tambm fora atribuda a Gomez a frase de que descobrira
uma inveno revolucionria: um aqurio giratrio para um peixe cansado.
Ora, nem tudo que um lanador dizia podia ser profundo, certo?
Jack reposicionou os dedos, optando por uma bola escorregadia. Sem tirar os olhos do centro da roda, como se fosse realmente a luva do apanhador, ele iniciou o movimento,
parando no ponto de equilbrio, pronto para projetar a perna para a frente e lanar a bola.
- Ei! Babe Ruth, jogue aqui!
Jack se desequilibrou para a frente, perdendo a concentrao e quase caiu.
- Qual  seu problema, mulher?
Keely o chamara de uns dez metros de distncia e agora avanava para ele, com a determinao de um elefante.
- Comigo?! Qual  o problema comigo?! Por acaso, fui eu quem jogou minha pobre prima inocente nas garras de uma maluca tingida, lobotomizada e cheia de piercings?
Acho que no!
Jack tirou a luva, enfiou-a debaixo do brao e desceu da base improvisada.
- Sabe, eu j tinha esta impresso sobre voc. Voc  do tipo egocntrica, descontrolada e dominadora que, mais cedo ou mais tarde, mostra as garras. Do que est
falando?
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-- Eu ainda no mostrei minhas garras, mas no me tente, porque eu posso us-las em voc. Petra Polinski,  sobre ela que eu estou falando. Como voc pde? Pelo
amor de Deus, Trehan, ela deve brilhar no escuro! Pior. Se voc enfiar uma lanterna em uma orelha, provavelmente vai poder usar a luz que sair da outra como se ela
fosse um farol. E voc espera que eu entregue Mary Margaret a ela, s porque eu lhe dou nos nervos? Nunca, Jack! Nunca!
Jack permaneceu onde estava, impressionado ao perceber [como ela era atraente quando estava com raiva. Seus grandes olhos castanhos haviam se tornado quase negros
com a raiva e os cabelos escuros estavam se soltando das presilhas, de forma que uma srie de mechas soltas se espalhavam pelo rosto corado e pelo pescoo esguio.
Enquanto ela caminhava com suas pernas longas, seus quadris oscilavam suavemente a cada passo, sugerindo a Jack uma imagem que provavelmente causaria sua morte,
se ela visse. No que ela j no parecesse disposta a mat-lo.
- Eu no sei do que voc est falando - disse ele, recuando um pouco e elevando um pouco a sua altura mesmo que Keely no passasse da linha de seu queixo. - Ah,
j sei, voc est falando da enteada de Mitzi, no ?
- Ah... - grunhiu Keely, como se fosse uma leoa. - Ento voc "sabe". Quem foi mesmo que disse que existe apenas um crebro masculino e que todos vocs tm que compartilh-lo?
Acho que hoje o crebro ficou para voc, hein, gnio?! Mas no era possvel que estivesse com ele quando viu Petra Polinski.
- V-la? Eu no a vi. Por que precisaria v-la? Sadie
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disse que ela  uma boa menina e isso  o suficiente para mim. Alm disso, eu pensei que voc quisesse terminar esse trabalho antes do Natal. No  possvel que
arrastar M... Mary Margaret com voc por todo lado facilite as coisas. - Ele estendeu as mos, com a palma para cima. - Ento, agora voc j tem ajuda. Pessoalmente,
eu achei a idia brilhante. Keely olhou-o com as plpebras semicerradas e os lbios firmemente fechados.
- O que foi? - perguntou ele, comeando a se sentir culpado, sabe-se l por qu. - Qual  o problema? Eu no a estou demitindo. Voc continua tendo que arrumar minha
casa. E talvez a menina passe s uns dias aqui, porque ela vai ter umas aulas noturnas em algum lugar, de forma que voc continua sendo indispensvel, por mais que
eu deteste isso.
Keely respirou fundo, soltou o ar devagar, e Jack tentou no erguer os braos para tentar se proteger. Primeiro um elefante, depois uma leoa e, agora, um touro,
pronto para o ataque. Provavelmente, no era uma comparao muito boa, j que ela no tinha mais de um metro e sessenta e no devia pesar mais de cinqenta e cinco
quilos.
Mas ele no conseguia evitar. Quando pensava em mulheres bonitas, ele costumava compar-las a garas, a gatos ou a belos e graciosos pequenos animais. Keely McBride
no era nenhum deles. Ela podia ser bonita, mas Jack no era bobo. Ela tinha todos os instintos de uma hiena. E uma boca e disposio combinando.
- Venha comigo - ela comandou, finalmente, girando sobre os calcanhares e voltando  grama, terreno acima, na direo da casa. No era um pedido, era uma ordem.
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Jack guardou a luva e seguiu-a, no mnimo, intrigado. Porque algo certamente tirara Keely do controle, e ele estava curioso para saber o que havia sido. Se tivesse
sido a enteada de Mitzi, ele daria um aumento  garota, mesmo antes de ela comear o trabalho.
Keely parecia to apressada, que Jack foi obrigado a quase correr para acompanh-la. Se bem que era bastante agradvel observar aqueles quadris redondos oscilando,
 medida que ela subia para a casa. Afinal, um homem tinha que desfrutar os prazeres onde eles apareciam!
- Diga-me, qual  exatamente o problema com a enteada de Mitzi? - perguntou ele, quando alcanou Keely a uns vinte metros da casa. - Eu no entendi muito bem o que
voc disse l atrs.
-  porque no existem palavras suficientes para descrev-la - disparou Keely. - Logo voc vai ver.
Ela passou por ele, cruzou a rea da piscina interna e chegou ao ptio. Quando abriu a porta da cozinha, parou e fez um gesto para que ele entrasse na frente.
- Voc  esquisita - disse ele, tirando o bon ao entrar na cozinha. - Quero dizer, voc  mesmo estranha.
- Ei, obrigada! - disse uma voz vinda da esquerda, por trs da porta aberta. - Voc tambm  meio estranho. Principalmente se gosta de suar. Porque voc est fedendo
um pouco,sabe?
Jack virou a cabea ao ouvir o som de uma voz feminina jovem e ridiculamente animada.
- Como disse? - perguntou ele, pouco antes de seus olhos congelarem com a viso que se apresentou.
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Era um palhao de circo, um personagem sado de um nibus psicodlico, a atriz perfeita para uma campanha educativa sobre "voc sabe onde esto seus filhos?" Era...
era... E estava segurando MM.
- Sadie!
Tia Sadie veio do escritrio, segurando um saco de celofane de biscoitos de aveia cobertos com glac de acar.
- Sim, querido? Eu estava vendo a novela. Nessa sua tela imensa, aquelas cenas de cama adquirem uma perspectiva inteiramente nova. Algum problema?
Sem tirar os olhos de Sadie, Jack estendeu o brao esquerdo, apontando para Petra Polinski.
-  "isso" que voc chama de soluo? Alis, Charles Mason vai sair da cadeia um dia desses, sabia? Talvez pudssemos contrat-lo para tomar conta de MM.
- No seja irnico, cara - disse Petra, colocando Mary Margaret numa cadeirinha e caminhando para colocar-se na frente dele. - Eu estou passando por uma fase, est
bem?  uma coisa meio over. Mas, relaxe... Eu no vou machucar a criana... Fiz um curso de primeiros socorros e conheo todos os procedimentos. Foi outra fase minha,
mas eu a ultrapassei h muito tempo. Eu achava que queria ser mdica. Tenho certeza de que meu pai preferia essa outra fase, mas agora eu sou artista! E uma artista
tem que experimentar coisas novas, certo? Assim, por que voc no pra de se contorcer como a mocinha atrs de voc e me d uma chance?
- Quantos anos voc tem? - perguntou Jack, tentando ganhar tempo, como faziam todos os grandes caadores, at
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terem a presa na mira. Porque tinha que tirar Petra Polinski dali, antes que MM ficasse traumatizada para o resto da vida. Petra revirou os olhos.
- Bem, ser que eu devia ter trazido meu currculo? Pelo amor de Deus! Est bem, a vai: tenho dezessete.
- No tem, no - disse Jack. - No pode ter, porque Sadie disse que voc estava no primeiro ano da faculdade. Eu me lembro muito bem disso.
- Ora... - disse Petra, fazendo uma careta. - Voc nunca ouviu falar de crianas-gnio? Porque est olhando para uma neste exato momento. Eu entrei na faculdade
aos doze anos. O problema  que no consigo me formar.
Jack piscou os olhos vrias vezes e ento voltou-se novamente para a tia.
- Sadie?
- Ela serve, Jack. Mitzi me prometeu. E isso  s uma fase. No ano passado, ela estava dando aulas particulares de fsica. Petra  apenas um esprito livre, experimentando
a vida. Alm disso, eu acho que ela  colorida.
Jack, que no sabia como responder, ficou aliviado de ser salvo por Keely, que o empurrou para um lado e se aproximou da mocinha.
- Okey, gnio. O que voc faria se Mary Margaret se engasgasse? - perguntou ela, inclinando-se para a frente, tensa.
Petra revirou os olhos.
- Bem, se ela j fosse crescida, eu usaria o mtodo padro, mas isso quebraria as costelinhas dela. Ento, eu a deitaria, encontraria um determinado ponto na parte
superior
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da barriguinha e... - parou de falar enquanto demonstrava como faria. - E eu tenho certeza absoluta de que qualquer coisa que ela tivesse engolido sairia na hora.
Ns praticamos com bonecas.
- Arr! - gritou Keely, como se Petra tivesse acabado de admitir que era uma fraude. - Ento voc nunca fez isso num beb de verdade.
Petra examinou as unhas longas pintadas de verde. Havia uma bandeira americana pintada no mindinho.
- Nunca. E quanto a voc?
Jack tossiu para encobrir uma risada. Ento, foi para o armrio, pegou um copo e colocou-o na porta da geladeira, onde se serviu e esvaziou o copo com um nico gole.
Depois, abriu o congelador, pegou uma de suas bolsas de gelo e apoiou-a no ombro, ao mesmo tempo que se apoiava no balco.
Aquilo ia ser divertido.
- O que voc faria se a casa pegasse fogo? - insistiu Keely, e Jack se lembrou dos ttulos das fitas de vdeo que vira na estante, sabendo que uma se referia  segurana
infantil.
- Ah, timo. Vamos ter uma sabatina de verdade - disse Petra, acomodando-se em uma das cadeiras da cozinha. - Vamos l. Eu pego a criana, o telefone porttil e
meu vidro de esmalte, nesta ordem, e saio da casa. A, ligo para os bombeiros e abro um pacote de marshmallows. Prxima pergunta?
Jack comeou a ver os olhos de Keely brilhando, como se ela estivesse prestes a cair no choro a qualquer momento.
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Determinado, ele tirou a bolsa de gelo do ombro, afastou-se do balco e foi at Keely, segurando-a pelo cotovelo.
- Ok. Ela passou no teste, certo? Voc acaba de arrumar uma ajudante. Agora, que tal ir medir alguma coisa enquanto eu tomo um banho e depois ns dois samos para
comprar um sof? Pode ser?
O lbio inferior de Keely comeou a tremer, mas ela mordeu-o e assentiu, concordando.
- timo - Jack falou, imaginando o que dera nele para transform-lo, de repente, num moo to bonzinho, especialmente considerando que no suportava aquela mulher.
Afinal, ela sabia que MM era s um trabalho, assim como decorar a casa era s um trabalho. Keely no devia ter-se deixado envolver. MM era um problema temporrio
e no um arranjo permanente na vida deles.
Certo?
Pegaram a caminhonete. No havia por que no peg-la, considerando que no precisariam de um assento traseiro para colocar Mary Margaret, porque ela, mais conhecida
como A Traidora, estava ocupada com sua nova amiga, Petra Psicodlica.
Keely se sentou no banco do passageiro, com os braos cruzados sobre o peito, piscando mais que o usual porque, se no o fizesse, corria o risco de cair no choro.
O que seria ridculo. Mais que ridculo.
Conhecia Mary Margaret havia apenas quatro dias. Quatro dias extremamente curtos e ao mesmo tempo interminveis.
- Voc est bem?
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Keely girou a cabea ligeiramente para olhar o perfil de Jack.
-  claro que eu estou bem. Por que no estaria? O que voc est insinuando? Que eu no estou bem? Que... que estou de corao partido ou algo assim porque Mary
Margaret prefere aquela paleta de pintura falante a mim? - Ela virou o rosto novamente para a frente, com o queixo trmulo. - No seja ridculo.
- Bem, ento est tudo certo - respondeu Jack, e Keely considerou a possibilidade de faz-lo engolir a direo do carro. - Eu no havia pensado nisso, mas acho que
no  bom voc se apegar demais a M... a Candy. Desculpe, mas ela no tem tamanho suficiente para merecer um nome como Mary Margaret, e eu acho que Candy  um bom
nome. De qualquer forma,  temporrio para ns dois. Nenhum de ns deve se apegar a ela porque ela vai ter de ir embora.
- Ora, pelo amor de Deus! Ir embora? O que ela  agora... uma mercadoria? Bela cor, veste bem, mas eu acho que prefiro outra coisa. Devolva... Bebs no podem ser
devolvidos!
- Esse pode. Ou voc est dizendo que, apesar de ter lido o bilhete de minha prima, ainda acha que eu sou o pai?
Keely baixou os olhos, triste.
- No. Eu no acho que voc  o pai. - Ela ergueu os olhos para a paisagem, mas no viu nada alm das reas rurais vazias dos arredores de Whitehall. reas vazias
como as que ficariam em seu corao quando a me de Mary Margaret aparecesse para lev-la. No que ela fosse estar l para
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ver, pois quando isso acontecesse j teria partido h muito tempo.
- Oh, Deus! Tudo isso por causa de uma criana - resmungou, finalmente, com a voz embargada e os olhos ardendo. Ento, virou a cabea depressa e olhou sem ver pela
janela do passageiro.
Keely no viu as rvores, a grama, as casas ou os postes telefnicos. S via Mary Margaret sorrindo para ela, estendendo os bracinhos quando entrava no quarto. Quase
conseguia sentir aqueles braos gordinhos ao redor de seu pescoo, sentir o cheiro doce e delicado da lavanda, logo depois do banho.
De repente, Keely percebeu que Jack havia desviado o carro para o acostamento e desligado o motor.
- Voc gosta mesmo dela, no ?
- Ela  um doce de criana - Keely admitiu, se entregando e deixando-o ver seus olhos marejados de lgrimas. - Ora, isso  uma besteira!
- Eu no sei - ponderou Jack, com uma voz leve, como se estivesse sorrindo. - De certa forma,  tranqilizante saber que tila, o Huno, tem um bom corao.
- Eu "no sou" tila, o... - disse Keely, virando-se finalmente para encar-lo. - Bem, talvez eu seja. Gregory disse que meu pior defeito  ser mandona. Seguido
de perto pela minha mania de querer organizar o mundo.
Jack ergueu levemente a sobrancelha esquerda.
-  mesmo? Pois eu teria colocado "faladeira e metida a sabe-tudo" em primeiro lugar em minha lista. Mas, tudo bem. Cada um v uma coisa.
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Keely viu o sorriso dele, que provavelmente salvou pelo menos quatro de seus duzentos e seis ossos, e se recostou no assento, fechando os olhos.
- Eu me empenho tanto...
- Sim. Isso  verdade - concordou Jack, estendendo a mo para toc-la. - Por que voc acha que  assim? Talvez sua me tivesse medo que voc no fosse bem-sucedida?
Keely mal se lembrava da prpria me, mas no diria aquilo a Jack. No tinha irmos, nem primos. S a tia Mary, que nunca a incentivara por fazer algo certo, mas
sempre soubera faz-la sentir-se pssima quando fazia algo errado, de forma que ela se empenhava ao mximo para nunca errar. Depois que crescera, ela e a tia haviam
se tornado amigas, mas antes disso haviam tido anos bastante difceis.
- Eu gosto de estar no controle - confessou Keely, olhando para ele. Poderia ter dito "eu detesto que algum saiba que eu no sei tudo e que s vezes me sinto sozinha
e perdida", mas no o fez. - O que h de errado nisso?
- Nada, se voc estiver liderando tropas em uma batalha. Mas voc precisa ser to obcecada com isso?
Keely sentiu-se ofendida e, quando se sentia ofendida, partia para o ataque.
-Acho que isso o incomoda, no , Trehan? Quero dizer, voc no consegue nem dormir direito. Sua cama est uma baguna todas as manhs.
- Sim, e voc a arruma todas as manhs, enquanto eu estou no banho, ou no andar de baixo, tomando caf feito com gros recm-modos. Quatro dias, e eu me sinto em
parte mimado e em parte... no sei. Diminudo?
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- Diminudo? Porque eu arrumo sua cama?
- No, porque voc parece achar que eu no a arrumaria sozinho.
- E arrumaria?
Ele deu de ombros.
- Provavelmente. Mas este no  o ponto. O ponto  que voc veio at aqui...
- Atendendo a seu pedido - esclareceu ela, fixando novamente os olhos na direo.
- Est bem. Atendendo a meu pedido. Eu estava desesperado. Voc no sabia nada sobre bebs, mas isso no a deteve. Em uma questo de horas, voc mobiliou o quarto.
Em mais algumas horas, assistiu a seis vdeos sobre cuidados domsticos com crianas e leu trs livros sobre como cuidar deles e aliment-los. Voc deixou a cozinha
aconchegante, est conseguindo comear a mobiliar a casa e ainda foi capaz de colocar aquele maldito suporte de panelas sem nem ao menos pedir minha ajuda.
Keely meneou a cabea.
-  "isso" que o est incomodando? Voc est com raiva por causa do suporte de panelas? Isso  ridculo. At porque, primeiro, eu teria que encontr-lo para poder
pedir sua ajuda.  claro que agora eu sei onde voc fica. Fica nas garagens, bancando o idiota.
- Acho que, em nome da paz, eu vou ignorar este ltimo comentrio - Jack ironizou com o maxilar contrado. - Mas eu gostaria de lembrar-lhe que o que fao com minha
vida  problema meu.
- Sim, e o mesmo vale para mim - disparou Keely.
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- Eu concordo, Keely - disse ele, alguns momentos depois. - At o momento em que a vi na cozinha, de corao partido, enquanto Candy sorria para Petra. Voc est
se afeioando demais a ela... Isso no  bom. Voc tem de se lembrar que isso  apenas um trabalho e que, em algumas semanas, estar concludo. Ora, se Cecily voltar,
 possvel que Candy parta at antes disso. Portanto... no... se... apegue.
- Voc quer dizer do mesmo jeito que voc no est se apegando? - perguntou Keely, entendendo subitamente o porqu de Jack se manter to distante de Mary Mar...
de Candy. - Voc tambm  louco por ela, no ?
- No. Eu "no" sou louco por ela - respondeu Jack, virando a chave na ignio e olhando no retrovisor, antes de recolocar a caminhonete na estrada. - Eu logo irei
para o Japo, lembra-se? H muitas coisas que quero nesta vida, mas uma criana, qualquer criana, certamente no  uma delas. Agora, que tal voc me dar um endereo,
para eu saber aonde iremos hoje?
Keely estreitou os olhos e encarou-o.
- Eu nem ousaria dizer a voc aonde ir. Seria muito autoritrio.
Jack riu.
- Sei, mas acho que vamos fazer uma exceo neste caso, j que eu realmente no sei para onde devemos ir. Prometo no usar isso contra voc. Eu j tenho uma boa
lista de seus defeitos, acredite-me.
- Pegue a MacArthur e eu lhe direi onde virar. - Keely inclinou-se para o cho do carro, pegou seu bloco de anotaes
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e comeou a consult-lo. - Agora, lembre-se de que teremos de comprar coisas disponveis em estoque, pelo menos a maioria delas, porque se encomendarmos, a entrega
levar entre seis e nove semanas. Levaremos o que pudermos e nos empenharemos para que entreguem todo o resto o mais rpido possvel.
Jack afastou os olhos da estrada por um momento, para espiar o bloco de anotaes.
- Eu posso estar enganado, mas acho que a invaso da Normandia foi planejada com menos papis. O que voc... o que ns compraremos hoje?
- Para comear, um colcho e uma cama para o quarto de hspedes, que  meu quarto. Eu gostaria de mobiliar o escritrio, seu quarto e pelo menos o quarto de hspedes
que eu estou ocupando. Gostaria de uma mesa grande e redonda para o hall de entrada, para ficar embaixo do lustre de cristal e ns temos que nos livrar do eco na
sala de visitas. Acho que se acharmos alguns tapetes, j ajudar. No entanto, hoje s vamos comprar o bsico. Coisas das quais no podemos... voc no pode prescindir.
Eu pretendo encomendar a maior parte dos mveis, os melhores mveis, dos fornecedores de tia Mary. Ah, por falar nisso, tomei a liberdade de contratar um servio
de limpeza. Eles viro amanh. - Keely fechou o bloco e olhou para ele. - A menos que voc ache isso eficiente demais...?
- No. Eu creio que no. Acho que no posso pedir a voc para limpar a casa, no ?
- No nesta vida, a menos que voc faa um clone de mim, e eu tenho quase certeza de que j sei sua opinio sobre
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isso - ela brincou, relaxando um pouco. Ento, deu o golpe final. - Eu tambm liguei para uma velha conhecida dos tempos de escola... Uma amiga que queria ser enfermeira,
e peguei com ela o nome do melhor pediatra da cidade. Mary Margaret tem uma consulta marcada com ele na prxima tera-feira, s dez horas.
Keely sentiu a caminhonete desacelerar, e Jack virou-se para ela.
- Por qu? Ela no est doente, est?
- No - respondeu Keely, aprovando a reao dele. No estava se apegando, hein? Certo! -  que a carta de sua prima mencionava que Mary Margaret ainda no havia
tomado as vacinas e todos os livros que eu li tem uma lista das vacinas necessrias. Ela est "muito" atrasada. Alm disso  recomendvel lev-la para consultas
mensais de acompanhamento. S h uma coisinha que eu no mencionei: voc tem uma carta de Cecily dizendo que voc  o responsvel por Mary Margaret, de forma que
eu acho que voc vai ter de ir, nem que seja s na primeira consulta. A menos que j esteja no Japo - concluiu ela, bruscamente.
Jack bateu de leve na direo com o punho fechado.
- Cecily! Sempre Cecily... Agora, eu vou ter que ir ao mdico com uma criana? - Ele olhou para Keely. - Tem certeza de que eu preciso ir junto? E se o mdico quiser
dar uma dessas vacinas nela?
- Vire  direita na prxima esquina - Keely avisou, sorrindo. - E qual  o problema? O grande e poderoso astro do beisebol desmaia quando v uma agulha?
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Jack bateu a mo no pisca-pisca com fora e virou  esquerda dizendo algo em uma lngua que certamente parecia japons.
Keely concluiu que no devia ser nada de bom. Assim, simplesmente se acomodou no assento desconfortvel e ficou de boca fechada.
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Captulo VII

-  possvel aprender muitas coisas, apenas observando-as.
Yogi Berra
Aquilo no era uma loja de mveis, era um depsito disfarado de loja de mveis. Havia sofs, cadeiras e mesas empilhados quase at o teto e pequenos trilhos de
metal se estendendo ao longo dos corredores, emitindo rudos e piscando luzinhas azuis. Jack quase caiu duas vezes antes de atravessarem o depsito e chegarem ao
grande show-room, no fundo da construo.
Bastou um olhar para o show-room, para Jack ficar com vontade de voltar ao depsito ou a qualquer outro lugar. Aquele no era um lugar para homens. Homens pertenciam
aos show-rooms de carros, onde podiam falar em pistes e velocidade. Ele no sabia a diferena entre chintz e cheesecake, e nem estava interessado em saber.
Keely, por outro lado, estava nitidamente em seu abitat. Tambm era verdade que ela no aprendera absolutamente
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nada com as dicas gentis que Jack lhe dera sobre tentar controlar um pouco sua personalidade dominadora. tila, o Huno, vai s compras era a descrio perfeita para
Keely McBride.
- Por enquanto, estamos olhando, obrigada - disse ela a um vendedor esperanoso, que acabara de se afastar de um grupo de homens com ar desesperado, para unir-se
a eles no momento exato em que cruzaram as portas do show-room.
- Eu fico com ele - disse Jack, aceitando o carto de visitas que o homem estendia para Keely, que j partira em direo ao primeiro corredor de amostras. - Talvez
voc queira aproveitar esse tempo livre para tomar um caf, fazer uma aula de defesa pessoal, ou qualquer outra coisa que lhe venha  cabea e que possa prepar-lo
para a eventualidade de ela achar algo que goste.
- Sim... bem, obrigado - disse o vendedor voltando-se e erguendo os olhos para Jack. - Ei, voc no ...?
- Provavelmente - disse Jack, sorrindo. - Nos vemos daqui a pouco, est bem?
Quando Jack a alcanou, Keely j estava na metade do primeiro corredor, andando ao mesmo tempo que tomava notas no bloco. Ele no sabia por que e certamente no
queria parar para examinar seus sentimentos ou para entrar em contato com seu "eu interior", mas estava ficando viciado em v-la fazer as coisas.
- J achou alguma coisa? - ele perguntou, apontando para um sof de couro verde-escuro. - Aquele no  ruim. E eles arrumaram com cadeiras combinando, duas mesas
de apoio, uns abajures. Ficou bom. Podemos simplesmente comprar tudo e sair daqui.
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Ela parou, petrificada, virou-se e encarou-o.
- Comprar o ambiente todo? Ah, maravilha! Meu cliente  um "daqueles".
- O que quer dizer? - perguntou Jack, empertigando-se, esquecendo-se dos recentes momentos de diverso. Era como se Keely tivesse acabado de reduzi-lo a um verme
ou a algo ainda menor.
- Quero dizer que qualquer um  capaz de comprar um ambiente pronto, permitindo que outra pessoa dite o que combina com o qu. Quero dizer, qualquer pessoa sem um
pingo de imaginao. Voc no precisa de mim, s precisa de algum para lhe dizer do que voc gosta.
- E no  isso que voc est fazendo? - perguntou ele, olhando-a de perto antes de recuar um passo. - Ah, no! Esquea. Eu a contratei. Recuso-me a ser arrastado
para essa coisa de decorao. S vim para dirigir a caminhonete. compre o sof verde, droga, e vamos acabar logo com isso.
- Sente-se, Trehan.
- Ei, voc tambm fala desse jeito com minha priminha? Keely revirou os olhos.
- No. Eu quis dizer que voc deve sentar-se no sof. Se voc gostar, compraremos.  de um bom tamanho e vai ficar bom naquele salo grande. Mas no essas outras
coisas. Voc no me contratou apenas para apontar e clicar. Eu "crio" ambientes, no os decoro com uma forma de biscoitos.
Jack tinha lembranas melhores de um homem que fora seu tcnico em um time de liga menor, que no apenas mandava nele, como cuspia suco de tabaco em seus sapatos,
enquanto falava. Mesmo assim, Jack obedeceu e se sentou. Ento, esticou os braos no encosto e cruzou as pernas.
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- Esse negcio  duro como uma pedra - disse, impressionado, porque  primeira vista parecera to bom.
- E no  couro legtimo, de forma que voc teria que troc-lo em menos de trs anos. Agora, podemos prosseguir? E, como eu lhe disse, esta  apenas uma parada rpida,
para comprar itens de primeira necessidade. A maior parte de sua moblia ser muito mais... exclusiva.
- Exclusiva. Isso  um sinnimo para "cara"? Porque eu estou com essa sensao.
Keely inclinou a cabea e olhou-o.
-- Certo. Um curso rpido sobre aproveitamento de espaos: se fizer direito da primeira vez, voc no precisar fazer de novo. As melhores madeiras, os sofs mais
bem construdos, cadeiras que eventualmente podero ser estofadas novamente e no substitudas. Coisas boas custam caro, mas as coisas no muito boas tambm acabam
custando porque voc vai ter que rep-las com freqncia. Podemos comprar os colches e algumas molduras aqui; talvez uns tapetes para as reas de pouco trfego,
mveis bsicos para o seu escritrio e algumas peas bsicas para certos quartos, porque esta loja tem mveis bem decentes para quartos. Surpreendentemente, eu tambm
vi um sof ali que ficaria perfeito em sua sala de visitas. Mas por hoje  isso. Ah, hoje eu tambm pretendo conhecer um pouco melhor seu gosto, e para isso voc
ter que me apontar o que o agrada. Se gosta de sofs de couro, tudo bem. Eu farei sugestes sobre as melhores aquisies possveis, o melhor estilo e cor, mas voc
dar a palavra definitiva sobre tudo.  assim que eu trabalho. Portanto, levante-se. Vamos l, levante-se logo!
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Obedientemente, Jack levantou-se e voltou a seguir Keely... pensando nas melhores formas de mat-la e em como esconder o corpo, de forma que ningum o encontrasse.
- Experimente aquele - disse ela, na metade do corredor seguinte, apontando para um sof de couro bege, que parecia ter sido feito de vrios retalhos diferentes.
Jack afundou nas almofadas. De onde estava, podia sentir o cheiro do couro, um couro to macio, que dava at medo de tocar.
- Nada mau - disse ele, dando de ombros. Ento, olhou para a etiqueta de preo. Aquilo era uma coisa que aparentemente Keely no fazia: olhar para etiquetas de preo.
- Ns negociaremos. Nunca acredite nas etiquetas de preo. Mas lembre-se de que temos que fazer compras em lugares que tenham as mercadorias em estoque. Isso no
s limita nossas opes, como afeta o preo.
Ele a segurou no momento em que ela estava pronta para se levantar e puxou-a para baixo, segurando-a pelo brao.
- Acho que primeiro precisamos esclarecer uma coisa aqui, est bem? Eu sou rico. Voc sabe disso e eu sei disso. Mas eu nem sempre fui rico e no vou continuar rico
se no olhar para as etiquetas de preo. Minha me teria tido uma crise nervosa se visse esta etiqueta. Alis, ela nunca a veria porque ns tivemos o mesmo sof
xadrez de verde e marrom na sala de visitas por vinte anos. Ser que estou sendo claro?
- Bem, j era hora - Keely resmungou, recostando-se.
- Ah,  confortvel, no? De qualquer forma, eu estava esperando que voc me desse algum tipo de "informao", Jack. Uma estimativa de oramento seria uma boa coisa.
Quanto voc pretende gastar?
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Jack retirou a mo do brao dela e passou-a pelos cabelos.
- No fao a mais plida idia.
- So quinze cmodos, Jack, comeando do nada e incluindo dos panos de prato aos capachos e tudo o que existe entre uma coisa e outra. Eu admito que nunca fiz um
trabalho deste tamanho, mas andei pensando. Aqui, o que voc acha disso? - Ela abriu o bloco de notas, escreveu um nmero e virou-o para que Jack pudesse ver.
Ele piscou os olhos e engoliu em seco.
- Os impostos esto inclusos? - perguntou, um momento depois. Ele havia ganhado doze milhes de dlares sozinho no ano anterior, mas ainda tinha dificuldade em gastar
um dinheiro que certamente podia gastar. - No. No precisa responder isso. Eu acho que  um nmero razovel. Acho que s estou reagindo a algumas lembranas de
infncia relacionadas a comer tudo o que havia em meu prato porque a comida no dava em rvores. - Ele sorriu com a lembrana repentina. - Um dia, Tim disse a mame
que havia muita comida dando em rvores. Meu pai deixou-o uma semana sem jogar bola, por ter perturbado mame.
Keely riu.
- Seu irmo se parece muito comigo, aparentemente incapaz de saber a hora de calar a boca. Mas eu acho que voc deve agradecer a seus pais por terem lhe ensinado
o valor do dinheiro. Sempre se comenta sobre astros do esporte que gastam suas fortunas em um minuto e acabam falidos.
- Bem, isso no vai acontecer comigo - disse Jack, levantando-se, o que no era nada fcil, considerando a profundidade com que havia afundado no sof. - Agora,
vmos
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gastar algum dinheiro, mas no neste sof. Ele  um engolidor de homens.
Ele ajudou Keely a se levantar e o calor da mo dela na sua provocou alguma coisa totalmente tola e inesperada dentro dele. Jack olhou-a, ela o olhou e ento agradeceu,
afastando-se do ambiente decorado e voltando para o corredor.
- Est bem, Cachinhos Dourados - disse ela, com a voz ligeiramente trmula. - Um  duro demais, o outro  macio demais. Agora, vamos encontrar um que seja adequado.
Porque, at agora, no fomos a lugar algum.
- Ah, no... Certamente fomos - Jack murmurou, sorrindo. Naquele dia, ele aprendera que Keely McBride tinha uma lngua afiada, mas que a usava para proteger-se e
no para agredir os outros. Aprendera que ele no havia sido o nico que dera um nico olhar para Candy e comeara a sentir coisas especiais. E aprendera que toc-la
provavelmente era prejudicial para sua sade mental.
E isso apenas piorou, ou melhorou, quando chegaram a um corredor com cerca de sessenta colches em exibio. Keely, como sempre, apontou para um ou outro, sentou-se
neles, mas por sua expresso e pelas caretas que fazia, Jack percebeu que se tratava de uma rea na qual ela estava longe de ser experiente.
- No seria melhor se voc realmente se deitasse neles para test-los? - sugeriu ele, escolhendo um colcho que parecia ter um imenso travesseiro preso  cabeceira
e esticando-se nele. - Est vendo? Camas so para dormir e no para sentar. Esta aqui  muito boa. Venha c - disse ele, indicando o espao vazio ao seu lado. -
Experimente.
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Como sempre, Keely enrolou os cabelos escuros e sedosos em um coque apertado e meneou a cabea.
- Acho que no. Se voc gostar, j  o suficiente. Vamos precisar de dois king-size e dois de solteiro, para o quarto de hspedes do canto. Estou pensando em ser
mais criativa nos outros quartos e usarfuttons, espreguiadeiras e coisas assim, mas isso pode esperar. Est bem, agora, levante. Ainda temos muito o que fazer.
- No - disse Jack, escondendo um sorriso. Gostava da aparncia de Keely quando ela corava. Sua face ficava vermelha, ela piscava muito e no parava de mexer nos
cabelos, o que fazia com que algumas mechas se soltassem e ficassem meio revoltas em volta do rosto e do pescoo. - No at voc se deitar aqui e testar tambm.
- Ento, ele sorriu. - Quero dizer, eu aprendi a confiar em sua capacidade de julgamento, Keely. Assim... julgue.
Ela colocou o bloco de anotaes em outro colcho prximo e se aproximou daquele onde Jack estava, baixando os olhos para ele.
- Isto  ridculo.
- , mas faa assim mesmo, Keely. Divirta-me.
Ela se sentou na lateral da cama, com as costas retas e esticando as pernas at deix-las paralelas ao colcho, para ento baix-las, firmemente.
- Melhor. Mas no  para sentar na cama, Keely.  para "deitar".
Ela se deitou, cruzou as mos sobre o corpo e olhou para o teto.
-  bom - disse, secamente. - Um pouco macio, mas bom.
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Jack virou para o lado dela, apoiou a cabea no brao e olhou-a nos olhos.
- Voc prefere mais firme? - perguntou, incapaz de se conter.
No momento seguinte, Jack viu que estava de costas e que Keely estava em p, ao lado do colcho, com o bloco novamente em mos.
- Se acabou a hora do recreio, Trehan, eu gostaria de prosseguir.
- Eu tambm, mas nem sempre podemos ter o que queremos, no , srta. McBride? - Ele sorriu ao v-la afastar-se pelo corredor. Qual era o problema com ele? Nem ao
menos gostava dela, quanto mais desej-la. Ou ser que desejava?
Uma hora e dezesseis longos corredores de mveis depois, Keely estava pronta para falar com o vendedor. Jack s no sabia ao certo se ele estava pronto para ela,
porque o homem se aproximou lentamente, imaginando se no seria melhor armar-se primeiro com um chicote e uma cadeira.
- A proposta  a seguinte - disse Keely, sem prembulos, logo depois de se apresentar e de descobrir que o nome do vendedor era Curtis. - Ns compramos, Curtis,
compramos muito mesmo, mas queremos um desconto de vinte e cinco por cento sobre tudo o que levarmos. Jack, mostre seus cartes de crdito a ele.
- Oh, no, no... - disse Curtis, afastando a sugesto enquanto Jack, que havia decidido que a obedincia cega o conduziria mais rpido para casa, enfiava a mo
no bolso para pegar a carteira. - No h necessidade, sr. Trehan. O senhor tem crdito conosco. Sem limite. Eu j falei com meu
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gerente. Ele disse que, se o senhor concordar, ele gostaria de um autgrafo seu para dar ao filho.
- Que gentil. - Keely manifestou-se, mas seu sorriso no chegava aos olhos. Curtis mal olhara para o carto de visitas dela, antes de enfi-lo no bolso da camisa
e naquele momento estava simplesmente babando sobre Jack. Era bastante provvel, concluiu Jack, que o velho e bom Curtis tivesse assinado sua sentena de morte.
- E quanto aos vinte e cinco por cento? - prosseguiu Keely. - E entrega imediata, sem custo adicional?
- Bem, eu no sei - disse Curtis, afrouxando o colarinho da camisa com o dedo, incomodado. - Quero dizer, ns j lidamos com sua empresa antes, mas apenas com a
proprietria e apenas com um desconto de quinze por cento. Eu no creio que...
- At logo, Curtis. Tenha um bom dia - disse Keely, enfiando a mo no bolso dele e recuperando o carto. - Venha, Jack, estamos perdendo nosso tempo aqui.
Jack, que havia se sentado em uma cadeira prxima para ver Keely trabalhar, se levantou, deu de ombros para Curtis e comeou a segui-la para a porta do show-room.
Deus, ele adorava v-la se afastar! S no sabia se gostava realmente do que via, ou se simplesmente se sentia mais seguro se ela apenas continuasse andando, para
longe da vida dele.
- Se funcionar,  uma boa ttica - disse ele, ao alcan-la. - Eu no sabia que voc blefava.
- Eu no blefo - admitiu ela, passando o brao pelo dele. - Voc se incomoda? Estou tremendo tanto, que estou com medo de cair. No ande to rpido. D a ele um
pouco de tempo para encontrar o gerente.
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Ela no estava brincando, Jack sentiu-a tremer.
- Ei, eu posso arcar com a diferena. No preciso de um desconto de vinte e cinco por cento. Voc sabe que eu no sou sovina.
- Eu sei. Pretendo tirar de voc o mximo de dinheiro que puder, mas princpios so princpios. Vinte e cinco por cento no  nada absurdo, no para uma compra do
tamanho da nossa. Eu sei que ganharei mais se Curtis lhe der um desconto menor, mas Curtis tem de aprender que, se ns formos embora, "ele" no ganha nada. Alm
disso, eu tenho minha conscincia. Voc  meu cliente, e eu no permitiria que lhe passassem a perna, nem que voc fosse Bill Gates, certo?
Jack sentiu uma vontade louca de parar, tomar Keely nos braos e dar um enorme beijo nela. Mas lutou contra essa vontade.
- Ento, essa  uma questo meramente profissional, certo? Voc sempre fica aborrecida desse jeito... tremendo at... por causa de qualquer cliente?
Keely no respondeu, o que provavelmente era uma boa coisa. Apenas disse:
- Ser que voc pode parar um pouco e amarrar o tnis? Eu no posso olhar para trs, caso Curtis esteja nos seguindo, mas voc pode dar uma espiada, enquanto finge
amarrar o cadaro.
- Eu estou de mocassim - disse Jack. - Mas acho que posso fingir.
- No. Deixe para l. Ou ele vem atrs de ns, ou no vem. Mas, ah... - disse Keely, suspirando. - Eu gostei
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mesmo daquela cabeceira de cama e voc gostou do sof de couro. E h um vaso...
- Ns podemos voltar - sugeriu Jack, sentindo os ltimos elos que o uniam ao estilo de vida frugal da me se desprenderem.
- No podemos, no. Venha. Compre-me um hambrguer.
- Esperem! - gritou Curtis, no exato instante em que Jack abria a porta da caminhonete e recuava, para que Keely pudesse subir no assento do passageiro. - Srta.
McBride, sr. Trehan... por favor, esperem!
Jack viu as linhas de preocupao na testa de Keely se transformarem em um sorriso.
-- Voc ouviu alguma coisa, sr. Trehan?
-- Talvez - respondeu Jack, encantado com o sorriso dela. - Talvez tenha sido o vento? Ou o barulho do trfego na auto-estrada?
- Sim. Provavelmente foi isso.
- At onde ns iremos com isso? Eu devo me virar para o velho e bom Curtis, ou devo entrar na caminhonete e ligar o motor?
- Eu estou fantasiando a linda cena - disse Keely -, da caminhonete saindo do estacionamento, com Curtis correndo atrs, gritando, "trinta por cento, trinta por
cento"!
- Voc  nova nesse negcio de blefe, no fique gananciosa. Saiba a hora de pression-los, Keely, e saiba a hora de ceder - alertou Jack. Ento, fez um gesto para
que ela descesse da caminhonete, ao mesmo tempo que Curtis, ofegante, os alcanava, provavelmente pronto para atirar-se na frente do carro, se fosse necessrio.
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- Vinte... vinte por cento - ofegou ele. -  o mximo que eu consigo. E entrega gratuita e montagem para amanh.
Keely virou-se para Jack, esperanosa.
- O que voc acha?
Ele no conseguiu se conter e sorriu.
- Acho que temos um vencedor.
E, ento, tudo comeou. Jack percorreu os corredores com Keely e Curtis, os mesmos corredores que havia percorrido na ltima hora e viu coisas que nunca vira antes.
Ela escolheu um sof de um lugar, uma cadeira de outro. Combinou tudo com uma mesa de um terceiro conjunto.
- Aquelas duas luminrias, o arranjo de flores daquela mesa e a planta que est num vaso, no fim do corredor. No, no, Curtis, no fique parando para anotar as
referncias. Apenas cole uns selos de "vendido" em tudo. E tente nos acompanhar; quero estar em casa a tempo de dar banho no beb.
- Onde voc vai pr tudo isso? - sussurrou Jack, enquanto Curtis colocava um grande selo vermelho de "vendido" em mais uma pea, desta vez, um tapete redondo, que
parecia sado das Mil e Uma Noites.
- Mesa redonda, tapete redondo, ambos para o hall - disse Keely, racional. -  de l, importado e muito bom, apesar de, definitivamente, no ter a mesma qualidade
das peas que se v em alguns apartamentos chiques de Manhattan. Mas no estamos em Manhattan e eu acho que a casa de uma famlia de classe alta deve ser bem mobiliada,
mas confortvel e aconchegante. Depois de tudo o que voc me disse mais cedo, se eu colocasse um tapete de vinte mil dlares em seu hall, voc jamais pisaria nele.
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Jack olhou mais uma vez para o tapete redondo.
- Vinte mil? Ento, quanto custa este aqui?
- Mil e quinhentos. Menos vinte por cento. Pronto. Voc no est se sentindo um negociante e tanto?
- Vinte mil, hem? - repetiu ele, baixando novamente os olhos para o tapete. - Keely, finalmente, eu estou comeando a me sentir bem por t-la contratado. Eu disse,
"faa o que quiser e resolva tudo". Sou um jogador de beisebol, vindo de uma cidade pequena. Comprei meu apartamento mobiliado e s meu empresrio o viu antes da
compra. Eu no fazia a menor idia do quanto essas coisas custavam. Qualquer um podia ter me depenado.
-  verdade - Keely concordou, ainda andando e apontando para os itens que Curtis deveria etiquetar. - E no pense que essa idia no me ocorreu. E, para dizer a
verdade, se no fosse por Mary Margaret, talvez eu tivesse feito exatamente isso.
- Candy? O que Candy tem a ver com isso?
-- Eu no sei - disse Keely, parando para encar-lo. - Mas eu me sinto bem quando digo isso e, se parar para pensar nos motivos, sou capaz de me odiar amanh de
manh. Digamos apenas que eu estou me divertindo e aprendendo sobre mim ao mesmo tempo. Na verdade, algum dia, eu serei uma tima me.
Desta vez, quando Keely saiu, com Curtis logo atrs, Jack ficou onde estava, perplexo.
Keely foi dar uma olhada em Mary Margaret e sorriu ao ver que ela mal se mexera desde que a pusera para dormir e deixara Jack encarregado de observ-la, enquanto
ia correndo
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at a Macy's para comprar roupa de cama para si... ou melhor, para o quarto de hspedes. A princpio, ele protestara, dizendo que tinha algo a fazer nas garagens,
como se Keely no pudesse imaginar o que aquele "algo" era. Mas quando chegou em casa, ela o flagrou tentando esconder uma das bolsas de gelo ao lado da cadeira,
de forma que talvez Jack precisasse descansar o brao mais do que precisava treinar, ou se exercitar, ou qualquer outra coisa.
- O brao est melhor? - perguntou ela, saindo da cozinha e entrando no hall. O monitor da bab eletrnica estava em cima da velha bandeja de plstico que Jack usava
para comer, ao lado da tev. Ser que ele tinha ficado assistindo a Mary Margaret dormir?
- Espero no t-lo machucado muito, quando voc me ajudou a levar o colcho para cima. Amanh, voc no precisar mover nem um dedo, mas eu realmente queria dormir
em algo parecido com uma cama de verdade, esta noite.
- No foi incmodo algum. Quem disse que meu brao est doendo? - disparou ele. E Keely saiu da sala novamente, tentando no imaginar os novos mveis nela.
Deveria lavar o protetor de colcho e os lenis antes de forr-los na cama, e teria feito isso se no estivesse to exausta. Gastar dinheiro era cansativo, mesmo
que fosse o dinheiro de outra pessoa.
No dia seguinte, chegariam as estruturas das camas, junto com toda a moblia, tapetes, luminrias, abajures e outros acessrios que teriam de quebrar o galho, at
ela ter tempo de percorrer os antiqurios e lojas especializadas locais.
Mas havia avanado bastante nos itens bsicos para o escritrio e trs dos quartos. Ainda faltavam a sala de visitas
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e a de jantar, a sala de estudos, a de exerccios, a sala ntima da sute principal, o jardim-de-inverno do lado leste da casa, trs quartos e a sala de estar do
andar de cima. Mesmo assim, o que havia feito no era de todo mal para a primeira semana de trabalho.
Assim que forrou os lenis no colcho, deixando todo o resto da estrutura da cama no cho, Keely pegou uma camisola limpa e calcinha confortvel de algodo, arrumadas
numa pilha organizada no cho, seguiu para o banheiro.
Tomou um banho rpido, parando apenas um momento para pensar, mais uma vez, em como seria tomar um banho no banheiro de Jack. Todos aqueles jatos de gua! Se tivesse
um chuveiro como aquele, ela provavelmente viveria sob ele. Ainda assim, as instalaes do banheiro de hspedes eram infinitamente melhores que os encanamentos velhos
de seu apartamento no Brooklyn, o apartamento que significara um degrau a mais em sua ascenso profissional e que agora no lhe fazia a menor falta.
Alis, nem sentia falta de Manhattan, concluiu, enquanto se enxugava e vestia a camisola. Estava ocupada demais para pensar em sua antiga vida e para se preocupar
com o fato de Gregory ter assumido sua loja. Quanto ao prprio Gregory? O que lhe dera na cabea para cair na cama daquele idiota metido?
Toda a vida, ela desejara se mudar de Allentown para alguma cidade grande como Nova York. Toda a vida, quisera e desejara provar a si mesma de que era capaz. E fracassara.
Havia perdido seu negcio, seu apartamento e todo o dinheiro. E voltara para casa fracassada.
Ento, por que no se sentia mais um fracasso? Sentia-se
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bem, melhor do que se sentira em muito, muito tempo. Talvez, melhor do que nunca.
Sentia-se "necessria". A tia Mary precisava dela para assumir os negcios por algum tempo. Mary Margaret precisava dela. Jack Trehan... Deus sabia que ele precisava
de algum.
Keely abraou o prprio corpo e dirigiu-se ao corredor. Queria dar mais uma olhada no beb, antes de recolher-se. Saiu do quarto e virou  esquerda, sem olhar para
onde ia, e bateu em cheio em Jack.
Ele estendeu os braos, detendo-a e disse:
- Eu acabei de subir atrs de voc. Candy est se mexendo. Eu vi pelo monitor.
Keely sentiu vontade de puxar a barra da camisola azulmarinho, mas no o fez. Aquilo s serviria para atrair a ateno dele para o fato de que a pea acabava uns
dez centmetros acima dos joelhos.
- Os bebs costumam se mexer, Jack - disse ela, tentando no suspirar quando ele a soltou e tentando no acreditar que sentia falta do toque dele.
- Eu sei - disse ele, passando os dedos pelos cabelos, de forma que ela percebeu, mais uma vez, a mecha ligeiramente mais clara, acima da tmpora esquerda.
- Mas eu estava assistindo a um daqueles vdeos depois que voc saiu, e s vezes acontece de os bebs enfiarem a cabea em lugares perigosos, por baixo daqueles
protetores de bero, ou at de enfiarem a cabea entre as grades e sufocarem. Quero dizer,  uma preocupao real. Foi assim que eles chamaram no vdeo: uma preocupao
real.
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Ele era to doce. Estava ali, todo preocupado, todo atento.
- Jack, segundo sua prima, Mary Margaret tem seis meses de idade. Ela j tem idade bastante e  suficientemente forte para no ficar presa nas grades do bero, e
o bero que compramos atende aos mais exigentes padres de qualidade. Eu mesma verifiquei, logo depois de ter assistido ao vdeo.
Ele pressionou as tmporas com as mos.
- timo. Eu no fazia idia do quanto era difcil - disse, meneando a cabea. - H tanto em que pensar, tanto com que se preocupar. Ela  to pequena, to indefesa.
No sei nem como Candy sobreviveu, vivendo com Cecily por seis meses.
- Pessoalmente, eu prefiro nem pensar nisso - Keely respondeu honestamente. - Eu no paro de torcer para ela no voltar.
Jack arregalou os olhos.
- No voltar? Ela tem que voltar. Eu no posso criar Candy. Eu no quero.
- Porque voc vai jogar no Japo - disse Keely, percebendo todas as coisas boas que sentira por Jack se evaporarem naquele instante. - Voc sabe, Trehan, voc se
parece muito com sua prima. Ela vai para o Tibete, voc vai para o Japo, e Mary Margaret vai... para onde, Jack? Para o tio dela, que voc me disse que  to ruim
quanto a irm? Ou talvez para algum tipo de orfanato at completar dezoito anos. Bem, mas isso no  problema seu, certo?
Keely se virou para sair, mas ele a agarrou pelos ombros, mantendo-a no lugar.
- Voc no consegue calar a boca - perguntou, encarando-a. - Eu no desejei nada disso. O que devo fazer?
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Keely olhou-o por um longo momento.
- No sei - disse, honestamente. - S sei que aquele beb ali merece muito mais do que voc e sua prima parecem dispostos a dar. Eu estou aqui agora, no porque
voc me contratou, mas porque algum tem que cuidar dessa criana. Eu posso no ter comeado com esse objetivo, mas  assim que as coisas esto, e voc no pode
me demitir porque precisa muito de mim e Petra tem aulas noturnas e a tia Sadie  velha demais e est muito satisfeita com sua prpria vida para fazer seu trabalho
sujo. Diga-me, Jack, quando  que voc vai parar de fingir e assumir que  o responsvel por Mary Margaret?
Ele apertou-a um pouco mais forte.
- Voc tem alguma idia do quanto eu gostaria de v-la fora daqui?
- Perfeitamente. Voc tem deixado isso absolutamente claro no dia-a-dia; s vezes, at a cada hora. Assim, pare de enrolar, Trehan, me diga logo para ir. Vamos l,
me mande embora.
- Eu no posso - admitiu ele, afastando-se um pouco. Keely quase caiu, sentindo os joelhos fraquejarem. Jack falou como se ela nem estivesse mais ali, ouvindo-o.
- Tim vir amanh de manh para o teste. Eu tenho que fazer aquele comercial no Arizona na semana que vem...
"Teste?"
Aparentemente, Keely havia perdido alguma parte. Ela no tinha conhecimento ou interesse suficiente para ser comentarista na ESPN, mas era uma f e conhecia o termo.
Ento, o Japo no era uma coisa certa, como imaginara. Ele tinha um teste, exatamente como um novato... como algum
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que ningum mais queria. Era por isso que passava tanto tempo na garagem. Jack estava treinando e no mantendo a boa forma enquanto esperava a tinta sobre seu contrato
com o Tokyo Tigers ou algo assim secar.
Que humilhante para ele! Ele havia ganhado dois prmios Cy Young pelos Yankees e agora descera a ponto de precisar fazer um "teste" para um time do outro lado do
mundo?
Jack havia perdido sua carreira e voltado ao ponto de onde comeara... com uma casa melhor, mais dinheiro, mas, ainda assim, no ponto inicial. Ele tinha uma casa
imensa mas no tinha mveis. Seu irmo ainda jogava nas ligas principais, e ele era obrigado a conviver com aquilo, por mais que amasse o irmo. E agora, s para
completar, tinha Mary Margaret... e ela.
Keely estava surpresa por ele no ter resolvido ir para as garagens e se enforcar.
Lentamente, ela estendeu uma mo e tocou-o no brao.
- Jack... eu sinto muito - disse, sincera. - Eu tenho uma boca grande demais. No devia ter ficado to brava quando voc me contou sobre esse contrato no Japo.
Eu pensei que voc s estivesse atrs de mais um contrato gordo e mandando a criana s favas, junto com todo o resto. Mas no  isso, certo? Voc realmente no
sabe o que fazer, agora que est fora do beisebol.
Ele se desvencilhou imediatamente.
- "Eu" decido quando estou fora do beisebol. J me recuperei uma vez de uma cirurgia sria no ombro. Sou perfeitamente capaz de me recuperar de novo. Eu fui precipitado
em me aposentar.
Os protestos dele se pareciam muito com os dela, quando
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tentara se agarrar a um negcio fracassado, a um sonho desfeito.
- Mas os Yankees no acharam isso, certo? Os mdicos no acharam isso. Voc no acha que os Yankees o teriam mantido se achassem que voc poderia voltar a lanar?
Ele meio que se virou para sair, depois se voltou novamente e encarou-a.
- Ah, que timo! Ela decora, cozinha, cuida de bebs. E agora ela tambm  ortopedista, dona de time e at psicloga, por apenas dez por cento do preo de um par
de sofs. Como eu pude ter tanta sorte? Ora, muitssimo obrigado, srta. McBride, e tenha uma boa noite!
- Jack, espere! - gritou Keely. Ento, saiu pelo corredor atrs dele, se esquecendo de suas pernas nuas; se esquecendo que,  exceo de um beb, ela e Jack eram
um homem e uma mulher, sozinhos em uma casa imensa. Ela pegou-o novamente pelo brao, o brao direito, e ento soltouo depressa, lembrando-se de t-lo visto com
o saco de gelo mais cedo. Jack parou e esperou.
E ela no conseguiu pensar em absolutamente nada para dizer.
- Ah, Jack, eu realmente sinto muito - disse, finalmente, passando os braos pelo pescoo dele. - A vida  injusta, no  mesmo?
Keely comprimiu o corpo contra o dele, tentando consol-lo porque conhecia bem a sensao de ter os sonhos arruinados a seus ps. Doa. Doa muito.
Lentamente, Jack tambm abraou-a e baixou a cabea para encostar na dela.
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- Isso no  inteligente, Keely - avisou, alguns momentos depois. - Acho melhor voc ir para a cama agora.
Ela assentiu contra o peito dele, recuou quando ele a soltou e ergueu os olhos para encar-lo.
- Boa sorte amanh, Jack. Do fundo do corao. Ento, Keely girou nos calcanhares e correu para seu quarto.
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Captulo VIII

Eu fiquei com vontade de gritar que havia lanado uma bola curva.
Candy Cummings, lanador
Keely no estava nem um pouco animada para se levantar com o nascer do sol, especialmente depois de ter passado uma noite particularmente insone, tentando reviver
a cena com Jack, de forma a no parecer uma idiota sem crebro. Pior: uma idiota sem crebro o assediando.
Mas o quarto de Mary Margaret era do lado leste da casa e, quando o sol nascia, Mary Margaret se levantava com ele, com as fraldas molhadas, a barriga vazia e os
pulmes em perfeito estado de funcionamento.
As janelas da casa de Jack podiam ser perfeitas prolas da arquitetura, a casa podia ser suficientemente isolada dos vizinhos para garantir privacidade e cercada
de belas paisagens, mas chegara a hora de pensar nas cortinas.
Depois de vestir e alimentar Mary Margaret e de coloc-la na cadeirinha de balano que ficava suspensa no limiar da
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porta, uma espcie de bungeejump para crianas pequenas, Keely sentou-se  mesa da cozinha, cercada de meia dzia de mostrurios com uma variedade de materiais para
cortinas que havia acabado de tirar da caminhonete.
J havia decidido o revestimento das janelas para os cmodos do andar inferior e estava tentando resolver os blackouts para o quarto de Mary Margaret, quando Petra
Polinski apareceu. Quando voltara da caminhonete, Keely havia deixado a porta dos fundos destrancada o que, para Petra Polinski, era evidentemente um convite para
entrar direto.
- Ei, belezas, como vai a vida esta manh? - perguntou Petra, caminhando para a cafeteira. - Ou, para dizer melhor, tudo em cima!
-  uma surpresa v-la aqui - disse Keely. - Eu pensei que no vero as adolescentes dormissem at o meio-dia - prosseguiu, olhando para Petra que, a essa altura,
j havia se servido de caf, bebido um gole e agora fazia caretas diante de uma Mary Margaret encantada.
Certamente, os bebs gostavam muito de cor. A atrao s podia ser essa. Naquele dia, Petra estava vermelha. Short vermelho berrante, tnis vermelhos, camiseta vermelha
justa e fitas vermelhas nos cabelos loiros. Era como olhar para uma placa gigante de "pare".
Petra pegou um chocalho, entregou-o a Mary Margaret e foi at a mesa, apontando para um dos espessos livros de amostras.
- Cortinas, hein?! Quer minha ajuda? Keely olhou-a de cima a baixo, mais uma vez.
- Hum, obrigada, mas eu creio que no.
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-- Claro que quer. - Petra se sentou, abriu um dos mostrurios e comeou a virar pgina aps pgina de amostras. - Ah! Veja este, que beleza - disse, parando em
uma das pginas e passando a mo pela amostra. - Uma boa combinao de tecidos e design, imponente sem ser excessivo. E  um padro do sculo dezoito, um verdadeiro
clssico que provavelmente ficaria muito bom na sala de jantar. Cortinas finas cor de marfim, longas, at o cho. um xale, definitivamente. Voc vai optar por um
ambiente mais formal l, no ? Quero dizer, com as colunas jnicas e aquela bela janela ovalada, voc precisa manter certa dramaticidade.
Keely recostou-se na cadeira, observando Petra, preocupada.
- Deixe-me dar um palpite: outra fase sua?
Petra assentiu, arrancando uma folha de um bloco prximo e marcando a pgina antes de prosseguir.
- Eu projetei e decorei minha prpria casa de bonecas aos sete anos. Meu av a construiu... uma coisa linda, de trs andares. Eu descobri que meus preferidos so
os estilos Regncia e Georgiano, tenho certa influncia do estilo Vitoriano, mas no muita, apesar de nutrir uma grande admirao por Frank Lloyd Wright. Mas voc
no acha que h muito mais "alma" em Sheraton, Chippendale e ndigo Jones? Ah, legal! Voc j marcou esta pgina. Para a sala de visitas, no ? Acho que temos alguma
espcie de sintonia csmica. Aposto que isso a deixa apavorada.
Keely inclinou-se na cadeira, apoiou o cotovelo na mesa e apoiou o queixo na mo.
- "Quantos" anos voc tem? Voc disse que tinha dezesseis ou dezessete, no ?
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- E nunca fui beijada - brincou Petra, sorrindo. -  isso mesmo. - Ela se voltou para o mostrurio, analisando cada pgina com um olhar crtico. - E ento? Voc
vai assistir?
Keely ainda estava tentando absorver a idia de que Petra era exatamente o que dissera ser: um gnio superdotado. Bem, ela era definitivamente superdotada.
- Assistir? Assistir a qu?
Petra fechou o mostrurio, levantou-se e revirou os olhos.
- Jack, evidentemente. Sadie disse a Mitzi e Mitzi me disse. Tim Trehan, o irmo de Jack e apanhador dos Phillies, vem at aqui para ajudar Jack com o teste para
algum olheiro de beisebol. Eles vo se encontrar no campo da escola s nove horas. Caramba, eles no lhe contam nada?
Keely mudou de posio na cadeira.
- Eu sabia disso - disse, arrependendo-se por parecer to defensiva. -  claro que fui convidada - mentiu. - Mas tenho essa entrega imensa de mveis agendada para
as dez da manh, de forma que no posso ir.
Mary Margaret comeou a ficar entediada com o balano e comeou a choramingar. Sem perder tempo, Petra pegou-a no colo e sentou-a no prprio quadril, como se estivesse
habituada a fazer isso h anos.
- Quer que eu cuide disso?
Keely sorriu. Uma menina to doce, ingnua, at.
- Obrigada, mas no. Tenho que dizer ao pessoal da entrega onde colocar tudo.
Petra andou at a mesa e se inclinou para Keely.
- Voc quer ir? Sadie disse a Mitzi que voc est interessada
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em Jack. At eu daria em cima dele, mas ele  meio velho, sabe? Ento, voc provavelmente quer ir, no ?
Keely empurrou a cadeira, levantou-se e serviu-se de mais uma xcara de caf. Suas mos tremiam tanto, que ela derrubou um pouco no balco. Enquanto pegava uma toalha
de papel, disse:
- Eu sou funcionria de Jack, Petra. No estou interessada nele.
- Ah, certo. E Britney Spears canta ao vivo. D um tempo, Keely, eu percebo o que est acontecendo. Voc e Jack, vivendo aqui, sozinhos, com apenas Candy de acompanhante?
Estou lhe dizendo, menina, que Sadie e Mitzi j esto imaginando um romance para l de trrido acontecendo entre vocs dois. No que isso seja ruim. Elas so velhas,
precisam de alguma coisa para manter o sangue correndo nas veias.
- Sua professora a classifica como "incorrigvel" nos relatrios? - perguntou Keely, corando.
- No, desde o jardim-de-infncia. Depois que eu fiz uma rplica do Memorial de Lincoln na primeira srie com palitos de dente e bolas de algodo, eles simplesmente
comearam a dizer que eu era superdotada e fingiram que no havia sido eu quem colara chiclete nos cabelos de Jenny Arburto. Eles ficaram muito perturbados por eu
no gostar de matemtica, apesar de eu no ser uma m aluna. Geralmente, as crianas-prodgio so verdadeiros gnios matemticos, sabe? Eu? Eu sou mais ecltica.
Talvez seja de propsito. Alguma imaturidade latente que eu no superei, mas no sei bem ao certo.  por isso que eu vou abandonar o curso de Artes e comear Psicologia
no semestre que vem.
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Inteligncia e dinheiro do papai so coisas que podem levla a qualquer lugar.
Petra abriu o bloco de anotaes de Keely e comeou a examinar os esboos feitos para cada cmodo.
- So bons - disse ela. - Muito completos. Tudo bonitinho, detalhado, nada difceis de decifrar. Tudo o que voc comprou est marcado, no?! Aqui est indicado exatamente
onde cada mvel deve ser colocado. Eu sou capaz de fazer isso e de dizer ao pessoal da entrega onde colocar as coisas. Por que voc no vai ver seu namorado se exercitar?
- No... Eu no poderia - Keely respondeu, erguendo os olhos para o relgio. Oito e meia. - Quero dizer, ele no chegou a me convidar e...
- . Eu j sabia... Voc no  de nada, Keel. No  preciso ser um prodgio para perceber isso.
- Obrigada.  bom saber que sou transparente. - Keely meneou a cabea. - Mas, de uma forma ou de outra, duvido que ele queira platia.
Mas Petra nem estava ouvindo. Ela jogou Mary Margaret no colo de Keely e disse:
- Acho que ela sujou a fralda.  melhor troc-la antes de voc ir. Candy e eu demos um passeio ontem naquele carrinho que tem rodas imensas. Ele  perfeito para
andar na grama.
- Eu... eu devo levar Mary Margaret comigo? Petra deu de ombros.
- Eu levaria.  uma simples questo de lgica: ele no vai poder jogar a bola em voc, se voc estiver segurando a criana, certo?
- Certo - disse Keely, endireitando os ombros. - E eu
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gostaria que Mary Margaret conhecesse seu primo, Tim. Seria bom, no seria?
Petra sorriu, mostrando uma fileira de dentes perfeitos por baixo do batom vermelho-sangue, uma melhora considervel depois do batom verde do dia anterior.
- Bem, eu usaria qualquer desculpa que funcionasse.
Jack havia levantado, tomado banho e sado de casa antes mesmo de o sol nascer. Havia colocado a luva, uma base de lanamento de borracha para o caso de a escola
ter removido a sua no intervalo entre os jogos e um saco de bolas no porta-malas do carro. A luva estava numa bolsa de couro, junto com uma reserva, de resina, mas
o peso maior era do aperto que sentia no peito.
Havia decidido tomar caf da manh em um restaurante prximo e se arrependera quase no mesmo instante. Quase tanto quanto se arrependera das trs xcaras de caf
que bebera enquanto esperava o sol nascer para poder pegar o carro e partir para o campo.
Sua mente estava um caos. Como podia pensar em sua performance quando tudo o que via quando fechava os olhos era Keely, em p, no corredor, com os cabelos escuros
e soltos e as pernas mais longas que ele j vira, olhando-o com compaixo nos olhos?
Ele se acomodou no banco do carro esporte, recostou a cabea para trs e suspirou. J vira muitas emoes diferentes nos olhos de muitas mulheres bonitas, mas nunca
antes vira compaixo.
Ser que ele era digno de pena? No! Pena era o ltimo
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sentimento que merecia. Era Jack Trehan, o principal lanador destro dos New York Yankees, isso sim!
Era.
Jack massageou o ombro direito com a mo esquerda. Havia uma dor o incomodando, uma dor que no deixara de incomodar desde que ele recomeara os treinos, mas at
a, ele no era o nico que tivera de fazer lanamentos sentindo dor. A dor fazia parte do jogo.
Tudo fazia parte do jogo. A dor, a vontade de vencer, Candy, Keely, a casa... Jack mal podia acreditar nos prprios pensamentos. Teria de contratar um terapeuta
motivacional para si. Por que no ia simplesmente para casa e desistia de tudo de uma vez?
Praguejando baixinho, Jack abriu a porta do carro e saiu. O sol havia nascido, o cu estava azul e havia uma brisa suave soprando no estacionamento vazio. De algum
ponto distante na direo do campo, ele ouviu um cortador de grama, mas tirando isso, estava sozinho. O campo de beisebol ficava nos fundos do cmpus, de forma que
ningum o reconheceria da rua.
Ele abriu o porta-malas do carro, apoiou-se no pra-lama e trocou os sapatos. Ento, pegou o resto do equipamento e foi para o gramado. Deixou as coisas perto do
banco na linha da primeira base e deu incio a sua srie habitual de exerccios.
Tudo havia comeado ali para ele e Tim. Os dois jogavam h anos, mas aquele era o campo dos sonhos, o lugar onde todos os olheiros das universidades, e at alguns
das ligas principais, haviam comparecido para ver os gmeos Trehan jogar. A dupla perfeita. Irmo lanando para irmo.
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Exceto pelos treinos de vero e por alguns jogos entre as ligas em que haviam se enfrentado em times diferentes, os dois no jogavam juntos desde a faculdade.
Mas tudo comeara ali. E se tivesse que terminar ali, talvez aquilo tornasse o adeus final um pouco mais razovel.
Jack verificou a base, posicionando a borracha no lugar e ento tirou um pouco da sujeira, deixando a base do jeito que mais gostava. Chegou at a ajoelhar-se, para
nivelar o monte de barro, jogando algumas pedras para o interior do campo. O tempo estava passando. Finalmente, estava pronto. Lentamente, Jack se levantou e, quando
olhou para trs, viu o irmo, completamente uniformizado, com a luva embaixo do brao e o capacete protetor levantado acima da cabea.
Ser que ele prprio j tivera aquela aparncia, to  vontade dentro de si mesmo? Ele e Tim eram muito parecidos na compleio fsica, apesar de Tim ter as pernas
mais musculosas depois de anos se abaixando e se levantando na posio de apanhador. Mas, tirando isso, olhar para Tim era muito parecido com olhar no espelho.
- Ei, irmo, que grande dia para lanar e apanhar, hein?! - Tim Trehan brincou, aproximando-se da base.
- Voc veio cedo - disse Jack, limpando o barro e a areia das mos para apertar a mo de Tim. - Obrigado por ter vindo.
Tim sorriu, fazendo com que pequenas rugas se formassem na lateral dos olhos, deixando o rosto bronzeado ainda mais bonito.
- Ora, era o mnimo que eu poderia fazer. O que me custava depois de ter jogado ontem, tomado um vo longo,
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guiado at aqui? Depois, eu s preciso voltar para a Filadlfia e chegar a tempo para o jogo desta noite. Mas entre irmos, isso no  nada.
-Certo. Pode jogar na minha cara. Fico lhe devendo uma -Jack contemporizou, enquanto os dois se esforavam para conversar sem abordar a questo do brao de Jack.
- Ei! - disse ele, um momento depois. - Voc se lembra daquele jogo com Northampton em nosso ltimo ano? Aquele canhoto imenso... como era o nome dele? Eu arremessei
uma bola dura para ele e ele jogou-a direto em seu pescoo, bem embaixo de seu capacete. Voc desabou como uma pedra.
- . Boas lembranas... - Tim aquiesceu, com um sorriso amarelo, no muito divertido. - Agora, que tal falarmos de como ele rebateu seu arremesso seguinte para alm
de Doyle, na terceira base, fazendo o ponto da vitria?
- Eu no me lembro dessa parte - disse Jack, apesar de se lembrar. Havia ficado to aterrorizado quando Tim cara e desmaiara, que certamente no se concentrara
para o lanamento seguinte.
- Mas ns ramos bons - Tim assegurou, suspirando e virando-se para olhar o campo. - Nossa, esse lugar est cheio de lembranas. Ns praticamente vivemos aqui, desde
o jardim-de-infncia at a formatura. Voc se lembra de quando eu subi naquela rvore no intervalo? A sra. Liddy gritou tanto que eu ca e quebrei a rtula.
Jack inclinou-se e pegou a luva.
- Eu me lembro. Cerca de um ms depois, bati com a bicicleta numa rvore e quebrei a rtula direita. Voc quebrou a esquerda. Mame achou que tivssemos combinado.
- Sim, como combinamos todo o resto. Voc fez seu
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primeiro touchdown naquele campo ali, e mais tarde, na mesma noite, fez mais um, se bem me lembro, com uma tal de Susie "Lbios de Mel" Williams. Jack riu com a
lembrana.
- Eu menti. No passei nem da linha das vinte jardas com Susie.
- Ora,  mesmo?! Bem, ento eu acho que  hora de confessar que tambm no me dei to bem com Mindy Frett algumas semanas depois, apesar do que disse na poca.
- Voc mentiu?! - Jack exclamou, arregalando os olhos para o irmo.
- Ah, no faa essa cara de espanto. Voc se lembra de como ramos. Se um de ns fazia uma coisa, o outro fazia o mesmo logo em seguida. Voc disse que havia pontuado
com Susie. O que mais eu poderia fazer? Se bem que eu devia ter desconfiado, no ?
- . Bem, d graas a Deus por no estar seguindo o mesmo caminho que eu nesse momento - disse Jack, interrompendo as recordaes. - Que tal nos aquecermos antes
de o olheiro chegar?
- tima idia - Tini concordou, virando-se ao mesmo tempo que baixava o capacete. No momento seguinte, parou. - Epa! Morena aproximando-se pela direita. No se preocupe,
ela est com uma criana. Bem, eu tenho mesmo que voltar para o estdio s duas.
Jack olhou para alm da terceira base e avistou Keely ali, empurrando Candy no carrinho.
- Droga - murmurou por entre os dentes, desviando os olhos antes que ela resolvesse acenar. - O que ela est fazendo aqui?
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Tini ergueu novamente o capacete.
- Voc a conhece?
Jack bateu com a luva na coxa, tentando imaginar o quanto poderia contar a Tim e quanto o irmo concluiria por conta prpria.
- Ela  minha decoradora de interiores, Keely McBride. Se eu vou morar aqui, preciso ter alguns mveis naquele celeiro que comprei.
- Interessante. E aquela criana  dela?
- No. Candy no  dela.  de Cecily e eu estou bancando a bab. Olhe,  uma longa histria e o olheiro vai estar aqui a qualquer momento. Eu preciso me aquecer.
- Bancando a bab, hein? - Tim falou, olhando para Keely e novamente para Jack. - Ah, prometa que vai me contar essa, meu irmo.
Jack assentiu e Tim foi novamente para a marca e se abaixou atrs dela.
- Devagar e sempre, Jack - gritou ele, batendo com a mo na luva imensa. - Faa os primeiros arremessos apenas para soltar a musculatura, antes de tentar algo mais
forte.
Jack fez um movimento rotativo com os ombros, fingindo no perceber os olhos de Keely nele, e subiu na borracha. Ento, esqueceu-a. Esqueceu todo o resto, menos
a bola na mo e a luva na mo do irmo.
Tim sempre adorara falar em campo. Era incansvel e naquela manh estava particularmente inspirado. Enquanto Jack lanava, Tim no parou um minuto de falar, como
numa conversa maluca, sem interlocutor.
Jack estava suado e cansado, mas sentia-se bem. Estava
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de volta ao campo, com seu irmo apanhando. Estava com o saco de resina na mo, o lanamento seguinte em mente. Aquela ltima bola curva havia sado exatamente como
esperado, aterrissando precisamente atrs da linha. Como adorava aquela bola curva!
Era bom. Era bom demais estar em campo novamente.
Depois de cerca de quarenta arremessos, o que no estava bem era seu brao. Estava morto, pendurado e seus lanamentos tambm comeavam a perder vigor, tornando-se
presas perfeitas para qualquer rebatedor medianamente habilidoso.
Jack pegou a bola que Tim devolveu, tirou o bon, enxugou o suor da testa e ficou esperando Tim aproximar-se para falar-lhe.
- Como est o brao?
- Di como o diabo - admitiu Jack, apesar de ter feito o comentrio num tom bem baixo, porque o olheiro chegara cerca de dez minutos antes e estava atrs de uma
das bases, com um marcador de velocidade dos lanamentos em mos. - Ele falou a velocidade desse ltimo arremesso?
- Oitenta e sete - disse Tim, assentindo. - Nada mau, Jack, mas se  o melhor que pode fazer, acho que est encrencado. E tente baix-los um pouquinho. Voc est
lanando muito alto.
Ciente de que sua mdia de velocidade na ltima temporada havia sido de noventa e sete milhas por hora, Jack girou novamente o bon na cabea, lutando contra o impulso
de massagear o ombro direito.
- Vamos variar um pouco.
- Tem certeza? Ele j viu o bastante. Voc est meio plido, meu irmo.
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- Tenho certeza-respondeu Jack, contraindo os lbios.
- Vamos l.
Meia hora depois, Jack reuniu-se ao olheiro na linha da primeira base. O olheiro falou, Jack ouviu.
Depois, Jack falou, o olheiro respondeu, os dois se cumprimentaram e se afastaram.
- E ento? O que aconteceu? - perguntou Tim, carregando os protetores de peito e de pernas, com o capacete ainda na cabea.
- Ele me quer - disse Jack, ao mesmo tempo que Keely se aproximava, empurrando o carrinho de Candy. Ela parou a certa distncia, suficientemente prxima para ouvir
a conversa, mas no o bastante para ser apresentada.
- Ele quer... Ora, Jack, mas isso  timo! timo! - exclamou Tim, conseguindo esconder quase totalmente o tom de incredulidade da voz. - E o que voc disse a ele?
- Disse que vou pensar - respondeu Jack, olhando para Keely, que estava com os olhos baixos para os prprios ps.
- A, ele me disse que enquanto eu penso, e que era melhor no pensar demais, que soubesse que eles estavam comprando um nome e nada mais - Ele respirou fundo e
deixou o ar escapar lentamente. - A, eu disse a ele para ir para o inferno, ns nos despedimos, eu ensinei a ele o melhor caminho para o aeroporto e foi isso.
Naquele momento Keely ergueu a cabea, e Jack viu as lgrimas nos olhos dela, lgrimas que ela procurou disfarar, inclinando-se rapidamente para pegar Candy e uma
chupeta no bolso da camisa.
Jack foi at o banco e pegou a sacola. Tim o seguiu.
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- Voc tem uma bolsa de gelo a? - perguntou Tim. - Procure pr esse ombro no gelo o quanto antes, antes que piore.
Jack abriu a sacola e tirou uma bolsa de gelo descartvel, ativada por presso, e colocou-a no ombro.
- Eu fui to mal assim, Tim?
-  claro que no - assegurou o irmo, pegando a sacola de Jack e erguendo-a. - Seu arremesso dirigido estava razovel e voc ainda acerta umas bolas boas quando
est focado, mas sua bola rpida j era, Jack. J era mesmo. Alm disso, suas bolas curvas esto altas demais.
- . Eu sei - Jack falou olhando mais uma vez para Keely. - Deus, como eu amo aquela bola curva. Lembro da primeira vez que papai disse que eu j tinha idade suficiente
e que me deixou lanar uma. Foi como uma mgica, Tim. Uma mgica...
- Voc vai ficar bem?
Jack forou-se a voltar  realidade de que agora estava tudo acabado. Definitivamente acabado.
- Claro, Tim. Eu vou ficar bem. No fundo, eu j sabia. S no podia, ou no queria, admitir - Ele correu os olhos pelo campo e suspirou. - Eu comecei aqui, vou terminar
aqui - disse, forando um sorriso. -  uma pena que no haja um poeta por aqui para imortalizar este belo momento em versos, no ?
- Desde que ele no comeasse com "aqui jaz Jack..." - Tim recuou trs passos e fez um sinal para que Jack o seguisse. - Venha. Quero conhecer sua decoradora de
interiores e depois voc pode me contar por que ficou com a
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filha de Cecily. Alis, comece contando por que Cecily teve uma filha.
- Eu gosto de seu irmo - disse Keely, enquanto Mary Margaret dormia no assento, e ela e Jack terminavam o que restara do cozido de carne. Ela sabia que fazia um
cozido excelente, mas ainda no aprendera a fazer uma quantidade que no fosse suficiente para alimentar um pequeno exrcito.
- Hum - respondeu Jack, servindo-se de mais um pedao de po com manteiga.
Keely olhou-o, tentando concluir se aquilo era uma evoluo sobre o silncio mortal que o invadira desde que a apresentara a Tim, pegara a sacola que o irmo segurava,
girara sobre os calcanhares e os deixara ali, simplesmente.
Eram cinco horas da tarde e era a primeira vez que o via desde ento, e considerando os esforos que Jack estava fazendo para manter a boca cheia de comida, ele
claramente no estava disposto a falar.
Tudo bem. Ela falaria por ele.
- Sim, eu gostei mesmo dele. Ns almoamos juntos mais cedo, sabe? Antes de ele ir para a Filadlfia. Foi por isso que eu servi o jantar to cedo. Porque almocei
cedo demais - Keely se repreendeu mentalmente, criticando-se por ser to boba. - Ele me contou tudo sobre Cecily e o irmo dela, Joey, e at algumas histrias sobre
vocs dois, quando eram crianas.
Jack serviu-se de mais um bocado do cozido e manteve a cabea baixa em direo ao prato, para evitar olh-la. Alis, se abaixasse mais, poderia largar o garfo e
cair de boca na comida.
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- A, ele me perguntou se eu gostava de sexo selvagem e eu disse, "claro, eu adoro"... Ento, eu pedi a Petra para ficar com Mary Margaret e vou de carro para a
Filadlfia hoje  noite, para encontr-lo depois do jogo.
Um pouco mais tarde, enquanto limpava o arranjo do centro da mesa e o tampo de vidro, Keely constatou o poder de aderncia do cozido quando lanado, ou melhor, cuspido,
por um homem enquanto ele engasgava, tossia e depois, com um movimento brusco, jogava o garfo na mesa e saa, quase correndo, da cozinha.
Bem, o que eu deveria ter feito? Andado o dia todo na ponta dos ps, ficado de boca fechada e fingido no saber que Jack Trehan provavelmente estava vivendo um dos
piores dias de sua vida? Talvez alguma outra pessoa tivesse agido assim, mas no ela.
Voltara para casa depois do almoo com Tim, esperando ver Jack na rea das garagens, mas ele no havia voltado para casa.
Keely passara quase o dia todo andando pela casa com Petra, encantada com a nova moblia, ajeitando uma ou outra pea, planejando onde gostaria de colocar um grupo
de quadros, ou um espelho, listando mentalmente os artistas que escolheria...
Havia deixado Petra pr Mary Margaret para cochilar e aproveitara para terminar de escolher os tecidos das cortinas, forros e blackouts. Ento, mandara um pedido
urgente por fax para o fornecedor.
E olhara vrias vezes pela janela. Vrias. Mas Jack no havia voltado para casa.
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L pelas trs e meia, ela se acomodara no novo sof no escritrio e comeara a organizar as fitas de vdeo que antes ficavam empilhadas ao lado da cadeira de Jack.
Uma cadeira que, felizmente, agora havia sido banida para a garagem.
Todas as fitas haviam sido cuidadosamente etiquetadas  mo. Keely escolheu uma e colocou no videocassete. O rtulo dizia: Srie Mundial. Jogo Seis.
Ela avanou rpido a maior parte do jogo, deixando para assistir apenas os trechos em que Jack aparecia. Ele havia jogado divinamente naquele dia, estivera concentradssimo,
fizera trs lanamentos indefensveis e deixara o campo com um placar de cinco a dois em favor dos Yankees.
- Enquanto o pblico aplaude Trehan de p - dizia o comentarista -, eu gostaria de lembrar que esta talvez seja a ltima vez que vemos este grande lanador destro
em um uniforme dos Yankees. Na prxima semana, Jack Trehan ser submetido  segunda cirurgia no ombro direito.
- Sim, Bill,  isso mesmo - completou outro comentarista, enquanto Keely observava Jack sair da rea do banco e tirar o bon para saudar a multido. - E isso me
lembra algo que Dan Drysdale, outro grande jogador, disse h alguns anos. Eu anotei bem aqui. Drysdale disse: Um ombro lesado  como um cncer para um lanador e
se o lanador sofrer uma leso grave, ele tem que encarar os fatos: acabou, nenm. Para o bem de Jack Trehan, vamos torcer que no esteja tudo acabado, nenm.
Naquele momento, Keely chorou ao ver Jack acenar para o pblico novamente, com uma expresso mais sria que sorridente e desaparecer pelos degraus da rea do banco
de reservas, pela ltima vez.
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Ento, ejetou a fita, fez o mximo que pde para ignorar uma cujo rtulo dizia: ESPN, Entrevista coletiva de despedida e guardou todas as fitas na gaveta da nova
mesinha de apoio.
Concluiu que Jack devia ter passado seu tempo desde a aposentadoria sentado naquele escritrio, assistindo s mesmas fitas, incontveis vezes. Por que ele simplesmente
no enfiava uma estaca no olho? No doeria mais que aquilo.
Keely espremeu o pano uma ltima vez e pendurou-o no suporte colocado ao lado da pia.
Por que no o deixava em paz e sozinho? Ele merecia tempo para lamentar a perda da carreira, no? Quando voltara para a casa da tia Mary, Keely havia passado a primeira
semana em casa, com seu pior pijama, comendo sorvete de creme direto do pote e sentindo a oleosidade se acumular em seus cabelos. Todo mundo merecia um tempo para
lamentar um sonho perdido.
O fato  que, se tia Mary no tivesse intercedido, talvez ela continuasse sentada l, de pijama. A tia lhe dera duas alternativas: resolver a vida ou ir embora,
porque a partir da segunda-feira seguinte, passaria a cobrar aluguel da sobrinha.
Ningum estava dizendo nada a Jack Trehan. Ele havia ganhado dinheiro suficiente para ficar sentado no sof o resto da vida, assistindo a velhas fitas de videocassete
e lamentando-se. No que aquilo fosse problema dela. Keely tinha uma casa para redecorar e uma carreira em Manhattan para ressuscitar. Mas Mary Margaret merecia
mais. Talvez a histria do Japo tivesse sado de cena, mas Jack ainda tinha de se lembrar que era o responsvel pelo bem-estar da prima.
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Certamente, Cecily no era a melhor pessoa. No depois do que Keely ouvira de Tim sobre a prima volvel e irresponsvel. E, definitivamente, Joey Morretti seria
uma m escolha. Ele parecia ter tanto crebro quanto um p de alface. No importava se Cecily finalmente voltasse para casa, no seria certo restituir a ela a custdia
de Mary Margaret e o controle sobre o futuro da criana.
Keely sabia disso muito bem. Agora, precisava fazer Jack enxergar... tudo isso enquanto tentava "no" se envolver, nem com Mary Margaret nem, principalmente, com
Jack.
Quando o sol comeou a se pr, Jack guardou seu equipamento. Depois do jantar, limpou as luvas e os protetores e enfiou a sacola em uma prateleira na garagem.
Talvez algum dia, pegasse aquela luva e a imortalizasse dentro de uma embalagem acrlica ou de algo igualmente estpido. A, poderia coloc-la em uma prateleira
do escritrio, junto com seus trofus, placas, uniformes, algumas bolas e o que tivesse restado no apartamento de Manhattan. E, ento, ficaria ali, com uma cerveja
na mo, falando sobre os bons e velhos tempos com um punhado de amigos reunidos para assistir ao jogo na televiso.
Mas ainda no.
Apesar de tudo, Jack estava se sentindo bem. Era incrvel, mais que chocante, mas ele realmente estava se sentindo bem. Havia feito o melhor que podia e no tinha
dado certo.
Portanto, tudo bem. Havia acabado. Tivera uma boa carreira. Uma tima carreira.
Ia ficar bem. Assim que ligasse para Mort.
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Jack pegou o telefone celular do banco da frente do carro e ligou para o celular do agente.
- O que foi? - gritou Mort ao telefone, alguns momentos depois. Para Mort, os telefones celulares eram apenas latas, com fios longos e invisveis interligando-as
e, para fazer-se ouvir, era preciso gritar.
- Mort, sou eu, Jack.
- Eu no vou falar com voc, garoto - disse Mort Mortimer, contradizendo-se no segundo seguinte. - Voc desistiu? Voc no deve desistir das coisas, rapaz. "Eu"
desisto das coisas e depois deixo o responsvel pela oferta agonizar um pouco, at ele voltar com um nmero melhor. A, ns aceitamos. E eu s estou falando com
voc porque eles j voltaram. Cinco milhes por dois anos. Sei que no  muito, mas  melhor do que eu havia imaginado. Mais um bnus de contrato e outro se voc
ajud-los a se classificar para o campeonato deles. Eles gritaram, berraram, gemeram e grunhiram, mas eu continuei apertando-os at conseguir. Seu contrato com os
Yankees termina em julho; portanto, no h problema algum. Agora, tudo o que precisamos fazer  ler os contratos e dizer Sayonara, tio Sam; ol, Tquio.
- Eu no quero - disse Jack ao agente, ao mesmo tempo que batia a porta do carro e comeava a subir pelo caminho que levava at a casa. O sol iluminava toda a parte
dos fundos, reluzindo sobre a gua da piscina. Uma boa parte da humanidade daria qualquer coisa para viver naquela casa. Droga, ele prprio dera seu "brao direito"
para viver ali.
- Jack? Jack? - Jack afastou o fone da orelha, Mort estava realmente berrando. - Jack, no estou ouvindo isso. Quero dizer, no  possvel que tenha ouvido, ? Jack!
Voc
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no pode desistir disso! Ningum desiste de cinco milhes de dlares. Droga, Jack... fale comigo!
- Vejo-o no Arizona, na prxima semana, Mort. Passe um fax com os assuntos particulares que chegarem. Ah, quanto ao Corvette, eu quero um vermelho. - com isso, Jack
desligou o telefone e continuou andando.
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Captulo IX

Eu soube quando minha carreira terminou.
Em 1965, meu carto de beisebol veio sem foto.
Bob Uecker
No fim, o instinto de autopreservao de Keely levou a melhor sobre seu desejo de ir atrs de Jack Trehan, sent-lo, amarr-lo, se necessrio, e dizer que entendia
como ele se sentia. Ela entendia e lamentava, mas agora ele tinha que parar de pensar na carreira perdida e comear a pensar no futuro. E em Mary Margaret.
Assim, Keely deu a ele um fim de semana. Jack no sabia do prazo, mas Keely estava se sentindo verdadeiramente magnnima com seu gesto. No lhe ocorrera que no
estava em posio de dar nada a ele, ou que no tinha o direito de se meter.
Alis, teria ficado impressionada se algum tivesse dito que ela era autoritria e que estava interferindo. Ela simplesmente era do tipo de pessoa que, quando achava
que estava
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certa, simplesmente conclua que o resto do mundo sabia do fato.
Assim, agindo sob esse esprito maravilhosamente generoso, Keely fez grandes refeies, manteve-se ocupada com Mary Margaret, e ficou longe do escritrio durante
todo o tempo no domingo, enquanto Jack passeava pelos canais, provavelmente baixando seu QI em vrios pontos enquanto assistia  ESPN, depois a seis jogos diferentes
de beisebol, depois  ESPN novamente, desde de manh at a meia-noite.
Mas, na segunda-feira pela manh, o tempo dele havia se esgotado, de forma que Keely entregou Mary Margaret a Petra e foi atrs de Jack, que estava nadando na piscina.
E quase perdeu a coragem, a determinao e, ainda que temporariamente, a capacidade de lembrar do prprio nome.
Ele saiu da piscina, com o sol refletindo em sua pele mida e bronzeada, brilhando nos plos escuros que cobriam seus braos e pernas e seu abdmen reto e musculoso.
Ombros e peito largos, quadris estreitos, a silhueta alta, seca e musculosa de um jogador.
Os cabelos quase negros pareciam ainda mais escuros quando molhados e colados  cabea bem formada, realando os magnficos planos do rosto, o nariz absolutamente
perfeito, as sobrancelhas e o queixo. At os ps descalos eram sensuais.
Ele no a viu. Apenas ergueu as mos e passou os dedos pelos cabelos, para arrum-los. O que poderia ser pior para o equilbrio de Keely? Os cabelos de Jack penteados
para trs ou desordenadamente cacheados em volta do rosto? Ento, ele se virou, inclinou-se para a frente para pegar a toalha
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e Keely foi premiada com a primeira viso do quadril de Jack Trehan em traje de banho.
Devia haver uma lei contra quadril de Jack Trehan em traje de banho.
Ainda assim, fora at ali para falar com ele e era exatamente o que faria. Diria algumas verdades a ele, o chamaria  responsabilidade.
Tudo isso era importante. Mas talvez ela devesse ir com calma.
- Ol - disse ela, estremecendo por dentro. Seu tom de voz estava animado e alegre demais. Alis, se ficasse um pouco mais alto, acabaria atraindo os cachorros.
- Quero dizer, bom dia, Jack. Como... como est a gua?
Ele enxugou a cabea na toalha e enrolou-a nos ombros.
- Molhada. Qual  o problema? Parece que voc est corada.
- Quem? Eu? No, no - disse Keely, recuando um passo quando Jack se aproximou. Ele estava suficientemente perto para que ela sentisse o cheiro de cloro que emanava
da pele bronzeada e pudesse contar as partculas de gua do peito.
- Voc quer falar comigo, certo? - perguntou ele, aproximando-se ainda mais e obrigando Keely a recuar mais um passo. - Voc foi uma boa menina durante todo o fim
de semana, mas est morrendo de vontade de falar comigo, no est? Voc quer me oferecer suas condolncias, dizer o quanto lamenta que minha carreira de jogador
esteja acabada, que daqui para a frente tudo o que me resta  o resto de minha vida, sem nada para preench-la. Melhor ainda, voc
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sabe de um jeito para preench-la, no , Keely? Eu posso ocup-la com Candy, criando Candy.
Ele inclinou a cabea para um lado e olhou-a.
- Como estou indo at agora?
Keely umedeceu os lbios, evitando o olhar dele.
- Bem... na verdade... quero dizer... - Ela fechou a boca e contou at trs. - Ei - disse, recomeando, dessa vez, guiada apenas pela raiva. - Qual  o problema?
Voc tem tempo, tem dinheiro, tem essa casa. Por que no ficar com Mary Mar... com Candy?
Ele ergueu as sobrancelhas, sorrindo.
- Eu lhe disse que Mary Margaret era um nome muito grande para ela por enquanto. Voc precisa dar a ela tempo para crescer. Mas falaremos nisso depois. Por enquanto,
falemos sobre como eu devo cuidar dela, est bem? Quero dizer, voc est se candidatando a outro emprego aqui, Keely? E, se estiver, que emprego seria esse? Bab?
Bab vitalcia?
- Isso no tem nada a ver comigo! - protestou Keely, desejando acreditar na prpria negao. - Eu vou voltar para Manhattan, lembra-se? - Ento estremeceu porque
no era muito diplomtico mencionar sua prpria volta, pouco tempo depois de Jack ter pedido a chance de fazer o mesmo. - Ah, Jack... - disse ela, estendendo a mo
para toclo no brao ainda mido. - Eu sinto muito. Eu no devia... quero dizer, isso foi pssimo.
Jack meneou a cabea, rindo.
- Voc acha que consegue, no ? Voc realmente acha que pode voltar. Voc no conseguiu da primeira vez. O que a faz crer que desta vez ser mais fcil?
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- Nada - admitiu Keely, baixinho. Aquela conversa no estava levando nem perto de onde ela queria ir. Ainda assim, era melhor que Jack acreditasse que ela no queria
nada alm de voltar a Manhattan. Era mais seguro para ela prpria acreditar que tudo o que queria era voltar para Manhattan, mesmo que sua principal razo para faz-lo
continuasse sendo a vontade de fazer Gregory Fontaine engolir as prprias palavras.
Keely gostaria de pensar que seus motivos eram mais nobres ou que ainda sentia o desejo ardente de se dar bem na grande cidade, ser uma mulher de carreira, mostrar
para tia Mary que era capaz de ser bem-sucedida.
Nenhuma dessas razes era nobre, mas eram tudo o que Keely desejava naquele momento. Aquilo, e um desejo quase insuportvel de tocar os cachos midos e desalinhados
de Jack. Daria metade de sua comisso para sentir-se livre para fazer um gesto to ntimo.
- Mas voc tem que tentar, no ? - alfinetou Jack, enquanto Keely se perdia na confuso que seu pensamento racional havia se tornado desde que Jack Trehan entrara
em sua vida.
- Sim - disse ela, pegando a deixa lanada por ele. - Eu tenho que tentar, Jack. Voc, mais do que qualquer pessoa, sabe que eu tenho que tentar.
Algo passou pelo rosto de Jack, uma espcie de... nuvem. Keely ficou observando-o enquanto ele se livrava da toalha e jogava-a numa espreguiadeira perto da piscina.
- . Acho que  isso que voc tem que fazer, j que no quer fazer nenhuma outra coisa. Eu no a culpo. -Ento,
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ele se virou e voltou para a piscina, deixando Keely pensando no que havia acabado de acontecer... ou no.
Keely apoiou o telefone entre a orelha e o ombro e comeou a examinar a pilha de correspondncia acumulada, enquanto o telefone tocava em Atenas, no hotel em que
a tia estava. Conta, conta, conta, circular, conta, conta, carta de Gregory, conta, conta... Carta de Gregory?
Ela pegou o abridor de cartas antigo que a tia mantinha sobre a escrivaninha, no exato momento em que Mary McBride atendeu.
- Al? Al? Quem quer que seja, voc fala ingls?
- Ol, tia Mary - disse Keely, baixando o abridor, mas sem parar de virar o envelope nas mos, como se buscasse uma espcie de viso de raio X para enxergar o que
havia ali dentro. - Estou retornando sua ligao.
- Minhas seis ligaes, voc quer dizer - disparou a tia, a quilmetros de distncia. - Por onde voc tem andado? Est tudo bem com a loja? A mesa da biblioteca
da sra. Morgan chegou bem?
- Est tudo bem, tia Mary. E a mesa da biblioteca foi entregue h duas semanas, lembra? Como est a Grcia?
Keely ouviu o suspiro do outro lado da linha. Ento, aguardou pacientemente o monlogo de cerca de cinco minutos da tia, at no poder mais se conter e abrir o envelope.
Enquanto a tia falava, ela leu:
Querida Keely,
Voc no retornou nenhum de meus recados telefnicos e eu no a culpo. Fui um porco, no? Bem,
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mas chegou a hora de compens-la por tudo, querida. Eu acabo de saber sobre um espacinho maravilhoso no Village, Perfeito para sua loja, e o aluguel  perfeito para
voc.
O proprietrio me disse que os inquilinos desocuparo o imvel no dia primeiro de agosto, quando ento ele far uma pequena reforma, sem minha orientao, o que
 uma pena.  preciso fazer uma dedetizao, mas voc no deve se preocupar com isso. Afinal de contas, Nova York  a cidade onde os homens so homens e as baratas
so onipresentes. Estou mandando o carto dele para voc poder entrar em contato. Eu disse que ele deveria aguardar uma ligao sua.
Boa sorte, minha querida. Shavonna e eu estamos indo para Paris, para fazer compras, e eu vou voltar, no mnimo, depois de um ms. Lembra-se de Paris, Keely? Ah...
ns sempre recordaremos Paris...
Gregory
- Keely? Keely, voc est a? Malditos telefones!
- Hein? Como? Ah, sim. Estou aqui, tia Mary - disse Keely, sem tirar os olhos da carta. - Parece... parece tudo to maravilhoso.
- Reclamaes de turista parecem maravilhosas? O pobre homem engoliu tantos remdios, que eu duvido que ele volte a ser capaz de... bem, deixe para l. Deixaremos
Atenas amanh, Keely, para a ltima parte de nosso cruzeiro. Assim, no vamos conseguir nos falar por um tempinho. Pelo
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amor de Deus, menina, no deixe a casa cair. Apenas termine o que voc esteja fazendo e ponha uma placa de "fechado" at voltarmos.
-- E quando ser isso, tia Mary? Eu pensei que a sra. voltasse j na prxima semana.
- Keely, se fizer direito, uma pessoa s tem uma chance na vida de fazer uma viagem de lua-de-mel. Estamos viajando de navio, visitando lugares e talvez paremos
em Paris ou em Roma a caminho de casa. Estou indo com a mar, como me lembro de t-la ouvido dizer uma vez.  maravilhoso! Est bem, agora eu preciso desligar. O
sol est se pondo e a vista de nossa varanda  de tirar o flego.
Keely ficou segurando o telefone sem sinal por alguns momentos, antes de recoloc-lo no gancho e afundar na cadeira da escrivaninha. Paris. Todos estavam indo para
Paris. E para onde ela estava indo?
Lugar nenhum. Quer continuasse ali, quer voltasse para Manhattan, desde que segurara Candy no colo pela primeira vez e que se sentara  mesa diante de Jack, ela
tinha a terrvel sensao de que no estava indo a absolutamente lugar nenhum. O que era uma grande pena, j que agora sabia exatamente onde gostaria de estar.
Ela se levantou, amassou a carta e jogou-a no lixo. Ento, foi para seu quarto no andar de cima e separou mais algumas roupas para levar para a casa de Jack. Jogou
fora os jornais velhos, apagou as mensagens da secretria eletrnica sem nem mesmo ouvir os recados de Gregory e fechou todas as persianas para que o sol no desbotasse
os tapetes azuis de sua tia.
Na cozinha, jogou um resto de leite velho na pia, livrou-se
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de meio pacote de po embolorado e reuniu o lixo para ser recolhido na manh seguinte.
Finalmente, pendurou a placa de "fechado" na porta da frente da loja.
E foi at o carro antes de voltar-se, entrar de novo, pegar a carta amassada no cesto de lixo, jog-la dentro da bolsa para finalmente voltar para Whitehall.
Quando chegou, encontrou um bilhete de Petra na mesa da cozinha, escrito em espanhol, de forma que tudo o que Keely conseguiu entender foi que Petra fora ao dentista
e que Jack estava bancando o cuidaninos de beb.
Jack estava bancando a bab para o beb?
Keely entrou em pnico no mesmo instante. Onde? Onde estaria Jack? Onde estaria o beb? Correu para o andar de cima. Nada de Jack, nem de Candy. Voltou correndo
para baixo. Nada.
Ento, parou, meneou a cabea e percebeu que estava entrando em pnico quando, na verdade, devia estar alegre. No era aquilo que queria? Jack e Candy, criando elos?
Conhecendo um ao outro. Apreciando-se mutuamente. Criando uma ligao.
Sem ela como parte da equao.
- Pare! - ordenou a si mesma, dando uma ltima passada pelos cmodos do andar de baixo, antes de partir para as garagens. - Pare com isso. Voc ama o beb e ponto
final. Voc nem ao menos "gosta" de Jack Tre...
Oh, meu Deus!
Keely saiu em disparada, parando apenas ao abrir o porto e entrar na rea cercada da piscina.
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- Jack Trehan, voc perdeu o pouco crebro que tinha? Tire-a j da!
Ela ficou observando enquanto Jack, com Candy firmemente presa em seus braos, virava na piscina e erguia os olhos para ela.
- Olhe, Candy, tia Keely est em casa, e ela est toda vermelha e empipocada. No  engraadinho? Sorria, McBride, voc est assustando a criana.
- Jack, eu estou falando srio. Tire esse beb j da. Ela pode se afogar.
- Ela no vai se afogar. Eu estou segurando.
- Ah, ? No outro dia, voc no conseguiu segur-la nem enrolada em toalhas de papel. E se voc tiver uma cibra e afundar? O que vai acontecer com Candy?
Jack suspirou e comeou a andar para a parte rasa da piscina, em direo aos degraus de cimento.
- O que voc fica fazendo, Keely? Passa as noites em claro, pensando em tudo o que pode dar errado em todas as situaes? Eu no fui para a parte funda e, alm disso,
Candy gosta da gua. No , querida? - concluiu ele, beijando o pescocinho da menina.
Candy riu e agarrou a orelha de Jack.
- P-p-p-p!
Algum realmente teria que ficar de olho em Candy enquanto ela crescia e quando fosse capaz de sair andando de um supermercado ou algo assim. Primeiro, ela fora
com Petra direto,  primeira vista. Agora, estava toda derretida para Jack. Ela poderia ser levada por qualquer um. Teria que ser ensinada sobre os perigos que os
estranhos rpresentavam.
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Ser que Jack a ensinaria a no falar com estranhos?
- Venha c, querida - chamou Keely, estendendo os braos para o beb. - Deixe-me secar voc.
Candy virou a cabecinha e escondeu o rostinho no peito de Jack.
- Parece que ela no est querendo sair. Voc tem mai? Por que no se une a ns? Dois so melhores do que um. A, quando eu tiver aquela cibra e afundar, poderei
primeiro jogar Candy em sua direo.
Keely mordeu o lbio inferior, arrasada.
Sabia que estava sendo boba, mas ainda assim, estava arrasada. Candy dera as costas a ela. Na verdade, aquilo era uma coisa boa. Afinal, ela no ficaria ali para
sempre. Alis, provavelmente no ficaria ali por mais de algumas semanas, no mximo. Se Candy se afeioasse a Jack, e ele a ela, no poderia haver coisa melhor.
Ento, por que doa tanto?
- Keely? Venha. Voc sabe que a piscina  aquecida. Caso contrrio, eu no teria trazido Candy para c.
Keely assentiu, sem confiar na prpria voz, e voltou para a casa, carregando a mala para cima. Havia colocado um mai ali no ltimo minuto, dizendo a si mesma que
nadaria  noite, quando Jack no estivesse na piscina.
Definitivamente, tinha que parar de mentir para si mesma.
Jack ergueu Candy, rindo ao ver a expresso de alegria no rosto pequeno. O beb bateu as perninhas, sacudiu os braos e Jack baixou-a novamente, ento ergueu-a,
baixou-a
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e ergueu-a novamente com movimentos suaves e delicados, enquanto Candy morria de rir.
Para cima e para baixo, para cima e para baixo. Viva,
Candy! Vamos de novo. A tia Keely  uma boba. Voc est segura comigo, no est, Candy? Para cima e para baixo, para ei... ai, droga!
Jack segurou Candy pelo fundo do biquni, tirando-a da gua e mantendo-a firmemente segura contra seu peito.
Havia gua no rostinho minsculo e ela inspirou, inspirou; inspirou... at que finalmente soltou um grito que poderia ser ouvido at as cavernas isoladas do Tibete.
- Est tudo bem, querida. Tudo bem - acalmou Jack, aflito, enxugando o rostinho dela, penteando os cachinhos claros para longe da testa. Seu corao estava batendo
com tanta fora, que Jack conseguia ouvi-lo ecoando nos ouvidos. - Voc s escorregou de minha mo um segundinho, nada mais. Ora, vamos l, Candy, por favor, pare.
A tia Advogada do Diabo vai voltar a qualquer momento e se o primo Jack tiver que ouvi-la dizer "eu no disse?", voc provavelmente s voltar a essa piscina quando
tiver dezesseis anos.
Candy chorou por mais alguns minutos at que foi parando aos poucos, enquanto Jack massageava sua barriguinha e deixava que ela colocasse a mozinha na boca.
-- Ah, est vendo? Assim  muito melhor - disse Jack, falando baixinho para acalm-la. - E agora est melhor ainda, obrigado. Veja, Candy.  s gua - Ele afundou
a mo na gua e jogou no prprio rosto. - Est vendo?  s gua. Agora  sua vez.
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Ele pegou a mozinha de Candy, mergulhou-a na gua e ento ajudou-a a jogar em seu rosto, fazendo uma expresso chocada, em seguida.
- Muito bem - disse, enquanto Candy se inclinava, enfiava metade dos bracinhos na gua e jogava em Jack novamente.
Era incrvel como ele gostava da sensao de ter aquela criana nos braos. A pele macia e suave, o baixo peso quase anulado pela densidade da gua, as dobrinhas...
E ela era inteligente. Ah, Candy era brilhante! Aprendera a brincadeira de jogar gua num piscar de olhos. Evidentemente, ela no sofrera a  influncia dos genes
dos Morretti e herdara a carga gentica da parte Trehan da famlia.
Jack ouviu a porta dos fundos se abrir e ficou observando Keely caminhar para a rea da piscina, sem nem se dar conta dos dedinhos de Candy que se enfiavam, mais
uma vez, em suas gengivas. Afinal, estava de boca aberta. O que se passara com sua cabea na ltima semana?
Ele sabia que Keely McBride era bonita, j havia reparado em suas pernas longas, nos cabelos escuros e sedosos na altura dos ombros, na forma como ela costumava
us-los soltos ou presos na nuca, tentando parecer professoral. J sabia que podia se sentir atrado por ela, que "j se sentia" atrado por ela.
Mas Keely McBride em trajes de banho foi uma revelao para ele. Ela andava com as costas retas, o queixo erguido, os braos se movendo suavemente ao lado do corpo.
E a pele! To incrivelmente branca contra o tecido azul-marinho do mai.
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De repente, a mente de Jack ficou inundada pelos hormnios. A curva dos seios dela. O comprimento impressionante das pernas. O dimetro reduzido da cintura. A curva
dos quadris. O conjunto completo. Jack foi para a parte mais funda da piscina, torcendo para a gua estar mais fria l.
- Voc parece... - comeou ele, quando Keely parou no segundo degrau da piscina, com a gua um pouco acima dos tornozelos.
- Branca como um bicho de goiaba. Eu sei - disse ela, ao mesmo tempo que Jack perdia a linha de raciocnio. Incrvel. Estava prestes a perder a cabea. - Segundo
os especialistas, eu vou ser muito feliz quando tiver noventa anos e a melhor pele do asilo para idosos. Por enquanto, preciso me proteger muito do sol porque, seno,
me queimo terrivelmente. Parece at que passei a vida toda em uma caverna.
- Petra passou protetor solar em Candy antes de ir ao dentista - disse Jack, ridiculamente ansioso para marcar pontos com Keely. - Eu... eu pedi para ela passar.
Keely desceu mais dois degraus, inclinou a cabea e olhou para ele, desconfiada.
- Ah, est bem. Foi Petra quem teve a idia. Eu nem imaginava. Mas voc no pode me culpar por tentar.
- Voc se incomoda se eu nadar um pouco para me aquecer? - perguntou ela, mergulhando em seguida para o centro da piscina, sem esperar uma resposta.
- Ser que voc sabe dizer "pergunta retrica", Candy? - perguntou Jack a Candy, enquanto os dois observaram Keely deslizar em silncio pela gua. - Porque  isso
que a tia Keely faz, perguntas retricas... do tipo que no exige resposta, pelo menos para ela.
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Candy riu e bateu as mozinhas na superfcie da gua.
- . Eu sei. Voc gosta dela. Eu tambm gosto. De certa forma. Ento, o que vamos fazer com isso, hein?
Keely atravessou a piscina duas vezes antes de parar na frente de Jack e Candy e estender os braos. Felizmente, dessa vez a menina desvencilhou-se de Jack e foi
para os braos de Keely.
- Ah, ela  deliciosa - disse Keely, com os grandes olhos castanhos brilhando de prazer ao sentir os bracinhos midos e macios de Candy em volta de seu pescoo.
- Voc est se divertindo, querida? - perguntou, enquanto Keely pressionava a testinha na face de Keely.
Jack simplesmente ficou ali, com gua pela cintura, olhando-as. Duas mocinhas. As duas com os cabelos escurecidos pela gua, mas j deixando entrever alguns cachos.
Keely mergulhou na piscina, de forma que apenas a cabea das duas ficou visvel, apoiou os braos sob as axilas de Candy e lentamente comeou a girar. Jack se lembrava
muito bem de ter feito uma brincadeira parecida com o pai, girando loucamente com Tim na piscina da escola pblica.
Enquanto isso, a me ficava na borda, gritando o tempo todo:
- Frank, segure-os! Frank, voc vai afogar esses meninos! Jack sorriu e meneou a cabea. Lembranas...
- Aqui. Deixe-me fazer isso - disse ele, pegando Candy pelas mos, apoiando-a no joelho curvado e puxando-a atravs da gua, sem perceber que estava dizendo as mesmas
coisas que seu pai havia lhe dito, tantos anos antes.
- Piu, piu, a vem Candy, saindo da estao.
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E sem perceber que nem toda a umidade das faces de Keely provinha da gua da piscina...
- Piu, piu... - Jack cantarolava baixinho ao sentar-se no escritrio, sentindo-se um homem feliz.
Havia tido um bom dia. Um dia para l de bom.
A vida no precisava se resumir a um rodzio de cinco homens. Ele no precisava se preocupar com a localizao de suas meias da sorte. No tinha que passar longas
horas na sala de fisioterapia, com o brao enfiado na piscina de hidromassagem ou envolto em um saco de gelo.
No tinha que estudar gravaes de outros jogos nem ficar enfiado na rea do banco, observando os batedores, pensando nas estratgias que usaria para lanar na noite
seguinte. Nada mais de vos com o time, de reunies com o tcnico, da infindvel rotulagem da bagagem, de passar a noite em quartos de hotel, comendo em restaurantes
que nunca tinham ouvido a expresso "fil com queijo", e nem faziam a menor idia de como preparar um.
No. Podia simplesmente ficar ali, sentado, assistindo  televiso, tirando uma soneca, comendo um pacote inteiro de batata frita. com uma mulher no andar de cima,
botando a criana para dormir, as contas pagas. Nada de estresse, nada de nervoso, nada de confuso. Apenas um dia aps o outro.
Deus. Acabaria morrendo de tdio.
Bem, bem, pensou, mudando de canal. Pelo menos, havia tentado. A doce vida domstica. E aquele dia havia sido divertido. Mas ser que seria capaz de viver uma vida
daquelas? De jeito nenhum.
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Talvez...
Ele era responsvel por Candy. Sabia disso. Qualquer idiota saberia. Cecily poderia voltar no dia seguinte ou passar os prximos cinco anos longe. De uma forma ou
de outra, Cecily no voltaria a pr as mos em Candy. Ela era irresponsvel demais.
Enquanto ele era responsvel, certo?
Errado. Jack estava desempregado. Era rico, mas estava desempregado. E sem chances de se empregar. Solteiro. E brincar de trenzinho na piscina estava muito longe
da responsabilidade de criar uma criana.
Mas tambm havia Keely, no?
Ela gostava de Candy. Alis, era louca por ela. S que Keely iria voltar para Nova York assim que terminasse de decorar a casa dele, com os bolsos cheios do dinheiro
que Jack pagaria. Ela havia deixado isso bastante claro. No mnimo, Keely era muito direta e honesta. E, para ela, Jack no passava de uma forma de atingir seu objetivo.
Jack tocou no controle remoto sem pensar, passeando distrado pelos canais enquanto deixava a mente divagar.
Certo. Ento, Keely iria embora quando a casa estivesse pronta. A menos que tivesse de ficar ali tempo suficiente para se apegar tanto a Candy, que fosse incapaz
de deix-la. Porque Jack precisava de Keely ou de algum como ela, se seu objetivo fosse convencer um juiz de que merecia a custdia da prima.
Keely j estava por ali. Estava por perto, era competente, e o juiz provavelmente teria medo de dizer no a ela. Deus sabia que o prprio Jack morria de medo de
negar qualquer coisa a ela.
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Alm disso, gostava dela. Autoritria, contestadora, disposta a assumir as coisas, detestava estar errada, queria provar as coisas a si mesma... vulnervel, corao
mole, honesta, esperta, competente, uma grande cozinheira. E bonita. Qual era o problema daquele tal de Gregory? Como ele a deixara escapar?
- Provavelmente, no era homem o bastante para ela - pensou em voz alta, pegando a lata de refrigerante e dando um grande gole, que desceu pelo caminho errado, fazendo-o
engasgar e tossir. Ainda estava engasgado quando atendeu o telefone.
- Jack?  voc?
- Sou... sou... espere - disse Jack, cobrindo a boca com a mo para tossir um pouco mais. - Ol, Tim - disse, depois de um momento, enxugando os olhos. - Foi um
belo jogo ontem. Como esto as coisas?
- A coisa  que a notcia se espalhou. Johnson, do The Daily New s, me acuou no vestirio depois do jogo, querendo saber se era verdade que voc havia recusado a
oferta do Japo porque os White Sox esto interessados em voc.
- Chicago? Chicago no est interessado em mim. E quem contou a eles sobre o negcio com os japoneses? O que voc disse?
- A verdade. Que eu no sabia de nada. Mas Johnson disse que soube de uma fonte interna. Voc sabe o que isso quer dizer, no ? Mort.
Jack apertou o boto "mudo" da televiso e recostou-se na cadeira.
- Se no h algum interesse, crie um. Isso  a cara de
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Mort. Acho que vou ter que deixar as coisas ainda mais claras para ele. Eu parei. E no s parei, como estou me sentindo bastante bem com esse fato. Voc sabe que
eu tenho uma vida pela frente. Eu tenho Candy, uma bela casa, bastante dinheiro... No preciso mais dar duro, Timi. Realmente, no preciso.
- Ento, voc vai abraar a vida domstica, Jack? Deixe-me adivinhar: Keely tem algo a ver com isso, no tem?
- Keely? - Jack meneou a cabea. - No.  claro que no. O que ela poderia ter a ver com isso?
- Eu a "vi", Jack - relembrou Timi. - E ela no  s muito bonita, tambm  uma boa moa. Tenha certeza do que est fazendo. Eu no gostaria que voc tivesse uma
recada.
Jack se levantou e comeou a andar pelo escritrio.
- Recada? Que tipo de recada? Por acaso, Sandra Bullock me largou e eu no fui avisado? Ora, eu nem conheo Sandra Bullock.
- Estou falando de uma recada de seu primeiro amor, o beisebol, e de perder sua carreira - disse Tim. - Voc no tem nada para fazer, meu irmo, o que significa
que o lar e o aconchego junto com o beb e a morena parecem uma excelente opo. Mas tenha cuidado, est bem? Olhe, eu preciso desligar. Vamos pegar um vo para
a Flrida esta noite, mas  s para dois jogos. Estaremos de volta na quinta-feira
e a eu vou ficar um bom tempo em casa. Talvez possamos nos encontrar. Voc poderia at trazer sua famlia!
- No  minha... ah, esquea! Ligue-me quando voltar. Jack desligou o telefone e sentou-se no sof de couro.
Tinha que pensar naquilo. No, no tinha. No tinha que
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pensar naquilo porque no havia nada em que pensar. Recada? Tim estava louco. E ele, Jack Trehan, no era idiota.
Ah, ? Ento, por que estava assistindo ao canal Casa & Jardim pelos ltimos dez minutos?
Jack jogou o controle na mesinha, levantou novamente do sof e foi para a cozinha.
- Keely! - chamou, gritando em direo s escadas do fundo, mas no antes de servir-se de um pedao de brownie recm-feito, da assadeira ao lado do forno. - Keely?
Onde voc est?
Ela enfiou a cabea fora da porta do quarto e fez uma careta para ele.
- O que foi? Algum problema? Voc vai acordar Candy.
Jack teve vontade de dizer, aos gritos: "sim, h um problema. Pode ter certeza de que h. Como voc me fez pensar que eu poderia querer algo como isso?".
Em vez disso, Jack gemeu baixinho e disse:
- Eu sinto muito. No sabia que ela estava dormindo. Ser... ser que voc pode descer um minuto? Eu pr... eu quero falar com voc.
- Bem... - respondeu ela, ainda apenas com a cabea visvel. - Eu no estou vestida e...
- Eu j a vi de camisola antes, lembra-se?
- No, Jack, voc no est entendendo. Eu estou dizendo que no estou vestida. Estou nua. Por favor, d-me alguns minutos, est bem?
Durante um daqueles minutos, Jack ficou em p do lado de fora da porta fechada do quarto dela, imaginando o que Poderia ter acontecido se simplesmente tivesse entrado
sem bater.
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- Acalme-se, Trehan - disse a si mesmo, enquanto descia as escadas e servia-se de mais uma lata de refrigerante gelado. Foi preciso lutar contra o impulso de segurar
a lata contra a tmpora, como uma velha rabugenta prestes a desmaiar, e voltar para o escritrio.
Desabou no sof e ento rapidamente voltou a levantar-se e sentou em uma das cadeiras. Era melhor que estivessem cada um em uma cadeira e no lado a lado, no sof.
- E ento? O que foi?-perguntou Keely, entrando descala no escritrio, vestindo sabe-se l o qu por baixo de um robe cor-de-rosa atoalhado.
"Por favor, Deus, faa com que ela esteja usando alguma coisa embaixo desse robe."
- Sente-se, Keely - disse ele, inclinando-se para a frente na cadeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos. - Acho que precisamos nos entender, est bem?
Ela se sentou e olhou-o pelo canto dos olhos.
- Nos entender em que sentido, Jack?
- Eu no sei bem ao certo - admitiu ele, meneando a cabea. - Por enquanto, vamos apenas nos lembrar de que eu sou seu empregador e que voc  minha funcionria.
- No.
- O qu?
- Eu no sou sua funcionria. Estou trabalhando para voc, mas no sou sua funcionria. No no estrito sentido da palavra. Na verdade, estou trabalhando para minha
tia Mary. Voc apenas contratou meus servios temporariamente.
- Eu no "quero" seus ser... ah, porcaria! - Jack no podia sentar-se reto porque, se o fizesse, tinha uma viso
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frontal perturbadora das pernas longas e nuas de Keely. Ento, ele se levantou e ficou de costas para o aparelho de televiso. - Entenda, Keely, ns nos metemos
numa confuso aqui. Voc no devia estar morando aqui.
- Mas, Candy...
- Eu sei, eu sei - disse ele, interrompendo-a. - Tambm no deveria haver uma Candy. Eu no sei como isso aconteceu, mas ns realmente nos metemos numa confuso.
Eu devia ter chamado Joey na mesma hora. Chamado algum. Eu no estava raciocinando direito, Keely. Eu admito. Estava envolvido demais com o que estava acontecendo
com minha prpria vida, me preparando para o teste... sentindo pena de mim mesmo.
Ela assentiu com um gesto de cabea.
- Bem, quando voc est certo, est certo, Jack.
- Ora, obrigado. Voc no poderia mentir e dizer que eu tenho todo o direito do mundo de sentir pena de mim mesmo?
- Bem,  claro que voc tem todo o direito.
- Obrigado - disse ele, seco, imaginando para onde aquela conversa estava indo. At ali, no estava indo a lugar algum.
Keely levantou e cruzou a mesinha de caf para se colocar diante dele. Jack poderia recuar, mas, se o fizesse, acabaria acuado pelo televisor, e aquilo o faria parecer
to idiota quanto de fato estava se sentindo. Maldito fosse Tim, por ter colocado aquelas idias na cabea dele.
- Jack, deixe-me ajud-lo, est bem? Sem dvida que voc passou por uma m fase. E depois, antes de ser capaz
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de se recuperar dela, Candy surgiu em sua porta. Voc precisava de ajuda, eu precisava de dinheiro e ns fizemos um acordo. Como estou me saindo at aqui? - Ela
ergueu uma mo e tocou um canto da boca de Jack, fazendo uma onda de arrepios percorr-lo. - Desculpe.  que tinha um resto de brownie a-disse ela, corando. - Enfm,
posso continuar? Jack fez um gesto com ambas as mos, dando sua permisso sem palavras. Teria dito alguma coisa, s que havia sentido um cheiro muito bom de perfume,
ou talvez apenas de sabonete, mas gostara muito. Gostava da forma como os cabelos dela estavam, puxados em um rabo-de-cavalo frouxo, com pequenos cachos emoldurando
a nuca. E como ele nunca havia percebido que havia reflexos dourados naqueles olhos castanhos?
- Jack? Voc ainda est me ouvindo?-perguntou Keely, erguendo a cabea para olh-lo. O que ser que ela via quando o olhava? com sorte, no o que ele estava pensando.
- Estou ouvindo - disse ele, passando por ela e indo at a mesinha do caf para armar-se com a lata de refrigerante. Em seguida, deu um longo gole.
- Prossiga.
- No h muito mais a dizer. Voc fez aquele teste, decidiu no aceitar a oferta de ir para o Japo e agora, finalmente, est livre para lidar com o fato de que
sua carreira acabou. E s agora, que voc finalmente constatou isso, tambm teve tempo de perceber que Candy continua aqui. E eu tambm.
- Candy vai ficar aqui - afirmou Jack, com o maxilar contrado, porque era a nica coisa da qual tinha certeza naquele
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momento. - Eu vou contratar um advogado amanh (mesmo. Um batalho de advogados, se precisar. Keely sentiu um sorriso e um aperto presos na garganta.
- Ah, Jack, isso  maravilhoso! Eu sabia que voc se apaixonaria por ela, se se desse uma chance.
Certo. Ele tivera aquela revelao. Mas com o alerta de Tim ainda ecoando em seus ouvidos, ele avanou um passo, pronto para fazer um ltimo arremesso.
- Fico feliz com sua aprovao. Alm disso, tenho uma responsabilidade para com a famlia toda. Lembre-se de que Candy  da famlia. Mas isso tambm significa que
eu preciso fazer alguns acertos permanentes. Se eu conheo minha prima, e sei que conheo, desde que nasceu, Candy tem visto pessoas entrarem e sarem de sua vida.
Ela precisa de algo mais permanente. Assim... - concluiu ele, respirando fundo. - Eu gostaria de lhe pedir uma coisa.
Keely ficou imvel.
- Vamos l. Pea.
- Est bem. Eu sei que isso no fazia parte do acordo. Mas s vezes as coisas acontecem sem qualquer aviso... Simplesmente acontecem, no ? Eu sei que voc no
veio at aqui para tomar conta de Candy e eu provavelmente no lhe pediria para pensar em nada mais permanente, mas.. Bem, eu tenho que pensar em coisas mais durveis.
Assim... - Ele respirou fundo e concluiu, apressado: - Voc me ajudaria a arrumar uma bab para Candy?
- Arrumar uma... voc quer que eu... mas voc disse perma... quero dizer, voc no estava pensando em... - Keely comprimiu os lbios e assentiu: - Claro - disse,
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alegremente. - Ser a primeira coisa da qual eu cuidarei pela manh. Eu... eu fico feliz em poder ajudar. Mais alguma coisa? Porque estou meio cansada...
- No. Mais nada. - Como se quisesse encerrar o assunto, Jack pegou o controle remoto e apontou-o para o televisor.
- Candy tem uma consulta marcada com o pediatra amanh - acrescentou Keely. - Voc vai, no  mesmo?
- Claro - afirmou ele, passando pelos canais, sem ver nada. - E obrigado por me ajudar nisso. Sou realmente grato por seu apoio.
- Claro. Tudo bem. Bem, boa noite - disse Keely, deixando o escritrio lentamente, apesar de Jack ter percebido que ela sara correndo assim que chegara  cozinha.
Jack praguejou baixinho, jogando o controle remoto no sof. Um ltimo arremesso? De onde aquilo havia sado? Tim poderia ter dito, qualquer um poderia ter dito,
ele nunca havia sido capaz de acertar quando se tratava de uma garota.
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Captulo X

Eu detestava rebater contra Drysdale.
Depois que ele batia, se aproximava, olhava para o machucado em seu brao e dizia: "quer que eu autografe?".
Mickey Mantle
Keely dobrou com cuidado a saia de brim e jogou-a na direo da mala, onde j havia uma pilha de roupas atiradas desordenadamente. A saia foi a gota d'gua que fez
a pilha toda desabar, fazendo as dezenas de peas e a mala desabarem no cho.
- Porcaria! - exclamou, olhando para a baguna que havia feito. Ento, enxugou o rosto mido com as costas da mo, ciente de que estava se comportando de maneira
infantil. Quem se importava? Ela, certamente que no. S queria sair dali... imediatamente.
Keely levou as duas mos  cabea e tentou acalmar a respirao, que estava ofegante havia tanto tempo, que ela
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temeu ter um problema de hiperventilao. Ah, aquilo seria timo. Era exatamente do que precisava. Ter que descer e arrumar um saco de papel para respirar dentro,
enquanto Jack assistia.
Como podia ter sido to tola? Realmente pensara, acreditara, que Jack Trehan estivesse prestes a propor-lhe um "acordo". Mais que um acordo. Pensara que ele fosse
pedi-la em casamento. No uma unio por amor, nenhum dos dois nem mesmo pensara naquilo, mas um daqueles casamentos de convenincia de antigamente. No caso, conveniente
para Jack, que queria mostrar que Candy vivia em um ambiente estvel quando estivesse diante de um juiz.
Teria sido uma oferta ofensiva. Altamente ofensiva. Ele sabia que Keely queria voltar para Manhattan. Ela certamente havia deixado aquilo claro incontveis vezes.
A quem estava tentando convencer? A ele ou a si prpria? Mas ele tambm sabia que ela era louca por Candy e que seria uma boa me!
E o que ela era, afinal de contas? Um horror ambulante? Um casamento de convenincia era uma coisa, mas ser que Jack no tinha olhos para ver? Afinal, Keely estava
longe dos noventa anos de idade, no tinha duas cabeas, nem rabo, nem nada parecido. Ele gostava das pernas dela. Daquilo, ela j sabia. Uma moa simplesmente sabia
desse tipo de coisa, certo?
Keely pensava que Jack gostasse de mais coisas nela alm das pernas. Achara que ele tivesse percebido na outra noite, quando ela tolamente o abraara e ele a olhara
como se no quisesse deix-la partir. Ser que tudo aquilo havia sido apenas fruto da proximidade?
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Ela certamente gostava de mais coisas nele que aquele sorriso bobo, de menino. E de seus olhos incrivelmente azuis. E da forma como ele ficava todo bobo e encantado
quando estava perto de Candy, tentando fingir que seu corao mole no havia sido tocado e capturado pelas mozinhas gorduchas e geralmente midas de Candy.
Mas casar com ele? De onde ela tirara aquela idia? O que a fizera pensar que o "eu preciso de um favor" de Jack levaria quilo? E por que estava to tolamente desapontada
por no ter chegado nem perto?
Besteira! Pura besteira!
Alm disso, ela nem mesmo "gostava" de Jack Trehan. Certamente que se sentia atrada por ele, mas isso no significava gostar. Muito. Talvez um pouquinho. Ah, certo,
talvez tivesse se empolgado um pouco com ele...
No que estava pensando? Keely tinha uma carreira a sua espera em Manhattan. At Gregory finalmente percebera isso; caso contrrio, no teria arrumado o ponto para
ela montar a loja no Village. Gregory era muitas coisas. Inclusive algum que sempre se colocava em primeiro lugar. Gregory? com corao? Pouco provvel.
O que ela queria com uma criana, ou com Jack Trehan? Nada. Tivera um surto temporrio, nada mais, talvez por haver ficado muito tempo na cozinha fazendo brownies.
Tudo aquilo acontecera para amortecer o crebro de Keely por algum tempo. Ela realmente comeara a gostar de si mesma, a descobrir coisas que nunca percebera antes.
Que no era como a tia Mary. Que tinha jeito para ser me e esposa. Que havia mais alm de querer ser sempre a melhor, sem nunca errar e nunca fracassar.
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- Bem, menina - disse, ajoelhando-se para comear a recolher as roupas. - Foi profundo, no? Ento, agora que voc comeou a se analisar, vamos remoer mais esta:
voc estava mesmo atrs do pacote de "famlia feliz" ou estava atrs de um jeito de voltar para Manhattan, e talvez at cair novamente? Ou, pior de tudo, ser que
estava se apaixonando por Jack Trehan?
Feliz ou infelizmente, no tinha certeza. Naquele exato momento, algum bateu em sua porta, de forma que ela no precisou responder a nenhuma dessas perguntas.
- O que foi? - perguntou, ainda de joelhos. - Est tarde, Jack, v se deitar.
Ele definitivamente no era obediente, porque no instante seguinte, ela ouviu a porta se abrir e Jack entrar, determinado. Keely sentou no cho e virou-se.
- V embora.
- O que voc est fazendo? Eu ouvi um barulho h algum tempo.
- Sei.  a prxima coisa de minha lista. Comprar mais tapetes. Assim, quando eu mat-lo por entrar em meu quarto sem ser anunciado, o impacto de seu corpo batendo
no cho no acordar Candy.
- Lindo. Voc tem muito jeito com as palavras, Keely - Jack sentou-se no cho ao lado dela e pegou uma blusa, que Keely arrancou rapidamente de suas mos, para jogar
em cima de um suti de renda preta, que estava no cho. -Voc vai a algum lugar?
- Estou desfazendo as malas - mentiu ela, pegando uma pilha de roupas e jogando-as na cama, ao mesmo tempo que se levantava.
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Eu lhe disse que havia trazido mais roupas da loja. -
A mala escorregou da cama.
Jack pegou a camisola que ela havia usado havia alguns dias e depois lavado e posto na gaveta.
.- Ento, voc trouxe tudo isso da casa de sua tia? Voc tem duas dessas? - perguntou ele, levantando-se e ficando extremamente perto dela.
- Est bem, est bem. Talvez eu estivesse pensando em partir. Pode me processar.
- Por quebra de contrato ou por ter mentido? Keely deu as costas a ele.
- Eu... eu tive um mau momento. Mas j superei. Eu no vou partir. Preciso do dinheiro, lembra-se?
- Como eu poderia me esquecer? - perguntou Jack, colocando as mos nos ombros dela, e virando-a para encar-lo. - Olhe, Keely, eu estava l embaixo, repassando mentalmente
nossa conversa e me ocorreu uma coisa. Quero dizer, eu acho que no me expliquei muito bem. Na verdade... - Ele tossiu, constrangido. - A verdade  que eu estava
prestes a dizer algo totalmente diferente do que acabei dizendo. Est fazendo sentido?
- Nenhum - disse Keely, afastando-se dele e pegando um cabide para pendurar uma de suas blusas. - Porque se algum achasse que voc estava pensando em dizer algo
diferente do que efetivamente disse, essa pessoa concluiria que voc "realmente" pretendia dizer outra coisa. O que no aconteceu.
Jack inclinou a cabea para um lado e olhou para ela, confuso.
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- Isso  alguma imitao daquele quadro de Abbot e Costello sobre "'Quem' est na primeira base?" Porque eu no entendi uma s palavra do que voc disse.
- Entendeu, sim - disse Keely brevemente, pegando outro cabide e imaginando o que aconteceria se desse com ele na cabea de Jack. - No apenas isso, mas voc aparentemente
no ficou satisfeito em apenas no dizer o que quase disse. Agora, voc subiu at aqui e praticamente disse de novo, s para me lembrar que no havia dito. Diga-me
uma coisa: voc j derrubou o mesmo batedor, duas vezes, em um mesmo jogo?
- S se fosse excludo no primeiro tempo - disse Jack, com seu sorriso de canto de boca machucando o corao dela, seu orgulho e, provavelmente, abalando sua sanidade.
- Bem, voc no precisa me derrubar duas vezes, Jack Trehan. Eu j entendi. Entendi perfeitamente. Estou aqui para cuidar de Candy e mobiliar a casa. Qualquer outra
coisa que faa, como cozinhar para voc, nadar em sua piscina, falar com voc, so coisas que resolvi fazer por conta prpria. Voc nunca me pediu para fazer nada
disso e eu no devo comear a fantasiar nada.  isso? Porque, se for, voc j pode ir. V para a cama, v l para baixo, v para o inferno. V para onde quiser,
Jack, porque eu no quero mais v-lo aqui.
Quando se tratava de dar a ltima palavra, Keely havia elevado a prtica  categoria de arte. Mas estava destinada a nunca se lembrar exatamente do que havia dito
porque, no momento seguinte, as mos de Jack estavam novamente em seus ombros e os lbios, sobre os de Keely.
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Ele no chegou a abra-la, de forma que ela poderia ter-se  esquivado se quisesse. Mas ela no fez nada. Apenas ficou ali, de olhos fechados, com os braos meio
que pendendo no ar e comprimiu os lbios contra os dele, tentando no desabar no cho quando seus joelhos fraquejaram.
- Pronto - disse ele, um momento depois, recuando para deixar seu rosto a poucos centmetros do dela. - No foi to ruim assim, foi? Ns nos samos muito melhor
quando no estamos falando um com o outro. Talvez Tim estivesse s meio certo. Talvez possamos capitalizar em cima disso.
com isso, ele partiu. Keely ficou ali, capaz apenas de desabar na cama, tentando acalmar as batidas disparadas do prprio corao.
Quando Jack se inclinou no balco, com Keely a seu lado e Candy nos braos, a adolescente ergueu os olhos, sem parar de mascar o chiclete.
- Ah, ela  uma graa. Vocs so os pais?
Keely abriu a boca, mas Jack falou antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
- Sim.
- timo. Ela se parece muito com sua esposa, no? Por favor, sentem-se ali, preencham estes formulrios e o mdico logo os chamar. Ah, e eu preciso fazer cpias
de seus cartes de Previdncia Social.
- Tudo bem - disse Jack. - Eu vou pagar com carto de crdito.
- Ah, mas... - comeou a moa.
Ento, Jack sorriu para ela novamente e disse:
- Confie em mim: eu posso pagar. De verdade.
- Sr. Trehan, ningum pode pagar hoje em dia - disse a moa. Ento, deu de ombros e atendeu o telefone que tocava.
- Por que voc fez isso? - perguntou Keely, quando ele se sentou a seu lado, examinando as formas geomtricas de um quadro. No que estivesse reclamando, mas nunca
o deixaria saber disso. - Ns no somos os pais dela.
- Veja bem - comeou ele. - Voc sabe disso e eu tambm sei. O mdico saber. Mas voc realmente acha que vale a pena perder os prximos dez minutos explicando a
nossa situao quela adolescente? Eu acho que no.
- Voc tem razo - concordou Keely, segurando Candy de forma que ela pudesse praticar sua mais nova gracinha, equilibrando-se nas coxas de Keely. - Voc trouxe a
carta de Cecily?
- Sim, ou voc acha que eu a deixei no carro depois de ter dito a voc que havia pegado, quando voc me fez essa mesma pergunta, logo que samos de casa?
- Eu sinto muito - disse ela, suspirando. - Acho que estou nervosa. Fico achando que o mdico vai chamar algum para tirar Candy de ns... de voc.
Jack baixou a caneta que estava usando e acariciou uma covinha no queixo de Candy.
- Isso no vai acontecer. Amanh de manh, eu tenho uma reunio com Jimmy Haggerty, um velho amigo da escola. Ele me prometeu que cuidar de tudo.
- Como ele pode ser um bom advogado, se as pessoas continuam a cham-lo de Jimmy?
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jack riu, meneando a cabea.
- Voc  maluca, sabe? Agora, relaxe. Prometo que tudo vai dar certo.
Quatro horas depois, Keely desejou ter pedido a Jack para selar a promessa com o prprio sangue, porque Candy estava febril, chorando e se recusava a permitir que
qualquer pessoa alm de Keely a segurasse.
- Voc deu o remdio a ela? - perguntou Petra, sentando-se no cho de pernas cruzadas, depois de desistir de fazer caretas para tentar acalmar Candy.
- Sim. Assim que chegamos em casa. O mdico disse que talvez isso acontecesse. Ela vai se sentir mal por algumas horas, a perninha vai ficar dolorida, mas hoje 
noite ela j estar bem - Candy se debateu, e Keely gemeu quando o punho cerrado do beb atingiu-a direto no nariz. - Se sobrevivermos at l. - Ela segurou a mozinha
de Candy e beijou-a. - Por favor, querida, no chore. Voc arrebenta meu corao.
- Seu corao e meus ouvidos - disse Petra, levantando-se, puxando para baixo a minissaia azul-beb e a camiseta azul e branca justssima, com gola estilo PeterPan.
Naquele dia, os cabelos dela estavam loiros, sem mechas, e ela havia feito duas maria-chiquinhas. No estava maquiada, no usava anis ou piercings de nenhum tipo
e calava um par de meias brancas de algodo que iam at os joelhos, com sapatos pretos, de boneca. - Eu estou saindo daqui.
- Vai para casa comer biscoitos com leite? Ou talvez assistir s reprises da Famlia Waltonl - perguntou Keely, apoiando Candy no quadril porque, cinco minutos atrs,
a
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menina parecera gostar daquilo. Naquele momento, ela detestou e chorou ainda mais alto, com o rostinho redondo vermelho e os cachinhos suados grudados na cabea.
- R, r! Voc  tima, Keely. E acaba de provar minha teoria. Muito obrigada. Ningum gosta de mim normal. Candy certamente no gosta. Eu direi a meu pai, ele vai
ficar chocado. E da talvez eu possa tirar essa roupa horrvel e tocar minha vida.
- Espere a - pediu Keely, seguindo-a. - Voc ps essas roupas porque acha que elas a fazem parecer normal?
Petra baixou os olhos para si e depois os ergueu para Keely.
- Foi. Por qu?
- No  nada. Deixe para l - disse Keely, observando Petra sair pelo gramado, a caminho da Terra de Oz, ou para qualquer outro lugar. Ento, levou Candy para perto
do pote de biscoitos em forma de pingim e comeou a abrir e fechar a tampa, para emitir rudos.
- Olhe, Candy, o pingim est abrindo o bico. Ops! L vai ele. Agora, fechou. Pingim bobo. Ele no  engraado?
- S se voc no ri h vinte anos - disse Jack, e Keely virou-se para v-lo apoiado no limiar da porta. - Tem alguma coisa importante dentro desse pote, Keely? Porque
eu acho que voc corre o risco de perd-las.
Keely baixou a tampa com fora.
- Ah, e voc acha que pode fazer melhor? - perguntou, avanando para ele, com Candy ainda chorando e se debatendo em seus braos.
- No sei - disse Jack. - Deixe-me tentar. Porque eu acho que voc merece um descanso.
Keely entregou Candy a Jack com lgrimas nos olhos.
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Ento, virou-se depressa para impedir que ele as visse. Estava to grata a ele, que tinha vontade de chorar. Como pais olteiros conseguiam criar os filhos?
- Pronto, Candy - disse Jack, calmamente, massageando as costas do beb enquanto ela soluava, fungava mas, felizmente, parava de chorar.
- Como voc fez isso? - perguntou Keely, impressionada e com um pouco de cime por ele ter sido bem-sucedido onde ela, nitidamente, fracassara. - Ela tem algum boto
de "desliga" que eu desconheo?
- No sei - disse Jack, quando Candy apoiou a cabecinha em seu ombro, ainda fungando. - Deve ser o irresistvel charme dos Trehan. Ou isso, ou voc est to tensa
e nervosa, que Candy pressente.
Keely lanou-lhe um olhar confuso.
- Est bem, eu andei lendo um pouco. O que mais se pode fazer, quando se est preso em uma sala, com mais quinze crianas chorando e um punhado de mes dizendo o
quanto voc  um bom pai, por ter acompanhado sua esposa ao mdico? Eu no ia dizer a elas que havia recuado quando o mdico disse que era hora do exame e da vacina.
Assim, enfiei a cabea na primeira revista que vi e descobri que mes tensas deixam os bebs tensos.
Eu no sou tensa - Keely defendeu-se, cruzando os braos diante de si e finalmente relaxando os ombros, ao dar-se conta de que vinha se contendo h horas, talvez
h dias, h meses... por toda a vida.
Candy acha que voc  - comentou Jack. - Talvez naquele outro dia, na piscina, mas voc acha que ela iria
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para o colo de qualquer um e em detrimento de algum que a alimenta, lava, veste e cuida? Voc tem medo dela e ela sabe disso.  competente, mas tem medo.  capaz,
mas tem medo. Sabe-tudo, mas tem medo. Eu poderia prosseguir -continuou ele, num tom brincalho -, mas no vou.
- Isso  ridculo e  hora da mamadeira dela. D ela a mim. Voc no sabe que ela no pode dormir quando  hora de comer?
- Deixe-a dormir, a pobrezinha est exausta - Jack sugeriu, sentando-se em uma das poltronas do escritrio. - Eu no estou fazendo nada e posso perfeitamente assistir
 televiso com ela dormindo em meu ombro. Alm disso, h mais uma matria que eu li sobre a importncia de no manter horrios fixos demais, como se o mundo fosse
acabar se a criana dorme na hora de mamar ou fica acordada alm do horrio, uma vez ou outra.
Keely fez uma careta.
- Voc trouxe para casa algum daqueles cupons? Sabe, aqueles que a gente preenche e manda para assinar uma revista. Ora, Trehan, talvez voc pudesse escrever para
revistas infantis! Poderia at haver uma coluna chamada O Primo que Sabe de Tudo.
- Olha o gnio, olha o gnio, McBride! - Jack brincou, sorrindo para ela. - Apesar de eu ter de admitir que gosto de provoc-la.  to fcil.
Keely olhou para ele por longos momentos e ento deulhe um chute na canela.
- Aqui. Talvez possamos comear com isso - disse, pegando-o de surpresa e saindo do escritrio com as chaves
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do carro. Afinal, tinha que ir ao supermercado para comprar os primeiros potinhos de comida de verdade para Candy. E talvez um pouco de veneno de rato para o primo
dela, Jack. No devia ir. No devia sair. Talvez Candy acordasse, ainda sob a reao da vacina e Jack no saberia como lidar com ela. No que Keely desejasse que
Candy chorasse. Certamente que no. Mas talvez o anjinho pudesse fazer um presentinho na fralda para o primo Jack, s para marcar uns pontinhos com a tia Keely.
Depois que finalmente colocou trs sacolas de compras no porta-malas do carro e rumou para casa, Keely j havia perdoado Jack. Era difcil no desculp-lo. Lembrava-se
de que ainda estava brava com ele no momento em que passara pelo corredor de doces. Mas ao ver os pacotes de M&M's que ele tanto gostava, desistira e comprara alguns.
Gostaria de saber quando as mes arrumavam tempo para pensar. Nas ltimas vinte e quatro horas, ela havia deparado com a possibilidade de ter outra loja em Manhattan,
ficara atrada por Jack, fora rejeitada por ele, fizera papel de boba, fora beijada por Jack e tivera que lidar com a reao de Candy s primeiras vacinas infantis.
Alm disso, lavara duas mquinas de roupa, uma de Candy e outra de toalhas, preparara um jantar e um caf da manh, brigara com Jack e correra ao supermercado...
e j era hora de fazer o jantar de novo. Quem seria capaz de pensar assim? Quem teria tempo? S mesmo um homem para inventar algo como a Sndrome da Dona de Casa
Entediada, porque certamente no podia ter sido uma mulher!
Se tivesse tempo para pensar, Keely pensaria no beijo.
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Definitivamente. Pensaria em sua reao a ele e no olhar no rosto de Jack quando tudo acabara. Pensaria no que talvez ele tivesse querido dizer e no que ela achara
que ele fosse dizer.
E pensaria no que teria respondido se ele tivesse se transformado em David Hasselhoff e ela, em Valerie Bertinelli.
- Provavelmente teriam entrado os comerciais para dar a ela algum tempo para pensar - murmurou Keely, baixinho, saindo das garagens com a cabea baixa, duas sacolas
plsticas penduradas em um brao e a bolsa, a terceira sacola e um grande buqu de cravos que comprara por impulso na fila do caixa, na outra.
- Keely! Ei... Keely, aqui em cima! Ela ergueu os olhos.
- Tia Sadie?
Sadie Trehan estava parcialmente escondida atrs de um arbusto. A parte visvel dela trajava uma espcie de blusa verde-limo, com um par de olhos de touro cor de
laranja estampados. Se era temporada da Tia Sadie e ela estava tentando se esconder dos caadores, definitivamente estava no caminho errado.
- Venha aqui, venha aqui - chamou Sadie, acenando freneticamente para Keely se aproximar. - Temos problemas.
- Problemas? - Keely pensou imediatamente em Candy. - O que voc quer dizer?
- Quero dizer, problemas - repetiu tia Sadie. - Problema com p maisculo. Isso significa Joey Morretti, entendeu?
Inconscientemente, Keely baixou a voz.
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O Dois Olhos? O da Mfia? O irmo de Cecily, de tjayonne? - perguntou ela, abaixando-se ao lado de Sadie. - O que ele est fazendo aqui?
Certamente, nada de bom. Disse que veio buscar Candy.
petra foi procur-la e ouviu Jack dizer a ele que fosse para o inferno.  um problema, Keely. Eu sei que .
- Est bem, eu j entendi - disse Keely, levantando-se ao dar-se conta de que tambm estava escondida atrs de um arbusto. Foi correndo para a casa, como se estivesse
prestes a invadir um bunker inimigo, armada apenas com um buqu de cravos.
- Eu vou entrar. Voc quer vir junto?
- Eu? - Sadie arregalou os olhos e recuou um passo, com as duas mos no peito. - Eu estaria aqui fora se achasse que deveria estar l dentro? Creio que no!
- Voc tem medo dele?
Sadie arrumou os cabelos.
- De Joey? No seja boba. S no quero estar por perto quando Jack jogar aquele verme pela janela.
- Ah, sei... - Keely respirou fundo e foi para a casa o mais depressa que pde, atravessando em um segundo a rea da piscina e entrando intempestivamente pela porta
dos fundos.
Colocou as sacolas no balco, sem se preocupar com a possibilidade de o sorvete de creme derreter, e foi para o escritrio na ponta dos ps. Estava vazio. A casa
inteira estava silenciosa. Silenciosa demais.
Onde estava Candy? Por Deus, onde estava Candy?
Keely subiu correndo a escada dos fundos, prendendo a
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respirao at abrir a porta do quarto da menina e v-la dormindo tranqilamente, dentro do bercinho.
- Graas a Deus - murmurou, respirando aliviada e apoiando-se na maaneta.
- Ela  mesmo uma belezinha, no ? Keely quase desmaiou de susto.
- O qu? Quem? - Ela abriu o resto da porta e viu uma montanha sentada na cadeira de balano que havia sido entregue dois dias antes. Tentou fervorosamente se lembrar
se o mvel era feito de carvalho macio e se sustentaria o peso dele, se comeasse a se balanar. - Quem  voc?
A montanha se levantou e enquanto se colocava entre a janela e Keely. sua figura praticamente bloqueou a luz que entrava pela janela, como se ele fosse um eclipse
total do sol. Keely ergueu os olhos o mximo que pde. Ele devia ter bem mais de um metro e noventa de altura e provavelmente pesava tanto quando um carro compacto.
As pernas eram grossas como troncos de rvore, os ombros, do tamanho de um sof, e as mos imensas pareciam martelo nas extremidades dos braos gigantescos. E, apesar
de tudo isso, ele no era gordo. Era apenas grande. Muito, muito grande.
Careca como uma bola de bilhar. Jovem, com no mais que dezenove ou vinte anos. Ele sorriu e, em qualquer outra pessoa, aqueles dentes pareceriam de castor. Nele,
eram quase pequenos e havia um espao de cerca de meio centmetro entre os dois dentes superiores da frente.
Ele estendeu a mo e Keely, sem saber o que fazer, pegou-a, sentindo o corpo todo chacoalhar.
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por favor, diga-me que voc no  Joey Morretti - disse ela, sentindo os ossos da mo fraquejarem.
No, senhora - disse o gigante, com uma voz que no Combinava em nada com seu fsico, j que era bastante suave e bem aguda. Quase gentil. Tranqilizadora, at.
- Sou Bruno, senhora. Bruno Armano. Mas pode me chamar de Doura. Todos me chamam assim. At minha avozinha, que Deus a tenha.
- C... certo, Doura - disse Keely com cuidado, feliz por recuperar a mo e incapaz de refrear o impulso de massage-la para ajudar o sangue a circular de novo nos
dedos. Como era mesmo aquele velho ditado? Continue sendo gentil, at encontrar uma grande pedra. - Ento, Doura... O que voc est fazendo aqui?
Doura apontou para a direo da porta, para algum ponto alm de Keely.
-  melhor sairmos, senhora. Para no acordarmos a princesinha. Eu dei de mamar a ela, a fiz arrotar e troquei as fraldinhas. Agora, ela precisa dormir, a senhora
no acha?!
Keely deu um passo para o lado e ficou observando Doura deixar o quarto, inclinando a cabea para passar por baixo do vo da porta. Ento, saiu atrs dele. Aquele
homem havia alimentado Candy? Ele a fizera arrotar e trocara suas fraldas?
Por Deus! Jack devia estar morto, em algum lugar, em trs ou quatro pedaos. Porque ele certamente no permitiria que Doura, nome estranho para uma montanha, chegasse
perto de Candy, se ainda estivesse vivo.
- Hum... Onde est Jack? - perguntou Keely, to alegremente
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quanto possvel, assim que ela e Doura saram para o corredor, a vrios metros do quarto de Candy.
- O sr. Trehan? - Doura sorriu. - Eu sempre quis conhecer um jogador de beisebol importante de uma das ligas principais. Nunca me deixaram jogar beisebol, s futebol.
Eu era centro-avante. O tcnico dizia que eu era centro e atacante de ambos os lados - Ele franziu o cenho quando Keely no respondeu. - Eu estava brincando... Mas
quanto ao sr. Trehan? Ele est l embaixo, em algum lugar, com o sr. Morretti.
Keely comeou a sentir a cabea latejar.
- E voc veio aqui hoje com o sr. Morretti porque... Doura assentiu com a imensa cabea careca, terminando a frase para ela.
- ...porque ele  meu dono - disse, orgulhoso. - Eu sou soldado dele. Diviso dos pesos-pesados. O sr. Morretti me chama de A Besta de Bayonne. Ele at mandou bordar
isso nas costas de um belo robe de cetim que comprou para mim. Mas a senhora pode continuar me chamando de Doura.
- Certo, entendi - murmurou Keely, baixinho, sorrindo, para A Besta de Bayonne. - Quer saber de uma coisa, Doura? Fique aqui, cuidando de Candy, porque  isso que
voc est fazendo, no ? E eu vou descer para dizer um "oi" a Jack e ao sr. Morretti. Pode ser?
-  claro - Doura concordou alegremente, como um bom menino obediente. - O sr. Trehan me disse quem a senhora era. Foi por isso que eu no precisei lhe dar uma
prensa, nem nada. Pode descer e no se preocupe com a princesinha. Enquanto eu estiver aqui, ela ficar muito bem.
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Keely abafou um gemido.
obrigada, Doura. Eu realmente lhe sou grata.... Por tomar conta dela, por no me dar uma prensa, por tudo. Bem, ento... at logo!
Keely no saiu correndo at chegar s escadas. Uma vez l desceu os degraus de quatro em quatro e partiu como uma flecha para a sala de estar.
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Captulo XI

 um jogo totalmente novo.
Dito esportivo
Que situao... Joey mantinha os "dois olhos" fixos na direo de Jack, com seu jeito caracterstico.
Jack imaginou que deveria estar com medo, talvez at devesse estremecer. Pouca chance disso. Joey Morretti no conseguiria assustar nem um Teletubbie.
Pobre Joey. Havia herdado a aparncia e o tamanho terrveis do pai, o que significava que era baixinho, com um rosto estreito e estranho, dominado por um nariz fino
e aquilino e por cabelos escuros como carvo que haviam comeado a cair antes mesmo de ele completar dezenove anos. Ainda restavam alguns tufos de cabelo no alto
da cabea, nitidamente implantados por um profissional pouco capacitado, o que lhe dava a aparncia de um gramado recentemente plantado, cujo capim ainda no havia
comeado a crescer direito.
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Jack sabia que, na maior parte do tempo, o primo se vestia como Sonny Corleone, no primeiro filme O Poderoso Chefo, dos suspensrios, passando pelas camisetas sem
manga, at as calas largas de pregas. S que como ele no tinha os ombros largos de James Caan, os suspensrios ficavam caindo e Joey precisava recorrer  segurana
adicional de um cinto no cs das calas, sob o risco de perd-las.
Naquele dia, felizmente, ele se vestira de maneira mais formal, com um terno de gngster escuro de risca-de-giz, uma camisa preta, e uma gravata branca de seda.
Para Jack, ele se parecia ou com Al Capone pobre, ou com um Regis Philbn igualmente pobre. De uma forma ou de outra, a roupa no o favorecia.
- No est funcionando, Joey, sinto muito - Jack afirmou, mantendo a linha de pensamento enquanto se acomodava no confortvel sof novo, no living ainda praticamente
vazio. Belo sof. Keely escolhera bem. - Ei, voc lembra quando Tim e eu tiramos sua cala? Foi na Pscoa, no? Acho que ns tnhamos uns doze anos e voc, uns nove.
Acho que Sadie ainda tem as fotos. Se voc quiser, tenho certeza de que ela pode fazer cpias.
Joey piscou.
Bem, aquilo havia levado cerca de dez segundos. Parecia que Joey tinha a mesma capacidade de concentrao de um hamster. Jack decidiu continuar o ataque.
- E, depois, teve aquela vez em que a tia Fl e o tio Guido foram para a Siclia e voc e Cecily ficaram conosco Por algumas semanas. Bons tempos, Joey. Voc s
molhou a cama duas vezes. Talvez seja hora de contar que Tim e eu
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jogamos gua no colcho e em voc, enquanto voc dormia. Entendeu, Joey? Voc s pensou que tivesse...
O primo saltou da cadeira da cozinha que Jack deslocara para ele, apontando um dedo para Jack.
- Eu poderia mat-lo em cinco minutos, sabe? Cinco minutos!
- Jack?
Jack virou-se ao ouvir a voz de Keely e viu o olhar assustado no rosto dela.
- S um minuto, Keely - ele pediu enquanto se voltava para Joey. - Fique aqui, est bem? No se mexa, no toque em nada e, pelo amor de Deus, no roube nada. Eu
j volto.
Jack foi at Keely, pegou-a pelo cotovelo e levou-a pela sala, at a cozinha.
- Ol - disse ele, depois de puxar uma cadeira para ela se sentar, caminhar at o balco e dar uma olhada nas sacolas. - E ento? Como foi? Aproveitou alguma oferta?
Ei, esse sorvete vai derreter se voc no guard-lo logo!
Keely saltou da cadeira, sem nem ao menos ter se sentado direito nela e pegou o pote de sorvete das mos de Jack.
- Dane-se o sorvete, Trehan. H um gngster em sua sala de visitas! - Ela abriu a porta do freezer, jogou o sorvete dentro, bateu a porta e virou-se para encar-lo.
- E a  Besta de Bayonne est l em cima, supostamente tomando conta de Candy! Pelo amor de Deus, Trehan! Eu me afasto daqui por "uma" hora e  isso que acontece?
Jack conteve o sorriso que ameaava suavizar-lhe o rosto. Ela era quente. Divertido, ele ficou observando para ver se comeava a sair fumaa das orelhas dela.
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- Voc conheceu Doura? Um grande garoto.
Keely levou uma mo  testa e a outra ao quadril e olhou-o com olhos arregalados e furiosos.
- Eu no acredito! No acredito em voc! Porque isso no tem a menor graa, Jack. Nada disso tem graa e voc... voc simplesmente deixa aquele idiota amea-lo
e depois ainda o insulta? Voc est louco?
Jack foi at ela, com as mos parcialmente erguidas, para o caso de ter que se defender de um golpe. Ento, segurou-a pelos ombros e forou-a a sentar.
-  Joey, Keely. Ele tem tanta chance de me matar, quanto tem de ganhar um concurso de Mister Universo. Ele "acha" que tem ligaes, Keely. H uma grande diferena
entre fingir ser um mafioso e realmente ser um. Ora, Joey foi expulso da gangue da rua onde morava quando tinha quatorze anos. Parece que ele achava que todos deviam
cantar e danar enquanto lutavam, como em West Side Story.
Keely comprimiu os lbios, mas seus ombros sacudiram e ela deixou escapar um sorriso.
- Isso  engraado. Jack assentiu.
- . Mesmo que eu tenha acabado de inventar. O que "no" tem graa  que Joey decidiu levar Candy de volta a Bayonne com ele. Foi por isso que ele trouxe A Besta
de Bayonne junto, como apoio para o caso de eu dizer que no.
Keely recostou-se na cadeira.
- Sim, foi isso que me assustou, no momento em que eu soube que seu primo estava aqui. Doura disse que Joey  dono dele.  mesmo?
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- De certa forma - informou Jack. - Isso  uma situao nova. Ele tem o contrato do rapaz. Joey acha que o fato de ter o contrato de um lutador contar pontos para
ele quando tentar, mais uma vez, fingir que  ligado  Mfia.  tudo um jogo, Keely. O joguinho que a cabecinha pequena de Joey joga sem parar, graas ao dinheiro
de meus tios. Ele  igual a Cecily, s que ela gasta a parte dela nessas viagens malucas. Os filhos dos Morretti so fonte de piada em Bayonne. E, acredite-me: voc
tem que aprontar "muito" em Bayonne, para merecer um ttulo desses.
- Uma piada, talvez. Mas voc disse que no tinha graa, o que significa que provavelmente acha que Joey pode levar Candy, no ?
Jack deu de ombros.
- Pelo que ouvi falar, a guarda  nove dcimos da lei. Mas, sim, eu estou preocupado e foi por isso que liguei para Jimmy, mas ele est em um julgamento. A verdade,
Keely,  que, no fundo, eu sou apenas o primo de Candy. Joey  tio dela e irmo de Cecily. Isso pode complicar as coisas, se no o neutralizarmos rpido.
- Voc quer dizer, voc e seu advogado? - perguntou-lhi Keely.
- Ele tambm. Mas por enquanto... Bem, apenas venha comigo e siga minhas deixas. Quero Joey na estrada para Bayonne antes que ele consiga pensar num motivo para
passar a noite aqui.
- E ele far isso? - perguntou Keely, nervosa, de mos dadas com Jack, enquanto ele a conduzia pelo corredor, para a sala de visitas. - Como?
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- Eu no sei. S sei que ele tem fixao em mostrar para todos que faz parte da famlia... Detesta ser rejeitado. Uma vez, ele fingiu ter torcido o tornozelo depois
de tropear na perna de Tim, que talvez Tim tenha posto no caminho dele, talvez no. Da ltima vez, ele disse que teve uma cegueira noturna e que no podia dirigir
depois de anoitecer. Terminou acampado na casa de Sadie por duas semanas, motivo pelo qual minha tia deve estar escondida embaixo da cama neste momento. Estou lhe
dizendo, Keely: aposto que ele tem trs malas de couro de crocodilo no porta-malas, esperando apenas um convite para ficar.
- A mim, parece que talvez se voc e Tim tivessem sido mais gentis com ele na infncia, Joey no fosse to malvado - Keely murmurou ao se aproximarem da sala.
-  mesmo? - Jack afastou-se um pouco, convidando-a a dar uma boa olhada em Joey Morretti em ao, para depois tirar as prprias concluses.
Joey estava em p, enfiando um dos dois pequenos elefantes de lato que Keely comprara para a mesa de caf no bolso do palet.
- Bem, certo, ento ele  um pouco... estranho - concordou Keely ao ver Jack rindo para ela. - Mas no o trate mal, est bem? Isso  importante demais.
- Exatamente - disse Jack, rebocando Keely para a sala de visitas. -  por isso que eu sei que voc vai dar continuidade a isso. Joey? - disse ele, assustando o
primo, que J se inclinava para pegar o segundo elefante. - Lamento interromp-lo. Deixe-me apresent-lo a Keely - ele respirou fundo e passou o brao pela cintura
dela. - Keely McBride, permita-me apresent-la ao meu primo, Joseph
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Morretti. Joey, esta  a mulher maravilhosa da qual lhe falei. Keely McBride, minha noiva.
Jack sentiu Keely meio que oscilar a seu lado e segurou-a com firmeza pela cintura.
- Calma - sussurrou ele, enquanto Joey avanava, de queixo empinado, ajeitando a gravata, com a ntida inteno de roubar Keely do primo e torn-la sua escrava sexual
exclusiva.
Keely sorriu e sussurrou por entre os dentes:
- Seu imbecil, idiota, seu... ah, ol, sr. Morretti - concluiu sorridente, ao mesmo tempo que Joey estendia a mo direita e ela, com um ligeiro empurro de Jack,
a apertava por apenas um segundo. - Eu... eu ouvi falar muito no senhor. Somente coisas boas, evidentemente. Acho at que Jack me disse que voc era seu primo favorito.
Jack inclinou-se, fingindo beij-la atrs da orelha.
- No exagere, McBride. Ele  limitado mas no  totalmente estpido - Ento, ele sorriu para o primo. - Desculpe,  que eu no consigo manter minhas mos longe
dela. Ela aceitou meu pedido na noite passada, no foi, querida?
Keely ergueu o queixo e piscou, zombeteira. Naquele momento Jack percebeu que estava encrencado. Keely confirmou a sensao, dizendo:
- Ah, querido, eu posso contar a ele? - Ento, virou-se para Joey. - Ele chorou, sr. Morretti. Ajoelhou-se e me disse as coisas mais lindas... e depois, chorou.
Ela se aninhou no ombro de Jack, erguendo para ele olhos cheios de adorao.
- Eu nunca me esquecerei, Jack. Nunca.
Ele enfiou os dedos na cintura de Keely, mas ela nem
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gemeu. Ele j deveria ter imaginado. Aquela mulher era uma ameaa.
- No conte todos os nossos segredos, querida - alertou ele num tom doce. - Afinal, o que fizemos depois disso deve ser mantido... em particular. At porque - concluiu
ele, olhando para Joey -, eu tenho que lhe dizer: essa mulher tem uma energia e tanto!
Jack sentiu o salto do sapato de Keely em seu p. Ela no o tirou. Simplesmente ficou l; ento, ps todo o peso de seu corpo sobre ele, enquanto fingia aninhar-se
mais.
- Vamos ver as alianas amanh - disse Keely. Aparentemente, Jack estava ocupado demais, tentando no gemer enquanto dizia qualquer coisa, e Joey estava simplesmente
ali, mudo. - Eu disse a Jack que no precisava de um anel para saber que ele me amava, mas ele insistiu. Ele disse que vai me comprar o maior diamante de Allentown.
No  uma graa?
Finalmente, Joey Morretti quebrou o silncio.
- Eu conheo esse Jack desde os tempos de Bayonne, sabe? Vai lhe comprar uma pedra daquelas, mas depois, sabe-se l...
Keely pressionou o rosto contra o peito de Jack e fez o Possvel para abafar uma risada.
- Bem, muito obrigada, Joey, mas eu acho que saberei lidar com ele.
Joey deu de ombros e fez uma careta. Ento, enfiou a mo Por dentro do palet por toda a extenso da manga e deu um Puxo, obviamente para recolocar o suspensrio
no lugar.
- Voc fica me dizendo para no me preocupar, mas eu sou bobo, viu Jack? Esse negcio de se casar  para a
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criana ter mame e papai. Eu sei. Isso  besteira. Voc sabe que Cecily ia querer que a menina ficasse comigo.
- Ela a deixou comigo, Joey - disse Jack.
Keely se afastava ligeiramente e pegava a mo dele, apertando-a de leve para alert-lo.
- ? Bem, no para sempre - argumentou Joey. Mais cedo ou mais tarde, ela vai voltar, sabe?
-  bem provvel - concordou Jack. - Mas at l, Candy fica comigo. Deixe isso para l, Joey.  impossvel que um juiz lhe d a guarda provisria em detrimento de
um pedido meu e de Keely. Ns podemos oferecer a ela um lar mais estvel, uma famlia. O que voc pode oferecer a ela? O Baile de Debutantes da Mfia de Bayonne?
com traje a rigor e metralhadoras opcionais? Pelo amor de Deus, Joey, pense!
- Jack... - alertou Keely, baixinho.
- Est bem, est bem - disse Jack, tentando no explodir. - Olhe, falaremos nisso mais tarde. Agora,  melhor pensarmos no jantar. Voc est com fome, Joey? Aposto
que Doura est. Keely... ns temos comida suficiente no freezer?
Keely ps a mesa para quatro com as mos trmulas.
- Eu no acredito que isso esteja acontecendo - disse, aceitando o grande mao de guardanapos de papel que Jack, que acabara de entrar na cozinha, oferecia. - Eu
no acredito que estou prestes a partilhar uma refeio com A Besta de Bayonne, o Doido de Bayonne e meu suposto noivo. Onde est Alice, Jack? Porque eu acho que
acabo de cair no
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pas das Maravilhas. E pensar que, uma semana atrs, eu achava que a falncia era a pior coisa que poderia me acontecer. Ah, deixe para l... O que o advogado falou?
Nada que eu queira repetir na presena deles - disse Jack. Ento, pegou outro mao de guardanapos no suporte do balco. - Aqui. Se Joey vai comer conosco, vamos
precisar de muitos desses. Uma vez, eu o vi redecorar a cozinha inteira da minha tia, com apenas um prato de linguine.
.- No mude de assunto - ordenou Keely, segurando-o pelo brao. - O que o advogado disse?
- Ele disse - comeou Jack, suspirando -, que mentir para Joey Morretti era estpido, mas legal. No entanto, mentir para um juiz pode ser fatal.
- Ah... - Keely respondeu baixinho. - Eu no havia pensado nisso. - Ela ergueu os olhos para Jack. - E, obviamente, voc tambm no. E agora? A idia do noivado
no foi muito boa, certo? Ei, Jack! Diga alguma coisa!
Ele baixou a cabea com uma expresso de dar pena.
- Eu no posso abrir mo dela, Keely. Nem para Cecily, nem para Joey. Mas Jimmy disse que a carta de Cecily no  o bastante. Ou eu parto para a luta, dou um jeito
de achar Cecily e fao-a assinar um acordo de custdia, ou  muito provvel que Joey fique com Candy.
Keely sentiu o estmago revirar.
- Mas... mas... voc  um astro do beisebol. Voc tem nome, essa casa, montanhas de dinheiro. Candy nunca passaria por qualquer necessidade. Voc  a opo perfeita.
- Tambm sou solteiro, no sou o parente mais prximo, no tenho outro meio de ganhar dinheiro e j menti para Joey
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sobre voc, o que o advogado dele vai apontar correndo para o juiz, provando que eu no sou confivel. E para completar eu tenho uma mulher vivendo comigo, sem o
benefcio dos sagrados laos do matrimnio, o que se constitui num mau exemplo para Candy. Alm disso, Jimmy disse que  muito comum os juizes tomarem decises conservadoras,
para no demonstrarem qualquer espcie de tratamento especial para com as celebridades, o que significa que eu estou frito, no importa por onde se olhe.
-- Quando voc coloca a coisa desta forma... - Keely puxou uma cadeira e sentou-se. - E agora?
- Bem, ns "vamos" fazer alguma coisa. Jimmy j recebeu minha autorizao verbal para contratar dois investigadores particulares para procurar Cecily em Timbucktu,
ou onde quer que ela esteja. Uma boa empresa de investigadores, fora da Filadlfia. Mas esse tipo de busca leva tempo, especialmente porque, a essa altura, Cecily
pode estar em qualquer lugar. Tibete. Austrlia, Paris.
- . Paris. Soube que  um lugar bastante cotado - disse Keely, pensando em Gregory e no fato de que ele e sua nova "assistente", Shavonna, provavelmente estavam
a caminho de l naquele exato momento. No que aquilo importasse. Nada importava, a no ser manter Candy ali, com Jack. E com ela?
- E eu vou convidar Joey para ficar aqui pelos prximos dias.
- Por Deus, por qu?
- Primeiro, para mant-lo afastado do escritrio do advogado dele, em Bayonne. Ns o manteremos aqui, feliz e
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ocupado e, enquanto fizermos isso, Candy estar a salvo. No  muito, mas nos d um pouco de tempo.
Mais alguma coisa? Jimmy sugeriu algo mais?
. Sugeriu - disse Jack, rumando para a porta dos fungos. - Ele sugeriu que ns fssemos em frente e nos casssemos. Isso provavelmente garantiria minha vitria com
o juiz. Grandes chances disso acontecer, certo? com licena, mas eu preciso avisar tia Sadie que Joey vai ficar conosco por algum tempo. Aposto dez para um como
ela vai comear a cavar um fosso em volta da casa em que mora.
Keely ficou observando-o partir, de boca aberta.
Jack desceu cedo na manh seguinte, no exato momento em que Keely fechava a porta da frente, com um toque de quadril porque suas mos estavam cheias de flores.
- O que  isso? Quem mandou?
- Eu no sei - respondeu Keely, colocando com cuidado o vaso de vidro na mesa do hall. - Deixe-me ver o carto. Ah, no  uma graa? So de Curtis.
- Quem? - perguntou Jack, tirando o carto da mo dela. - Espero rev-la em breve, Curtis. - Ele olhou para o vaso, cheio de rosas amarelas e depois para Keely.
- Quanto dinheiro exatamente ns gastamos naquela loja de mveis? E ser que ele no devia ter mandado as flores para mim?
- Voc quer que Curtis lhe mande flores? - perguntou Keely, tocando num boto delicado.
-  claro que no! - exclamou Jack, virando-se e saindo em direo  cozinha. - Esconda esse carto antes que Joey o veja. Ele vai achar que voc est me traindo.
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Keely seguiu-o para a cozinha e ento parou, apontando para a bagagem reunida perto da porta dos fundos.
- O que  isso? Eu poderia jurar que vi Doura carregar seis malas para cima na noite passada. No  possvel que haja mais.
Jack apoiou-se no balco.
- Essas so minhas. Tenho um vo esta tarde, logo depois de minha reunio com Jimmy. vou para o Arizona, para filmar um comercial e matar meu agente. Devo estar
de volta em dois dias. Ser que voc consegue cuidar de tudo enquanto eu estiver fora?
- Eu? - perguntou Keely, com as duas mos no peito. - "Eu" vou ficar encarregada de cuidar de tudo? - Keely ergueu as mos e revirou os olhos, dramaticamente. -
O que mais eu poderia esperar de um "homem"? Tenho um beb, uma adolescente superdotada psicodlica trabalhando como bab, o exemplo perfeito para um pster de "mande
esse homem ao psiquiatra" e uma "montanha" que comeu doze panquecas esta manh antes de respirar, arrotar e pedir mais doze. Tenho que comprar mveis, selecionar
cores, decorar mais trs quartos para o caso de algum mais aparecer e sua tia quer que eu remodele a sala de visitas dela em rosa-choque, para combinar com um papel
de parede de flamingos que ela encontrou em meus mostrurios. Ah, no. No, no, no. Nem morta, Jack!
- Ah, no  uma graa? - perguntou Petra, entrando na cozinha, com Candy apoiada no quadril. - Os pombinhos esto tendo sua primeira briga. Tampe os ouvidos, Candy,
voc no vai querer ouvir isso.
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- Cale a boca - ordenaram Keely e Jack, em unssono. Petra sacudiu levemente os longos cabelos, agora loiros, com as pontas pretas, e disse:
- Est bem, j entendi. Se no querem que eu ajude, eu no ajudarei. Mesmo que tenha uma soluo para vocs.
Ela se virou para sair da cozinha, mas o grito de Jack para que parasse a deteve, de forma que ela se virou e sorriu para os dois... Naquele momento, Keely concluiu
que no era impresso. Petra era, nitidamente, o gato de Alice e estavam mesmo no Pas das Maravilhas.
- Certo - disse Petra, entregando Candy a Keely porque a criana parecia ansiosa para mudar de colo. - O negcio  o seguinte: voc leva Keely com voc para o Arizona.
Doura e eu cuidamos de Candy. Alugamos a caixa com os trs filmes O Poderoso Chefo para Joey, o que vai mant-lo feliz. Assim, vocs dois podero relaxar... E
no digam que no precisam relaxar porque eu nunca vi duas pessoas que precisassem mais arejar a cabea que vocs dois. Ah, enquanto isso, eu entregarei Candy a
Joey sempre que ela estiver infeliz ou incomodada, at ele descobrir que no quer nem v-la por perto.  uma espcie de Terapia da Averso, entendem?
Antes mesmo de Petra chegar  metade de seu plano brilhante, Keely j havia comeado a menear a cabea.
- No.  impossvel. Eu no vou deixar Candy aqui com um homem que pode tentar lev-la embora para Bayonne.
- Doura no vai permitir - disse Petra, marota. - Ele no far nada que eu lhe disser para no fazer. Ns fizemos um acordo, isto ...
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- Eu sei o que isso significa. Mas "no" - insistiu Keely
- Alm disso, por que eu quereria ir para o Arizona? "Por favor, Petra", pediu ela, em silncio; "no tente responder essa".
-Ns poderamos levar Candy conosco - sugeriu Jack. Ento, franziu o cenho. - Talvez seja melhor eu consultar Jimmy primeiro. Ele disse que ia tentar conseguir uma
medida cautelar no tribunal para manter Candy aqui, na Pensilvnia, at que a questo da custdia esteja decidida.
- E ento?  perfeito - disse Petra, olhando para Keely.
- Diremos ao velho Dois Olhos que h uma ordem judicial impedindo que Candy seja tirada desta casa e vocs no tero nada a fazer no Arizona, a no ser relaxar,
refrescar a cabea e talvez at... bem,  s uma idia... conversar um com o outro.
Ela pegou Candy dos braos de Keely e foi para a porta dos fundos.
- Eu juro que no sei o que impede os psiclogos de baterem com a cabea do paciente uma na outra - murmurou ela. - Talvez eu deva repensar a questo da psicologia...
O silncio na cozinha ficou to tenso, que Keely decidiu ench-lo imediatamente com o som da prpria voz.
- Ela  uma criana - disse. - E no entende as implicaes. No acho sensato fazermos o que ela disse, e nos afastarmos por dois ou trs dias, para nos dar um tempo
longe de Candy, um tempo para pensar.
-  - concordou Jack, sem olhar para ela. - No  uma boa idia. No que ela-e Doura no pudessem tomar conta de Candy... Ns j sabemos que Candy gosta de Petra
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na noite passada, Doura me disse que ele  o mais novo de uma famlia de doze irmos e irms e que passou a vida inteira cuidando de bebs. Mas, no. No daria
certo. Ns provavelmente nos mataramos antes mesmo de sairmos do espao areo de Ohio.
- Provavelmente - concordou Keely, ocupando-se em esvaziar a mquina de lavar loua e guardar os pratos no armrio. - Eu nunca estive no Arizona. Aposto que deve
ser muito quente l nesta poca do ano. Afinal, estamos em junho.
- Realmente.  muito quente. E as filmagens vo ser perto de um parque estadual, quase como se fosse no deserto, acho eu.
- Quente - repetiu Keely, guardando os talheres na gaveta. - E voc estar trabalhando. Ns provavelmente nem nos veramos, a no ser  noite, para jantar ou algo
assim.
-  verdade.
- Ento, acho que seria uma coisa meio intil.
- Certo - concordou Jack. -  uma idia tola.
- Ento, estamos de acordo - disse Keely. - No  possvel.
- De forma nenhuma.
-  uma idia idiota.
- Definitivamente, idiota. Certo, agora eu preciso ir ou vou me atrasar para minha reunio com Jimmy.
Jack afastou-se do balco e foi para a porta dos fundos. Ento, parou, com a mo na maaneta.
- Eles vo mandar um jato particular, de forma que tenho certa flexibilidade, mas eu realmente gostaria de sair daqui por volta do meio-dia. Voc acha que consegue
arrumar
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suas coisas e estar pronta para sair quando o carro chegar para nos buscar, s onze e meia? Keely manteve-se de costas para ele.
- Consigo. Consigo, sim.
- Certo. Aqui est o telefone do mdico - disse Keely, anotando em um bloco. - E o nome e nmero da farmcia mais prxima. Se precisar entrar em contato conosco,
voc tem o nmero do celular de Jack. Para qualquer outra coisa, ligue para a emergncia. - Ela arrancou a pgina e entregou-a a Petra, que estava sentada a sua
frente, na mesa da cozinha.
Petra pegou o papel e colocou-o ao lado dos que j estavam sobre a mesa.
- Vamos conferir o que temos, certo? Primeiro, eu tenho uma lista das comidas que Candy pode consumir. Pur de ma, cereal de arroz e leite em p.
- S duas colheres de ch de pur de ma - lembrou Keely, apesar de j ter escrito tudo. - Uma colher de ch ontem, duas hoje, uma colher de sopa amanh, s para
termos certeza de que ela no  alrgica. Depois disso, pode dar o quanto ela aceitar, s no d demais porque ela precisa tomar o leite todo. O mesmo vale para
o cereal de arroz. Duas colheres de ch hoje, uma colher de sopa amanh.
- Legal! Eu gosto de fsica quntica. Espero conseguir suportar a presso - disse Petra, revirando os olhos. - Certo, ento, eu tenho o nmero dos telefones e tenho
as instrues sobre a comida. Tenho uma escala de horrio para o banho, os cochilos e os horrios de brincar. Nunca deixe
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ingum cham-la de obsessiva, porque eu j chamei. Mas s me esclarea uma coisa: isso quer dizer que no podemos ievar Candy para comer uma pizza com batatas fritas?
Keely levou as mos s tmporas.
Ah, eu no vou conseguir! Eu no vou ser capaz de sair. Onde estava com a cabea?
-- Ora, vamos l, Keely, eu s estava brincando. Candy vai ficar bem. Todos ficaremos bem. So s dois dias. E eu no pretendo ser malvada ou algo assim, mas h
menos de duas semanas, voc nem sabia que Candy existia.
Keely engoliu as lgrimas e baixou os olhos para Candy, que estava na cadeirinha de balano, tentando seriamente enfiar o punho inteiro na boca.
- Eu sei - disse ela, suspirando. - E mesmo assim, h momentos em que eu acho que minha vida seria insuportvel sem ela. - Keely olhou para Petra e suspirou. - 
bom deix-la um pouquinho. Ser uma boa preparao para quando eu precisar deix-la de verdade. Quero dizer, no  bom eu me afeioar muito, certo?
- Certo - Petra concordou com um gesto solene de cabea. Depois de alguns momentos completou: - Voc vai ter ambos: Candy e Jack. Se apegar no  uma boa idia.
Keely enxugou os olhos.
- Ah,  timo ouvir isso vindo da moa que deu um jeito para que eu fosse parar no Arizona com Jack por dois dias. Quero dizer, voc poderia ter mencionado essa
coisa de "apego" antes.
- Ei! - Petra exclamou, dando de ombros. - Eu sou um gnio, lembra? J lhe disse que Doura e eu vamos trabalhar
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juntos? Ele vai me ensinar a pular corda... isso eu nunca consegui aprender. A, em troca, eu vou ensin-lo a lutar boxe.
Keely estava com dor de cabea. Uma dor muito forte.
- Como assim, voc vai ensin-lo a lutar boxe? Ele no  um lutador profissional?
- Se voc quer saber se ele ganha para cair na lona, a resposta  sim. Joey s o coloca em lutas que ele sabe previamente que deve perder. Alis, isso  crime.
- Mas Jack me disse que Joey no est realmente envolvido em atividades criminosas - disse Keely, desfazendo as malas mentalmente. - Talvez ele tenha, finalmente,
conseguido entrar para o mundo do crime.
- Creio que no - respondeu Petra, tirando Candy do balancinho e colocando-a no colo. - Doura disse que  assim que funciona nesse clube em Bayonne. Mas eu acho
que ele tem potencial. Quem sabe, talvez eu compre o contrato dele e me torne uma empresria de boxe.
- Voc vem economizando sua mesada, Petra? - perguntou Keely, afastando-se da mesa da cozinha, na tentativa de pr alguma distncia entre si e a mais recente fase
de Petra.
- Zombe, se quiser - disse Petra, num tom majestoso. - Mas eu vejo um grande futuro nele. Alm disso, papai vai ficar louco.
-  sempre assim - concordou Keely, indo at a janela para olhar o carro de Jack. - Aborrecer seu pai  to importante assim para voc?
- Ora,  isso que os adolescentes fazem, faz parte das regras. S estou tentando ser uma adolescente normal.
243
Keely riu alto.
Quantos adolescentes voc conhece que tm seu prprio boxeador?
petra mudou Candy para o lado esquerdo da cintura.
Eu no fumo nem consumo drogas. Tambm no fico at tarde na rua com os rapazes. Por acaso cabulo aula, tiro pssimas notas ou fao piercings?
Keely virou-se, um passo mais perto de Petra.
-  isso.  isso que est me incomodando. Voc est sem nenhumpiercing. Nada nas sobrancelhas, nem nas orelhas, nem no umbigo. E nenhuma tatuagem ou cicatriz. Por
acaso, voc colou aquilo tudo no seu corpo no dia em que nos conhecemos?
- At o da lngua, se bem que esse foi o mais difcil, com certeza - disse Petra. - Voc quer dizer que s percebeu isso agora? Uau! Candy vai acabar com voc quando
for adolescente.
- Eu no estarei aqui quando Candy for adolescente - lembrou Keely.
- Eu sei. Vai estar em Nova York, decorando coberturas, indo s melhores festas, talvez at tendo seu prprio programa na CNN, nas manhs de sbado. Keely McBride,
o Grande Sucesso.
Keely ficou em silncio por alguns momentos e ento olhou para Petra.
- Quantos livros de psicologia voc leu, exatamente, desde que entrou nessa nova fase?
- Quatro. Eu tenho leitura dinmica - disse Petra. -  uma pena que eu esteja desistindo, porque acho que seria
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capaz de escrever uma tese inteira sobre voc, Keely. Alis, sobre Jack tambm. Mas acho que, neste momento, prefiro explicar as maravilhas da cincia que h por
trs de um bom cruzado de direita a Doura. Ah, olhe, a vem Jack. Voc vai dizer a ele que desistiu de ir?
Keely estendeu as duas mos para Candy. A pequena riu, inclinou-se para ela e Keely pegou-a no colo e abraou-a com fora.
- A tia Keely est fazendo a coisa certa, Candy? - perguntou ela ao beb, mais interessado em tirar os grampos que Keely usara para prender seu coque.
Ela adorava a forma como Candy preenchia seus braos e aquecia seu corao. Adorava a forma como a criana a fazia se sentir querida e necessria. Mas ser que era
o bastante? O bastante para ela e Jack? Seria justo deixarem que seu amor e preocupao com Candy os conduzissem a algo que acabaria levando-os, mesmo que no imediatamente,
a uma infelicidade coletiva?
Keely no sabia. S sabia que, de repente, Jack estava em p, na cozinha, e olhava-a intensamente. De repente, ela sentiu o estmago subir para a garganta.
- P! P-p-p-p! - gritou Candy, assim que Jack entrou na casa, se debatendo no colo de Keely, para tentar alcan-lo. Ele cruzou a cozinha com uns poucos passos,
pegou o beb nos braos e beijou-a no alto da cabecinha.
- Voc est pronta? - perguntou ele a Keely, que estava fazendo o mximo para fingir que olhar para Jack com Candy, por mais natural e apropriado que eles parecessem
quando estavam juntos, no era motivo suficiente para deix-la com vontade de chorar.
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- Estou - disse, engolindo o n na garganta.
- Pois ento, vamos. O carro j est l fora, esperando. Tchau, meu anjinho. vou sentir muito sua falta - disse ele, beijjando Candy novamente e entregando-a a Petra.
Keely foi at a porta, ento parou, andou at a mesa, pegou as escalas de sono, cochilos e alimentao que havia feito e rasgou-as ao meio.
-- Siga seu ritmo, Petra. S tente no perd-la por a. Certo, Jack, eu estou pronta. Vamos?
Ao sair, ela no ouviu Petra dizer a Candy:
- O que vimos aqui hoje, querida, significou um pequeno passo para voc e um imenso passo para a tia Keely. Agora, venha, vamos descobrir onde est o tio Doura.
Ele vai nos levar ao parque para alimentarmos os patos.
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Captulo XII

No  pelo calor.  pela humildade.
Yogi Berra
Mal haviam apertado o cinto dos assentos do pequeno txi areo, que comeava a se deslocar pela pista, e Keely partiu para o ataque. Achava que havia se contido
incrivelmente at aquele momento, mas agora precisava saber de tudo.
- O que Jimmy disse? Ele conseguiu o mandato para manter Candy na Pensilvnia? E quanto a uma ordem restritiva para Joey? Eu sei que seria forado, considerando
que voc o convidou para ficar em casa, mas Jimmy chegou a pensar nisso? E quanto a...
- Acho que gostei mais do percurso em silncio at o aeroporto - disse Jack, apoiando os braos na poltrona quando o avio decolou. - Ah, eu detesto avies pequenos.
Maldito Mort. Ele sabe que eu detesto avies pequenos!
-  mesmo? Pois eu acho o mximo. O que detesto so
247
trens. - Keely olhou pela janela enquanto o cho ficava cada vez mais distante e sorriu para Jack. - Voc est plido como um fantasma. Eu no acredito. Voc voava
pelo pas inteiro quando jogava pelos Yankes.
. Em avies de verdade. No em latas de sardinha.
Jim Croce, Richie Valens, a lista  interminvel. Celebridades, avies pequenos, acidentes areos. J era tempo de as pessoas terem aprendido. - Ento, ele bocejou.
- Mas eu vou ficar bem. Tomei uns comprimidos para enjo pouco antes de sairmos. Eles vo me deixar sonolento, de forma que dificilmente eu vou acabar gritando,
me debatendo e exigindo que pousem o avio.
- Ah, timo - disse Keely, tentando no rir. Ela o olhou: costas tensas, cabea firmemente apoiada no encosto, mos, com as juntas brancas, agarradas aos braos
da poltrona. - Estou vendo que o comprimido j est funcionando perfeitamente. Voc quer que rezemos juntos, ou talvez possamos conversar sobre Candy?
Jack virou a cabea para ela.
- No tem graa. Todo mundo tem algum tipo de fobia. Aposto que voc no suporta ratos.
- Na verdade, eu tinha um de estimao quando era criana - Keely falou, aceitando o copo de suco de laranja oferecido pela comissria. - A tia Mary no queria arcar
com a responsabilidade de ter um gato ou um cachorro. Ele era branco e tinha um lindo narizinho rosado. Eu o chamava de sr. Squigles. Eu realmente adorava aquele
ratinho.
- Fico feliz por voc - Jack falou com os lbios contrados. - Agora voc quer ouvir o que Jimmy disse ou prefere que eu me mude para outra poltrona antes de esgan-la?
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- Desculpe-me - disse Keely, sem o menor remorso. Pelo menos, Jack no estava mais agarrado aos braos da poltrona como se aquilo sustentasse o avio no ar. - Por
favor, conte-me o que ele disse.
Jack ajeitou-se na poltrona.
- Infelizmente, no muito. Ele disse que neste momento no h outra opo, alm de tornar a coisa oficial. Informar as autoridades locais de assistncia social e
bem-estar do menor e coisas assim. Uma assistente social ser designada para acompanhar o caso, provavelmente j na segunda-feira.
- E isso no so boas notcias? - Keely tinha praticamente certeza da resposta dele, mas tinha que perguntar.
- No muito. No se trata mais de Cecily ter deixado Candy aos meus cuidados por alguns dias. Agora, a coisa  oficial, como se ela tivesse abandonado a criana.
At porque, se Candy no tivesse sido abandonada e eu estivesse apenas cuidando dela por alguns dias, no estaria pedindo a custdia, certo? Concluso:  possvel
que a assistente social opte por deixar Candy em um abrigo ou na casa de outra pessoa enquanto Joey e eu brigamos por ela no tribunal.
- No! - Keely empertigou-se na cadeira, com o corao aos saltos. - Eles no podem fazer isso! Candy  nossa... sua. Jack?
Ele se inclinou e pegou a mo dela.
- Relaxe. Jimmy disse que  s uma possibilidade. Se conseguirmos mostrar para a assistente social que Candy est em um ambiente bom e seguro e que est sendo bem
cuidada, temos uma boa chance de manter a custdia fsica, pelo menos por enquanto. Droga! Eu seria melhor se Joey estivesse falido e no sentado em uma herana
polpuda, porque
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a ele aceitaria uma oferta minha de receber dinheiro para ficar longe. Porque ele no quer Candy. Ele s no quer que eu fique com ela. Keely enxugou as lgrimas
de medo e de frustrao por no poder fazer nada para ajudar.
- Mas voc vai continuar lutando, no vai? Jack assentiu e bocejou novamente.
-- Eu nunca desisto de nada sem lutar, Keely. Ela sabia o que ele queria dizer.
- Beisebol. Voc no desistiu sem lutar.
Jack sorriu um sorriso triste e massageou as tmporas.
- Beisebol.  incrvel, mas parece que foi em outra vida. E para dizer a verdade, no numa vida muito importante. Mas, Candy? - Ele meneou a cabea. -  diferente.
Se algum tivesse me dito h algumas semanas que eu estaria to pouco preocupado com o beisebol e to obcecado por essa menininha gorducha...
- Voc a ama, no ? - perguntou Keely, baixinho. - No  s porque Cecily pediu a voc para tomar conta dela, ou para deixar Joey com raiva, ou porque voc no
tem nada para fazer e precisa de alguma coisa que o distraia da aposentadoria. Voc realmente a ama. Faria tudo que fosse necessrio para ficar com ela.
As plpebras de Jack estavam pesadas e parecia que estava quase dormindo.
- Faria. Qualquer coisa - disse, em meio a outro bocejo. - Talvez eu devesse ter seguido a prescrio e tomado s um comprimido. Keely, voc se incomoda se pararmos
de conversar um pouco? Eu estou muito cansado.
Qualquer coisa? Ele faria qualquer coisa? Era isso que ela
250
era para Jack? Uma "qualquer coisa" conveniente? Era por isso que estava naquele avio? At onde ele iria? Ser que chegaria a fazer amor com ela, a fingir que a
desejava, ou mesmo que a amava, s para poder mostrar um estilo de vida slido o bastante para lhe garantir a custdia de Candy?
- Claro, Jack - concordou Keely, engolindo as lgrimas enquanto a comissria entregava um travesseiro e um cobertor a ele. - Durma - disse ela, virando-se para a
janela. - Enquanto eu tento descobrir por que no estou gritando por um pra-quedas.
Jack s acordou quando o avio j estava pousando em um aeroporto inacreditavelmente pequeno, em algum lugar do Arizona. Ele provavelmente nem sabia para onde iria,
at chegar l, mas no momento aquilo no parecia importante. O comercial era apenas uma coisa que havia aceito fazer, algo para ajudar a prolongar uma carreira da
qual ele no sentia mais falta.
- Onde  Fnix, ou Tucson, ou algo assim? Estamos no meio do nada - ele falou, assim que saiu do avio com Keely e olhou em volta. Plancie, mais plancie, montanhas
a distncia. E calor. O Arizona deve ser o lugar mais quente do mundo.
- Ah, que graa! - exclamou Keely, estreitando os olhos por causa do sol. - Eu quero tirar muitas fotos. com licena. Deixe-me pegar a mquina fotogrfica na mala.
Keely foi at a pequena pilha de bagagem. Enquanto isso, Jack avistou seu agente: um homem de um metro e noventa,
251
havaiana e bermuda caqui at os joelhos, caminhando em sua direo.
- Jack! Bem na hora! Foi bem pensado trazer seu prprio passatempo. Agora, despea-se da moa e vamos. Brad, o diretor, disse que talvez consigamos terminar ainda
hoje, jjpois em poucas horas no teremos mais condies de luz.
Jack pegou o agente pelo brao e afastou-o do avio antes que Keely pudesse ouvi-lo.
- Onde diabos ns estamos? - perguntou ele, enquanto o agente pegava um leno branco no bolso e comeava a enxugar a prpria testa suada.
- No grande sudoeste, Jack, no grande sudoeste. E voc vai adorar aqui.  capaz at de querer comprar umas terras para construir uma hacienda. Certamente que  quente,
mas  um calor seco e no incomoda em nada. - Mort olhou por sobre o ombro. - Por que a moa est seguindo voc? Eu pedirei que algum a leve para um motel. Ah,
e voc tem um timo gosto, Jack. Ela  uma beleza.
- Ela vai ficar comigo. E chega de gracinhas, Mort. Estou lhe avisando.
-  srio? - Mort olhou para Jack. - Meu Deus,  srio! Eu nunca pensei que veria esse dia chegar. Quem  ela?  algum importante? Devo deixar essa informao vazar
para a imprensa ou voc prefere fazer um comunicado formal?
- Mort, a ltima coisa que eu quero ou preciso neste momento  de publicidade. Tudo o que quero  fazer esse comercial, voltar para o avio e ir para casa. Facilite
as coisas para mim, Mort, e voc ter minha eterna gratido.
253
- Obrigada, mas para mim bastam os dez por cento. E ento, Quem  ela?
Jack suspirou.
- Eu os apresentarei, mas voc tem que prometer que vai se comportar.
- E quando  que eu no me comporto?
- Eu no sei, Mort. Talvez seja por causa dos doze telefonemas que eu recebi sobre rumores de que os White Sox esto de olho em mim.  claro que voc no tem nada
a ver com isso, certo?
Mort virou os olhos para o sol e fez uma careta. - Jack, Jack, Jack.  preciso manter seu nome na mdia, pelo menos enquanto estou tentando conseguir mais uns contratos
publicitrios. Nesse momento, estou trabalhando em um negcio que  uma beleza, com um fabricante de luvas, cujo nome no direi. Voc sabe que eu detesto me antecipar,
isso pode minar o acordo. - Jack?
Ele se virou e viu Keely a cerca de dois metros, apontando para uma limusine com as portas traseiras abertas. Jack pegou Mort pelo brao mais uma vez e o rebocou,
apresentando-os. Ento, ajudou Keely a entrar e sentou logo depois dela, para servir de escudo entre ela e seu agente.
- Keely, hein? - disse Mort, inclinando-se sobre Jack. - A nica outra Keely que eu conheci foi Keely Smith, a cantora. Voc lembra, Jack, de Louis Prima e Keely
Smith?
- No. No lembro - Jack respondeu, empurrando Mort de volta para o banco. - E Keely tambm no se lembra porque ns dois nascemos depois da Era do Gelo. Agora,
diga-me para onde estamos indo.
- No muito longe - garantiu Mort. - Voc s precisa fazer uma coisa: andar at o carro com uma modelo, ajud-la entrar, entrar pela outra porta e sair dirigindo
por uma longa estrada. S isso.
S isso? Isso  tudo? Eu no precisarei dizer nada?
No. Haver uma locuo em off, gravada depois, no estdio. Voc s precisa andar, colocar a moa no carro, entrar...
- Certo, certo. Eu acho que entendi - Jack falou, impaciente. - A, voltaremos para o hotel e depois para Whitehall logo pela manh, certo? - Ele olhou para Keely.
- Isso est melhor do que eu havia imaginado.
- Algumas coisas so - disse Keely, seca.
No mesmo instante, Jack ficou com a sensao de que havia perdido alguma coisa.
- Ei, voc est bem? Me desculpe por ter dormido durante o vo.
- Voc dormiu. E muito. E, sim. Eu estou bem. Acredite-me, Jack: eu quero ir para casa at mais que voc. A viagem foi uma m idia. Uma pssima idia.
Sim. Definitivamente, ele havia perdido alguma coisa. A atmosfera estava to gelada, que provavelmente o ar-condicionado do carro nem teria sido necessrio. O que
teria acontecido entre o momento em que ele entrara no avio e o momento que haviam pousado na verso americana do deserto australiano?
Jack gostaria que ela se explicasse, mas o olhar de Keely bastou para afast-lo. Seguiram em silncio. Bem, Jack e Keely ficaram em silncio, enquanto Mort mantinha
um monlogo
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que abrangia tudo, de seu ltimo grande contrato, ao cardpio de seu almoo, at chegarem  locao onde havia dois Corvettes vermelhos conversveis, trs vans,
cerca de vinte pessoas e uma confuso de luzes e equipamentos  espera deles. Tudo isso para filmar um comercial de mseros trinta segundos que provavelmente iria
ao ar durante a Srie Mundial.
A limusine mal havia parado, quando um dos homens destacou-se do grupo e veio correndo falar com Mort, enquanto Jack tentava, com grande dificuldade, tirar suas
longas pernas do interior do veculo. Keely no perdera tempo e j havia sado pelo outro lado.
- Temos um problema. O avio de Julie ficou preso em Las Vegas. Houve algum problema com o motor, e ela s chegar tarde da noite. Temos que interromper e recomear
tudo amanh.  uma droga e vai nos custar uma fortuna, mas eu no vejo outra forma de... quem  ela?
Jack viu o homem apontar para Keely e as engrenagens de Mort comearam a girar dentro de seu crebro ganancioso. Jack quase conseguia ouvir os rudos da caixa registradora
do empresrio em pleno funcionamento.
- Quem? Ah, voc quer dizer Keely Sm... McBride? Ela  uma mina de ouro, evidentemente, um novo rosto. Alis, o rosto do novo milnio. Acho que poderamos... mas,
eu no sei, Brad. Ela est sendo h muito tempo assediada pela Revlon e...
Jack revirou os olhos. Mort era, definitivamente, uma pea rara. Mas Brad parecia pronto para negociar.
- Eu compreendo seu problema, Mort. E ainda vou ter
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Julie, porque ela  sindicalizada. Mas acho que  bem menos dispendioso do que ter de reunir todo o pessoal e equipamento por mais um dia e uma noite. Eu no tinha
nenhum plano muito fechado com ela, s de seu rapaz, de forma que ela no ficaria excessivamente exposta para a Revlon. Eu realmente tenho que manter isso dentro
do oramento, Mort. Vamos negociar. - O diretor pegou Mort pelo brao e foi com ele at a sombra proporcionada por uma das vans.
- Algum problema? - perguntou Keely, dando a volta na limusine para unir-se a Jack. - Ei, Jack? Ser que voc pode me dizer o que est acontecendo? - pediu ela,
quando ele se recostou novamente no banco da limusine e pegou duas garrafas de gua gelada da geladeira porttil. - No que eu tenha o direito de perguntar. Afinal,
sou apenas uma penetra aqui, certo?
Ele estendeu uma das garrafas para Keely, mas ela recusou.
- Estamos juntos nessa estrada, Keely.  Mort quem est regendo o espetculo. Eu s quero terminar logo para podermos ir ao motel, talvez nadar um pouco e pensar
sobre Candy sem a presena de Petra, de Sadie ou da Besta de Bayonne para nos assombrar.
Keely meneou a cabea.
- Eu no estou entendendo. Mort  seu agente, seu emPresrio. Tudo bem. Mas voc no est nem um pouco interessado no que est acontecendo?
Jack olhou para ela, com a mente mais interessada no motel e na noite que se aproximava do que em qualquer outra
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coisa. S queria ficar sozinho com ela. Ser que isso era pedir muito? Aparentemente, era.
- Mort  pago para isso. Eu jogo bola, ele arruma o dinheiro. O que h de errado nisso?
- Bem - disse Keely, revirando os olhos. - Se voc no sabe, certamente no serei eu a dizer
E, ento, ela disse:
- Primeiro: voc no joga mais. Segundo: uma coisa  confiar, mas  absolutamente idiota no se interessar minimamente por sua prpria vida. Terceiro...
- Certo, certo, eu j entendi - Jack interrompeu-a rapidamente. No a levara at ali para que brigassem. Podiam perfeitamente brigar em casa. - Voc tem razo. Eu
devia ficar mais atento.
- Voc tem alguma idia do quanto tem? - insistiu Keely.
- Uma idia - admitiu Jack. - Bem por alto. Quero dizer, eu sei que  algo entre dois e trs milhes. Eu recebo uma penso e Mort administra todo o resto.
- Oh, meu Deus! - Keely exclamou, olhando-o como se ele fosse o pior dos incompetentes. Na verdade, o olhar dela o fazia sentir-se uma verdadeira aberrao da natureza,
mas ele preferia pensar que Keely o achava apenas incompetente. Desde que continuasse achando-o adorvel.
- Eu no estou entendendo, Jack - pressionou ela. -' Voc j me disse que gasta seu dinheiro com cuidado e que no quer levar a vida extravagante de alguns atletas.
Mas agora est me dizendo que no sabe quanto dinheiro tem?
- Veja bem, Keely - disse Jack, tentando se
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defender. - Tim e eu assinamos um contrato com Mort assim que samos da faculdade, com o apoio de meu pai. Papai confiava nele e, agora que ele no est mais aqui,
Tim e eu continuamos confiando. Ele nunca nos deu motivos para no confiarmos.
- Ah,  mesmo?! E como voc poderia saber, Jack? - perguntou Keely, erguendo o queixo. - No estou dizendo que seu agente seja um ladro. Tenho certeza de que no
. Mas ser que no  hora de voc comear a prestar ateno em sua vida?
- Eu tenho estado ocupado.
- Sim. Jogando, eu sei. Mas agora voc tem uma casa, tem Candy e tem o resto da vida pela frente. Francamente, Jack, voc precisa de algum que zele por isso tudo.
Ele olhou-a. Certo. Iam recomear a brigar. O que havia de excepcional nisso?
- Eu no estou atrs de voluntrios.
- timo, porque eu no estou me oferecendo. - Ela Pegou a garrafa de gua das mos dele, ento se virou e afastou-se.
-  to bom saber que voc nem liga - gritou ele, virando-se com raiva, quando Mort cutucou-o com o dedo. -
O que foi?
Ns precisamos de Keely. Jack meneou a cabea. Mort precisava de Keely? Droga! Ele achava que ele prprio precisava de Keely, s que a Keely da qual achava precisar
era bem mais agradvel do que aquela que havia voado para Dipstick, Arizona.
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- Do que voc est falando, Mort? Pode repetir?
- Eu disse que precisamos de Keely. Bem, Brad precisa. A atriz que eles contrataram s vai chegar aqui tarde da noite ou amanh. Ento, ou desistimos por hoje e
recomeamos tudo amanh, ou tentamos pelo menos ensaiar hoje para filmar amanh. Quem sabe? Se eles derem sorte e sua amiga no ficar petrificada na frente das cmaras,
podemos at acabar tudo hoje mesmo.
- Ento, eles querem que Keely... ela nunca far isso.
- Aposto dez dlares, menos meus quinze por cento  claro. Se ela funcionar, eu passarei a represent-la oficialmente; a apresentarei ao pessoal mais quente da rea
de casting e... pronto: teremos uma carreira nova para a moa.
Jack estreitou os olhos e olhou para o agente.
- Eu s lhe pago dez por cento. Mort deu de ombros.
- As coisas evoluem. Seu contrato  antigo. Agora, eu cobro quinze por cento. Todos cobram,  exceo de uns poucos que cobram vinte. Mas eu no sou ganancioso.
Voc quer dez, eu farei por dez, mas s neste caso. Deixe-me falar com ela.
Jack olhou para Keely, que estava inclinada um pouco mais para a frente, examinando um dos Corvettes. Mesmo depois de uma longa viagem de avio, mesmo sob aquele
calor terrvel, ela parecia fresca, composta e elegante. Uma beleza clssica na blusa de seda amarelo-clara e cala de modelagem seca, tambm amarela. Os cabelos,
que haviam comeado o dia presos em um coque elegante, deviam ter se embaraado no avio porque, naquele momento, ela simplesmente
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os afastara do rosto, com uma presilha colocada na altura da nuca, mantendo a sedosa massa escura escorrendo pelos ombros.
- Ela faz um estilo Audrey Hepburn, no? - comentou Mort, tambm olhando para Keely. - Por favor, s me diga que ela  amadora e que no tem um agente. Quero dizer,
eu posso adorar os atletas, mas isso no significa que no possa diversificar e comear a agenciar modelos.
- Ela  decoradora de interiores - Jack informou, sem tirar os olhos de Keely. Ali, vendo-a pelos olhos de Mort, ele concluiu que preferia v-la por seus prprios
olhos: em sua casa, brincando com Candy, sentada  mesa diante dele, lentamente tomando conta de seu mundo. - Eu acho que ela no vai topar, Mort.
- Por qu? Ela  incrivelmente rica? No precisa de uma boquinha como esta? Imagine que perda teria sido para o mundo se Marilyn Monroe tivesse dito isso - Mort
aparteou, recorrendo mais uma vez ao leno que trazia no bolso. - Vamos l, Jack. Apenas deixe-me perguntar. Ns estamos derretendo aqui fora.
Aquilo era verdade, concluiu Jack. Keely precisava do dinheiro para voltar a Nova York. Uma entrada inesperada como aquela a ajudaria muito. Ser que ele tinha algum
direito de impedi-la de ganhar aquele dinheiro? No. No tinha o direito de pedir a Keely para fazer ou deixar de fazer o  que desejasse.
Ora, v em frente, Mort. Fale com ela - afirmou ele. Ento, foi at o homem que seu agente havia chamado de rad, que gesticulava freneticamente para ele.
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Quatro horas depois, com o sol mais quente do mundo ainda reinando no cume das montanhas, Jack desejou a morte de Brad, de Mort e, principalmente, de Keely. Ah,
sim, e da maquiadora, que no parava de dizer a ele para parar de suar.
Jack teria preferido ter uma bolha em cada dedo de sua mo de lanador a continuar ouvindo Brad gritar outra vez:
- Corta! Vamos fazer de novo.
Tudo parecera muito simples. No to simples quanto Mort dissera, mas longe da complexidade de uma cirurgia neurolgica. Jack devia ficar perto do carro com Keely,
olhando-a e segurando suas duas mos. Depois, devia se afastar, abrir a porta do carro e ajud-la a entrar, passando levemente os dedos sobre o cap, enquanto jogava
as chaves para o alto algumas vezes. Finalmente, devia entrar no carro, lig-lo e sair dirigindo.
No parecia nada difcil.
Mas era difcil o bastante.
Primeira tomada: ele no havia conseguido tirar as chaves do bolso.
Segunda tomada: conseguira tir-las do bolso, mas as derrubara no cho.
Aquilo fora apenas o comeo. A confiana o abandonara, e ele comeara a se empenhar tanto em no cometer mais erros, que os erros passaram a persegui-lo como uma
praga.
Sexta tomada: Jack fechara a porta em cima da longa echarpe esvoaante que algum idiota achara apropriado amarrar no pescoo de Keely para que, quando se afastassem,
a pea voasse ao sabor do vento.
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Dcima quarta tomada: ele... ah, ele havia se esquecido o que fizera de errado da dcima quarta vez. E durante todo o tempo, Keely atuara brilhantemente. Ela
segurara as mos dele, o olhara com ar de adorao e depois entrara graciosamente no banco do passageiro. Perfeita. Todas as vezes.
Aparentemente, era ele quem no parecia ser capaz de fazer a coisa do jeito certo. E sempre que errava, tudo parava. Algum tinha que limpar o cap do carro. Algum
tinha que mexer uma luz, por que precisavam de tantas luzes, se ainda havia sol?, ou sugerir outro ngulo de cmara.
A maquiadora sempre vinha correndo para pentear os cabelos dele, pr mais p em seu rosto e pedir a ele para no suar.
- Certo, crianas, ouam - disse Brad, enquanto a maquiadora empoava a testa de Jack depois da vigsima segunda tomada, que fracassara quando Jack tropeara no paralama
frontal do Corvette. - Vamos fazer mais uma tomada hoje ou amanh teremos que voltar para fazer tudo de novo. Jack? Voc est pronto? So os ltimos momentos do
jogo, campeo, vamos para a medalha de ouro!
- Ah, certamente. Medalha de ouro? No beisebol? Do que esse imbecil est falando? - grunhiu Jack, caminhando Para Keely, a perfeita. Ela nem mesmo suava!
- Jack? Voc est bem? - perguntou ela, ao notar que ele olhava para todos os lados, menos em sua direo.
No, droga. No estou. No acredito que no sou capaz de fazer isso. At um macaco seria capaz de fazer isso!
- Ento, no  porque voc est aborrecido por eles terem
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me pedido para fazer o comercial? Porque Mort disse que voc no havia ficado muito satisfeito e...
- Satisfeito? Eu estou satisfeito. Por que no estaria? Nossa, estou quase eufrico de to satisfeito. Isso porqu voc precisar menos de meu dinheiro para sua
volta triunfal a Manhattan, significa que parar de se preocupar com a possibilidade de Mort estar me roubando e de Candy correr o risco de ficar sem dinheiro at
para comprar sapatos. Voc vai ganhar seu dinheiro, vai voltar para Nova York e eu no vou ter que ficar ouvindo-a me perguntar se est tudo bem ou tudo mal, porque
voc estar longe, fora de minha vida! Como eu poderia estar me sentindo de outra forma que no "satisfeito"?
Keely pressionou as costas da mo no rosto dele.
- Voc bebeu bastante gua, Jack? Tem que beber muito nesse calor, ou pode ficar desidratado, desorientado,  capaz at de ter delrios.
Jack olhou-a. Ser que Keely estava insinuando que ele estava cometendo erros de propsito para que tivessem que voltar no dia seguinte, com a modelo, e que assim
Keely no ganharia os dez mil dlares combinados? Ser que ela tinha razo? Oh, Deus, por favor, no permita que Jack seja to egosta.
- Eu estou bem.
- At parece que voc me engana - murmurou ela, tomando sua posio, quando Brad recomeou a gritar suas instrues pela milsima vez. - Olhe, Jack - disse ela,
segurando-lhe as mos. - Apenas relaxe, est bem? No h luzes, nem cmaras. Nem Mort, nem Brad, ningum. S ns dois, saindo para um passeio.
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Keely apertou as mos dele e Jack respirou fundo, encarando-a. Ela sorriu.
voc e eu, Jack. S ns dois.
Eu gosto dessa idia. - Ele respirou fundo novamente e soltou o ar aos poucos. - Keely? Eu sei que ainda temos muito o que conversar, muitos problemas, problemas
grandes. Sei que s vezes tenho vontade de lhe dizer para cuidar de sua prpria vida e que s vezes voc tem vontade de bater em mim com uma daquelas panelas que
ficam penduradas na cozinha, mas, s por agora, voc est to interessada em ir embora daqui quanto eu? Porque eu quero muito ficar sozinho com voc, Keely. Agora.
Os olhos castanhos dela ficaram subitamente suaves e midos.
- Ah, Jack, voc me deixa to nervosa e... e depois diz uma coisa dessas e..
-  mais forte do que eu, Keely. Eu gosto do som disso: "s ns dois", disse ele, baixinho, repetindo as palavras dela, puxando-a lentamente para si, inclinando-se
para beijar aquela boca to convidativa. Ficaram ali, de mos dadas, Partilhando o momento e ento Jack ajudou-a a entrar no carro, deu a volta, acariciou duas vezes
o cap, girou habilmente as chaves entre os dedos, pulou para o banco do motorista sem abrir a porta. Ento, olhou para Keely, inclinou-se e beijou-a novamente,
ligou o carro e saiu pela estrada, enquanto a echarpe de Keely esvoaava ao sabor da brisa.
- Corta! E, pronto! - gritou Brad, quando Jack passou dirigindo por ele.
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Jack continuou dirigindo.
- Jack? - Keely falou, olhando por sobre o ombro
as pessoas e vans deixadas na poeira. - Brad est gesticulando para ns. Acho que  melhor darmos a volta agora.
- Voc acha? - perguntou ele. - Porque Mort disse que o motel fica a uns seis ou sete quilmetros  frente, por esta estrada - Ele olhou-a e pegou-a pela mo. -
Ou eu estou completamente perdido, incapaz de interpretar os sinais?
- Hum... o que quer dizer, Jack? Voc est perguntando se eu iria para... quero dizer, voc acha que eu... ah, que seja! - Keely umedeceu os lbios e olhou para
a frente. - Que velocidade esse carro consegue atingir?
Eles praticamente cruzaram a porta do motel juntos, de mos dadas, como dois fugitivos bem-sucedidos. Ofegantes. Rindo como bobos por causa do jeito como o recepcionista
arregalara os olhos para Jack e pedira seu autgrafo. Na pressa de irem para o quarto, simplesmente largaram o Corvette no meio do estacionamento.
Jack fechou a porta com o p e jogou a chave com seu pesado chaveiro na direo da imensa cama de casal. A chave bateu no rdio-relgio na mesa-de-cabeceira e, de
repente, havia uma voz dizendo: "...sua estao nmero um. A seguir, uma nova cantora, com seu sucesso mais sensual delicioso, Every Night, Every Delight.
Jack aproximou-se; seus olhos azul-escuros e intensos.
- Aaaah, baby, toda noite...
Keely tentou respirar, mas no conseguiu. De repente, os dois pararam de rir porque, subitamente, a graa havia desaparecido
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. No havia nada alm de Jack e ela. As quatro paredes que os cercavam, a cama atrs deles. E uma tenso crescente, um desejo crescente, quase sufocantes.
Ela apoiou as mos nos ombros dele e olhou-o nos olhos. Ele parecia faminto, quase to faminto quanto ela.
Aaaah... todo desejo...
Keely gemeu quando os lbios de Jack tomaram os seus, com fora e desejo. Alis, a mesma fora e desejo com que ela retribuiu. Ento, ele mergulhou a boca na lateral
do pescoo macio e ela comprimiu-se para mais perto. Se misturando, ardendo.
Loucura. Adorvel loucura.
As mos dele estavam nela, tirando freneticamente a blusa de seda de dentro da cala, ao mesmo tempo que Keely mergulhava o rosto no peito dele. Jack cheirava a
sol, a calor e a homem. Ela tentou engolir, mas no conseguiu.
- No h nada alm de voc para mim...
Keely tirou a camisa de gola alta de Jack de dentro da cala, gemendo de frustrao porque no havia botes para abrir, da forma como ele j fizera com a blusa dela.
- ...quando voc est aqui,  o destino...
- Tire - sussurrou ela, rouca e ofegante. - Tire isso.
Jack recuou um passo, tirou a camisa pela cabea e jogou-a na cama. Ento, deslizou a blusa de Keely at alm dos ombros.
- Ah, Deus... - disse ele, respirando com dificuldade, olhando-a, observando o suti de renda cor de marfim que ela havia vestido mais cedo, com to poucas expectativas.
- Voc  inacreditvel.
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Caram juntos na cama, mexendo as mos, abrindo os zperes, tirando as roupas, numa fria frentica.
Uma vez aps a outra, a boca de Jack clamou pela dela, a lngua exigente estimulando-a a corresponder da mesma forma. Keely agarrou-o, enfiou as unhas nas costas
dele, parecendo incapaz de satisfazer-se. Achava que nunca se satisfaria dele.
- ...faa, faa, faa, querido...
Keely sentiu o corpo gelar e queimar ao mesmo tempo, derretendo e estremecendo, reagindo selvagemente a cada toque dele. Quando Jack tomou um dos mamilos entre os
lbios, ela arqueou o corpo e deixou-o sugar, sentindo as mos fortes segurarem-na pelos quadris para, em seguida, deslizarem por entre suas coxas.
No era o bastante, no era o bastante. Keely puxou-o para si, com toda a fora da qual se julgava capaz e mordeu-o no lbio inferior e no lbulo da orelha. Ento,
beijou-o infinitas vezes no rosto e no pescoo, acariciando seus cabelos e puxando-o cada vez para mais perto, cada vez para mais perto.
Que loucura deliciosa.
A nsia de Jack era a mesma. Estava totalmente incapacitado de parar. com a boca na de Keely, as mos nela, por toda ela, por dentro dela, tocando-a em suas partes
mais ntimas, buscando... encontrando. Alimentando-a, estimulando-a, aumentando ainda mais as sensaes j incrivelmente intensas que ela sentia emanarem de seu
interior... at que se tornou demais... demais... e ela fluiu embaixo dele, seu corpo todo estremeceu, desabrochou e explodiu de prazer.
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Keely tentou erguer o corpo quando ele a deixou, procurando febrilmente alguma coisa no bolso da cala. Ento, jack atirou a cala para longe e ela bateu no rdio-relgio,
derrubando-o no cho, silenciando-o.
E no momento seguinte, ele estava com ela de novo, to determinado e ansioso quanto antes, de forma que Keely rapidamente reencontrou a prpria fome, ainda no totalmente
saciada.
- Voc quer mais...?
- No... ah, no... - gemeu Keely, tocando-o, abrindo-se para ele e conduzindo-o para dentro de si.
- timo, porque... porque eu... eu no... ah - murmurou Jack, penetrando-a, completando-a por inteiro.
Ela ergueu as pernas e envolveu-o pela cintura. Ento, abraou-o e arqueou o corpo, quando sentiu Jack comear a se mover dentro dela. Lentamente, mas no por muito
tempo. Nada estava acontecendo lentamente. Ele comeou a se mover mais rpido e Keely ergueu um pouco o prprio corpo para acompanh-lo, sentindo a presso dentro
de si crescer, a necessidade aumentar cada vez mais, cada vez mais.
Ele tambm a estava abraando e ergueu a cabea lentamente para ento beij-la com lbios midos e ansiosos, a lngua reproduzindo os movimentos do corpo.
De repente, gemidos de prazer quebraram o silncio do quarto.
Os sons vinham de Keely, ou melhor, do fundo de sua garganta, enquanto seu corpo inteiro se convulsionava. Ao mesmo tempo, os msculos das costas de Jack se contraam
sob suas mos e ela o sentiu unir-se em uma exploso to intensa, que Keely receou perder a conscincia.
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Ento, o quarto ficou em silncio. Talvez, silncio demais. Jack abraou-a por mais alguns momentos e o nico som era o da respirao ofegante de ambos e do corao
disparado. Ento, ele deu um ltimo beijo nos cabelos de, Keely, levantou, pegou a cala e a cueca e foi para o banheiro, deixando-a sozinha na cama.
com rapidez e embarao, Keely deu-se conta de que ficara satisfeita com a atitude dele, satisfeita por Jack no ter falado com ela, dito algo que talvez no quisesse
dizer... ou pior, algo que quisesse dizer, como:
- Desculpe, ns no devamos ter feito isso. No vai acontecer de novo.
Ela se vestiu rapidamente, seus dedos lutando com os botes da blusa. Ento, pegou um pente na bolsa, penteou os cabelos e prendeu-os novamente. O tempo todo, fez
o melhor que pde para ignorar as sensaes de formigamento que permaneciam entre suas pernas e a pulsao em seu abdmen.
Ento, quando ouviu o chuveiro ser ligado no banheiro, Keely se sentou na nica cadeira do ambiente, com as mos cruzadas sobre o colo, imaginando o que aconteceria
a seguir.
Eles eram capazes de rir dos mesmos absurdos, de brigar um com o outro sobre qualquer besteira e de fazer um sexo de excelente qualidade. Mas, obviamente, no eram
capazes de conversar um com o outro. No sobre um assunto importante.
Algum bateu na porta e, depois de examinar seu reflexo
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no espelho, Keely a abriu e viu Mort Mortimer apoiado no limiar-
- Est tudo bem aqui? - perguntou ele. - Eu estou com sua bagagem.
Keely saiu, com a bolsa na mo, fechou a porta atrs de si e perguntou, sem meias palavras:
- Como eu consigo um avio para voltar  Pensilvnia? Ou a Allentown, na Filadlfia, a qualquer lugar prximo de Whitehall?
Mort fez uma careta e coou um ponto acima da orelha esquerda.
- Boa pergunta. S h avies particulares no aeroporto daqui. Acho que voc teria de ir para Fnix.
- timo - disse Keely, pegando-o pelo brao e conduzindo-o para a limusine estacionada ao lado do Corvette. - Diga ao motorista para me levar para Fnix. E eu preciso
de um adiantamento de meu pagamento para hoje. Em dinheiro. Tenho que comprar uma passagem e talvez precise passar a noite em um hotel. Imagine, eu definitivamente,
terei que passar a noite em um hotel. Quero passar umas trs horas debaixo do chuveiro.
Mort olhou por sobre o ombro.
- Mas...
- H duas opes, Mort - disse Keely, com o corao aos saltos. Tinha que sair dali e tinha que sair logo, antes que Jack sasse a sua procura. - Ou voc me empresta
o Dinheiro e a limusine, ou corre o risco de ser morto. Porque Se eu tiver de ficar aqui mais um minuto, Mort, voc vai ter
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que lidar com uma mulher histrica. A coisa pode ficar feia Mort, muito feia. A escolha  sua.
Mort olhou-a e Keely retribuiu o olhar sem nem ao menos piscar.
- Bem, voc foi extremamente clara. Pode ser em notas de cem?
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Captulo XIII

S h dois lugares na Liga: o primeiro lugar e lugar nenhum.
tom Seaver, lanador
Jack sentiu vontade de correr at Whitehall, mas depois de alguns momentos agonizantes no quarto do motel, concluiu que seria mais rpido ir de avio. E foi o que
fez, decolando  meia-noite depois que Mort encontrou, acordou e subornou o piloto.
Como havia perdido os comprimidos para enjo, Jack foi obrigado a anestesiar-se com vrias garrafinhas do frigobar do o avio. O primeiro drinque foi para acalmar
os nervos enquanto o avio decolava pela pista. O segundo foi uma tentativa de lidar com a terrvel sensao de ter descoberto que Keely partira, fugira. O terceiro
foi para lidar com uma turbulncia no espao areo de Oklahoma e o quarto... Bem, depois do terceiro, tudo ficou meio confuso.
, sua bagagem e sua ressaca chegaram em casa por volta das oito e quinze da manh, hora em que ele decidiu
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tomar banho, tirar um cochilo e fazer o que tivesse vontade no necessariamente nesta ordem. Ento, antes que Keely chegasse, ele pensaria num plano para faz-la
am-lo, perdo-lo e no mat-lo... Mais uma vez, provavelmente no nesta ordem.
O txi que ele pegara no aeroporto foi at a porta da frente da casa e parou atrs de um sedan cinzento que Jack no reconheceu. Ele pagou o motorista, pegou a bolsa
de couro, seu nico item de bagagem, e foi para a escada. No havia chegado nem ao terceiro degrau, quando dois braos enormes agarraram-no por trs, ergueram-no
do cho e carregaram-no para a lateral da casa, com a bolsa ainda pendurada no ombro.
Apenas a ressaca, e a resultante perda de funo cerebral e reflexos, o impediu de lutar at ser colocado delicadamente no cho, diante de Petra Polinski.
- Obrigada, Doura, foi perfeito - disse Petra, enquanto a montanha careca e sorridente ajeitava a camisa de Jack, como se tentasse corrigir algum defeito e ento
se juntava a Petra, diante de um Jack perplexo.
- Sim, obrigado, Doura - Jack falou, imaginando se algum dos dois havia percebido que sua cabea acabara de rachar. Ento, ele olhou para Petra, piscou e olhou-a
novamente-
A menina vestia uma elegante cala azul-marinho, sapatos "com" meias e uma elegante blusa branca. Os cabelos, todos da mesma cor, estavam presos na nuca, ela usava
culos de armao de tartaruga e trazia um livro nas mos.- Poemas de Elizabeth Barrett Browning.
- Que diabos... - comeou Jack, fazendo um movimento
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brusco na direo de Petra. - E por qu? - continuou, apontando para Doura.
Ela est aqui - disse Petra, sussurrando cada palavra.
Ela? Quem  ela? - Ento, Jack sentiu o sangue congelar. - Cecily? Cecily est ali?
- Antes fosse - disse Petra, revirando os olhos. - Segundo a tia Sadie, com ela, ns saberamos lidar. No, Jack, sua prima no est aqui.  a assistente social
que est. Ela apareceu h uns vinte minutos, mas Jimmy j havia nos avisado, de forma que eu tive tempo de me trocar para tentar causar uma boa impresso.
Nossa, como a cabea dele doa. E seu estmago estava dando cambalhotas.
- Por que voc precisaria causar uma boa impresso, Petra? No  voc que est pleiteando a custdia.
- No, mas voc me contratou para tomar conta dela e, sendo assim, eu devo refletir sua capacidade de julgamento, sua preocupao com Candy. Francamente, Jack, tente
sintonizar, est bem?
- Ela ps a sra. Peters na cozinha, com a tia Sadie - disse Doura, prestativo. - A tia Sadie descobriu com seu agente que logo voc estaria de volta, de forma que
ela est enrolando a sra. Peters, mas ela quer ver Candy, voc e Keely.
- Oh, no... - gemeu Jack, pressionando as duas mos nas tmporas, tentando pensar. - Oh, no, oh, no, oh, no! Olhe, v fazer companhia  tia Sadie, enquanto eu
tomo um banho e me troco.
- Sim, e escove os dentes - disse Petra. - Voc est Cheirando como meu pai, depois daquelas festas de aniversrio
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de formatura. Voc andou derrubando umas garrafas, no foi, Jack? Foi uma sorte voc no ter aparecido aqui usando uma cabea de alce. Deve ter sido uma viagem e
tanto, se Keely est vindo em outro avio. Agora, vamos l, apresse-se. Sadie  muito boa, mas no vai conseguir segurar essa mulher para sempre.
Jack assentiu para em seguida arrepender-se. com o movimento, foi como se sua cabea tivesse cado e rolado pela grama. Ele deu dois passos e ento se virou e perguntou:
- Joey? Onde est Dois Olhos? Por favor, diga-me que ele est trancado no sto.
Petra meneou a cabea e revirou os olhos.
- Caramba! Voc no entende nada, no  mesmo? Joey est na cozinha com a tia Sadie e a sra. Peters, evidentemente. Que melhor lugar para um idiota como ele, que
no em posio de destaque, provando que  um idiota?
- Ah, certo - disse Jack, assentindo. - E Candy? Ela tambm est com eles?
- No. Est trancada no sto.  claro que ela est com eles - Petra falou, impaciente. - Onde mais ela poderia estar, j que no est conosco?
- Droga - praguejou Jack, baixinho. Ele queria ver Candy, segur-la, ergu-la, achar Keely e fugir com as duas para longe do alcance da assistente social. Mas no
podia fazer nada daquilo. No antes de tomar um banho e se trocar. - D-me dez minutos, Doura, e ento me traga um punhado de aspirinas e um copo de suco de laranja,
est bem? Ah" e obrigado. Aos dois.
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Ento, Jack ps-se novamente a caminho da porta da frente, da escada e do banho mais frio que conseguiu suportar.
Ainda estava se secando, quando ouviu Doura entrar no quarto, com o suco, um pequeno frasco de comprimidos e um telefone sem fio.
- Seu advogado - disse ele, estendendo o telefone para Jack.
- Jimmy? Ela est aqui, a assistente social est aqui - disse Jack, aflito. - O que eu fao? Devo dizer alguma coisa? Devo dizer algo a ela? - Ento ele ouviu, andou
pelo quarto, ouviu e andou pelo quarto novamente at desligar o aparelho e jog-lo sobre a cama. - Droga!
- Problemas sr. T? - perguntou Doura, gesticulando as mos enormes.
- Ainda no, Doura - garantiu Jack. Ento, suspirou. - Ainda no, mas eles esto chegando. Meu advogado acha que os investigadores particulares que ele contratou
j podem ter localizado Cecily, e ele no est bem certo se isso ser uma boa coisa.
- Sei - disse Doura, aparando trs aspirinas na palma da mo e entregando-as, junto com o suco, a Jack. - E por que ele acha que pode "no ser" uma coisa boa?
olhou para Doura com um respeito renovado.
- Voc sabe exatamente qual  a situao, no ? A parte ruim  que, se dissermos a Cecily o que est acontecendo, ela  bem capaz de pegar um avio para c e temtar
levar Candy. A, ns teramos uma batalha por custdia com trs pleiteantes, e a briga ficaria ainda mais feia. Eu acho  que consigo lidar com Joey, mas Candy 
filha biolgica
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de Cecily e, se ela chorar, se arrepender e bancar a coitada,  bem provvel que o juiz acredite que ela realmente se importa com a filha. O que  uma besteira,
porque ela a deixou, no ? Ela chegou a ligar para saber como a filha est? No.  a mesma Cecily irresponsvel de sempre. Ento, Jimmy disse que o melhor a fazer
 eu bancar o bonzinho at ele conseguir falar com Cecily e descobrir quais so as expectativas dela com relao  custdia.
Doura assentiu com um gesto de sua enorme cabea.
- Ento, voc continua precisando de Keely. Petra disse que seria assim. Ela disse que voc deve ter estragado alguma coisa, mas que provavelmente Keely vai relevar
porque ela ama Candy, mesmo que voc a deixe louca. Ah, e de qualquer forma, a sra. Peters quer conhec-la porque ela est tomando conta de Candy. Sr. T.? O senhor
ainda est com uma aparncia meio engraada. Talvez fosse melhor comer um sanduche de almndega ou algo assim? Eu sempre me sinto melhor depois de comer um sanduche
de almndega.
A meno do nome de Keely trouxe de volta todos os outros problemas de Jack, principalmente o fato de no saber onde ela estava, se voltaria e como faria para explicar
a ela que no tinha por hbito atacar mulheres num frenesi sexual. Ele a desejara tanto; ela mandara certos sinais e talvez fosse mesmo loucura o fato de um no
ter conseguido manter as mos afastadas do outro, sem mencionar a rapidez com que haviam cado na cama. Mas, ento, Jack havia tentado pr certo espao entre eles
para dar a ela tempo de se recompor e quando voltara do banheiro, encontrou o quarto vazio. Keely, obviamente, optara por colocar vrios Estados entre eles-
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- Sr. T.? Sanduche de almndega? - ofereceu Doura Dovamente.
- Obrigado, mas no. Keely ligou? - perguntou ele, olhando para o espelho enquanto penteava os cabelos ainda midos.
- No, mas o sr. Moore ligou, disse que est por dentro de tudo e que o avio dela deve pousar aqui s nove horas da manh. Petra e eu vamos busc-la e explicar
tudo, para ela saber o que est acontecendo. Alis, estvamos saindo no momento em que o sr. apareceu, de forma que  melhor sairmos logo ou nos atrasaremos.
Jack olhou para o rdio-relgio na mesa ao lado da cama. Vinte para as nove.
- Est quase na hora, Doura. V logo. No podemos permitir que Keely saia sozinha, neste frio.
- Sim, senhor - concordou Doura, j a caminho da porta. - Ah, eu quase ia me esquecendo. Tia Sadie disse para voc olhar naquela caixa, para no parecer que voc
e Keely esto mentindo.
Jack esperou Doura sair e pegou a pequena caixa de veludo azul de cima da cmoda. Ao abri-la, reconheceu o anel de noivado de sua me.
Ser que Keely concordaria em us-lo? Ser que daria continuidade  fraude para salvar Candy de Cecily e Joy? Ser que concordaria em se casar com ele, sem am-lo,
sem ao menos ter ouvido dele que a amava? Jack, definitivamente, tinha que falar com ela.
- Claro.  o que farei. Eu a pegarei antes que ela consiga dizer qualquer coisa, direi a ela que a assistente social est
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aqui e que temos que salvar Candy. A, colocarei o anel de brilhantes no dedo dela e, rapidamente, direi a ela... que eu a amo desesperadamente... e que ela pode
desistir de ir para Nova York e daquela histria de carreira, certo? Por que ela no aceitaria? - murmurou Jack, tirando o anel de brilhantes da caixa e colocando-o
no bolso. - Deus, eu sou um homem morto!
Ele se sentou na beirada da cama, apoiou o rosto entre as mos e concluiu que a tia Sadie no conseguiria piorar ainda mais as coisas, se ele demorasse mais uns
dez minutos.
Keely deixou a valise no primeiro degrau e foi at a entrada da cozinha, torcendo para conseguir chegar  escadaria dos fundos sem ser vista.
O vo do Arizona adiantara, graas a uma corrente area que os deixara na Filadlfia quase uma hora antes do previsto e, assim, ela conseguira pegar um vo mais
cedo para Allentown.
No conseguira dormir no avio e s usara o quarto do hotel para tomar um banho e mudar de roupa antes de sair para o aeroporto, na esperana de conseguir sair da
cidade antes de Jack encontr-la.
Considerando que ele fosse procur-la.
Talvez ela devesse ter ligado do aeroporto, pedindo a Petra ou a Doura que fossem encontr-la, mas no o fizera. Estava mesmo adiantada e o txi era mais annimo,
o que lhe convinha porque continuava com aquela tendncia idiota de comear a chorar sem qualquer motivo.
S porque havia bancado a idiota, atacando Jack como
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uma louca obcecada por sexo e depois fugindo porque ele aceitara o que ela oferecera.
 claro que poderia ter se sentado e conversado com ele. perguntado o que aqueles minutos no motel haviam significado para ele e dito o que haviam significado para
ela. Claro. poderia ter feito isso. Logo depois de se matar. O que seria pior do que dizer: "Olhe, eu acho que o amo". E ento ficar esperando pelas palavras dele:
"Obrigado, mas eu s estava interessado em me divertir. Voc no?".
Keely engoliu as lgrimas, girou a maaneta da porta dos fundos e entrou na cozinha. Ento, parou, mortificada. Tia Sadie estava l, sentada  mesa da cozinha, com
uma mulher de meia-idade, de tailleur azul-escuro. A mulher tinha cabelos grisalhos, presos em um coque severo. As faces estavam marcadas por dois-traos artificialmente
vermelhos de blush e havia um par de culos pesados apoiados no nariz, estranhamente arrebitado.
A assistente social. S podia ser ela. Quem mais poderia ser?
S que Sadie, esfuziante em um vestido solto rosa-choque, com tnis de plataforma vermelhos, estava segurando a mo da mulher, lendo sua sorte.
- ...uma linha do corao forte, Edith. Isso significa. Ah, pronto, Keely - disse ela, soltando a mo da mulher e recostando-se confortavelmente na cadeira. - Voc
estava l fora, conferindo a piscina? Eu lhe disse que j havia chamado um homem para arrum-la, no? Precisamos de uma pea nova para o filtro. E olhe seus olhos.
Que pena. Ns achamos que a mudana no clima fosse alivi-la dessa terrvel alergia
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Como Jack no est com voc, mas certamente est em casa, acho que ele deve ter levado a bagagem para Vocs. Fizeram uma boa viagem? Como est a tia Mary, no Arizona?
Keely nunca ouvira tanta informao e tantas mentiras na vida... pelo menos, no de uma s vez.
- Como? - Ela limitou-se a sorrir para a senhora de tailleur azul. - Onde... onde est Candy? - perguntou finalmente, olhando para a cadeirinha vazia.
- Petra e Bruno levaram-na para dar um passeio porque ela gosta de olhar para cima e ver os avies - disse Sadie. - Mas no se preocupe. Eles logo estaro de volta.
E antes que voc pergunte por Joey, saiba que ele voltou correndo para Bayonne porque surgiu algo urgente l. Ele partiu h cerca de cinco minutos.
Certo. Keely sabia que era hora de interpretar as coisas.
Jack estava em casa e havia se refugiado no andar de cima, de forma que evidentemente ainda no fora apresentado  assistente social porque, por tudo o que a assistente
parecia saber, ele e Keely haviam voltado do Arizona juntos.
Petra, Doura e Candy estavam no aeroporto, provavelmente porque haviam consultado o vo de Keely e sado para busc-la.
Joey continuava na briga pela custdia e havia contratado um advogado, o que significava que a guerra havia sido declarada.
Ela tinha alergia, o que explicava seus olhos vermelhos. Havia estado no Arizona com Jack para visitar a tia Mary e no para fazer sexo em um ninho annimo de amor
e,
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em questo de minutos, qualquer coisa que ainda no tivesse explodido, explodiria, a menos que Keely entrasse no jogo..
Considerando tudo, at que era bem fcil entender Sadie.
- Que... que bom - Keely falou, tentando desesperadamente recuperar um pouco da razo, pelo menos a pequena parte que restava depois de viver com os Trehan. - E
a senhora ...? - perguntou ela, dirigindo-se  mulher que a encarava da forma mais estranha possvel.
. Ah, sim, claro - interrompeu Sadie. - Eu devia t-las apresentado, no? Desculpem. Keely, esta  Edith Peters, assistente social, da Secretaria de Bem-Estar do
Menor, que veio ver Candy. Edith, a noiva de meu sobrinho, Keely McBride.
Edith Peters se levantou, ajeitou o palet do tailleur e estendeu a mo para Keely.
- Eu lamento ter vindo sem ser anunciada, mas  assim que costumamos fazer as coisas.
Keely manteve o sorriso, apesar da tenso em seu rosto. Ento, as mentiras de Sadie haviam includo um noivado? Provavelmente, ningum contara a ela sobre os roupes
laranja que viriam com os monogramas dele e dela. - Fico feliz por estarmos todos aqui para poder conhec-la, sra. Peters - disse ela, torcendo para que a mulher
parasse de analisa-la como se ela fosse um inseto sob o microscpio. -
as-.. bem... se a sra. me der licena um momento, eu vou Ver o que est atrasando Jack.
- Sim, faa isso, querida, e no se esquea de colocar o anel. Eu o encontrei na pia, depois que vocs saram
- Bem eu  o coloquei no quarto de Jack - disse Sadie, disputando
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o recorde mundial de maior mentirosa. - No que ela durma com Jack, entende? - acrescentou ela depressa, voltando-se para a sra. Peters. - Pelo amor de Deus, no.
Msmo com essa marca roxa no pescoo.
Keely arregalou tanto os olhos, que ficou impressionada por eles no terem saltado das rbitas. Ela olhou para a sra. Peters, que continuava olhando-a e ento ergueu
a mo para o pescoo, percebendo que a echarpe havia escorregado, expondo a pequena marca escura em sua pele clara.
- Ah, no, no - disse, apressada. - Eu... eu... eu cocei uma picada de inseto, foi isso.
-  claro que sim, querida - disse Sadie, acalmando-a.
- Agora, por que voc no vai procurar Jack?
- Mordida de inseto?  assim que chamam isso agora? - perguntou Edith a Sadie, assim que Keely saiu correndo para a escada. - Eu sou alguns anos mais nova que voc,
Sadie, mas no meu tempo chamavam-se chupes ou trofus das sesses de namoro nos bancos de trs dos Fords cinqenta e cinco. Eu tambm recebi alguns.
De alguma forma, Keely chegou ao topo da escada e saiu correndo em disparada pelo corredor, rumo ao quarto de Jack. "Por favor, faa com que ele esteja l... por
favor, faa com que ele no esteja l..."
- Jack? - chamou ela, entrando e encontrando-o sentado na beirada da cama, com a aparncia de algum que carregava o mundo nas costas. Keely queria mat-lo, abra-lo
e dizer a ele que tudo daria certo. Depois, queria mat-lo mais uma vez.
Ele ergueu os olhos, olhando primeiro para o rdio-relgio-
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- Keely? Soubemos que seu avio s chegaria s nove horas! O que voc est fazendo aqui?
- Deixe a conversa para l - disse ela, caminhando para a cmoda e para a pequena caixa que havia ali. No se atire nos braos dele. - Sua tia est l embaixo, mentindo
como uma louca e ns temos que ajud-la. O pior  que Joey acabou de ir para Bayonne, atrs do advogado. No h o que fazer, Jack. Temos que mentir com a tia Sadie.
Acho que s pegaremos cinco anos cada, mas acredito que poderemos ter uma reduo de pena por bom comportamento. Onde est o anel? perguntou ela, virando-se para
ele com a caixa aberta e vazia, ciente de que sua mo tremia. - Vamos l, Jack, eu preciso do anel.
- Desculpe. Eu estou de ressaca e tudo o que voc disse chegou at mim com certo atraso antes de penetrar em meu crebro. - Jack se levantou, vasculhou os dois bolsos
da cala, at achar o anel. Era um impressionante anel de ouro amarelo, com trs fileiras de diamantes no centro. Os dois olharam-no por um momento e ento ele estendeu-o
para ela.
- Foi de minha me. Meu pai comprou para ela quando fizeram vinte e cinco anos de casados, e ela no falou com ele por uma semana, por ter sido to exagerado. Depois,
ela o usou todos os dias, sem nunca mais tir-lo. Sadie ficou encarregada de guard-lo e de entreg-lo para a noiva do Primeiro irmo que se casasse.
Keely pegou o anel, colocou-o no terceiro dedo da mo esquerda, tentando no olhar para ele, tentando no adorar sua aparncia, a sensao de us-lo, a histria
por trs do presente.
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- Eu devolverei quando tudo isso acabar - prometeu ela, baixinho.
- Sim, por favor - disse Jack, tenso. - Voc teve um bom vo?
Keely apenas assentiu. Estava to nervosa, que achava difcil acreditar que h apenas um dia os dois haviam... bem talvez fosse melhor esquecer logo de tudo.
- E voc?
- Eu no me lembro. Bebi o tempo todo - Jack falou enquanto caminhava para o corredor e deixava claro pelas palavras e pelo tom de voz que a razo por terem voltado
do Arizona em vos diferentes era uma questo encerrada, que no devia ser reaberta naquele momento; talvez nunca. Ele parou logo depois do quarto e virou-se para
ela.
- Voc tem certeza de que quer ir adiante com isso? Eles podem adiar a custdia at que finalmente nos casemos, sabe? Ou nos colocar na cadeia se no casarmos.
- Eu tenho opo? Jack praguejou baixinho.
- Sim, Keely, tem. Eu sei que vai ser difcil para voc bancar a noiva apaixonada, considerando que me odeia.
- Eu estou com um chupo no pescoo, Jack - Keely salientou, ajustando a echarpe que usara no comercial ao Corvette. - Tanto a tia Sadie, quanto a sra. Peters notaram
e as duas comentaram o fato quase com romantismo. Assim, acho que no vou ter que me esforar tanto para bancar a noiva apaixonada, certo?
Jack encarou-a, plido, e estendeu a mo para a echarpe. Keely afastou-se.
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- Eu... eu no me lembro de ter feito isso - disse, baixo.
 -  Acho que nenhum de ns se lembra de quase nada - comentou Keely. - Provavelmente,  melhor assim.
Ele olhou-a e assentiu.
- Provavelmente. Deve ter tido alguma relao com todo aquele sol e calor.
-  - concordou ela, evitando olh-lo. - Provavelmente. E com a proximidade. A proximidade tambm teve muito a ver com isso.
- Proximidade. Certo.
Keely queria morrer. Queria simplesmente se deitar ali no corredor e morrer.
- Podemos resolver logo isso? - pediu ela, com os olhos novamente marejados e a voz levemente trmula.
Jack aproximou-se dela, segurou-a pelo brao e puxou a echarpe.
- Eu nunca a machucaria, Keely. Eu... eu me importo muito com voc. No se trata apenas de Candy.
Keely enxugou uma lgrima que escorria pelo rosto.
- Obrigada, Jack-disse ela. - Eu tambm me importo com voc. Mas... - Sentindo a voz fugir da garganta, ela soluou.
- Proximidade - repetiu ele mais uma vez. - Eu sei. Voc e eu; voc, Candy e eu. Voc, Candy e eu contra o resto do mundo.  difcil dizer o que qualquer um de ns
est sentindo, no ?
Tudo est acontecendo to rpido... " Rpido demais - Keely concordou, girando o anel no dedo. - Mas no podemos deixar a tia Sadie sozinha l
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embaixo com a sra. Peters por muito mais tempo. Quando eu entrei, sua tia estava lendo a mo da assistente social, qye parecia estar gostando.
Jack deixou escapar um pequeno sorriso.
- Essa  minha tia. Ela provavelmente est dizendo que a sra. Peters ser recompensada se fizer o Bem. S espero que ela pare antes de oferecer dinheiro a ela para
largar o caso. Vamos.  melhor irmos.
- Engraado. Acho que eu j disse isso. Umas cinco vezes.
Keely seguiu-o para a escada dos fundos e quase bateu em Jack quando ele parou, abruptamente, no topo da escada.
- Obrigado - disse ele, segurando-a pelos braos e obrigando-a a encar-lo. - De corao, Keely. Obrigado.
Ah, como ela amava aquele homem.
- De nada - disse. Porque no podia dizer: "ah, como eu o amo".
- Quando tudo isso acabar - prosseguiu ele -, voc ir a Nova York, escolher o ponto que quiser para sua loja e ela ser sua. Sem compromissos, Keely. Ela ser
sua. Eu prometo.
Ah, como ela odiava aquele homem.
- Obrigada - disse. Porque no podia dizer "eu gostaria de jog-lo dessa escada abaixo, seu cego idiota!".
- ...e ento Joey disse a Edith: "eu vou a Bayonne agora mesmo, fazer um servicinho urgente e da, abracadabra, a criana ser minha". Acho que foi nesse momento
que
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ela e eu resolvemos ser amigas. Quero dizer, depois de passar cinco minutos ininterruptos rindo com algum, fica difcil no fazer amizade.
Jack parou na frente do imenso televisor, segurando um Copo de gua gelada, sua bebida preferida pelos prximos vinte anos, no mnimo, e olhou para a tia. Sadie
estava recostada no sof, com os tnis vermelhos de plataforma firmemente apoiados na mesinha de caf.
- Ele realmente disse isso, Sadie? "Abracadabra"?
- Ah, sim. Disse, sim. Abracadabra. E ainda reforou estalando os dedos e batendo os punhos um no outro enquanto dizia. Eu fiquei muito impressionada. Afinal, ele
era aquele menino que no conseguia cantar e danar ao mesmo tempo "Atirei o pau no gato" quando vinha nos visitar, na infncia.
- Vamos adiante com isso? - pediu Keely de seu lugar, tambm no sof. Incrvel, estavam todos nos sof: Sadie, Keely, Petra. Todos, menos Doura, que estava na poltrona,
testando a resistncia do material.
- No h muito mais a contar, Keely - disse Sadie, gentilmente. - Ns fomos avisados pelo advogado de Jack, estvamos a postos e  espera e cuidamos de tudo perfeitamente.
Edith  uma mulher adorvel, alm de ser muito inteligente. Ela decifrou Joey instantaneamente.
- Ela foi gentil, no foi? - perguntou Keely a Jack. - Quer dizer, eu pensei que fssemos receber uma tpica assistente social. Sem senso de humor, sem flexibilidade,
incapaz de  relevar regras idiotas. Ela nem mesmo tomou notas, nem nos mandou preencher algum formulrio.
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- E eu fui brilhante,  claro - comentou Petra, modstia habitual. - Mas da prxima vez, talvez seja melhor eu aparecer com uma Bblia, em vez de um livro de poemas.
Isso vai impression-la demais.
Jack ergueu os olhos para o teto.
- No. J basta de sua criatividade, Petra. Eu no me sentaria muito perto dela se fosse voc, Keely.
Keely apenas olhou para ele sem sorrir, com a cabea inclinada para um lado.
- Acho que Jack  nosso elo mais fraco - disse ela, virando-se para Sadie. - Ele simplesmente no sabe a hora de calar a boca, no ? Eu tive que chut-lo quando
Edith no estava olhando.
- O qu? A propsito, por que voc me chutou? Eu s estava mostrando a ela todas as coisas maravilhosas que compramos para Candy. Todas aquelas coisas de segurana
para tomadas, portas de armrios e cantos de mesas. E as joelheiras. Acho que ela ficou muito impressionada com as joelheiras.
- Pattico - declarou Petra, revirando os olhos.
- Pattico por qu? - perguntou Jack, confuso. Ele achara que havia feito um bom trabalho, impressionando a sra. Peters com todas as coisas boas que haviam feito
por Candy.
Keely levantou-se do sof e foi at ele.
- O que Petra est tentando dizer, Jack,  que a sra. P' ters certamente ficou satisfeita em saber sobre os protetores para tomadas e as joelheiras, mas o objetivo
dela  saber como ns nos "relacionamos" com Candy, se vamos ser amorosos,
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, dar a ela uma vida de amor e no apenas "coisas". Joey pode comprar "coisas" para ela.
Jakk esfregou a testa, ainda sofrendo com a dor de cabea da ressaca.
- Ento, eu banquei o bobo?
- No totalmente, Jack - garantiu Keely. - Ela provavelmente precisava ver onde Candy dorme e as coisas que voc tem proporcionado a ela. Mas ela voltar, sem avisar,
para ver como ns interagimos com Candy. A, voc no vai poder ser to rgido e formal. Voc mesmo me disse para relaxar quando estivesse perto de Candy e agora
 voc quem est transmitindo essa impresso tensa. Voc tem que tentar fingir que a sra. Peters no est aqui... e ser voc mesmo.
- ? Bem, eu mesmo estava sob certo estresse aqui - respondeu ele, franco. - O pessoal de Jimmy pode ter encontrado Cecily, estamos mentindo para uma mulher muito
gentil que pode nos colocar na cadeia e eu estou tentando manter Candy, enquanto Joey faz "abracadabra" pela cidade de Bayonne, caando seu advogado. E isso  s
o comeo do que est em minha cabea neste momento. Sinto muito, mas h certo estresse aqui, companheiros. Jack sentiu a mo de Keely em seu ombro e quase estremeceu.
Pena? Ser que ela ia lhe oferecer sua compaixo novamente? Ah, no. Bastava daquilo.
- Jack - disse ela, baixinho. - Acho que precisamos conversar Em particular.
- Eu reconheo uma deixa - Petra ironizou, saltando do sof. Em seguida, ela estendeu a mo para ajudar Sadie a levantar. - Venha, tia Sadie, Doura. Acho que eles
vo
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conversar sobre os avies separados. Ser que se subssemos e encostssemos o ouvido no cho ns conseguiramos ouvi-los? Porque eu adoraria tomar notas para a tese
que estou planejando.
- Petra... - disseram Jack e Keely ao mesmo tempo, de forma que a menina riu para eles e deixou a sala alegremente, acompanhada da tia e de Doura.
Jack ficou imvel por alguns momentos e ento gesticulou para que Keely voltasse a se sentar. Ela voltou para o sof e, ele se sentou na poltrona, com um cantinho
da mente feliz ao dar-se conta de que Keely escolhera mveis capazes de resistir  constituio avantajada de Doura.
- E ento? - perguntou Keely, interrompendo o silncio incmodo. - Fale.
Ele se inclinou para a frente e apontou para o prprio peito.
- Eu? Foi voc quem disse que precisvamos conversar. Em particular.
- Ah, ento voc no tem nada a dizer? Est certo, Jack. Por mim, tudo bem. Por mim, tudo timo - Keely preparou-se para levantar e sair dali.
- Sente-se - ele pediu com um suspiro. - Eu vou falar-
- timo - tia Sadie intrometeu-se da cozinha, com a mo dentro do pote de biscoitos. - Pensei que fssemos ter que buscar as chaves de fenda - Quando Jack e Keely
olharam-na, ela ergueu as duas mos, num gesto de defesa e comeou a recuar para a porta. - Estou indo, estou indo-
Jack esperou at a porta da cozinha ser fechada e olhou para Keely. Ela estava maravilhosa. Estava sempre maravilhosa.
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Eu estraguei tudo - ele admitiu, finalmente. - L no Arizona. Eu estraguei tudo.
 mesmo? E como?
Jack fez uma careta aborrecida.
. Voc no vai facilitar as coisas, no ?
- Creio que no, Jack. Como voc estragou tudo?
Jack era um atleta, um homem de movimentos. No era o mais hbil articulador, mas tambm no era totalmente incapaz de se expressar. A no ser quando estava olhando
para Keely e ela estava ali, to calma, to composta, olhando para ele como se, h apenas um dia, no o tivesse abraado com suas pernas nuas; uma mulher totalmente
selvagem em seus braos; uma mulher que ele enlouquecera e com quem havia enlouquecido. Ela parecia ter um boto de "liga-desliga", e Jack havia descoberto o boto
s para ela deslig-lo novamente. Como Keely fazia aquilo?
Ele pigarreou e tentou tirar do pensamento a Keely selvagem, a Keely que ele havia tido nos braos.
- Eu... eu me aproveitei de... de uma situao.
A expresso dela parecia ter sido esculpida em gelo.
-  mesmo?
Ele prosseguiu, sabendo que estava cometendo suicdio, mas incapaz de se conter:
- E. Eu convidei voc para vir comigo e... e depois me aproveitei.
- Puxa, eu estou impressionada! Voc elaborou tudo isso sozinho? Ningum o ajudou?
Jack mordeu o lbio inferior e estreitou os olhos para ela. Ser que Keely estava lhe dando uma sada?
- Bem, eu acho que no ouvi voc dizer "no", ouvi?
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Errado. Ela o conduzira para uma armadilha e naquele momento, fechou a porta da jaula.
- Ento, eu sou a culpada?  isso, Jack? Voc estava fraco, e eu tirei vantagem de sua fraqueza? Pelo amor de Deus! Eu devia mudar meu nome para Dalila ou Jezebel.
Ou Madonna.
Jack passou os dedos pelos cabelos, tentando pensar num jeito de escapar daquela jaula.
- No foi o que eu quis dizer e voc sabe disso. Portanto, no tora minhas palavras, Keely. Voc tambm est sendo submetida a um grande estresse. Ns fomos obrigados
a fingir um noivado porque eu abri minha grande boca num ato de desespero. Ns dois amamos Candy e desejamos o melhor para ela. E temos estado juntos nesta casa,
aquela coisa da proximidade, e ento eu a convidei para ir comigo ao Arizona. Quanto do que aconteceu no foi causado pelo estresse, pela encenao, pelo desejo
de ficar com Candy? Algum de ns tem como saber?
Keely no respondeu. Ele no sabia o que era pior: as respostas curtas e telegrficas dela ou nenhuma resposta.
- Keely? Voc entende o que eu estou tentando dizer? Porque eu no quero que ache que quer uma coisa s porque ns... talvez tenhamos sido levados pelas circunstncias.
Voc tem sua carreira, lembra? Quando nos conhecemos, foi a primeira coisa que voc me disse. Que no havia nada que quisesse mais do que ir para Manhattan, voltar
para a vida e para a carreira que amava. E eu entendo isso. Droga! Eu sei que banquei o idiota tentando recuperar a carreira que amava.
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finalmente, ela falou:
- e isso  apenas uma hiptese, Jack, se no houvesse Candy nem... nem eu... voc ainda estaria tentando voltar  Liga Principal? Teria aceito aquele emprego no
Japo?
Agora, ele sabia o que era pior e lamentou por Keely ter interrompido o tratamento silencioso.
Eu no sei - ele respondeu, honestamente. - Eu juro que no sei.
Keely fechou os olhos por um momento e ento se levantou. Ele tambm se levantou.
- Espere. Deixe-me explicar. Eu no tive opo, Keely. Ns dois sabemos disso. Meu brao no presta mais e ponto final. Ento, mesmo que eu no saiba o que teria
feito, eu no tenho que saber. Mas para voc  diferente. Voc tem outra chance de ir atrs de seu sonho. Eu sei que voc ama Candy, mas ser que no est tentando
convencer a si mesma de que tambm me ama s para ajudar Candy? E, isso  importantssimo, Keely, ser que voc no vai acabar culpando Candy e a mim se um dia concluir
que se deixou persuadir a ficar aqui, apesar de seu corao querer voltar para Manhattan? Antes de avanarmos mais um palmo que seja, voc precisa saber disso.
Ela o olhou com firmeza por um longo momento e ento disse:
Sabe qual  seu problema, Jack Trehan? Voc pensa demais.
Com isso, fez meia-volta e saiu na direo da porta dos fundos e provavelmente do apartamento de Sadie, deixando-o ali para tentar entender o que acabara de acontecer.
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O que levou cerca de dois minutos.
Ele havia dito... Bem, pelo menos havia insinuado a possibilidade dos dois se casarem e criarem Candy.
Havia dito, e isso tinha certeza, algo sobre Keely talvez achar que o amava.
Mas no havia dito uma nica palavra sobre tambm am-la.
Sua vontade era morrer, ali mesmo, petrificado em sua prpria burrice.
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Captulo XIV

Se algum me quiser, diga que estou sendo embalsamado.
Casey Stengel
m you... eu vou pegar voc - disse Keely, desligando os dedos pela barriguinha despida de Candy e ento fazendo ccegas no pescocinho macio. Candy prendeu a respirao,
cheia de expectativa e depois riu e bateu as pernas em cima do trocador. - Eu... - repetiu Keely, e Candy prendeu a respirao outra vez - ...vou... Pegar... voc!
- Ela riu e se debateu, alegremente.
Sem parar de brincar, Keely vestiu-a habilmente, colocando a fralda, uma roupinha de baixo sem mangas e um Vestidinho cor-de-rosa de malha macia, com gola branca
e um  grupo de patinhos bordados no corpo. Quando Jack a alertara sobre sua tenso, Keely tratara de prestar ateno s prprias atitudes com relao a Candy. Mas
Candy era um beb to fcil de lidar, to feliz, que Keely deixara as preocupaes de lado e passara a simplesmente se divertir. Agora, ela conseguia apoiar Candy
no
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quadril como todos faziam e simplesmente aproveitar.
A diferena em Keely fazia toda a diferena em Candy, Que ficou ainda mais alegre, mais sorridente e passou a sacudir ainda mais os bracinhos.
Foi bom. Muito bom. Alis, maravilhoso e, a cada minuto Keely sentia mais amor pela menininha.
Quando acabou de vestir Candy no trocador, Keely pegou-a no colo. cou algumas gotas de perfume na palma da mo e espalhou a fragrncia suave pelo corpinho macio.
Depois, escovou os cachinhos claros da menina com cuidado e terminou colocando uma fivelinha minscula combinando com o vestido, no alto da cabecinha cheirosa.
- Pronto. - Keely recuou um pouco para apreciar o resultado do servio. - Toda criana acaba odiando a me por causa de fotos assim. E voc ter que admitir, querida,
que at que eu estou sendo boazinha. Eu poderia ter tirado uma foto sua, sem roupa, em cima do trocador, com esse bumbunzinho lindo virado para o alto. Depois, eu
chantagearia voc sobre o horrio da volta de seu primeiro encontro, sob o risco de mostrar a seu namorado que bebezinho lindo voc era.
Candy ergueu os olhos para Keely, como se entendesse perfeitamente o que havia sido dito. Ento, segurou a barra do vestido de Keely e tentou enfi-la na boca.
- Ah, no! No faa isso - disse Keely, tirando rapidamente o tecido das mozinhas gorduchas. - Vamos tirar fotos e voc precisa estar linda. E uma mancha midae
amassada no meio de minha saia, s porque voc queria enfiar algo na boca, definitivamente no  bonito.
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Candy fez um biquinho e piscou diversas vezes os clios longos, nitidamente resolvendo se queria chorar ou... ela sorriu, estendeu a mozinha e agarrou o nariz de
Keely.
Ei, solte meu nariz, querida! - protestou Keely, pegando a chupeta que ficava na prateleira, acima do trocador.
- Aqui - disse, estendendo-a na frente de Candy. - Vamos fazer uma troca: meu nariz por sua chupeta, certo?
Troca feita, Keely rapidamente localizou as meias de Candy, to bonitinhas, minsculas e brancas, com os punhos enfeitados por um lacinho cor-de-rosa. Ainda no
havia comprado sapatos para ela, mas no havia problema. Ainda levaria alguns meses para Candy comear a andar.
Ser que ela ainda estaria ali quando Candy desse seus primeiros passinhos? Quem estenderia as mos para ela? Para quem ela andaria, para ser capturada em um caloroso
abrao de incentivo e coberta de beijos?
- Pare - alertou Keely a si mesma, em voz alta. Ento, ergueu Candy nos braos e levou-a para a cadeira de balano. - No vamos pensar nisso agora, no , querida?
Vamos apenas tirar uma poro de fotos de minha lindinha.
Ela sentou Candy na cadeira, bem ao lado do ursinho de pelcia, recuou um passo, pegou a cmara descartvel do bolso da camisa e tirou a foto, a tempo de flagrar
Candy tentando enfiar o nariz preto do urso na boca.
Depois, tirou fotos de Candy olhando para a cmara e sorrindo abertamente. Em seguida, mais trs dela acariciando a cabecinha no urso imenso e brincando de encostar
a testinha na testa do bichinho.
Ela era brilhante, simplesmente a criana mais inteligente
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do mundo, sem a menor sombra de dvida. Era um gnio em potencial.
- Pensando bem... - Keely falou pegando-a novamente no colo. - No sei se o mundo est preparado para outra Petra Polinski. Agora, venha c, vamos procurar sua tia
Sadie e tirar umas fotos com ela tambm, certo? E com p-p. Muitas fotos, Candy. Muitas e muitas fotos.
"Assim, eu terei algo para levar comigo quando tudo isso terminar e eu tiver que viver o resto da minha vida sem voc e aquele homem estpido."
Keely levou a menina para baixo e percorreu os cmodos, em sua maioria vazios,  procura de algum. De qualquer pessoa. Mas aparentemente no havia mais ningum
na casa. Tudo bem. Estava fazendo um dia bonito, talvez estivessem todos l fora. Fotos externas tambm eram uma tima idia.
Alm disso, j era hora de Keely encarar novamente a famlia, depois de ter passado praticamente dois dias midos e chuvosos trancada com Candy. Dois dias em que
ela e Jack haviam tentado se evitar. Os dois se encontravam nas refeies, mas a presena de Joey e Doura  mesa a mantinha protegida e evitava que tivesse que
falar com ele.
Keely nunca imaginara que seria grata a Joey Dois Olhos, mas ele tinha uma capacidade incrvel de comer e falar ao mesmo tempo, apesar de nunca falar nada digno
de ateno ou comentrio. Menos daquela vez,  claro, em que Joey havia dito que seu advogado o aconselhara a voltar para Whitehall, ficar l e no se mexer at
receber novas instrues.
Keely olhara para Jack por sobre a mesa, perguntando,
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sem palavras, se ele achava que Joey tinha alguma chance, mesmo que mnima, de obter a custdia de Candy. Jack apenas revirara os olhos, meneara a cabea e pegara
outro po  quente da cesta, enquanto Joey mudava de assunto, falando  sobre a venda de bolas de beisebol autografadas por Jack. O estranho fora que Jack concordara
e agora havia trs grandes caixas de bolas de beisebol empilhadas no escritrio, prontas para serem autografadas. Keely havia concludo que Jack optara por ser o
mais gentil possvel com o primo para depois lhe dar um chute no traseiro, assim que Jimmy desse o sinal verde.
Keely olhou pelo canto dos olhos para o escritrio antes desocupado e seguiu para a cozinha.
De repente, parou, mortificada. Trs caixas. Antes, eram trs caixas.
Ento, como era possvel que tivessem se tornado dez caixas imensas?
Aturdida, ela voltou para onde estavam as caixas e ento constatou que se tratava de um equipamento de som, competentssimo, com dezenas de partes, caixas e amplificadores.
Pra que um homem precisaria de tanto equipamento?
E pior, onde ela iria pr tudo aquilo? E como? Ser que uma a televiso-monstro no era o bastante para um homem?
Ser que algum, que no fosse mulher, chegava a considerar os problemas de tentar decorar qualquer ambiente com aquella montanha de caixas pretas imensas e horrveis?
~- Ah, voc viu minhas coisas - disse Jack. com o susto, Keely se virou e quase derrubou os papis da nota fiscal em
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cima dele, esquecendo, momentaneamente, de que no estavam se falando.
- Por que voc no me consultou, Jack? - perguntou ela, ajustando Candy ao quadril.-Isso ... isso  o pesadelo de qualquer decorador!
Mas o sorriso dele a deteve porque Jack parecia perfeitamente satisfeito consigo mesmo.
-  mesmo? Voc vai precisar de um tempo para descobrir como fazer tudo ficar bonito e ainda assim manter as caixas nos lugares certos? Tudo bem. Use o tempo que
precisar.
- P-p-p-p! - chamou Candy, estendendo os braos para Jack, que rapidamente pegou-a, beijou-a no rostinho e lhe disse que parecia que ela tinha uma salsicha loira
na cabea.
-  um cacho, Jack. Eu tenho fotos minhas com um cacho igual na cabea.  a tradio.
- Se voc diz... - respondeu ele, beijando Candy mais uma vez. - Eu, pessoalmente, destruiria qualquer foto minha com uma salsicha no alto da cabea.
- Mas no parece... ora, deixe para l! O que eu vou fazer com... com essa coisa toda?
Ele sorriu novamente. Um sorriso diablico e adorvel.
- No  problema meu - disse. - Mas j que voc esta perguntando, eu estava pensando em prateleiras. Muitas prateleiras. Posso lhe mostrar como estava pensando em
disp-las e veremos juntos o que ser necessrio.
- Juntos - repetiu Keely.
- . Juntos - prosseguiu Jack, tentando evitar que Candy
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enfiasse a mo em sua boca. - Sabe, aquela coisa que no temos estado nos ltimos dias: juntos.
Keely estreitou os olhos, ergueu uma mo e fez um gesto na frente do prprio corpo.
- Uma espcie de trgua, hein? Voc queria baixar a tenso por aqui, certo? E foi nisso que pensou? Certos homens compram flores, Jack. Outros chegam at a conversar.
Voc comprou um equipamento de som? Ele deu de ombros.
- Estamos nos falando de novo, certo? Est vendo como funcionou?
Keely abriu a boca para responder, mas percebeu que no havia nada a dizer. Ele era maluco. E ela o adorava.
- Ei - continuou Jack enquanto Keely calculava que seriam necessrios vrios dias, talvez semanas, para receberem as prateleiras feitas sob medida para o escritrio.
- Mas eu estava mesmo indo busc-la. Voc precisa ver isso, Keely. Petra est dando aulas de boxe a Doura.
- Como ? - perguntou Keely, temporariamente esquecida do problema.
- Eles armaram uma espcie de ringue numa rea plana na lateral da casa - disse Jack, dirigindo-se para a cozinha.
Keely seguiu-o de perto. - Joey est marcando o tempo dos rounds e Sadie no pra de dizer que devia colocar um mai para anunciar os nmeros dos rounds. Eu queria
ter uma
cmara.
Eu tenho uma - disse Keely, se apressando para alcan-lo. - Eu estava tirando fotos de Candy com
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aquela cmara descartvel que compramos, lembra? Depois podemos coloc-las em porta-retratos infantis.
- Perfeito - disse Jack. - Uma foto de Doura num porta-retrato de ursinhos. E no deixe de tirar umas de Joey. Eu sou bem capaz de querer mandar para nossos parentes
em comum no Natal.
Keely sorriu e meneou a cabea. Jack certamente parecia estar de bom humor.
- Por que voc est to contente? Houve alguma mudana? Ou voc ficou sabendo de algo e no me contou?
Ele parou e olhou-a.
- Nada demais. Jimmy conseguiu uma cpia oficial da certido de nascimento de Candy e  igual a que Cecily incluiu na carta que deixou. Me: Cecily Morretti. Pai:
desconhecido. Ele est com uma declarao do pediatra dizendo que Candy est muito bem de sade, mas que no havia tomado nenhuma das vacinas, o que  pssimo para
Cecily no quesito "competncia" de nosso programa. E... -- ele respirou fundo e sorriu - h cinco minutos, Jimmy ligou para dizer que falou com Cecily e que ela
acha que Wyatt Earp ser um timo pai.
Keely, que estivera sorrindo enquanto ouvira Jack, franziu o cenho.
- Wyatt Earp? Mas Wyatt Earp est morto.
- Errado. Est vivo e mora em Whitehall. Voc est olhando para ele. Mas no se preocupe. Jimmy tambm flagrou-se entendeu. Ele s achou que Cecily era louca.
- Ento, somos dois - admitiu Keely. - Mas, espere-- Voc est dizendo que "voc"  Wyatt Earp?
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- Isso! Ento, agora, se a corte comprar a idia de que Secily  capaz de fazer uma escolha racional e ponderada, poder ser minha.
Ah... Jack... - disse Keely, abraando os dois. - quem diria que seria to fcil?
Ele passou a mo livre pelas costas de Keely e acariciou-a.
Provavelmente, porque no ser. Joey jura que pretende ir adiante com seu advogado, e Cecily muda de idia com a mesma facilidade com que muda de namorado, o que
 cerca de uma vez a cada trs semanas. Mas eu estou muito otimista, Keely. Mesmo que...
De repente, a mo dele parou em suas costas e Keely percebeu onde e como estava. Aturdida, desvencilhou-se dele e recuou trs passos.
- Mesmo que o qu, Jack?
- Mesmo que Jimmy diga que no podemos cancelar o noivado para no deixar muito na cara que era uma mentira - Ele envolveu Candy com a mo livre e puxou-a para perto
de si. - Voc se incomodaria?
- Incomodar? - repetiu Keely, pegando a cmara no bolso e aproveitando para tirar trs fotos para esconder seus olhos marejados. -  claro que no. Olhe! Parece
at que ela sabe que est sendo fotografada. Agora, vamos. Eu quero ver esse ringue. Ela disparou na frente, mas Jack segurou-a pelo brao.
- Keely, eu...
Sim, Jack? -- Ela no ergueu os olhos, para impedir que ele visse as lgrimas.
- Deixe para l. Falaremos depois. Vamos ver Doura em  ao.
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Um momento depois, as lgrimas quase esquecidas, Keely agradeceu sua boa sorte por Sadie Trehan, Petra Polinski Bruno Armano e at Joey "Dois Olhos" Morretti terem
entrado em sua vida, porque ela no sabia o que faria se no tivesse aquele grupo para alegr-la.
Jack no havia brincado. Havia "mesmo" uma espcie de ringue improvisado sobre o gramado. Mais tarde, ela descobriu que eles haviam juntado quatro mastros de guarda-sol
de jardim e duas redes de badminton para delimitar o quadrado. Muito criativo.
Joey estava sentado em uma cadeira de armar ao lado do ringue, com um cronmetro na mo. Um de seus dedos estava firme sobre o boto do cronmetro enquanto, com
a outra mo, ele segurava uma campainha de cermica com uma figura da srta. Piggy para fazer as vezes de gongo.
Tia Sadie, de short xadrez, uma camiseta rosa at que bem discreta e uma faixa rosa-choque na testa, estava em um dos cantos do ringue, com uma bacia de alumnio
aos ps e uma esponja molhada nas mos.
- Ela  o assistente de comer-disse Jack, quando Keely virou o olhar para Sadie. -  responsvel por refrescar Doura entre um round e outro.
- Certamente - Keely ironizou, disfarando uma risada. - Onde Petra conseguiu isso? Quero dizer, estou imaginando que seja dela.
- Desde que no pense que  meu... - Jack falou, aproximando-se do ringue com ela.
Dentro do ringue, Petra estava pulando em um minsculo trampolim, vestindo short de nylon e uma camiseta onde se lia
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"Everlast". Calava luvas de boxe vermelho-vivo e a boca parecia inchada, graas ao protetor dental que usava. O trampolim deixava a pequena adolescente mais alta
que Doura que, com um par de luvas semelhante ao dela, movia-se lentamente em seu calo preto de barra franjada, com as palavras "A Besta de Bayonne" escritas
na lateral. Keely ergueu a cmara e tirou algumas fotos. Petra ergueu a luva na altura do rosto, lutando para tirar o protetor dental e ento riu para Candy.
- Ol, querida. Veio ver Petra ensinar a Doura como dar um cruzado de direita?
- Eu sei dar um cruzado de direita, Petra. S estou sendo gentil com voc - Doura afirmou.
-  claro que sabe - disse Petra, piscando para Keely. -  por isso que est zero a doze na contagem de pontos, certo?
- Mas Joey disse...
- Eu sei, eu sei. Joey lhe disse para beijar a lona. Bem, isso acabou, Doura. Pelo menos, enquanto eu estiver aqui.
Joey se levantou, segurando a srta. Piggy pela cabea e tocou a campainha furiosamente.
Chega de papo, sua falastrona. A vem o terceiro
Keely franziu o cenho para Jack.
- Ser que eu perdi alguma coisa?
-   que "Dois Olhos" ganha mais dinheiro quando Doura beija a lona. Ele chega at a escolher o round.
- Ah - Keely murmurou enquanto observava Petra recolocar o protetor e recomear a saltar no trampolim, movendo
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as mos enluvadas velozmente, sem fazer qualquer contato. - Acho que me lembro vagamente de algo sobre isso. Acho que no  ilegal em Bayonne.
Alguns golpes depois, Petra tirou novamente o protetor e cuspiu no cho.
- Ora, vamos l, Doura. Acerte-me. Voc est me fazendo danar desde que comeamos e ainda no me acertou nem um golpe.
- Eu no posso bater em voc, Petra - disse Doura, falando perfeitamente apesar do protetor. - Eu a quebraria no meio.
- Ah, ? - disparou Petra, pulando no trampolim, com a mo direita protegendo o rosto e o brao esquerdo meio recolhido, pronto para atacar. - Voc e mais quem?
Vamos l. Pelo menos, tente.
Doura olhou para Jack.
- Sr. T.? - insistiu Doura, parecendo perdido.
- Deixe ela acert-lo - sugeriu Keely, falando suavemente, pelo canto da boca. - Na verdade,  isso que ela quer. No que Petra esteja pensando em lutar boxe ou
algo assim. Mas no h-mulher no mundo que nunca tenha sentido vontade de dar um bom soco em algum. Alm disso, ela diz que o boxe  uma cincia. Vamos ver um pouco
dessa cincia.
Jack olhou-a por um momento. Ento, suspirou e fez um gesto para Doura se aproximar das cordas.
- Deixe-a bater em voc - disse ele, baixinho, enquanto Petra continuava saltando no trampolim, distribuindo socos no ar.
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Doura virou a cabea e olhou para Petra.
O senhor acha? - Jack olhou para Keely. Ela assentiu
jack assentiu para Doura.
Ela no pode machuc-lo, certo?
Os olhos de Doura ficaram subitamente nublados.
- Bem, eu acho que no.
- O que quer dizer com "acho" que no? - perguntou Jack. Mas, ento, Joey comeou a tocar a campainha da srta. piggy novamente e Doura se virou, aproximando-se
novamente de Petra.
- Est pronto agora? - perguntou Petra, tocando o nariz com a ponta da luva. - Agora, preste ateno, Doura, porque um verdadeiro cruzado  uma coisa belssima.
Mantenha as mos erguidas, proteja-se com os clinches e tudo o mais porque eu estou indo para cima, rapaz.
- Ah, quanto otimismo! - exclamou Keely, suspirando. - Ela provavelmente vai quebrar a mo nele.
- Pegue-o, Petra! - gritou tia Sadie para, em seguida, franzir o cenho. - Pegue-a, Doura! - acrescentou, sorrindo.
Joey olhou para o cronmetro e sacudiu a campainha mais uma vez, sinalizando o incio de um novo round.
Doura ergueu as mos e moveu o corpo, alternando os Ps. Petra tambm ergueu as mos, saltou no trampolim e, Sem parar de sacudir a cabea, examinou seu alvo. Ento,
Projetou o brao esquerdo para a frente e golpeou uma, duas, trs vezes.
- Ela  boa - Jack comentou com Keely, que observava com os olhos semicerrados. - Boa mesmo. A maioria
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das mulheres apenas tocaria o oponente, mas ela est golpeando.
- Lembre-me de pedir umas lies a ela - murmurou Keely. - O que voc quer dizer com "a maioria das mulheres"? Ser que  o mesmo que "mulheres no volante"? Porque,
se for, sabia que estou me sentindo insultada?
Jack olhou-a rapidamente.
- Desculpe. Mas ela deve ter estudado, a menos que seja uma f de boxe, o que eu duvido. Est vendo como ela movimenta as pernas?  a posio perfeita. E ela mantm
a direita erguida enquanto golpeia com a esquerda. Baixa um pouco o ombro, mas muitos principiantes fazem isso.
Keely olhou-o e observou-o analisando Petra.
- Eu no estou entendendo. Voc j lutou boxe? Jack sorriu.
- No. Eu brigava. Tim e eu. Lutvamos muito um com o outro. A, nosso pai comprou dois pares de luvas e nos ensinou o bsico. Ns achamos tudo timo, at descobrirmos
que as luvas eram to grandes e to acolchoadas, que no conseguamos nos machucar. Dvamos cerca de uns cinqenta socos um no outro e caamos no cho da sala exaustos
com o esforo de erguer aquelas luvas. Meu pai era um homem inteligente. Puxa! Eu acho que ele devia dar pelo menos um soco em vez de usar os braos apenas para
bloquear os golpes dela.
Keely voltou os olhos para o ringue enquanto Petra continuava a atacar e a se mexer... e a baixar o ombro antes de sacar a direita, exatamente como Jack havia dito.
- Isso  uma fnta? - sussurrou Keely.
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jack desviou os olhos do ringue e encarou-a.
- Uma fnta? Onde voc aprendeu essa? Mas, no. Finta  quando ela finge que vai golpear com a esquerda e da o atinge com a direita quando ele for se proteger da
esquerda, entendeu?
Ah, sim - Keely havia entendido. No imediatamente, mas em muito pouco tempo, porque cerca de dez segundos depois, ainda na tentativa de convencer Doura a dar-lhe
pelo menos um golpe, Petra deu uma demonstrao prtica, mirando na virilha do oponente.
Doura tentou se proteger, cobriu com a esquerda e Petra, reunindo toda a sua vontade e o impulso favorvel do trampolim, acertou um direto de direita no maxilar
de Doura, um pouco  frente da orelha.
Ele desabou como uma pedra.
Tudo aconteceu muito rpido. Em um momento, Doura estava l, com pelo menos setenta e cinco quilos a mais que Petra, quase meio metro maior que ela, excetuando,
evidentemente, a altura do trampolim, e no momento seguinte, seus joelhos viraram borracha e ele caiu, de rosto no cho.
- Ah, isso  deprimente - Petra disse, baixando os olhos Para Doura, que simplesmente jazia ali.
Ela saltou do trampolim e foi a primeira a chegar a Doura que, felizmente, voltara a se mexer e at a gemer. Ela ajudou-o a se sentar enquanto Jack e Keely entravam
no ringue. Sadie tambm entrou, ajoelhou-se ao lado de Doura e esfregou a esponja mida sobre a cabea dele.
- Ele est bem? - perguntou Keely, preocupada.
- Est, est - Joey falou, guardando o cronmetro no
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bolso. -  que o queixo dele  de cristal. E ele  um fracote um boboca. No quer bater em ningum.  por isso que ningum aposta nele. Todos sabem que vai perder.
Eu apenas digo a ele em qual round cair. A, ele gira para um lado, gra para o outro, ergue as mos e "bum"! Basta um golpe nesse queixo de cristal e ele cai. Esta
 a beleza da coisa.
Keely ficou observando Petra estreitar os olhos e corar fortemente.
- E, ento, Petra... - ela comeou a falar, pegando-a pelo brao; mas Petra foi mais rpida, levantou-se com um salto e partiu para cima de Joey.
- Voc no  de nada, seu idiota, imbecil, seu...
Mais tarde, olhando para Joey Dois Olhos, Keely concluiu que Petra havia estado certa. Se bem que, naquele momento, ele estava mais para Joey Um Olho. Enquanto isso,
Petra tentava atrair Candy para o cho do escritrio.
- Ela no quer vir comigo - disse ela a Jack, enquanto ele abria as caixas. - Acho que ficou com medo de mim depois do que eu fiz com Doura. Eu no acredito no
que fiz com ele. Eu no sabia, mas acho que sou pacifista. Antiviolncia, sabe?
- Na condio do homem que a contratou para cuidar de um beb, eu agradeo - disse Jack, sentando-se sobre os calcanhares para olh-la. - Ei, voc ficou mesmo aborrecida,
no ?
- Voc no teria ficado? - perguntou ela, pegando Candy no colo e ajudando-a a ficar em p em seu colo. -- Eu bati num homem e o derrubei. No estou orgulhosa disso.
- Eu sei que no, Petra. Acho que voc est orgulhosa do que fez com Joey.
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- Orgulhosa! - Ela meneou a cabea. - Estou ainda menos orgulhosa disso. Doura e eu estvamos lutando boxe... Eu bati em Joey Porque  odeio. Provavelmente, teria
batido de novo se ele no tivesse fugido, gritando feito um porco.
- Gritando como a srta. Piggy - corrigiu Jack, sorrindo.
AO v-lo, Petra finalmente relaxou e sorriu.
- Voc viu o olho dele? - perguntou ela. - Como ele vai se explicar a sra. Peters?
- Ah, eu no havia pensado nisso - admitiu Jack, desembalando um alto-falante. - Aposto que nem ele. Mas tudo bem, porque estou pensando em mencionar o fato amanh
de manh, sugerir que talvez seja melhor ele voltar para Bayonne e ficar longe da vista da sra. Peters at o inchao diminuir.
Petra sorriu ainda mais.
- Nesse caso, voc quer que eu bata no outro olho? Ser que ele vai engolir?
- Talvez. Especialmente depois que eu disser que a sra. Peters vai querer saber como ele se machucou e que eu vou ter que contar que minha baby-sitter bateu nele.
Joey  muito Macho e no vai querer que ningum saiba da verdade. Quando chegar a Bayonne, vai dizer que ficou de olho roxo lutando com trs membros de uma famlia
rival da Mfia e "que eles ficaram em muito pior estado.
Isso  lamentvel - Petra afirmou. - Voc no acha que talvez ele seja doente? Que talvez precise de ajuda psiquitrica? No que eu goste dele, ou que lamente, porque
eu o. Mas... bem, voc tem de admitir: sua famlia  perturbada.
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Jack tirou mais um alto-falante da caixa e colocou-o no cho.
- Fale-me sobre isso. Minha me sempre disse que meu pai era o nico membro normal da famlia Trehan. No que a tia Sadie no seja normal. Prefiro uma senhora feliz
como ela a uma chata que s sabe falar em artrite. Ela apenas . Bem,  ela mesma, uma mulher em uma misso de autodescoberta.
- A Florence, a irm dela, era como ela?
- Tia Fl? No. Ela tambm era bem normal, eu acho, a no ser por ter se apaixonado pelo tio Guido. Isso no foi normal. Tio Guido era... - Ele procurou a palavra
certa. - Bem, ele era obsessivo. Bastava voc mostrar a ele um terno novo e ele lhe dizia como lav-lo. Uma vez, ele fez meu pai tirar a camisa para ele passar,
porque disse que havia uma prega no colarinho. Isso no teria sido to grave, se no tivesse acontecido no meio do jantar de Natal, na casa de minha av. Ele provavelmente
borrifava frmulas de lavagem a seco na orelha da tia Fl enquanto... - Jack sorriu. - Deixe para l.
Petra segurou as mozinhas de Candy enquanto ela balanava o corpinho em seu colo.
- E como a me de Candy e Joey ficaram to esquisitos. E no me diga que eles so normais, porque eu j ouvi falar muito de Cecily e conheo Joey.
Jack deu de ombros.
- Dinheiro? - sugeriu. Petra lanou-lhe um olhar desconfiado e ele prosseguiu: - Foi mesmo dinheiro. Eles tinham dezessete e dezoito anos quando a tia Fl e o tio'
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Guido morreram, deixando um monte de dinheiro. Havia vrios fundos de renda, mas s a retirada mensal inicial j foi suficiente para deixar os dois doidos. E depois,
quando eles fizeram vinte e um anos, receberam um cheque de trs milhes de dlares, cada um. No  pouco dinheiro, Petra. Eles ficaram loucos, os dois. Cecily,
com homens, drogas por algum tempo e, agora, com a busca incessante de si mesma. Joey? Como ele s queria que as pessoas tivessem medo dele, decidiu entrar para
a Mfia. S que no conseguiu.
- E seu irmo, Tim? Ele tambm  um Trehan doido ou vocs dois escaparam? Quero dizer, vocs dois tm muito dinheiro, no ?
Jack se sentou na beirada do sof e pensou na pergunta de Petra.
- Certo. Mas ns tnhamos mame e papai, pelo menos no comeo, e tivemos vrios anos de criao slida, que nos ajudaram a manter a sanidade. Cecily e Joey podiam
bancar os doidos desde a infncia.  por isso... que Candy vai ficar comigo - concluiu ele, batendo com as duas mos nos joelhos.
- P. P-p-p-p.
Jack sorriu e baixou os olhos para Candy. Mas a menina no estava olhando para ele. Estava falando com Petra. Chamando Petra de p-p.
- Ela chamou voc de p-p - disse ele, s percebendo a besteira, depois que as palavras j haviam deixado a sua boca. - Sou "eu" quem ela chama de p-p.
- Claro que  - respondeu Petra, beijando o narizinho de Candy. - Ela chama voc de p-p e tambm chama a
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mim, ao ursinho de pelcia e a chupeta da mesma forma. - Ela olhou para Jack, que estava se sentindo um pouco oco por dentro. - P-p  o som mais fcil para um
beb dizer. Basta ela bater a lngua no topo da boca.
- P-p-p - repetiu Candy, aninhando-se no colo de Petra.
- Agora, m-m. Essa  mais difcil-prosseguiu Petra, racional. -  por isso que as crianas dizem p-p primeiro. Mas as mes no devem ficar com cime, porque
assim que elas aprendem a dizer m-m, nunca mais param: quando esto com fome, cansadas, entediadas, o que for. - Petra beijou os dedinhos de Candy. - Pelo menos,
 o que dizem os livros.
- Ento, ela no estava me chamando de p-p? - perguntou Jack, srio.
- No - respondeu Petra, s ento percebendo seu erro. - Oh, no... Voc ficou arrasado, no ?
- No, no - Jack respondeu depressa, voltando para as caixas. - De jeito nenhum. Mas, me diga, Petra: sua genialidade inclui a ligao de caixas de som? Porque
eu no fao a menor idia de como ligar isso tudo.
- Ah, eletrnica! - ela exclamou levantando-se e entregando Candy a Jack. - Voc est com sorte.  mais uma rea de especializao de Petra Polinski. Deixe-me encontrar
o manual de instrues, certo? No que eu precise dele, se bem que posso impression-lo lendo as verses em francs ou em japons. E... muito obrigada. Sinto-me
melhor por ter batido em Joey, agora que soube que ele  mesmo um idiota e que mereceu.
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- De nada - disse Jack, aninhando Candy nos braos. Ento, deu as costas a Petra e disse: - Papai ama Candy.
- P-p-p - balbuciou Candy.
Ela sabe, disse Jack a si mesmo, com o corao repleto de emoo. No queria saber o que aqueles livros idiotas diziam. Ela conhecia o pai.
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Captulo XV

Cometemos muitos erros "errados".
Yogi Berra
porcaria! - Keely olhou para o prato quebrado no cho da cozinha. No dia anterior, um copo. Naquela manh, a tampa do aucareiro e agora um dos pratos de almoo.
- Bem, agora so trs, querida - tia Sadie confirmou, penalizada, sentando-se  mesa da cozinha e tomando ch com biscoitos, enquanto Keely jogava o prato fora.
- A m sorte sempre vem de trs em trs. Agora, voc est livre. A menos que quebre um quarto. Nesse caso, quebrar um quinto e um sexto... - Ela franziu o cenho.
- Talvez seja me' lhor se sentar, sem tocar em mais nada.
- Talvez - concordou Keely, fechando a porta da lavadora com o p. Ento, pegou uma lata de refrigerante na geladeira e sentou-se diante de Sadie.
-  to irritante, tia Sadie. Ser que ela vai aparecer
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hoje? Quando vir? Ser que vai verificar a fralda de Candy para ver se est muito cheia, ou me fazer recitar os horrios dela- ou simplesmente levar Candy embora
daqui porque sabe a verdade... - Ela se inclinou para a frente e sussurrou o resto, como se temesse ser ouvida. - ...que'estamos mentindo para ela.
.- Estamos falando em Edith Peters, no ? - perguntou a tia Sadie. - Dela e de seu noivado de mentira com o idiota de meu sobrinho.
Keely recostou-se na cadeira e olhou para Sadie.
- Idiota? O idiota  Dois Olhos, tia Sadie, lembra?
A velha senhora deu de ombros.
- Bem, esse tem um dom. Ns sempre soubemos de Joey, mas devo dizer que foi uma surpresa quando Jack comeou a dar sinais de idiotice.
- Por ter pego Candy?
- No, querida. - Tia Sadie deu palmadinhas na mo de Keely. - Por no dizer que a ama e dar uma paradinha em Las Vegas ou outro lugar assim para um casamento rpido
antes de vocs voltarem do Arizona.  claro que quando vocs voltaram em avies separados, eu achei que seria Pouco provvel. E voc nunca contou o que aconteceu
no Arizona! Ah, tenho certeza de que foi tudo culpa de Jack, sempre  culpa do homem, mas o que aconteceu?
- Coisas demais - disse Keely, evitando os olhos de Sadie que provavelmente j tirara as prprias concluses.
E Voc est enganada. Jack no me ama. Ele ama Candy. Deve mesmo amar. Eu o enlouqueo. Pergunte-lhe e ele
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vai lhe dizer. Eu sou mandona, sou organizada demais e estou gastando todo o dinheiro dele.
Sadie ficou com um biscoito suspenso no ar.
- Minha querida, voc no teria como gastar todo o dinheiro dele. Ele assinou um contrato de seis milhes de dlares assim que saiu da faculdade e o contrato que
assinou h cinco anos foi to "obsceno", que transformou o contrato de seis milhes em troco. Ele tem o apartamento de Nova York, esta casa, dirige um belo carro,
mas no passa disso. Ele sempre viveu dentro do oramento. Mort e eu cuidamos de todo o resto.
Keely arregalou os olhos. Tia Sadie controlava o dinheiro de Jack?
- Como? Voc? Voc e Mort? Por favor, diga que  brincadeira?
Sadie afofou os cachos prateados e ergueu o queixo.
- Jack no lhe contou? Ah, sim, eu me encarrego de tudo e Mort cumpre minhas ordens. Eu cuido do dinheiro de Jack e do de Timothy tambm. Sempre cuidei. Jack no
lhe disse que eu trabalhei trinta anos como consultora financeira em um banco local? No que ainda haja muitos bancos locais. Deus, nos ltimos dez anos em que trabalhei
l, acho que fomos comprados umas trs vezes. Eu passei a atender o telefone dizendo apenas meu nome, porque no conseguia mais me lembrar do nome do banco. De qualquer
forma, eu no fui sempre o que sou hoje. Ah, no... Eu usava tailleurs azul-marinho, blusas brancas, sapatos confortveis e cheguei  vice-presidncia antes de olhar
em volta, ver a vida passando por mim, me aposentar e comprar meu pequeno
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carro conversvel - disse ela, rindo. - Quando finalmente deixei a loucura dos Trehan tomar conta, nunca fui to feliz. Voc no deve saber disso, mas  maravilhoso
viver sem rdeas.
Keely, que havia comeado a menear a cabea no meio do monlogo de Sadie, disse:
- Eu no acredito. No que no a ache competente, tia Sadie... Mas Jack havia me dito que era Mort quem cuidava do dinheiro.
- Mort cuida, e bastante bem, do "ganho" de dinheiro - corrigiu tia Sadie. - Eu cuido da aplicao. Aes, ttulos, algumas propriedades. Estas terras, esta casa?
Comprei o terreno para Jack h quatro anos. Esse terreno e mais quinhentos acres. Paguei uma misria por acre, e a esta rea se tornou o que  hoje: o mximo.
Ela sorriu e meneou a cabea.
- Voc no imagina as fortunas que os vizinhos tm oferecido por lotes de trezentos acres nesses ltimos anos. A loja de donuts da esquina, no final da rua? Est
nas terras de Jack. O shopping center inteiro  dele. J Timothy, se interessa mais por negcios nos quais possa brincar, como um salo de boliche, um campo de golfe
e... bem, voc j entendeu, no , querida? Nesse momento, eu estou negociando Para colocar os dois num negcio de franquia de revenda de carros.
Keely engoliu em seco, tentando se recompor.
 - Voc cuida do dinheiro deles - repetiu novamente. - Por que ele no me disse? Ele me deixou pensar... me
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deixou achando que... Ah, tem horas em que eu gostaria de mat-lo!
- Eu sei - concordou Sadie, servindo-se de mais um biscoito. -  por isso que eu nunca me casei. Eu teria matado o coitado em uma semana, mesmo que ele fosse a cara
do tom Cruise. Bem, talvez no. Eu no sou burra.
Keely sorriu.
- Mas eu sou. Sinto-me uma idiota - disse, girando a lata nas mos. - Por que Jack age como se no tivesse nem um neurnio no crebro? Ele me deixa pensar que no
sabe nem quanto dinheiro tem.
Sadie bebeu um gole de ch e olhou-a.
- Bem, querida, eu no creio que ele saiba. Provavelmente nem na casa das metades de milhes porque os investimentos dele so muito diversificados e eu s lhe dou
dois relatrios por ano. Mas no se preocupe com isso. Jack se graduou com mrito em Administrao e se especializou na rea de Comunicao. Ele apenas quer que
sua velha tia se sinta til.
Keely apoiou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo na mo.
- Eu poderia mat-lo. Jack, o idiota, graduado com mrito?
- Timothy tambm - tia Sadie contou, orgulhosa. - E se quiser, Tim banca o bobo como ningum. Ns somos uma famlia estranha.
Keely estava irritada, mas intrigada. Confusa, mas intrigada.
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- E quanto a Joey e Cecily? Eles tambm s bancam os bobos?
Tia Sadie engasgou com o ch e protegeu a boca com o guardanapo.
- Joey e Cecily? Coitadinhos deles! Eles at que tinham potencial, e eu tinha esperanas em Cecily, at ela fugir aos quinze anos com um motociclista mau-carter,
abandonar a escola aos dezesseis e passar por uma clnica de desintoxicao. Participou de um grande roubo de carro aos dezessete. Mais tarde, no mesmo ano, foi
presa consumindo drogas pesadas. Acho que o crebro dela ficou permanentemente lesado, coitadinha.
Ela meneou a cabea.
- Quanto a Joey... Bem, voc o viu. Na infncia, ele achava que era um personagem de histria em quadrinhos, Speed Racer, acho, o at que era uma boa coisa. Ele
passava horas correndo em crculos pela sala de jantar, segurando um prato de papel na frente do corpo, fingindo que era uma direo. Depois, ele foi Luke Skywalker.
E essa fase durou um bom tempo e no foi to boa coisa. Agora, ele  um mafioso ou pelo menos se veste como se fosse. Eu acho que a culpa  de Fl, que Deus a tenha.
Ela deu tudo a eles, roupas, carros, dinheiro, e no pediu nada em troca. E, infelizmente, foi nada o que conseguiu.
- Jack est determinado a no devolver Candy a Cecily, Sadie. Imagino que Jimmy, o advogado, v expor o passado dela no tribunal...
-- Eu no sei, Keely. Lembre-se de que Cecily era menor de idade, de forma que talvez no haja acesso a esses prcessos.
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Ela mudou de rumo, tanto quanto possvel, e agora est na fase da comida natural e dos gurus. No come carne vermelha e nem sonha em cheirar nada. S toro para
que ela perceba sozinha que no pode ser uma me normal. S gostaria que minha irm tambm tivesse percebido isso. Acho que foi por isso que nunca tive filhos, por
medo de que, como gmea de Fl, eu fracassasse como ela. Nada de casamentos, nem de filhos. Eu provavelmente tambm teria sido uma pssima me. Fl no reclamava,
mas Guido e eu s tnhamos olhos para o banco. Eu, pelo menos, vivi por tempo suficiente para perceber meu erro e aproveitar a vida. Keely se inclinou e apertou
a mo da tia Sadie.
- Voc sabe que Jack a adora - falou, engolindo as lgrimas. - E eu tambm.
Sadie cobriu a mo de Keely com a sua.
- Obrigada, querida. Espero que voc tenha aprendido alguma coisa.
Keely olhou-a, confusa.
- Agarre-se  vida, Keely. Agarre-a com as duas mos. No se limite a um nico sonho, a uma s possibilidade. Por muito tempo, Jack teve um sonho. Agora, ele est
descobrindo outros. E quanto a voc? Ainda acha que apenas um sonho a far feliz?
Keely recostou-se na cadeira.
- Voltar para Manhattan, abrir outra loja - disse ela, suspirando. -  isso que est dizendo, tia Sadie?
- Jack acha que isso  tudo o que voc quer da vida- alm de enlouquec-lo, claro - tia Sadie comentou, com um sorrisinho.
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. Ele disse que, se eu aceitar dar continuidade ao falso noivado at ele conseguir a custdia, que financiar minha loja - contou ela, baixinho.
- . Eu bem posso acreditar. E imagino que ele quase morreu para dizer isso. Mas ele deu uma segunda chance a seu sonho. Ele abriu mo daquela oferta do time japons
porque finalmente percebeu isso. Agora, voc recebeu uma segunda chance de retomar sua carreira. Jack ofereceu-a. Voc entende agora que, como ele teve esta chance,
tambm decidiu d-la a voc, mesmo que no tenha conscincia disso? A questo : o que voc vai fazer com essa segunda chance, Keely?
- Eu no sei - respondeu ela, honestamente. - No sei mesmo.
- Isso tambm  bvio - disse tia Sadie, levando o prato e a xcara para a pia. - E enquanto isso, com tudo o que aconteceu aqui, acho que vou assumir a carga da
mquina de lavar, est bem? Talvez voc queira procurar Jack e conversar com ele.
- Mas eu tirei a roupa de todas as camas e ainda no as forrei - protestou Keely, sentindo um pnico familiar instalar-se. - O pessoal da faxina s vem daqui a dois
dias e eu deixei o aspirador de p no meio da sala. Alm disso, a fralda de Candy est quase transbordando e Joey derramou suco de laranja no cho nesta manh e
ainda est tudo grudando e precisando ser lavado. E se a sra. Peters aparecer?
-- Eu darei um esfrego a ela. - Sadie deu de ombros. - Edith quer ver como vocs so como famlia, no se voc vai ser eleita a rainha do lar. Jack est na piscina,
Keely. Ponha seu mai e v encontr-lo. Converse com ele honestamente.
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 Tentem conhecer-se melhor. Resolvam, pelo menos, os problemas de vocs.
Keely olhou para a piscina e para os poucos pratos sujos que ainda havia no balco. Ento, sorriu, sentindo uma maravilhosa sensao de plenitude no peito. Num impulso,
foi at a tia Sadie e beijou-a no rosto.
- Voc est errada, tia Sadie - disse. - Voc teria sido uma me excepcional.
Jack imaginou quantos metros teria que nadar para sua mente ficar anestesiada e ele parar de pensar em Keely. De v-la todas as vezes que fechava os olhos, de querer
abrala, beij-la e de fazer amor com ela longa e lentamente.
Ento, deu um impulso na borda e comeou mais um trecho, com os braos e as pernas se movendo mecanicamente e o crebro girando, girando.
O que havia acontecido naquele quarto de motel no Arizona, mais o que acontecera antes e depois, sempre ficaria entre suas melhores e piores lembranas.
Havia passado horas olhando para Keely, sob as ordens do diretor, e quanto mais a olhara, mais tivera vontade de fugir com ela dali e mais atrapalhado fora ficando.
Fugir... fugir... fugir... sair dali. Lev-la embora. Lev-la a lugares onde nenhum dos dois havia estado.
S os dois. Sem Candy. Por mais que a amasse. Sem Sadie, Joey ou Petra. Sem ningum. Sem beisebol, sem lojas em Manhattan, sem batalhas por custdia.
S ela... apenas ela.
E quando finalmente ficara a ss com ela, simplesmente
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no conseguira solt-la. Como um selvagem, como um homem que no havia estado com uma mulher por uns doze longos anos. Como um homem que no acreditava que ela ficasse,
se tivesse a chance de partir.
O problema havia sido a presso. A batalha pela custdia, o falso noivado, um beb que os dois adoravam. E a proximidade. Fora assim que Keely chamara: proximidade.
Besteira. Fora assim que ele chamara.
Ela o deixava louco. Era implicante, perfeccionista, metida e mandona. Uma sabe-tudo que, apesar disso, morria de medo de cometer um erro. Detalhista. Talhada para
o sucesso. E tinha uma boca...
Mais uma volta na piscina. Talvez, com mais uma volta, seu crebro parasse de funcionar.
Jack era louco por ela. Completamente.
A forma como ela olhava para Candy, a forma como transformara aquela casa vazia em um lar, uma casa que voltaria a ficar vazia se ela partisse, independentemente
da quantidade de mveis, cortinas e tudo o mais que ela deixasse para trs. A forma como ela havia assumido sua vida, metendo-se em tudo, porque se importava. Ela
no era apenas metida ou mandona. Ela se preocupava com ele.
E ela sabia. Sabia o que era fracassar ou perder. Eles tinham isso em comum. S que Jack finalmente aceitara que sua carreira no beisebol estava encerrada e Keely
no aceitava o mesmo sobre sua carreira em Manhattan. Ela queria, Precisava, tentar de novo.
Por isso, ele a mandaria embora quando aquilo terminasse. Engoliria tudo, ficaria de boca fechada e a mandaria embora. Ento, financiaria a volta dela a Manhattan
para que
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ela pudesse esfregar seu sucesso na cara do tal de Gregory. Ser que isso a faria feliz?
Jack no sabia. Receber a oferta do time japons no o deixara feliz. Ele pensara saber o que queria, at o momento em que recebera a oferta. Agora, ofereceria uma
segunda chance a Keely. Ser que ela aceitaria?
E o que ele faria se ela aceitasse?
Ofegante, Jack olhou para a borda oposta da piscina, sentindo uma sombra se mover em sua direo. Keely? Poderia ser ela? Ele ergueu os olhos, protegendo-os com
a mo e, enquanto sorria, perguntou:
- Joey? Quando voc voltou?
- Qual  seu problema? - O primo recuou um passo. - Voc est me controlando, Jack? Por acaso grampeou meu quarto? Voc faria isso, no  mesmo?
- Ah, j vi que est paranico hoje. Voc traz sempre uma novidade, Joey - disse Jack, saindo da piscina e olhando para o primo. - Est bonito. Esse estilo o favorece.
Joey estava usando um agasalho preto incrvel principalmente porque o cobria por inteiro. Estava usando culos escuros imensos, que cobriam o que restara do hematoma
e os tornozelos e pernas estavam cobertos por um par de meias pretas e por tnis, igualmente pretos. Um verdadeiro modelo masculino para a revista de aberraes
de Bayonne.
Joey tocou na ponta da toalha que pendia de seus ombros quase inexistentes e olhou para Jack.
- Quero ver voc rir quando eu mostrar a sra. Peters o que consegui. Eu tenho papis, Jack. Isso mesmo. Documentos!
Jack olhou para o volume do agasalho.
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- Todo mundo j est vendo o que voc conseguiu, Joey. No quero desanim-lo, mas no  to impressionante assim.
- Ora, voc...
Mas Jack no estava ouvindo porque naquele momento avistou Keely se aproximando da rea cercada da piscina. Estava usando aquele mesmo mai estonteante da outra
vez e, nada mais. A imaginao levou-o para a primeira vez em que a vira daquele jeito, mas agora ele sabia. Por baixo do mai estava a perfeio. E ele tocara,
provara, amara aquela perfeio.
No era de impressionar que estivesse enlouquecendo.
- Depois, Joey - disse ele, passando pelo primo para encontrar com Keely, que se aproximava da piscina. - Ol. Voc vai dar um mergulho?
- Na verdade, estou esperando um nibus - ela devolveu, sem sorrir. - Podemos conversar?
- Aqui? - Jack virou-se, olhou para Joey que se aproximava com um gravador do tamanho da palma de sua mo. - Joey? O que diabos?
- O meu advogado me disse para gravar tudo... Eu disse a ele que voc era podre e ele quer que todos saibam. Assim, vamos l. Fale, Jack. Diga a essa moa que voc
est tentando roubar minha amada sobrinha de mim.
- Jack?
Ele passou o brao pela cintura de Keely e apertou-a de leve.
Sabe, Keely,  que Joey acaba de entrar na parte paranica do programa. Suma daqui, Joey, antes que eu o transforme numpretzel e depois o afogue.
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Joey comeou a danar feito uma criana, segurando o gravador.
- Ah! Consegui! Eu gravei tudo! Tendncias violentas. Ns vamos acabar com voc, Jack. Acabar!
Jack avanou, ps a mo no peito do primo e empurrou-o at derrub-lo na piscina. Ento, ficou observando Joey afundar e subir  superfcie para ento agarrar-se
 borda, sem gravador, com os culos caindo do rosto.
- Abracadabra, Dois Olhos! - Ento, pegou Keely pelo brao e afastou-se com ela da piscina.
- Isso no foi legal! - exclamou Keely, rindo. - Ser que a gua estragou o gravadorzinho dele?
- E, se tivermos sorte, os tnis tambm - disse Jack, pegando uma toalha no caminho. - Eu no pretendo tir-la daqui, se voc est mesmo querendo dar um mergulho,
mas acho melhor esvaziar e limpar a piscina antes que outra pessoa volte a us-la.
- Ah, isso no foi nada legal - disse Keely. - Quando ele voltou?
- Agora h pouco... com documentos, ou qualquer coisa do gnero. S sei que ele est feliz demais para me deixar feliz - Ele continuou andando e ento parou, mortificado.
- Ser que, de alguma forma, ele deu um jeito de entrar em contatu com Cecily e conseguiu faz-la mandar um fax, concedendo-lhe a custdia?
- Oh, no... - Keely segurou-o pelo brao. - Eu no sei. Ser?
Jack levou as mos s tmporas, tentando no entrar em pnico.
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- Eu tambm no sei. Como o pessoal de Jimmy encontrou-a, talvez o pessoal de Joey tambm tenha encontrado. Maldita Cecily! Ela provavelmente disse sim s duas partes.
Ela odeia escndalos.
- Jack, pare. Voc est exagerando.  Joey, lembra? Tia Sadie disse que ele no banca o idiota, ele "" idiota. Como um idiota contrataria um advogado inteligente?
Jack voltou os olhos para a piscina e viu Joey sentado na borda de cimento, espremendo os tnis.
- Bem pensado - falou, tentando controlar-se. -- Vamos. Venha comigo. Eu no vou deixar isso me enlouquecer.
Jack pegou-a pela mo e voltou com ela para a piscina.
- Joey, que tipo de documentos voc tem?
- Ora! - exclamou ele, tentando, sem sucesso, tirar uma das meias. - Isso voc vai ter de descobrir.
Jack colocou-se bem na frente do primo e encarou-o com firmeza.
- Voc quer dar mais um mergulho? Eu posso providenciar. S que, dessa vez, talvez eu amarre uma pedra em seu pescoo antes. Depois de faz-lo engolir seu gravador.
- So papis, est bem?! - exclamou Joey, recuando de quatro, como um caranguejo assustado. - Eu tenho papis.
- Que tipo de papis? - perguntou Jack, sem deixar de encar-lo.
-- Voc  surdo? Papis, ora!
-- com licena - disse Keely, tocando Jack no ombro, Pedindo-o para se afastar um pouco. - Voc no est fazendo direito.
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Jack estremeceu. Ele amava Keely. De verdade. Muito. Mas ela era muito mandona. Uma verdadeira sabe-tudo.
- Ah, e devo imaginar que voc possa fazer melhor? Joey olhou para Jack e estremeceu. Ento, olhou para Keely e suspirou.
- Certamente - disse ela, sria. - E sem amea-lo. Vocs no so mais crianas, mesmo que ajam como se fossem - Ento, ela se sentou com as pernas cruzadas no gramado
ao lado da rea de cimento e ajudou Joey a tirar as meias.-- Pronto. Assim est melhor. Agora, quais so esses papis, Joey? Voc pode me contar? Tem algum papel
de Cecily?
Joey ergueu os olhos para Jack mais uma vez e meneou a cabea.
- Cecily? No. Ningum nem sabe onde ela est. Tenho outros papis. Papis que mostram o cidado correto que eu sou, entendeu?
Jack meio riu, meio tossiu, e Keely deu-lhe um cutuco na canela.
- Que interessante, Joey - prosseguiu. - Ento, voc est falando de cartas de recomendao, no ? Cartas de amigos, talvez do prefeito de Bayonne? Do pastor local?
Pessoas que atestam seu carter?
- No - disse ele, meneando a cabea. - Tentei fazer o monsenhor Rafelli escrever uma carta de recomendao, mas ele disse que, antes de me ajudar, eu preciso voltar
a freqentar a igreja.
- Monsenhor Rafelli? - interrompeu Jack, rindo novamente. - Acho que estou me lembrando de uma coisa. Um
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momento muito "Joey''. Do tempo em que voc era coroinha, lembra? No foi o monsenhor Rafelli que saiu correndo atrs de voc at em casa, depois de voc ter bebido
a gua benta?
- Era julho, estava quente, eu estava com sede - desafiou Joey. - Qualquer um teria feito isso. At porque, eu nem sabia que ela j tinha sido benta.
- Se bem me lembro, tia Fl ligou para minha me, morrendo de chorar, dizendo que voc iria para o inferno - disse Jack, recordando os bons e velhos tempos, na poca
em que Joey era apenas engraado e no pattico.
- Ser... ser que podemos voltar aos papis? - pediu Keely, com a voz ligeiramente aguda. - Joey?
- No sei mais se quero dizer a vocs de quem so - disse ele, fazendo bico enquanto espremia as meias.
- Por favor... - pediu Keely, inclinando-se e tocando o brao de Joey.
- Bem, est bem - disse Joey, sacudindo os ombros magros. - Estou com minha certido de nascimento, claro. Para provar que estou legalmente no pas. Tem muita gente
que acha que eu sou siciliano.
- claro - concordou Keely. E Jack viu os ombros dela comearem a tremer, enquanto ela tentava manter a comPostura. - O que mais?
- O advogado disse que eu devia conseguir qualquer coisa que me mostrasse... como foi que ele disse?... sob uma luz positiva. A, eu pedi ao tio Sal para escrever
uma carta dizendo que eu sou seu sobrinho favorito. Ele  um dos homens
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mais ricos de Bayonne e uma carta dele vale muito. Arrumei outras cartas, de Marco, o quitandeiro da esquina, porque desde que ele me pegou roubando, h alguns anos,
eu nunca mais roubei nada l. Uma de meu terapeuta. Um ou dois trofus de futebol, para mostrar que eu sou um homem verstil. Ah, e o atestado de freqncia que
eu ganhei no terceiro ano.
Durante a exposio de Joey, Jack havia levado as duas mos ao rosto para no explodir. Keely resistiu mais tempo, controlando o acesso de riso que a fez rolar pelo
gramado at Joey terminar de falar sobre o atestado de freqncia.
Jack desabou ao lado dela, o alvio deixando-o fraco, o riso substituindo o medo de que Cecily tivesse dado a custdia a Joey. Keely segurou-o, rindo, tentando respirar,
ele segurou-a e os dois rolaram na grama, com pernas e braos entrelaados, ignorando Joey que, a essa altura, estava de p, ameaando-os dos piores pesadelos.
E, ento, Joey disse outra coisa. Ele disse:
- Pronto! A vem a sra. Peters e vocs dois esto a, rolando na grama onde todos podem ver. Eu vou dizer a ela que voc tentou me afogar.
- Ah, pelo amor de Deus! - Keely murmurou, afastando-se de Jack, ao mesmo tempo que tentava se levantar e arrumar o mai. - Sra. Peters! - exclamou, disparando para
casa enquanto Jack, que tambm se levantara, bloqueava a passagem de Joey. - Que prazer em v-la novamente.
Jack uniu-se s duas mulheres no momento em que chegaram  casa, com a toalha em volta da cintura, deixando-o ligeiramente mais apresentvel.
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- Ah, sim - disse Keely, tentando arrumar os cabelos soltos. Jack teve que se controlar para no tirar vrios fiapos de grama que haviam ficado presos nos cachos.
- Temos vrias babs eletrnicas. Comeamos com apenas uma, a que est no escritrio, que tem at um monitor de televiso, para podermos ver Candy dormindo. Mas
eu voltei  loja... quero dizer, "ns" voltamos  loja e compramos mais. A base fica no quarto de Candy e o receptor no tem fio, de forma que podemos lev-lo para
a piscina ou para qualquer outro ponto da casa, para monitorar Candy de onde quer que seja, enquanto ela dorme.
- Ento, o monitor est na piscina? - perguntou a sra. Peters, com a caneta aberta sobre um grande mao de papel, preso em uma prancheta. Evidentemente, a visita-surpresa
daquele dia ia ser mais aprofundada que a primeira.
- ... bem... Keely?
- Bem... eu... no - disse Keely, ainda tentando fingir que seu mai era um quimono que a cobria por inteiro. - No... no foi preciso porque Petra est de olho
nela nesse exato momento. Ela e Do... ela e Bruno, um funcionrio do primo do sr. Trehan. Alis, eles esto brincando com ela no quarto. Eu... eu verifiquei um pouco
antes de sair para nadar.
- Voc est bem arranhada para um mergulho - disse a sra. Peters, anotando algo em seus papis. - s vezes, srta. McBride, fico com a sensao de que vivi minha
juventude em outro planeta. Muito bem, ento, vamos subir e ver Candy.
- Ela no est sendo gentil como foi da primeira vez - sussurrou Keely com o canto da boca, quando a sra. Peters
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adiantou-se para a escada dos fundos. - Estaremos com a senhora em um minuto, sra. Peters - acrescentou ela, mais alto. - Eu s preciso perguntar uma coisa ao sr.
Trehan, a Jack.
- Certo. Jack. No seja to formal, nem se preocupe tanto - sussurrou Jack, enquanto caminhavam para a escada, - Agora que sabemos que Joey est dando tiros no escuro,
s precisamos conseguir aquele documento de Cecily e estaremos salvos.
- No, se ela achar que somos dois manacos sexuais, que mal conseguem prestar ateno em Candy - argumentou Keely. - O que ela deve pensar de mim?
- Que no consegue tirar as mos de mim? - perguntou Jack, esquivando-se rapidamente para fugir do golpe que Keely certamente lhe daria.
Mas ela j estava distrada, com os olhos voltados para a cozinha e para dentro do escritrio.
- Onde est tia Sadie? Os pratos sumiram, de forma que ela deve ter feito isso antes de sair. Mas eu no a vi voltar para o apartamento. Ser que ela est l em
cima, trocando as roupas de cama? Quero que ela fique perto de ns, enquanto a sra. Peters estiver aqui. Elas se gostam.
Keely estava falando depressa, ofegante, de forma que Jack segurou-a pelos ombros e sacudiu-a de leve.
- Quer se acalmar, por favor? Relaxe, Keely.
- No consigo. Isso  importante demais. Jack beijou-a no alto da cabea.
- Obrigado. Obrigado por achar que  importante e por se importar.
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O corpo dela estava quente, aquecido pelo sol e muito pouco vestido. Jack sentiu as pernas dela contra suas prprias pernas nuas. Podia abraar aquelas costas igualmente
nuas.
- Keely? - disse ele, afastando-a ligeiramente. - Ah, Keely... - sussurrou, puxando-a novamente para si e beijando-a nos lbios.
Ele quase conseguiu.
- Jack! Jack, Keely, venham aqui um minuto - gritou a tia. - Edith desmaiou!
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Captulo XVI

Aprende-se um pouco com a vitria; mas muito com uma derrota.
Christy Mathewson, lanador
Keely sabia que ela e Jack estavam protagonizando uma cena pattica, enquanto tentavam subir os degraus, um na frente do outro.
Quando finalmente chegaram ao corredor que conduzia ao quarto de Candy, estavam suados e ofegantes. Keely olhou para Jack, que a olhou de volta.
- Voc primeiro - disseram, em unssono.
Tia Sadie decidiu por eles, enfiando a cabea na porta, com ar afogueado.
- No sei por que ela ficou to aborrecida.  apenas temporrio.
- O que  apenas temporrio? - perguntou Jack a Keely  entrando no quarto.
A primeira coisa que viu foi Edith Peters desabada na
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cadeira de balano, parecendo uma boneca de pano. A segunda coisa que viu foi Candy. E quase se uniu a Edith no desmaio. S que estava brava demais para desmaiar.
- Eu sei o que  isso - disse ela, avanando para Petra e Doura, que estavam sentados com Candy, sobre um lenol estendido no cho. - Vocs acharam a caixa, no
?
- Esta? - perguntou Petra, erguendo a caixa de Lembranas do Beb que Keely havia comprado apenas para provocar Jack e depois enfiado no closet e esquecido.
- O que...
- Eles esto tirando o molde dos ps de Candy - disse Keely enquanto Candy, contente, riu e ergueu os bracinhos para Jack.
-  por isso que esto todos meio verdes? Essa coisa sai?
- Se no sair, eles vo se ver comigo - disse Keely por entre os dentes, olhando para Candy. Os pezinhos e tornozelos da menina estavam imersos em uma estranha massa
verde, que parecia estar endurecendo rapidamente.
- Ah, ser que vocs podem relaxar? - pediu Petra, revirando os olhos. - Esse negcio vira uma espcie de borracha macia em questo de minutos. A, a gente tira,
joga gesso dentro e pronto: teremos os pezinhos de Candy preservados para a posteridade. Doura, mostre suas mos a eles.
- No. Deixe para l - disse o gigante, meneando a Cabea.
- Ah, vamos l - insistiu Petra. - Ele est meio preocupado
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porque ns erramos um pouco quando testamos o molde nele. Acho que no deixamos endurecer bem e tentamos desenformar rpido demais. Mas ns vamos tirar tudo, no
, Doura? Vamos l. Mostre a eles.
Doura suspirou e, relutante, tirou as mos de trs das costas e estendeu-as para Jack e Keely. Parecia que ele havia sido mergulhado em cido e estava derretendo;
numa viso nada agradvel.
- Foi isso que a sra. Peters viu quando entrou - informou Petra. - Doura estava andando pelo quarto e reclamando, enquanto a tia Sadie tentava tirar o resto da
massa que havia ficado grudada nele. Acho que a sra. Peters achou que ele a estava atacando ou algo assim. Acho que ela assistiu a O Jovem Frankenstein demais. Ela
bateu os olhos em tia Sadie, gritou "fuja!" e desmaiou. Doura pegou-a e colocou-a na cadeira. Ela vai ficar bem.
Keely olhou para a sra. Peters, que parecia comear a recuperar a conscincia com a ajuda da tia Sadie, que esfregava um pano mido em sua testa.
- Voc acha isso engraado, Jack?
- No - disse ele, tentando controlar-se. -  claro que no acho - Ento, sorriu. - Ok.  engraado. Ele est assustador, Keely, imenso, careca e verde? Gemendo
e sacudindo as mos? Bastam uns pontos no pescoo e ficaria perfeito.
Keely piscou os olhos fortemente,  beira das lgrimas. Ento, olhou sria para Petra. A expresso em seu rosto fez Candy fazer um bico, prestes a chorar tambm.
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- D-me esta pobre criana - disse ela com frieza, pegando a menina e saindo rapidamente do quarto, com Petra logo atrs.
- Ei! Espere! Est na hora de tirar o molde de borracha dela - disse Petra, enquanto Keely segurava Candy com fora, carregando-a para seu prprio quarto e sentando-a
na cama. - Deixe que eu fao. Apenas pare de chorar.
- Ela no est chorando - disse Keely.
- No, mas voc est - respondeu Petra, meneando a cabea. - V se vestir. Eu mesma tiro o molde. At porque, voc est assustando a coitadinha.
Keely ficou imvel, observando Petra sentar-se na cama ao lado de Candy, conversando e brincando com ela, ao mesmo tempo que tirava o molde de borracha. Petra sabia
lidar com Candy. Sabia lidar com uma crise.
Por que Keely no sabia?
Por que estava chorando? Por que s conseguira ver o desastre e no o humor da situao, como Jack e todos os demais,  exceo da sra. Peters? Tinha mesmo que aprender
a se controlar e a parar de entrar em pnico o tempo todo.
- Eu... eu vou me vestir - avisou, baixinho.
- Faa isso - respondeu Petra, sorrindo para os dois moldes, que mais pareciam duas botas de neve. - No esto lindos?
- Ah, esto mesmo - disse Keely, pegando os moldes. Ento, correu para o banheiro, onde havia deixado as roupas, ligou o chuveiro para que Petra no pudesse ouvi-la
e explodiu novamente em lgrimas.
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Cerca de meia hora depois, quando Keely finalmente conseguiu reunir coragem para descer, encontrou Edith Peters sentada  mesa da cozinha, tomando ch.
Edith estava em uma cadeira, Sadie em outra e, na frente de ambas, Jack e Joey. A sra. Peters escrevia em seus papis sobre a prancheta.
- Ento, sr. Morretti, o senhor est dizendo que, como parente consangneo mais prximo, deve ficar com a custdia de sua sobrinha?
- Isso mesmo - disse Joey, recostando-se na cadeira. - Isso no  bvio?
- Sr. Morretti, eu estou aprendendo que nada  bvio, principalmente aqui. Mas eu gostaria de obter algumas informaes suas, j que a srta. Morretti  sua irm.
- Pode mandar - disse Joey, ajustando os culos. - O que quer saber?
Keely foi at o balco, pegou um copo, encheu-o de gua gelada e meneou a cabea quando Jack fez meno de ceder seu assento a ela. Em vez disso, sentou-se em um
banco alto do balco de caf da manh.
- Bem, sr. Morretti, para comear, eu gostaria de saber se o senhor conhece a identidade do pai de Candy.
Joey deu um sorriso diablico e apoiou os cotovelos na mesa.
- Quem tinha que saber disso  minha irm, e ela no sabe. Alis, Cecily  bem rodada, se  que me entendem.
- Menos, Joey - Jack interveio, srio, com expresso contrariada. - Sra. Peters, eu imagino que tenha sido fertilizao artificial.
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-  - disse Joey. - com o smen de algum idiota chamado Rain Dance ou algo assim. Se vocs esto achando que o pai pode aparecer, desistam. A pessoa responsvel
aqui sou eu. Eu tenho os papis.
- Isso  bem verdade. Ele tem os papis - disse Jack, olhando para a sra. Peters.
Keely levou a mo  boca. Sua tendncia anterior ao choro j estava beirando uma crise histrica, porque  simples meno dos "papis" de Joey ela teve de conter
um acesso de riso. Devia estar enlouquecendo.
A sra. Peters soltou o grande bloco de papis e bateu com eles na beirada da mesa.
- Estou vendo que isso foi um erro - disse, olhando para a tia Sadie. - Acho que precisamos entrevistar cada um de vocs separadamente porque eu estou sentindo muita
animosidade neste ambiente. Sr. Trehan? Gostaria que o senhor, a sra. Trehan e a srta. McBride nos dessem licena. Eu gostaria de terminar minha entrevista com o
sr. Morretti. Voltarei amanh para concluir as entrevistas com os demais e ento farei minhas recomendaes preliminares ao tribunal. Este  um caso que, definitivamente,
eu no gostaria que se arrastasse por muito tempo.
Keely sentiu um frio no estmago, e Jack empalideceu, levantando-se, hesitante, nitidamente relutante em deixar o primo sozinho com a sra. Peters.
-- Est bem. Amanh, ento. Mas, se quiser continuar ainda hoje, estamos todos  disposio - disse, estendendo a mo para Keely. - Tia Sadie? A senhora vem?
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- No, querido. Ainda no - respondeu ela. - Quero ir dar uma olhada em Doura. O coitadinho ainda est muito aborrecido.
- A culpa  minha, Sadie - disse Edith Peters. - Eu, definitivamente, exagerei.  porque faz tempo que no vejo um gigante verde.
- Eu sei, querida - garantiu Sadie, tocando levemente no ombro da assistente social. - Voc  muito flexvel, Edith. Obrigada.
- So ossos do ofcio, Sadie. Ou se  assim, ou se entra de cabea nas drogas pesadas.
Impressionada, Keely lanou seu melhor sorriso para Edith Peters, enquanto Jack a arrastava para fora da cozinha.
Jack no parou at chegarem s garagens. Ento, tirou as chaves do bolso e abriu a porta do Corvette vermelho.
- Venha. Vamos dar uma volta. Eu no agento ficar aqui, pensando que Joey est l, falando com a sra. Peters.
- Mas esse no ... - comeou Keely, enquanto entrava no conversvel.
- . Chegou esta manh.  parte de meu pagamento pelo comercial. Traz alguma lembrana?
- Eu no sei... - Keely ergueu os olhos para ele. - Vamos ver se voc consegue chegar ao seu lado do carro, sem tropear em nada.
- Engraadinha - disparou Jack, contornando o carro, sem ousar bater no cap ou girar a chave nos dedos. J havia feito aquilo demais, e errado demais, para querer
tentar de
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novo. - Para onde vamos? - perguntou, assim que se sentou ao volante.
- O que voc quer dizer? Foi voc quem me mandou entrar no carro, lembra?
-  verdade. Voc tem as chaves do apartamento de sua tia? Ns podamos ir at l. Parece mais lgico do que ficar andando sem rumo.
- Bem, talvez possamos ir l para eu pegar a correspondncia e ouvir os recados. Acho que, se tiver de ficar aqui, eu tambm vou enlouquecer. Candy est cochilando,
e Petra est aqui. Certo. A chave est junto das chaves da caminhonete, provavelmente ainda no contato.
- Peguei - disse ele, voltando segundos depois. - Vamos apenas aproveitar o passeio at chegarmos  loja, est bem? Depois, conversaremos. Voc disse que queria
conversar, no ?
- Pode ser - Keely deu de ombros, recostou-se no banco, cruzou os braos e seguiu, muda como uma mmia, at estacionarem o carro nos fundos da loja e subirem as
escadas para o apartamento.
Assim que entraram, Jack se sentou no sof e afundou a cabea entre as mos.
- Isso tem que acabar logo, Keely. Eu no agento mais. Edith Peters nos colocando num microscpio, ps verdes, as idiotices de Joey, a espera pelo fax de Cecily...
Keely sentou-se ao lado dele e passou o brao pelos ombros de Jack. Como era bom t-la por perto.
- Estamos muito pressionados, Jack. Eu me descontrolei
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hoje e peo desculpas. No devia t-lo abandonado daquele jeito. Mas quando vi Candy com aqueles ps verdes, fiquei com vontade de matar Petra, o que foi uma besteira,
porque ela  maravilhosa com Candy. Jack ergueu a cabea e olhou-a.
- No. Voc  maravilhosa com Candy. Petra brinca com ela. Voc cuida para que ela se alimente e tome banho. Voc canta para ela, faz ela dormir, cuida para que
ela v ao mdico. Voc faz isso, cozinha, cuida da casa e ainda por cima est decorando tudo, como se tudo isso fosse fcil. No sei como consegue.
Keely apenas sorriu.
- Voc est muito melhor com Candy - disse ele, pegando-a pela mo. - Devia ver como ela levanta a cabecinha toda vez que ouve sua voz. Ela  louca por voc.
Keely olhou-o, piscou e virou a cabea.
- Ei, o que foi que eu disse? - perguntou ele, pegando-a pelos ombros e virando-a para olh-la. Ela estava com lgrimas nos olhos. - Keely, qual  o problema?
- Eu a amo tanto - disse ela, levando a mo  boca nitidamente tentando se compor. - Como poderei... o que farei quando... ah, droga! - Ela levantou correndo do
sofaj e foi para o outro quarto. Jack ouviu uma porta bater e concluiu que era a do banheiro. Era mais provvel que ela escolhesse um lugar que pudesse trancar.
Jack poderia segui-la e ficar do lado de fora da porta, ou vindo-a chorar. Poderia dizer que a amava e que queria que  ela ficasse com ele para o resto da vida,
para criarem Candy juntos e um bando de crianas.
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Mas aquilo no seria prudente.
Portanto, ele esperou. Daria a ela algum tempo para se recompor. Porque ela queria falar com ele. A prpria Keely dissera isso. Ser que ele era covarde por querer
ouvir primeiro o que ela tinha a dizer, antes de abrir sua enorme boca e correr o risco de bancar o bobo?
E o que havia de to grave em bancar o bobo? Em pedir a ela que transformassem o noivado de mentira em um de verdade? Em dar o grande passo e pedir a ela para desistir
da carreira em Nova York, ficar com ele e ser me de Candy? Pedir a ela para ser seu amor, sua mulher?
Ser que ele sabia separar o amor que sentia por Candy do que sentia por Keely? Porque as duas eram praticamente uma coisa s; haviam chegado  sua vida ao mesmo
tempo, tomando sua casa e seu corao. Como poderia separar uma da outra? Seria como perguntar qual das duas amava mais.
Enquanto se torturava mentalmente, Jack andou pela pequena sala, sem prestar muita ateno a nada, simplesmente porque no conseguia ficar sentado.
Ento viu a luz piscando na secretria eletrnica.
Ele olhou para o corredor e para a luz piscando diversas vezes. Seria Gregory?
Lentamente, Jack foi at a escrivaninha e apertou o boto da mquina, com uma ltima olhada para o corredor.
"Ol, querida", disse uma voz feminina, enquanto Jack tentava, desesperadamente, baixar o volume. "Eu gostaria que voc atendesse. Detesto falar com mquinas, mas
isso no pode esperar. Sente-se, Keely, porque eu tenho uma surpresa. vou me aposentar. ...", prosseguiu a voz feminina,
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com uma animao quase infantil. " verdade. Decidimos nos mudar para a Flrida assim que chegarmos em casa. Praia, sol, o mar. No ser como Paris ou a Grcia,
mas s a idia de voltar a lidar com aquelas donas de casa cheias de vontades me d desnimo. E, agora, a melhor surpresa: eu vou dar a loja a voc.  toda sua,
sem compromissos. Ah, mas no sei se voc vai quer-la. Vai preferir vender e voltar para Manhattan. Eu conheo voc. Sei o quanto quer isso. Assim, pronto. Voc
tem minha bno. No foi bom eu ter lhe dito para sentar? Ah, Keely, eu estou to feliz. At, querida...", outra risadinha. "Parece que algum me quer. Ei, querido,
pare com isso, eu s estava..." Clic. "Fim das mensagens."
Jack apertou o boto para voltar a mensagem com a mente girando. Ser que devia salvar o recado? Apag-lo? Se matar?
Ele voltou a mensagem e o boto recomeou a piscar, esperando por Keely.
- Jack?
Ele se virou, usando o corpo para bloquear o sinal luminoso.
- Voc est bem? - perguntou ele, sentando-se numa cadeira que parecia frgil demais, at para Candy.
- Estou. Desculpe.  que tudo isso tem sido demais para mim. O fracasso de minha loja, voltar para c, querer tanto decorar sua casa. Candy, voc... o Arizona.
Jack estremeceu.
- . O Arizona. Era disso que queria falar, no ? Eu imaginei.
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- No. Realmente, eu...
- , sim, Keely - interrompeu ele, pegando-a pelas mos e obrigando-a a levantar. - Voc est louca para falar nisso. E o que quer dizer  que eu a decepcionei demais.
Ela havia mantido a cabea baixa, evitando olh-lo, mas naquele momento ergueu os olhos, espantada.
- O qu?
- No seja boba, Keely. At os ursos atacam com mais delicadeza. Eu sei que lhe devo desculpas, mas nunca saberei ao certo o que aconteceu ali.
- Ns ficamos meio empolgados - disse ela, baixinho, obrigando-o a baixar a cabea para ouvi-la. - Mas foi mtuo. Voc no fez nada que... que eu no quisesse.
- Voc disse que foi a proximidade - lembrou ele, srio.
- Eu sei.
- Ns estamos bem prximos agora, no? - perguntou Jack, aproximando-se e erguendo o queixo dela com a mo.
Keely deu um sorriso trmulo.
- No acho que esse seja um uso adequado para a palavra.
- Talvez no, mas estamos bastante prximos. Ser que podemos tentar de novo? Eu realmente gostaria de tentar mais uma vez, Keely.
Ela comprimiu os lbios e umedeceu-os com a lngua. Mas Jack se conteve, apesar do gesto dela ter despertado sua libido de uma forma enlouquecedora.
- Keely?
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- Ns no devamos estar falando da sra. Peters, de Joey e... da estratgia?
- Devamos? - perguntou ele, massageando levemente os braos dela, sentindo a pele suave e macia sob seus dedos.
-Ns... devamos conversar sobre muitas coisas-disse ela, enlaando-o pelo pescoo.
- Conversando, a gente s arruma encrenca, Keely - lembrou ele. - Talvez, apenas por enquanto, seja melhor assim.
Ela fechou os olhos e assentiu.
Jack baixou a cabea e beijou-a. Gentil e delicadamente. Uma, duas vezes. Avanando e recuando.
- Eu no sou de cristal, Jack. - Ela puxou-o para mais perto.
- Eu sei - respondeu ele, baixinho, deslizando as mos para a base das costas. - Voc  muito macia... e quente.
- Voc me deixa sem defesa - ela sussurrou, suspirando enquanto ele a beijava no pescoo.
- timo - respondeu Jack, pegando-a no colo. - Para onde voc quer ser levada?
Ela enfiou a cabea no pescoo dele e sorriu.
- Para o final do corredor,  direita - disse, j tirando as sandlias.
Jack entrou no quarto dela e ficou impressionado com a imensa cama de dossel, quase da altura da cintura.
- Terra da Fantasia - falou, colocando-a sobre o colcho e deitando-se a seu lado. O sol banhava a cama, ilurninando-a. - Como voc  bonita, Keely.
Ela corou suavemente.
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- Eu... eu pensei que no fssemos conversar sobre isso. Voc me deixa nervosa, me olhando desse jeito.
- De que jeito? - perguntou ele, erguendo a blusa dela e admirando o abdmen liso. - De que jeito eu estou olhando para voc?
- Eu no sei - respondeu ela, com os olhos novamente marejados. - Ningum nunca me olhou assim antes.
- Ningum nunca a desejou tanto - sussurrou ele, inclinando-se para beij-la. - Ningum no mundo nunca a quis como eu quero.
- Ah. Jack...
"Ah, Jack", ele adorava o jeito como ela dizia seu nome. Adorava a forma como ela o olhava e como reagia quando ele lhe tocava os seios. Adorava v-la fechar os
olhos e suspirar.
E na nsia feroz de apagar o fogo que os consumira no Arizona, eles haviam perdido tudo aquilo. O fogo continuava presente, mas agora havia mais.
Ele no sabia o que era aquele "mais", mas havia algo... algo mais forte que o que houvera da ltima vez. Mais que desejo, mais que nsia, mais at que necessidade.
Fizeram amor lenta, longa e intensamente at ficarem exaustos e plenos de prazer.
Mais tarde, no chuveiro, Keely deixou a gua escorrer Pelo seu rosto, seus seios, seu ventre. A pele estava sensvel, ainda sob o efeito do toque de Jack e de sua
reao quele toque.
Daquela vez, ele no a deixara... Ela o havia deixado, mas
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no sem antes ficarem deitados por um bom tempo, juntos, abraados. Havia sido bom. Muito mais que bom. Era uma lembrana que ela guardaria para sempre, independentemente
do que acontecesse.
Ainda no haviam conversado. Talvez nunca conversassem. Talvez se casassem, tivessem seis filhos, vivessem juntos pelos prximos cinqenta anos e nunca chegassem
a conversar de verdade.
Provavelmente porque havia coisas que no precisavam ser ditas. Bastava sab-las. E, s vezes, era melhor nem saber.
O que viera primeiro? Seu amor por Candy ou por Jack? E aquilo importava? O fato era que no conseguia pensar em Candy sem pensar em Jack e vice-versa. Amava os
dois. Qual era o problema?
Keely estremeceu com o ar frio que entrou no banheiro. Ento, virou-se e viu Jack parado na porta.
- Acho que, se tomarmos banho juntos, iremos mais rpido e poderemos voltar logo para casa. Alm de economizar gua - acrescentou, apoiando as mos nos ombros dela.
Keely lutou contra o impulso de cobrir a prpria nudez, percebendo, em seguida, o quanto aquilo era ridculo. No havia nenhuma parte dela que Jack no tivesse visto,
tocado e beijado.
- Voc  louco - sussurrou ela, apoiando as mos no peito dele, olhando-o e sorrindo ao constatar a ereo. - E acha que assim vai ser "mais rpido"?
- Provavelmente, no. - Ele pegou o sabonete, girou-o nas mos e comeou a ensaboar os seios dela. - Mas eu j me enganei antes.
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Quando voltou  sala de visitas do apartamento, Jack estava exultante, mais feliz do que nunca, desde que seu ombro comeara a doer meses antes.
"...estou to feliz. At, querida...", outra risadinha. "Parece que algum me quer. Ei, querido, pare com isso, eu s estava..." Clic. "Fim das mensagens."
Keely estava em p diante da escrivaninha, de costas para ele.
- Keely? Era sua tia? - perguntou ele, imaginando se ela confiava nele o bastante para dizer-lhe a verdade.
- Era - respondeu ela, virando-se lentamente, no sem antes apertar o boto de "apagar". - Ah, sim. Era a tia Mary. Ela deve estar adorando a lua-de-mel porque nem
mencionou quando voltar para casa.
- No? - perguntou ele, erguendo as sobrancelhas. - Ento, o que foi que ela disse?
Keely deu de ombros.
- Nada importante. Ela est feliz - Keely olhou em volta e abriu os braos. - No h mais nada que eu precise fazer. J ouvi os recados na secretria eletrnica
da loja e no h nada urgente. Assim, acho que podemos voltar para casa e... para sua casa. Eu estava pensando em fazer uma salada de atum para o jantar e preciso
cozinhar uns ovos.
Jack virou a cabea para um lado e olhou-a.
- Ento  isso? Vamos voltar para casa, para cozinhar uns ovos?
Keely deu uma risadinha nervosa.
-- Bem,  claro. Por qu? Eu no estou entendendo.
- Deixe para l - disse Jack, pegando-a pela mo e
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caminhando para a porta. - Como voc disse,  hora de voltarmos. Eu preciso mesmo ligar para Jimmy, para saber se o fax de Cecily chegou.
Keely parou e puxou-o pela mo.
- Espere. H algo errado, no h? O que est errado?
- Nada - disse Jack, com o rosto contrado. - Absolutamente nada.
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Captulo XVII

O jogo no acaba at acabar.
Yogi Berra
Estavam na metade do caminho de casa quando Keely percebeu, mas esperou at Jack estacionar o Corvette e estarem a caminho da entrada para confront-lo.
- Voc ouviu a mensagem da tia Mary, no ?
- Olhe,  o carro de meu irmo ali, na garagem - respondeu Jack, secamente. - Acho melhor adiarmos a Terceira Guerra Mundial para quando ele for embora, est bem?
- Ento, voc ouviu! - exclamou ela, apressando-se para alcan-lo. - Como no negou, voc ouviu. Voc ouviu meu recado pessoal no telefone. Quando, Jack? Antes
ou depois?
-Faz diferena? - perguntou ele, contornando a piscina a caminho da entrada da casa.
- Ora,  claro que faz, Jack. Isso muda tudo. Voc fez amor comigo porque quis, ou porque foi o melhor modo que
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conseguiu imaginar para me manter aqui e conseguir a custdia de Candy?
Ele virou-se para ela e ergueu um dedo para o rosto de Keely.
- Eu no faria isso - ele defendeu-se, peremptrio.
-  claro que faria.  exatamente o que faria - insistiu ela, apressando-se mais uma vez, para entrar logo atrs dele na cozinha.
- Ol, Jack... Keely.
Keely olhou para Tim Trehan, sentado confortavelmente no escritrio, comendo pipoca de uma grande tigela azul. Petra e Doura estavam com ele, assistindo a um filme
no DVD.
- Ol - disse Keely, de costas para Tim.
- O que voc est fazendo aqui? - perguntou Jack ao irmo.
- Eu no sei. Se soubesse que seria recebido assim, acho que nem teria vindo. Mas como sou um irmo bondoso, pensei em entregar pessoalmente os ingressos para o
jogo de amanh  noite. Alm disso, Mort est vindo para c e me pediu para estar junto. Acho que ele quer que eu ajude a convencer voc a fazer a coisa certa. S
que eu ainda no sei o que .
Keely continuou ali, de costas para Tim, os braos cruzados, furiosa.
- Livre-se dele - disse por entre os dentes, sem se preocupar em ser acusada de mandona. - Eu preciso matar voc.
- Ei, eles esto brigando - Petra falou, e Keely virou-se para encar-la. - Ah, olhem s. Eles esto brigando de novo. Tim, passe a pipoca!
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- Jack... - grunhiu Keely.
- No - disse ele, com firmeza. - Eu no vou mandar meu irmo embora s porque voc est furiosa e... - Ele parou de falar abruptamente, abriu a porta da geladeira
e abriu uma lata de refrigerante. O lquido escorreu por seus dedos e molhou o cho.
- Veja s o que voc fez! - acusou Keely, apressando-se em umedecer um punhado de toalhas de papel. - Eu acabei de lavar o cho.
-  um belo dia para o beisebol. Aqui  Tim Trehan, que vai deix-los por dentro de todos os lances - disse Tim, segurando o controle remoto como se fosse um microfone.
Ele, Petra e Doura haviam virado as poltronas que separavam os dois ambientes e estavam partilhando a pipoca, enquanto assistiam  discusso.
- No tem graa. V embora, Tim - disse Jack, contradizendo-se. - Keely e eu temos um assunto para discutir.
- No. No temos - disse Keely do cho, de onde ainda limpava o refrigerante. - Eu mudei de idia. No tenho nada a dizer a voc. Nada.
- Nada?
- Nada.
- Certo, pessoal, eles esto se testando - anunciou Tim.
Keely perdeu o controle. No se importava se todo o batalho de doidos dos Trehan estava ali, comentando e tomando notas. - Voc ouviu, Jack. Voc ouviu meu recado
particular. Ouviu tia Mary dizer que ia me dar a loja. Admita.
- Certo, talvez eu tenha ouvido - devolveu Jack. - Qual  o problema?
- No h problema algum. Eu ia lhe dizer... alguma hora.
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- Ele est tentando se desvencilhar, pessoal - disse Tim, enquanto Petra ria.
-No h problema? Tia Mary me deu a loja, Jack. Agora eu posso vend-la e voltar para Nova York. Voc ouviu isso, ento me atraiu para a cama e no v nenhum problema?
- Eu no devia estar ouvindo isso - disse Doura, pegando Petra pelo cotovelo. - Nem voc. Venha, vamos dar uma volta.
- Leve-o tambm - ordenou Jack, apontando para o irmo.
- Bela tentativa, Jack, mas eu vou ficar. Longe de mim querer interromper.
Jack grunhiu baixinho e Keely pegou-o pelo brao.
- Esquea - ordenou ela. - Alm disso, eu nem ligo se o mundo todo ouvir. Voc  um rato, Jack. Um imenso rato!
Jack lanou um ltimo olhar para o irmo e virou-se para Keely, batendo com a mo no peito.
- Eu? Eu sou o rato? Eu lhe dei uma chance. Perguntei sobre o que era a mensagem e voc disse que no era nada. Nada, no , Keely? Apenas sua passagem para fora
daqui e de volta aos bons tempos.
- Ei, pessoal, agora ele est mesmo jogando pesado - comentou Tim.
- Eu j tenho minha passagem de volta, Jack - gritou Keely. - E foi voc mesmo quem ofereceu, lembra? Qualquer coisa que eu quisesse, foi o que disse. Qualquer coisa
para se livrar de mim depois de conseguir a custdia, certo? Me levar para a cama  s uma garantia a mais.
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- Agora a coisa ficou feia, fs do esporte - disse Tim, no silncio sbito. - E a vai o troco.
Jack passou os dedos pelos cabelos.
- Do que voc est falando? Eu no quero me livrar de voc, Keely. Achei que voc quisesse ir. Achei... Achei que precisasse ir. Tentar de novo.
Keely puxou um dos bancos altos e sentou-se para no cair.
- Bem, eu queria. Achava que queria.
Jack foi at o balco e colocou as duas mos sobre ele.
- Se voc quer conversar, Keely, ns conversaremos. Tim - disse ele, olhando por sobre o ombro -, saia daqui.
- Bem... - Tim colocou o controle remoto sobre o sof. - Isso tira a multido do jogo.
- Tim!
- Estou indo! Estou indo!
Keely manteve a cabea baixa, esperando que Tim passasse por eles e fechasse a porta da cozinha atrs de si.
- Keely... - Jack pegou uma das mos dela entre as suas. - Voc sempre foi muito direta sobre o que queria. Voc queria voltar para Manhattan e dar mais uma chance
ao negcio de decorao de interiores. Se no se lembra do quando queria isso, eu me lembro.
- Voc queria mais uma chance no beisebol - disse Keely, desejando que ele parasse de massagear a mo dela com o polegar. Ela no conseguia pensar quando Jack a
tocava.
- Eu tive minha chance e vi que no a queria mais. Aquele desejo todo havia desaparecido. Mas voc no teve sua
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chance, Keely. Quer passar o resto da vida imaginando se teria conseguido?
- Em vez de ficar aqui com voc e Candy - ela falou, incapaz de no ser direta, agora que estavam realmente conversando um com o outro.
- Talvez ns sejamos uma forma de no precisar tentar. De no arriscar outro fracasso.
Ela ergueu a cabea e encarou-o.
-  assim que voc v as coisas, Jack?  assim que v Candy e a mim? Como uma desculpa para no correr o risco de fracassar de novo?
Ele deu um sorriso lento e muito verdadeiro, e Keely sentiu os olhos marejados.
- Eu admito que pensei nisso - disse ele, beijando-a na mo. - S que acabei descobrindo que a amo, Keely. Eu amo voc. Mas, justamente por am-la, preciso que voc
tambm tenha certeza.
- Ah, Jack... - Keely suspirou e inclinou-se sobre o balco para abra-lo. - Eu tenho certeza. Nunca estive mais certa de alguma coisa em minha vida.
- E voc me ama? - perguntou ele, afastando-se para cruzar o bar e voltar a ficar perto dela.
- Eu o amo - disse Keely. - Seu idiota, como eu poderia no am-lo?
Ele a beijou e Keely pensou estar ouvindo sinos tocaremLevou alguns segundos para perceber que estavam batendo na porta.
Jack tambm deve ter ouvido, porque interrompeu o beijo e olhou na direo do corredor.
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- O que foi, Doura?
- O senhor tem companhia, sr. T.
- Mort? - perguntou ele, enquanto Keely se afastava com relutncia e pegava-o pela mo. Havia muito mais que precisavam dizer um ao outro, mas aquilo teria que esperar.
Ela provavelmente passaria metade da vida esperando uma chance de falar com Jack, um momento calmo e tranqilo para falar com ele. E, no entanto, uma das coisas
que mais gostava, era o turbilho de coisas que parecia segui-lo.
- No, senhor - disse Doura, coando a cabea. -  uma moa e o amigo dela. Moon Flower?
Keely estremeceu quando Jack quase esmagou seus dedos.
- Cecily? - perguntou ele.
- Foi como o sr. Morretti chamou-a, mas ela me disse que era Moon Flower. H mais algum com ela, mas eu no entendi o nome dele.
- Ah, por Deus, Jack, sua prima est aqui? - perguntou Keely, horrorizada. Onde estava Candy? Ela ergueu os olhos para o relgio. Hora do cochilo. Candy estava no
andar de cima, dormindo. Tinha que ir para perto dela.
Como se lesse seus pensamentos, Jack perguntou a Doura:
- Onde est Candy? Petra est com ela? Doura assentiu com vigor.
- Ela acordou mais cedo e ns a levamos para a casa da tia Sadie, para uma visita. Foi para onde fomos quando vocs comearam a... quando acharam que devamos sair.
A sra. Peters ainda est l, tomando ch com a tia Sadie e brincando com Candy. E seu irmo est l, com um cara chamado Mort. A casa est mesmo cheia. Eu voltei
para pegar a chupeta
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de Candy e ouvi a campainha. Quer que eu v buscar todo mundo e traga-os aqui para cima?
- No! - disseram Jack e Keely em unssono.
- Mas eu pensei... Bem, eu vou perguntar a Petra. Acho que ela vai saber.
- No pense em nada, Doura - alertou Jack. - Apenas mantenha todos afastados, at eu falar com minha prima. Voc disse que Joey est com ela?
- Sim, senhor - respondeu Doura, j se encaminhando para a porta dos fundos. - Tudo bem? Eu posso tir-lo daqui, se o senhor quiser.
- Sei que pode, Doura, mas no, obrigado - disse Jack. com isso, Doura deu de ombros e saiu da cozinha. - Venha, Keely - chamou Jack, segurando-a pela mo. - Como
sempre,  uma pssima hora, mas at a, qual  a diferena? Vamos falar com Cecily.
Keely estacou, mais assustada do que queria admitir.
- Voc no acha melhor chamar seu advogado?
- Ainda no - disse ele. - Primeiro, vamos ver em que planeta Cecily est hoje e depois prosseguiremos.
Cecily no havia mudado muito desde a ltima vez em que Jack a vira, o que fora h cerca de dois anos, no Natal. Ela continuava loira, mas agora tinha uma mecha
vermelha nos cabelos.
Ainda era uma mulher pequena e graciosa. E ainda usava os mesmos vestidos longos e floridos que faziam-na parecer uma av precoce.
Ela os viu assim que Jack e Keely entraram na sala de
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estar quase vazia e correu para eles, com as botas pesadas de couro arranhando o cho.
- Jack! Ah, Jack! Voc est maravilhoso! E que casa linda! Eu s acho que falta um pouco de moblia... - exclamou Cecily, antes de atirar-se nos braos dele.
- Ol, Cecily - disse Jack, olhando para o homem magro e alto, de cerca de trinta e cinco anos e rabo-de-cavalo, que parecia se vestir com um saco de batatas amassado.
- Quem  seu amigo?
- Ah, sim, sim, claro - Cecily pegou a mo de Jack e ignorou Keely solenemente. - Este  Blue Rainbow, meu guru, meu mentor.
- Na verdade, meu nome  Hadley Hecuba - disse Blue Rainbow quando Cecily se afastou para abraar Joey, que disse:
- V para l! Voc j fez isso.
Hecuba estendeu a mo e Jack foi obrigado a apert-la. Bem, no era obrigado, mas se no o fizesse, Cecily provavelmente repararia, faria um escndalo e no era
um bom momento para irrit-la.
- No - disse Jack, lembrando-se do que os investigadores de Jimmy haviam descoberto naqueles ltimos dias. - Seu nome  Lester James Schmidt, trinta e sete anos,
nascido em Milwaukee, preso duas vezes por desfalque, uma vez por fraude no carto de crdito, ainda oficialmente casado com Olvia Bertrice Schmidt, que adoraria
saber do seu paradeiro, porque voc est um pouco atrasado com a penso alimentcia das crianas. Cerca de cinco anos atrasado. Como estou indo at agora, Lester,
amigo?
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Jack sentiu Keely apertar sua mo e apoiar-se um pouco nele. Ele olhou-a e sorriu.
- Aqueles rapazes da D&S valeram cada centavo, no  mesmo?
- Eu no imaginava que voc soubesse tanto - disse Keely, nitidamente impressionada. E, infelizmente, direta e honesta como s ela era. - Agora, me diga de que isso
adianta?
- De nada, moa - disse Blue Rainbow, encarando-a. - Eu vi o fax de seu advogado, Trehan, e ns resolvemos rasg-lo. Ela  a me da criana e ns vamos mant-la.
A menos,  claro, que voc possa nos convencer de que a criana ficar melhor com voc. - Enquanto dizia isso, ele ergueu o brao e esfregou o polegar no dedo indicador.
- Dinheiro - disse Keely, enquanto Jack praticamente a arrancava de perto do guru de Cecily. - Jack, ele quer dinheiro.  to simples. Ns pagamos, e eles vo embora.
Ah, graas a Deus. Eu estava to preocupada.
- Continue se preocupando - disse Jack, observando Joey e a irm, que pareciam ter iniciado uma discusso em voz baixa. - Primeiro, se dermos dinheiro para eles
irem embora, eles voltaro pedindo mais. No que Cecily precise, mas obviamente, Lester no sabe o que tem nas mos... ou talvez saiba e queira se precaver. Cecily
no  das mais fiis. Segundo, j envolvemos a sra. Peters e todo o pessoal do Bem-Estar e Apoio ao Menor nisso. Talvez eu consiga subornar Cecily e Lester, mas
ainda teremos Joey.
Keely suspirou.
- Minha vontade  pegar Candy e simplesmente fugir com ela.
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- Posso ir junto?
Ela sorriu e apoiou a cabea no peito de Jack.
- Eu no daria nem um passo sem voc.
- Daria, sim. Na verdade, vai dar muitos passos. V at a casa de Sadie e traga a sra. Peters at aqui. Ento, coloque-a no solrio pela porta externa e volte a
me encontrar aqui. At l, eu vou dar um jeito de abrir a porta do solrio, para ela poder ouvir tudo.
- Tudo o qu?
- No fao a menor idia - admitiu Jack, tentando no demonstrar a prpria tenso. - Apenas esteja pronta para ir para onde quer que Cecily, Joey e Lester nos levem,
est bem?
- Est bem - Keely virou-se e ento voltou-se. - Eu o amo.
- Eu tambm. Pea a Petra e a Doura para levarem Candy para dar uma volta. No a quero nem perto daqui. Cecily no pediu para v-la e, se pedir, quero poder dizer
que ela no est no momento.
Keely assentiu e saiu. Jack seguiu-a e pegou mais um refrigerante na geladeira. Contou cinco minutos no relgio para dar a Keely tempo para posicionar a sra. Peters
e ento voltou para a sala de estar, abriu a porta do solrio e caminhou na direo dos primos.
- E, ento, Cecily? Como estava o Tibete?
- Tibete? Ah, Jack, eu no fui para o Tibete, seu bobo. Ns amos, mas Blue Rainbow queria ver o sol nascer em Mnaco. Ele me disse que era mstico e foi mesmo.
Eu senti tanta energia l. E a princesa Grace estava l, sabe? Eu a vi.
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Voc sabia que agora eu sou capaz de conjurar espritos? Estou pensando at em escrever um livro. J sei at o nome: Vendo Grace. No  maravilhoso?
Cecily estava sendo Cecily. Estava ali, fisicamente, mas seu crebro flutuava em algum ponto perdido do espao. Como sempre.
- Mnaco, hein?! - disse Jack depois que ela suspirou, riu e finalmente se calou. - O lugar do cassino? Eu no sabia, Cecily. Quando meu advogado a encontrou, eu
s soube que voc estava em algum ponto da Europa.
- Ah, . O cassino. Blue Rainbow tem um sistema. Eu o banquei... - Cecily franziu o cenho, confusa. - Qual  o problema, Jack? Voc est parecendo to tenso. Blue
Rainbow disse que voc ia ficar feliz em me ver, mas voc no parece nada feliz. E Joey est sendo to mau comigo... - A voz dela foi sumindo, e ela soluou. Ento,
foi at o sof, pegou uma grande bolsa de couro e comeou a procurar alguma coisa freneticamente. Por fim, tirou uma garrafa plstica de Bolhas Divertidas e um palito
plstico com um crculo em uma das pontas.
- O que voc disse a ela, Joey? - perguntou Jack.
- Nada - respondeu ele. - S a verdade. Disse que ela  louca, doida, maluca. Isso significa que eu fico com a criana e com todo o dinheiro que o tio Sal ganhou
com a rede de lavanderia a seco quando ele morrer. Ele me disse claramente que o primeiro que se aprumasse e arrumasse um filho ficaria com a grana.
Cecily ouviu o comentrio e aproximou-se do irmo com o belo rosto contorcido de raiva.
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- Ah, ? Bem, isso  o que voc acha, Joey. Tio Sal disse que o primeiro que se ca... hic... se casasse, se aprumasse e tivesse um filho ficaria com... hic... com
o dinheiro dele, seu idiota. Ningum vai se casar com voc, Joey, porque voc  um idiota. Sou eu quem vai ficar com o dinheiro do tio Sal.
"Por favor, Deus, permita que a sra. Peters tenha ouvido isso", pediu Jack, em silncio. Ao ver Keely entrar na sala e apontar em silncio para as portas do solrio,
ele relaxou. O nico problema era que Keely no estava sozinha. Tim, tia Sadie e Mort estavam junto.
Assim que Cecily concluiu o ritual de gritar, atirar-se nos braos e beijar Tim e que Joey se jogou no sof, com um bico imenso, Jack sussurrou para Keely:
- E cad a banda? Mort ficaria timo com qualquer instrumento.
- Eu no tive como det-los, Jack - desculpou-se ela. - E Mort tem uma idia.
- Ah, no... - disse Jack, meneando a cabea. - Deus nos livre de Mort com suas idias. - S ento percebeu que ele prprio no tinha nenhuma. - Qual  a idia?
- Voc vai ver - disse Keely, olhando para Lester, ou Hadley, ou Blue Rainbow, ou qualquer que fosse o nome dele. - Por que voc no faz as apresentaes enquanto
eu salvo a tia Sadie de Cecily? Depois, veremos o quo perto das portas conseguiremos chegar com eles.
- Voc no quer ser apresentada a Cecily?
- Acho que no -- disse Keely, com uma careta. - Depois, voc teria que me visitar na priso.
- Ela  a me de Candy, Keely - lembrou Jack.
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- Ela deu Candy  luz, Jack, e eu sou grata por isso. Mas isso  tudo. Olhe s para ela, fazendo bolhas de sabo. Que figura! Ela j pediu para ver a filha?
Ele meneou a cabea.
Keely empertigou as costas e ergueu o queixo, imperiosamente.
- Ento, eu definitivamente no quero falar com ela.
- Voc  durona. - Jack mostrou-se impressionado.
- Eu estou apavorada, mas no diga a ningum - confessou ela, chamando tia Sadie para ajud-la na cozinha a preparar as bebidas e alguns aperitivos para os "convidados".
Tim se aproximou, girando um tipo de fio nas mos.
- O que  isso? - perguntou Jack, feliz pelo irmo estar ali, para apoi-lo, independentemente do que acontecesse.
- Fios de preocupao - disse Tim. - Cecily me deu.  a mesma Cecily de sempre, no? Sempre meio desparafusada da cabea. Alis, por que ela est fazendo aquelas
bolhas? Ah, e Keely lhe contou o que Mort est planejando?
- Ela me disse para esperar para ver.
- Ento, quer dizer que vocs dois vo se casar? Ser que eu posso ser padrinho... ou rbitro?
- A gente no briga o tempo todo - Jack justificou-se. -  que voc chegou num mau momento.
- Eu sei, mas no  minha culpa, certo?
- De jeito nenhum, Tim. A culpa  toda minha. Mas voc gosta dela, no ?
- Ei, "voc" gosta dela e para mim, isso  o bastante. S no pense que eu vou seguir seu exemplo e me casar tambm. Essa coisa de gmeo para por aqui. Ah... A
vem Mort. Venha, isso vai ser muito bom.
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Jack e Tim seguiram Mort quando ele deixou Blue Rainbow, e sabe-se l sobre o que os dois haviam falado, e foi at Cecily, tirando um de seus cartes de visita do
bolso.
- Srta. Morretti? - disse ele, estendendo o carto. - A senhorita no me conhece, mas eu represento seus primos, Jack e Tim. Sou um agente esportivo, mas estou ampliando
as atividades, assumindo outros clientes e atividades. Na verdade, acabo de filmar um comercial bem importante no Arizona. E devo lhe dizer que a senhorita tem o
rosto e a expresso mais "originais" que eu j vi. Eu poderia transform-la no rosto do novo milnio. A senhorita tem disponibilidade para viajar, no  mesmo? Porque
eu tenho uma conta na Europa e...
Cecily soprou mais um punhado de bolhas. Ento, inclinou-se para a frente, olhou o carto e ergueu os olhos para o agente.
- Mortimer Moore? - disse, com um ar deliciosamente vago. -  um nome engraado.
- Fala Moon Flower Morretti - sussurrou Jack para o irmo, dando-se conta do que o agente pretendia. Ele estava oferecendo dinheiro a Cecily s para ver a velocidade
com que ela reagia. Dinheiro e um bom motivo para no estar presa, principalmente a um beb. Agora, era torcer para que Cecily dissesse as coisas certas e que a
sra. Peters ouvisse. - Ah, veja s! A vem o guru. Acho que ele vai explicar a coisa toda a Cecily.
- Sim, a vem ele, com o rabo-de-cavalo balanando no ar, como um bass hound farejando a caa - disse Tim, rindo. - Quando entrou correndo na casa de tia Sadie,
Keely
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nos disse que tinha certeza de que Cecily e seu guru estavam atrs de dinheiro e no da custdia. Foi o que deu a idia a Mort. At agora, tudo bem, no?
Mort pegou Cecily pelo brao, levando-a habilmente at perto das portas abertas do solrio. Ao v-los, Lester apressou-se para unir-se a eles.
- Agora, srta. Morretti - prosseguiu Mort, macio como uma pluma. - O que quero propor  que a senhorita assine um contrato de exclusividade comigo e, juntos, ns
abalaremos o mundo. J posso at ver esse seu rosto adorvel, com trs metros de altura, em todos os outdoors de Nova York. Sim, Nova York e no apenas a Europa.
A Revlon est  procura de um novo rosto, sabe? Eu tinha pensado em outra pessoa, mas ela simplesmente desaparece ao seu lado.
- L se vai a outra chance de carreira para Keely - disse Jack baixinho, enquanto Cecily sorria, confusa, depois feliz, depois confusa novamente.
- Ah... - disse ela. - Mas eu no posso. Sinto muito, mas no posso.
Jack sentiu o corao afundar. Cecily ia recusar a proposta de Mort porque queria Candy. Estava ali para levar a filha de volta. Ia ser uma longa e dolorosa batalha
pela custdia, a ltima coisa que ele desejava para Candy e para Keely.
- Eu vou me casar, sr. Mortimer - disse Cecily, olhando para Lester. - Vamos para Las Vegas esta noite, com a pequena Magenta Moon. Vamos ser uma famlia. Est tudo
decidido.
Jack, subitamente otimista outra vez, ergueu a sobrancelha para Lester Schmidt. Talvez Mort no conseguisse prsseguir,
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mas, de uma forma ou de outra, haviam chegado a um ponto bastante interessante.
- Se voc conseguir, ter feito um excelente trabalho, Blue Rainbow - disse Jack, rpido e num tom de voz bem alto. - Ser que voc no precisa se divorciar primeiro?
Cecily arregalou os olhos muito azuis. -
- Di... divrcio?
- Aqui vamos ns - disse Tim, recuando um passo. - Abram os portes.
- Entenda bem, Cecily - disse Lester,  medida que o rosto de Cecily se fechava cada vez mais. - Eu ia lhe dizer...
- Saia daqui! - gritou Cecily, apontando para a porta. - Saia, saia, saia! Primeiro, voc queria que eu fizesse Jack p... pagar por Magenta Moon... e depois mentiu
para mim? Voc j  casado? Voc disse que me amava. V embora! Eu nunca mais quero v-lo de novo! Nunca mais!
- Puxa, Tim... Um minuto atrs, eu pensei que estivssemos em segurana, mas de repente no estou gostando do rumo que estamos tomando. Ser que ela vai mesmo dar
o fora nele e tentar ficar com Candy? - perguntou Jack ao irmo no exato momento em que Keely entrou na sala, com uma bandeja de biscoitos, copos e uma jarra de
ch gelado.
- Ah, pare com isso, Cecily - Lester repreendeu-a. Era o tpico caso de um homem que sabia que estava perdido, mas que se recusava a cair sozinho. - Pare com essa
besteira, porque voc est me deixando enjoado. Voc sabe que eu ainda sou casado. Portanto, no tente me tirar do negcio. Voc  muito mais que essa figurinha
frgil que tenta aparentar para os outros. Essas roupas ridculas, esses nomes
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idiotas que voc nos deu. Soprando bolhas. Voc acha mesmo que essas pessoas so suficientemente burras para comprar essa besteira?
- Cale a boca, Lester, seu imbecil! - disparou Cecily e Jack olhou para Keely, impressionado. Aquela era mesmo sua prima? Sem chorar? Sem soluos? Sem vozinha fina,
beirando a histeria? Quem roubara sua prima quando ele no estava olhando e a substitura por aquela estranha de olhos firmes e voz grave? E do que diabos Lester
estava falando? Cecily no estava fazendo um tipo. A menos que ela sempre tivesse feito tipo.
- Ora, eu no acredito - Jack sussurrou, surpreso pelo rumo que as coisas haviam tomado.
- Isso virou um assunto de famlia e eu estou meio deslocado. Eu os verei mais tarde. Estarei na casa de Sadie at a poeira baixar... - Assim dizendo, Mort, com
sua misso cumprida ou parcialmente cumprida, antes de Lester e Cecily comearem a ignor-lo, saiu da sala, pegando um biscoito no caminho.
- Ele odeia escndalos - Tim esclareceu, acompanhando a sada de Mort com os olhos. Foi por isso que me convidou para vir aqui. Como apoio, para o caso de voc enlouquecer
com a ltima idia que ele teve para voc.
- Cale a boca, Tim - disse Jack, mal ouvindo o irmo porque estava fascinado com a transformao de Cecily. Aquele olhar no rosto dela. Sbio. Engenhoso. Ela continuava
sendo a mesma morena bonita e pequena de sempre, mas agora lembrava muito mais Joey, que sempre aparentara ter um plano, nunca um bom plano, mas, ainda assim, um
plano.
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- Foi tudo idia dela - gemeu Lester, dirigindo-se a Jack. - Ela deixou a criana com voc porque no a quer, nunca quis e disse que voc era to idiota, que simplesmente
ficaria com ela, tirando-a de seu caminho. A criana estragou o estilo dela. Mas voc no sabia disso, e ela percebeu a chance quando seu advogado ligou para ela
sobre a possibilidade de abrir mo da menina. Primeiro, ns amos fazer voc pagar para que ela assinasse a custdia, mas a ela concluiu que provavelmente conseguiria
mais dinheiro do tio Sal quando ele morresse, se aparecesse com uma filha e um marido a reboque. Eu disse a ela para pegar o dinheiro e sumir, que esse tal tio Sal
podia durar mais vinte anos, mas ela no quis me ouvir. Ela no quer a menina, quer o dinheiro. Perdemos cerca de um milho de dlares em Mnaco.
- Eu disse para voc calar a boca! - gritou Cecily, correndo para Lester e batendo os punhos pequenos no peito dele.
Keely acomodou-se no cho do quarto de Candy e ficou observando-a enquanto ela, deitada com a barriga para baixo, tentava de todo jeito erguer o bumbum para frente
e deslocar-se na direo de seu chocalho preferido.
Candy tentou, tentou mesmo, mas ento desistiu e bateu com o narizinho no cho, e imediatamente comeou a chorar.
- Est tudo bem, querida - disse Keely, entregando o chocalho a Candy. - Logo voc vai crescer e aprender a engatinhar, a andar e a correr...
- E a dirigir - disse Jack, colocando a cabea para dentro do quarto. - E se isso no for o bastante para nos deixar
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de cabelos brancos, eu no sei o que ser. Acho melhor ela continuar pequena para sempre, no?
Keely sorriu para ele, olhando-o com ateno para ver se estava tudo bem e se Jack sobrevivera quela tarde sem maiores problemas.
- Eles j foram? Todos eles? Desculpe t-lo abandonado, Jack, mas quando Lester fugiu e Cecily comeou a gritar com Joey e Joey passou a responder aos berros...
Bem, eu tive que sair de l.
- Voc no est habituada a brigas de famlia, no ? - perguntou Jack, sentando-se ao lado dela, com as pernas cruzadas. - Ns tivemos algumas ao longo dos anos.
Eu havia me esquecido do temperamento do tio Guido, mas me lembrei hoje quando Joey e Cecily comearam a discutir. S lamento que voc tenha precisado assistir a
tudo.
- Ela  totalmente diferente do que eu havia imaginado.
- Ela  totalmente diferente do que "eu" imaginava. A Cecily boba, tonta, cabea-oca. Acho que gostava mais dela do outro jeito. Mas tudo no passou de uma encenao.
Todos esses anos. Isso provavelmente explica por que a tia Fl estava sempre arrumando desculpas para ela. Cecily, a pobre menina sem um crebro na cabea. Todos
fazamos concesses para ela e dvamos qualquer coisa que ela quisesse.  de enlouquecer, no?
- Isso me faz gostar mais de Joey. Acho que ele tambm teve que ficar meio louco, s para conseguir a ateno de sua tia - Keely comentou, dando de ombros. - Mas
eles dois j foram?
Jack assentiu com um gesto de cabea.
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- Mas no sem antes abrirem mo da custdia. Da custdia de Joey sobre Doura... O contrato dele, voc sabe... e da custdia de Cecily sobre Candy. A sra. Peters
j tinha todos os papis para Cecily assinar e depois fez outro, na hora mesmo, para Doura.  uma grande pessoa, a sra. Peters. Petra disse que ia emoldurar o documento
para Doura, mas ele preferiu voltar para Bayonne com Joey. Petra acha que conseguiu convenc-lo a terminar os estudos. Parece que Doura quer ser chefde cuisine.
- Que timo - disse Keely, enxugando os olhos marejados porque havia percebido que Jack estava falando com ela, mas olhando para Candy. - Eu mal acredito que tenha
acabado. Voc falou com Jimmy?
- Falei. Temos que pedir a custdia permanente, passar por mais uma montanha de processos legais, mas tanto Jimmy quanto a sra. Peters disseram que estamos num bom
caminho. com sorte, poderemos adotar Candy oficialmente em cerca de seis meses. A, mudaremos o nome dela para Mary Margaret Trehan, como voc props.
Ele se deitou no cho, com os joelhos dobrados, e apoiou a cabea nas mos.
-  incrvel. Acabou. Que dia! Ser que haver outro dia como este? Tivemos de tudo... bom, ruim, realmente grave. Mal posso acreditar que tenha terminado.
- P! P-p-p-p! - disse Candy, e Keely colocou-a sobre a barriga de Jack, para que ela pudesse inclinar-se para a frente e toc-lo no peito.
- Ah... - suspirou Jack, passando os braos pelo corpinho rolio de Candy. Ele fechou os olhos e seus lbios tremeram.
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Ento, sentou-se com um movimento brusco e enfiou o rosto nos cachinhos da menina.
Keely abraou os dois e comeou a balanar, chorando com Jack e depois rindo com ele, enquanto Candy se debatia, tentando se livrar daqueles dois bobos que a apertavam
com tanta fora.
Jack inclinou-se, beijou Keely e ajudou-a a levantar.
- Eu s me lembro de ter chorado quatro vezes na vida: quando meus pais morreram, no dia em que anunciei que ia deixar os Yankees e hoje. A diferena  que hoje
eu estou me sentindo maravilhosamente bem. Eu tenho voc, ns temos Candy e temos uma bela e longa vida a nossa frente. H dois meses, eu achava que minha vida havia
terminado.
Desceram para o andar de baixo com Jack segurando Candy no colo e foram para a cozinha, onde tia Sadie, Petra e Tim estavam sentados  mesa, comendo uma pizza que
havia sido entregue minutos antes.
- Deixe-me reformular o que eu disse l em cima - disse Jack, meneando a cabea. - Eu tenho voc, Candy, Sadie, Tim e uma adolescente sabichona. Meu mundo est completo.
- A no ser por Mort - interveio Tim, com a boca cheia de pizza. - Ele saiu logo depois de voc dar sua concordncia condicional com a proposta. Ficou to feliz,
que acho que ser capaz de voar daqui at Nova York, sem avio.
- Proposta? - perguntou Keely. - Que proposta? Por que Mort ficou to feliz? Fale comigo, Jack. Jack, voc, definitivamente, tem que aprender a falar comigo.
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- Ei, pessoal, eu tenho que falar com esta mulher. No vou mais cometer o mesmo tipo de erro. - Jack entregou Candy a Petra, pegou Keely pela mo e levou-a pela
porta dos fundos. - Eu no concordarei em definitivo com mais nada sem falar com voc, mas, bem, querida, como eu disse l em cima, foi mesmo um dia bastante cheio
por aqui...
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Eplogo

Voc tem que acreditar.
Tug McGraw
Keely inclinou-se na janela da sala para ver Jack conduzir o Corvette at a entrada da casa.
Deveria ter ido a Nova York com ele, como sempre fazia desde que haviam se casado, mas Candy tomara outra vacina naquela tarde e Keely preferira ficar com ela.
A pequena havia ficado aborrecida por algum tempo, mas j estava dormindo fazia vrias horas, de forma que Keely conseguira assistir a todo o jogo na televiso.
Ela fechou as longas cortinas brancas quando viu os faris brilharem no escuro, respirou aliviada por v-lo de volta e foi para a varanda receber o heri que se
aproximava da porta.
- Voc esteve maravilhoso - disse ela a Jack, abraando-o e erguendo o rosto para receber um beijo.
Jack sorriu para ela e abraou-a pela cintura enquanto andava com Keely para a cozinha.
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- Eu fui bem, no fui? E todos gostaram da citao de beisebol que usei esta noite. Voc ouviu? A citao de Drysdale? Disseram que eu posso usar tantas quantas
quiser. Tim e eu as colecionamos h anos.
-  isso que o comentarista faz, no ? - perguntou Keely, pegando duas latas de refrigerante na geladeira e colocando-as na mesa. - Chris narra o jogo e.voc acrescenta
a cor. Os aspectos de interesse humano, as sensaes que s quem j esteve l pode saber; as curiosidades; as explicaes precisas.
Jack sorriu para ela.
-  exatamente o que eu fao - concordou ele, apoiando o p no p da cadeira e puxando Keely para perto de si. - J faz trs meses, e eu ainda no acredito. Eu,
Jack Trehan, comentarista de beisebol na televiso. - Ele apoiou o queixo nas mos e prosseguiu: - Eu acho que Mort estava certo: eu nasci mesmo para isso. De verdade.
O que me incomodou na aposentadoria foi ficar longe do jogo, sem saber o que fazer com o resto da minha vida. S que ns teremos que viajar para a costa na semana
que vem. Eu vou morrer de saudade de voc e de Candy. Tem certeza de que vocs no podem vir junto? Eu sei que voc anda ocupada com a loja, mas talvez Jean possa
cobrir sua ausncia... voc disse que ela  uma assistente tima.
- Bem... - Keely acariciou o brao de Jack com a ponta dos dedos. - Hoje, eu perguntei ao pediatra sobre a possibilidade de Candy fazer um vo longo, e ele disse
que no haveria problema. Apesar de eu achar que no poderamos viajar com a equipe da televiso.
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Jack levantou-se, pegou as mos dela e obrigou-a a levantar.
- Iremos num jato comercial. Se for preciso, alugaremos um jatinho, desde que voc prometa segurar minha mo e me dizer sem parar que no h problema em viajar numa
droga de avio pequeno.
- No diga coisas assim, Jack. Voc sabe que Candy est comeando a falar.
- Minha mulher, a nova rainha do idioma perfeito. A maternidade mudou-a, Keely. E eu estou gostando.
- Voc est amando - gemeu ela, ficando na ponta dos ps para beij-lo no rosto. - Venha. Vamos coloc-lo na cama. Foi um dia longo e voc guiou para Nova York,
ida e volta.
- Se voc est querendo descobrir o tamanho de meu cansao, querida, basta perguntar - disse Jack, seguindo-a pelas escadas.
Keely parou no degrau de cima, virou-se e ps as mos nos ombros dele. Como amava aquele homem.
- Est bem. O senhor est muito cansado, sr. Comentarista? - perguntou.
E, ento, enquanto Jack a erguia no colo e a levava para o quarto, ela enfiou o rosto no peito dele, torcendo para que seus gemidos de prazer no acordassem Candy.
